As cinzas de um julgamento
5 Tinha um Wal Mart no caminho.
Notas iniciais
Os passos ecoando fantasmagoricamente na calçada úmida eram o único som que se fazia ouvir. Manhã, tarde ou noite? Não fazia mais diferença. Para ninguém. A capital econômica do mundo, naquele momento, não estava diferente da favela mais imunda da Índia. Reagan ia logo na frente, como uma espécie de líder. Ainda carregava sua mochila nas costas e trazia ambas as mãos no bolso do jeans manchado. Michael seguia em comitiva, logo atrás. Fazia muito calor, e ele continuava sem camisa. Seus óculos estavam mais do que sujos, mas ele não estava interessado em enxergar bem naquele momento. Ao seu lado, Jennifer caminhava sem emoção, arrastando os pés. Todos exibiam o mesmo rosto frustrado e sombrio, e já faziam mais de 24 horas que os três não trocavam uma só palavra. Algumas das lâmpadas nos postes ainda piscavam, e, ao longe, Reagan conseguiu enxergar uma monstruosa construção marrom depredada. Eles estavam exatamente na Central Square, na East Avenue, andando há poucos minutos desde que criaram coragem de sair de dentro do esgoto. O estômago os estava incomodando há muito, muito tempo, e a moça de bandana via ali a oportunidade de conseguir alimento.
–Acho que aquilo ali é o Wal-Mart. – Disse ela, com a voz grave. – Vamos lá.
–Pode ter pessoas lá, Reagan. Pessoas perigosas. O mercado deve ter sido saqueado diversas vezes...
–Você pode ficar aqui, se quiser. – Ela começou a caminhar rumo ao hipermercado. – Deve ser melhor do que ficar com vocês e passar fome.
–Suave como uma lixa de pedreiro. – Suspirou Michael. – Vamos, Jen.
Michael havia adquirido o irritante hábito de reduzir o nome de Jennifer, o que incomodava profundamente a Reagan. A pouca luz fornecida pelas lâmpadas quase se apagando serviram como guia e rapidamente o pequeno grupo alcançou o imenso estacionamento á céu aberto, e, em seguida, a fachada marrom de vidraça quebrada. À frente deles, o centro de compras se erguia imponente. À direita, jazia o Wal-Mart Pharmacy, em condições não muito diferentes. Reagan ergueu a perna e passou pela vidraça destruída, com a arma em punho. Michael a seguiu, produzindo um corte acidental em sua perna, e logo depois estendendo sua mão à Jennifer, sem maiores dificuldades. As grandes lâmpadas fluorescentes ali também oscilavam. Um assustado rato correu de debaixo de uma prateleira derrubada. Jennifer soltou um grito e agarrou o braço de Michael.
–Puta que pariu! – Sibilou Reagan.
–Ela se assustou, Reagan. – Defendeu Michael.
–Vá se foder. – Michael não respondeu ao insulto. Continuou seguindo a moça da bandana silenciosamente, enquanto acariciava as costas de Jennifer.
O cenário era desolador, e, intimamente, Michael estava adorando o fato de estar certo. O hipermercado havia sido depenado. As prateleiras exibiam conteúdos escassos, pastas de dente, toalhas de papel, algumas vasilhas de plástico. Nada remotamente útil ou comestível. As carnes exalavam um cheiro pavoroso, rodeadas de moscas, assim como os laticínios, as frutas e as verduras. Reagan ainda encarava a parcial escuridão com esperança, e manteve sua mochila aberta. Finalmente, perto da sessão de congelados, eles encontraram duas garrafas d’água fechadas e um pacote de Ruffles sabor salsa e cebola. Ela encarou Michael e Jennifer.
–Vamos para a sessão de jardinagem.
Ninguém ousou questionar. Os três seguiram para lá. Reagan guardou calmamente o revólver na calça e se pôs a recolher coisas. Uma enorme tesoura de poda, ainda no plástico, um machado de lenhador razoavelmente grande (Reagan testou seu corte em uma das placas anunciando promoções e a partiu no meio, o que assustou mais uma vez à Jennifer), uma pistola de disparar pregos, que ela se encarregou de verificar se estava carregada, e uma grossa corda. Quando terminou de reunir os itens na mochila, percebeu que Jennifer estava sozinha.
–Onde está Michael?
–Disse que ia à sessão de esportes.
