As Vacas Canibais

5 Quando os cereais do Ariel ferram com tudo e nós descobrimos que a ignorância dele é uma bênção


— Bem, o que vamos fazer agora? — Lola perguntou, depois que nos recompomos o suficiente para pedalarmos de volta para a minha casa.

— Contamos à polícia? — Ariel sugeriu.

— Nunca vão acreditar em nós — eu disse, encostando a bicicleta na pilastra da minha varanda. — Como iríamos provar que estão fazendo vacas demoníacas naquela fazenda?

— Podíamos voltar e procurar provas.

Encarei Ariel como se ele tivesse acabado de dizer que a Terra era plana.

— Não somos a Mistério S. A., cara. Isso não tem nada a ver com a gente, e vai acabar nos matando.

— Eu odeio concordar com o desmancha prazeres aqui — Lola disse — mas talvez ele tenha razão.

— Talvez?!

— Não vou te dar essa bola toda. De qualquer jeito, temos o bastante para alimentar as fofocas na escola amanhã. E acho que já está muito bom.

Ariel deu de ombros. — Isso é o que vocês pensam.

— Do que está falando? — Perguntei.

— Já estamos comprometidos, cara.

Seguiu-se um silêncio confuso que durou um minuto inteiro.

— Explica logo porque eu já perdi a paciência com você hoje, garoto — Lola avisou.

— Nós já descobrimos qual é a deles. Pelo menos, sabemos mais que todo mundo. Isso nos torna personagens principais. O que significa que estamos presos na história até o fim.

— Me parece que você leu livros demais — comentei, começando a subir pela varanda. — Vão pra casa dormir, e parem de invadir a dos outros.

— Anda, seu sequelado. Vamos embora — Lola mandou, empurrando Ariel para a bicicleta.

— Vocês vão ver como eu tenho razão — prometeu ele.

Quando finalmente consegui me jogar na cama outra vez, não conseguia parar de pensar que talvez Ariel tivesse mesmo razão.

— Impossível. Ariel nunca tem razão — resmunguei, antes de dormir.

E não é que, dessa vez, o retardado tinha?

***

No dia seguinte, eu acordei antes do despertador tocar. O sol já estava surgindo e o dia prometia ser quente. Não sei se foi a minha consciência pesada ou uma eventual crise de bom humor, mas decidi desenterrar uma bermuda que a minha mãe havia me dado de presente. Era branca, com pequenas flores pretas e cinzas estampadas nela. Acho que foi o melhor meio-termo que ela conseguiu encontrar.

Cacei uma blusa de malha azul escura (para não perder o costume) e desci para tomar o meu café.

— Bom dia, meu raio de… é a bermuda que eu te dei?!

Ela estava radiante, o que definitivamente fazia tudo valer a pena.

— Ficou linda em você! Vai usar as alpargatas que eu te comprei também?

— Opa, opa. Um elemento de cada vez. Não tenho interesse em vender arte na praia ainda — respondi, levantando uma das mãos.

Mas ela estava feliz demais para se importar com o meu sarcasmo.

— Ficou lindo! Agora vai arrumar esse cabelo e venha tomar café.

Enquanto eu lavava o rosto e tentava domar meu cabelo, minha mãe apareceu na porta do banheiro.

— Você acordou cedo hoje — comentou ela.

— Até o natal acontece uma vez no ano — respondi.

Ela sorriu.

— Espero que Lola e Ariel tenham chegado bem ontem. Não é muito seguro sair por aí sozinho, tarde da noite.

— Eu também. Só de pensar naqueles dois desmiolados andando por aí…

Então a ficha caiu. Olhei para a porta, mas ela já estava de volta à cozinha. Fui atrás dela, com o rosto ainda molhado.

— Sem chance! Como você sabe disso?!

— Você já deveria ter aprendido que mães sempre sabem, querido.

— Isso não é resposta. Você anda me espionando?

— Não preciso disso. Eu sou sua mãe. E eu ficaria bem menos chateada com sua escapada noturna se você usasse as alpargatas que te dei.

Estreitei os olhos enquanto a encarava, incrédulo.

— Você está me chantageando?

— Seu café vai esfriar, Sunshine — disse ela, com o ar mais inocente do mundo.

— Você é uma mãe cruel e muito incomum, sabia?

— Eu sei! Isso não deixa tudo mais interessante?

Enchi minha boca de café expresso para não ter que responder.

Por fim, eu acabei usando os malditos sapatos, que basicamente eram sapatilhas de lona e sem cadarço, e a deixei prender meu cabelo num coque samurai. Quando me olhei no espelho, fiquei tão decepcionado comigo mesmo que quase escorreguei numa depressão profunda.

— Eu me tornei aquilo que jurei destruir.

— Não seja tão melancólico. Você ficou lindo! Agora vá para a escola — ela me empurrou porta afora — porque eu tenho flores pra vender.

Fui para o ponto, e Lola já estava lá. Ela parecia preocupada, mas assim que me viu, ficou vermelha com o esforço que fez para não rir.

— Meu. Deus. O que houve com você? Entrou numa briga contra o Pinterest e perdeu?

— Nenhum comentário sobre isso. É culpa da...

— …sua mãe, eu imaginei. Mas geralmente você resiste à vibe cult-indie—alternativa dela. O que houve hoje?

Contei sobre o episódio que ocorrera antes do café. Lola ficou tão chocada quanto eu.

— Tá me tirando, né? Como diabos ela descobriu?!

— Ela me disse que "mães sempre sabem".

— Tem certeza de que a sua mãe não é algum tipo de ser sobrenatural?