–Mas o que esse idiota...
–Sentiu minha falta, Reagan? – Michael sorriu, colocando um enorme bastão de beisebol de metal no ombro.
Reagan sorriu.
–Use direitinho, Mike. – Ela lançou um olhar significativo à Jennifer. – Não queremos incidentes com bastões aqui.
Jennifer, que a muito desistira de brigar com Reagan e concluíra que aquilo não passava de um enorme tesão reprimido, simplesmente meneou a cabeça.
Reagan estacou de repente, fazendo seu presunçoso sorriso desaparecer. Ela sacou o revólver.
–Quem está aí? – Ela gritou.
–Não tem ninguém, porra. – Reclamou Jennifer. – Pare de ficar berrando!
Reagan nem se deu ao trabalho de olhar para Jennifer.
–Não virei a sub-chefe do tráfico no Bronx por ter uma audição como a sua.
Ela pode ouvir o suspiro da moça. Em seguida, um filhote de rotweiller surgiu latindo da forma mais ameaçadora que conseguiu, arreganhando as presas.
–Mas que porra é essa? – Reagan baixou a arma devagar.
Michael se abaixou.
–Oi, amiguinho... Vem aqui.
O cão farejou na direção de Michael e abanou o rabo, mas permaneceu com as orelhas em pé, desconfiado. Quando Michael tentou tocá-lo, ele recuou bruscamente, latindo. Michael se levantou.
–Ele está com a barriga estufada. Alguém o alimentou recentemente.
–Ele pode ter se alimentado sozinho. – Disse Jennifer.
–Duvido muito. Um cão desse tamanho já teria virado sopa. Você viu o que fizeram aquele pit bull. – Disse Reagan. – Ele está defendendo alguém.
E saiu liderando mais uma vez o grupo, com a mochila agora cheia, nas costas, e o machado na mão direita.
O cãozinho saiu em disparada, latindo desesperadamente, como um alarme. Aparentemente, inteligência não era o seu forte, pois ele os guiou até o escritório da gerência. Ouviu-se um sussurro fraco.
–Quem... Quem está aí?
Reagan deu um violento chute na porta, e um ar bolorento e fétido penetrou suas narinas.
–Não me machuque. – Conseguiu balbuciar a mulher, o cão à sua frente, mostrando os dentes.
Reagan e todos os outros pararam por alguns instantes. A mulher encostada na parede, quase deitada naquele carpete imundo, parecia semimorta. Ela vestia apenas uma calça jeans que fedia à urina, e um sutiã preto que espremia seus enormes seios. Um de seus mamilos havia escapado. O ombro estava deslocado, a barriga exibia dois cortes profundos, e suas maças do rosto já estavam em evidência devido à desnutrição. Um de seus olhos estava fechado, rodeado de crostas de sangue seco, seu nariz estava quebrado, e o lábio inferior estava estupidamente inchado. Reagan nem saberia dizer de que cor era ela, tamanha a camada de sujeira que cobria sua pele.
–Estão me ouvindo? – Gemeu ela. – Eu não tenho... Já levaram tudo.
–Ninguém vai machucar você. – Michael se aproximou humildemente da moça e se ajoelhou a seu lado. – Eu sou o Michael. Aquelas são a Reagan e a Jen. Está tudo bem agora. Qual o seu nome?
–Meu nome é Chris. – Ela engoliu as lágrimas.
–Chris. Está tudo bem agora. O que houve com você?
–Eu... Enquanto tentava pegar comida, umas vinte garotas me cercaram e me deram uma surra e roubaram minhas coisas, e, depois... Elas me trancaram aqui. E aí... Um casal me encontrou e roubou meu agasalho. E me bateram de novo. – Ela tossiu. – Fim.
–Você... Porque você não tentou sair daqui... Se lavar?
A mulher o olhou nos olhos.
–Porque eu não consigo me levantar.
Michael sustentou seu olhar.
–Não tem problema. Vamos ajudar você. – Ele olhou em volta. – Tem algum banheiro de funcionários por aqui?
–Deve ter.
–Bem ali. – Apontou Jennifer, para uma porta de madeira entre aberta, que exibia um boneco azul.
Michael assentiu. Colocou seu braço em volta da cintura da mulher, e o outro na parte interna de seus joelhos, e a ergueu. Respeitosamente, evitou olhar para seus seios, e abriu a porta com o ombro. O banheiro estava razoavelmente limpo, considerando as circunstâncias. Reagan encostou sua mochila na parede, e Michael repousou ali o corpo de Chris. Reagan se posicionou ao seu lado.
–Mike, veja se encontra algo de útil na farmácia. Leve seu bastão. O de beisebol. Jennifer, procure esponjas na sessão de utensílios de cozinha.
Ambos assentiram e se retiraram.
Reagan sorriu.
–Não tem chuveiro aqui, mas podemos utilizar a pia.
Chris apenas assentiu.
–Bem, eu... Eu posso colocar seu ombro no lugar. Para começar.
–Vai doer?
–Sim. Mas você pode segurar meu braço.
Chris encarou o cãozinho ansioso, que a observava com a cauda em movimento.
–Faça. Mas rápido, por favor.
Reagan assentiu.
Com uma das mãos, ela segurou o ombro de Chris. Com a outra, o cotovelo. Chris agarrou o antebraço de Reagan.
–Um. – Reagan começou a contagem. – Três. – Poc.
Ao mesmo tempo em que soltava um grito animal, Chris cravava as unhas na carne de Reagan, que sufocou um gemido. Algumas lágrimas riscavam o rosto imundo de Chris.
–Acabou. – Reagan acariciava o ombro da mulher.
Neste instante, uma Jennifer apavorada invadia o banheiro.
–O que fez com ela?
–Coloquei o ombro no lugar, processe-me.
Jennifer assentiu e entregou a Reagan uma flanela de limpeza e uma grande esponja de louças. Ela encostou em silêncio na parede oposta logo em seguida.
–Você vai ter que tirar a roupa.
Chris deu de ombros. Reagan desabotoou e tirou o sutiã, a calça e a calcinha.
–O que eu vou vestir depois?
–Pode vestir meu agasalho. – Respondeu Reagan. O cão havia deitado, ainda muito atento.
Reagan molhou a esponja na torneira. Abaixada novamente, ela começou a limpar o rosto. Uma pele cor de caramelo, quase negra, começou a se distinguir da sujeira, o que evidenciou as feridas no olho, nariz e boca. Reagan notou que os olhos de Chris eram castanhos com pontinhos verdes.
–Porque a água está tão amarga? – Perguntou Chris, com uma careta.
–Você deve estar aqui há muito tempo mesmo. – Ela torceu a esponja e voltou a limpar o pescoço. – Depois que aconteceu o ‘blackout’, caiu fogo e granizo do céu, uma estrela gigante caiu no mar e deixou toda a água amarga, e os astros se apagaram. Estamos famintos e no escuro há seis dias.
–Você está falando sério? – Chris a encarava, estupefata.
–Infelizmente. – Disse Reagan, desta vez, concentrada em limpar o colo e seios de Chris.
–Eu só consegui encontrar... – Michael estacou completamente, e em seguida tapou os olhos, quando percebeu que Chris estava nua. – Oh meu Deus... Desculpe-me, eu não...
–Sai, Michael. – Disse Reagan. Ele se retirou envergonhado, depois de colocar um embrulho pequeno no chão, com Jennifer em seu encalço.
–Vamos procurar por comida. – Declarou ela, batendo a porta.
Após longos e silenciosos quarenta minutos, Reagan terminou sua tarefa. A esponja estava preta. Ela usou o algodão e o álcool etílico para limpar as feridas da barriga de Chris, e até conseguiu tirar a crosta de seus olhos, que passou exibir apenas um hematoma roxo. Colocou os poucos bandaids nos cortes e deu a ela algumas aspirinas, o último item encontrado por Michael. Ela também lavou seu cabelo com um resto de sabonete líquido e, por fim, a vestiu com sua jaqueta da Hard Rock. Reagan a admirou por alguns instantes, agora que ela tinha a aparência de um ser humano.
–Obrigada, Reagan. – Um sussurro fraco escapou dos lábios de Chris, enquanto ela acariciava as mãos geladas da moça à sua frente. Reagan reagiu. Se aproximando com cuidado, ainda abaixada ao lado de Chris, colocou a mão livre em sua nuca e a puxou para um beijo delicado e cheio de segundas intenções. Ele durou apenas quinze segundos.
–De nada. – Respondeu Reagan. E se levantou. – Vou te trazer comida.
Fale com o autor