— Ah, ela é sim. É uma mãe.

Olhei em volta, subitamente percebendo a falta de algo. Ou, no caso, alguém.

— Cadê a nossa princesa da Disney?

A expressão preocupada que eu havia visto antes voltou ao rosto de Lola.

— Eu também queria saber. Ele não atende o celular, toca até cair na caixa postal.

— Isso é normal, né? Deve ter dormido demais.

Mas ela sacudiu a cabeça, negando.

— Aquele Arroto de Fanta atende só pra desligar na minha cara quando quer dormir. Será que ele foi pego ontem? Aquele retardado nunca conseguiu ser discreto, grande daquele jeito.

Apesar das ofensas, dava para ver que ela estava bem preocupada com Ariel. E, por algum motivo, eu também estava começando a ficar inquieto.

— Bem, o ônibus vem aí — eu disse, olhando para o fim da rua. — Se ele estiver atrasado, o pai dele vai levá-lo até a escola.

Quando chegamos lá, porém, descobrimos que Ariel ainda não tinha chegado. E, se não o ajudássemos, ele poderia não ir por um bom tempo.

***

— ARIEL O QUÊ?!

— Calma, foi o que eu soube!

— Como soube disso? Como você soube?!

— Lola, se você continuar estrangulando o garoto, ele nunca vai poder contar — argumentei.

— É... É um bom... ponto de vista — Cris gaguejou, com a língua de fora e uma palidez nada natural no rosto.

Lola pareceu pensar um pouco sobre o assunto, até que desistiu de fundir suas mãos em volta do pescoço do pobre pirralho.

— Nossa, você é agressiva — ele reclamou, esfregando o pescoço.

— Desembucha, pigmeu. Como você sabe que o Ariel foi preso?

— Meu pai viu o carro da polícia passar pela rua, vindo da casa dos Moreira. O Ariel estava sentado no banco de trás. Eu não sei mais do que isso. — Ele olhou para mim e sorriu. — Gostei do penteado, Dante. Devia adotar.

— Cala a boca. Vem, Lola, precisamos ir até a delegacia — disse.

— Sim. Quero saber porque prenderam Ariel, e impedi-lo de cuspir alguma estupidez.

"Talvez seja tarde para isso" pensei, enquanto corríamos para longe da aula de geografia em direção à delegacia.

***

— Bom dia. A gente está procurando um garoto que veio para cá hoje mais cedo — disse Lola, se debruçando no balcão.

— Hum — murmurou a atendente — qual o nome dele?

— Ariel Moreira — respondi.

— Deixa eu ver… ah, sim. Ele foi liberado há dez minutos, deve estar na sala de espera com os responsáveis. Sigam pelo corredor, é a última porta à esquerda.

Corremos e abrimos a porta. Ariel parecia mais pálido que de costume, mas conseguiu dar um sorriso quando nos viu.

— Lola! Dante! Vocês vieram! Mas como...

— Cris — Lola e eu respondemos juntos.

Ele abriu a boca, chocado.

— Aquele anão maligno não deixa passar nada?

— Se deixasse, não seria o Cris. Mas o que aconteceu? — Perguntei.

Antes que Ariel tivesse a chance de falar, porém, um cara de terno, cabelo penteado para trás e um ar não muito amigável entrou acompanhado por um policial.

— Eu sou o Detetive Castro, e fui chamado para a investigar a morte na fazenda do Sr. Santana.

— Eu juro que não tive nada a ver com aquilo — Ariel apressou-se em responder.

— É, eventualmente, descobrimos isso. Você está liberado. Mas, da próxima vez, tente controlar sua curiosidade. E o seu estômago também.

E, dizendo isso, o detetive saiu da sala.

Lola virou-se para Ariel, e deu um soco em seu braço.

— Quer nos matar do coração?

— Ai! Doeu!

— Deixa de ser frouxo. E acho bom me contar direitinho como você veio parar aqui.

Os pais de Ariel olhavam para o chão, sorrindo. Descobri que tanto eles quanto os pais dela vinham torcendo pelo namoro dos dois há anos, e que cada cena semelhante àquela aumentava mais as expectativas dos casais.

— Ok, ok. Mãe, eu vou pra escola com o Dante e a Lola — avisou Ariel.

O pai dele, um homem de pele clara, cabelos grisalhos e olhos azuis, lhe entregou a mochila.

— Aqui está. E se comportem — avisou ele.

— Sim, senhor.

— Dante, mantenha o meu filho na linha, por favor.

— Pode deixar, senhor — prometi, enquanto saíamos pela porta.

— Mal sabe ele que é você quem comanda nossos esquemas — sussurrou Ariel. — Adorei o visual, a propósito. Devia deixar sua mãe vestir você mais vezes.

— Cala a boca. E eu sempre sou coagido.

— Olha, nem sempre — Lola comentou.

— Vocês dois concordando? Que dia mais louco.

***

— Então eles simplesmente deixaram você sair? — Lola perguntou.

— É, eu não podia contar mais do que eles sabiam. E eu não tinha como falar... da nossa pequena aventura noturna — ele disse, sussurrando a última parte.

— Acho que a sua ignorância foi uma bênção, afinal — eu disse.

— Se não se importam, o recreio acabou há quinze minutos.

— Desculpe, professora.

A parte boa do dia era que Ariel não tinha entregado a gente. A parte ruim era que tínhamos perdido a aula de Geografia, o intervalo, e agora estávamos sendo punidos pela aula de matemática mais maçante que já foi dada na face da Terra.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.