As Três Vezes Em Que Morri
2 Carta um: O começo - Parte 1
Notas iniciais
Olá querido amigo,
Vou passar a chama-lo de querido a partir de agora, pois já nos conhecemos há algum tempo, ou pelo menos na minha cabeça já houveram alguns diálogos e cartas, talvez apenas alucinações. Enfim, vou fazê-lo pois é o que as pessoas fazem... Passam a ser eufemistas quando na verdade nada querem dizer. Não que eu entenda o sentido disso. Mas não pense você que sua presença se faz necessária. Eu não o acho querido e nem ao menos me importo se ninguém verdadeiramente ler história, por mais que a conheçam. Contanto que ela saia das minhas mãos...
Você leitor é um mero acessório facultativo, então se está lendo por determinação, obrigação ou desafio você já pode parar agora. Nem se dê ao trabalho. Talvez dez pessoas já tenham saído, quem sabe vinte, talvez trinta! Talvez a sala já esteja vazia e eu estou falando apenas com os fungos desses papeis. Mas vou continua-la de qualquer modo. Prefiro que eles leiam minha história do que este ser hipócrita e nojento que as vezes aparece por aqui, se são minhas últimas memórias que sejam lidas com respeito e não com essa cara de repudio e asco com que tão deliberadamente me rejeitas e me julga porque não sou uma história de amor com um felizes para sempre.
Já se passou algum tempo desde a última que nos falamos. Talvez algumas horas, segundos, dias... Eu não sei dizer. Há algum parei de entender como as horas passam por aqui. Só sei que para mim foi uma eternidade de apenas um segundo. Para mim os dias são apenas segundos que insistem em demorar um pouco mais, sem no entanto deixarem de ser apenas segundos.
Sei que no prologo não fui muito detalhista, mas estava à beira de um ataque de nervos e não podia me demorar. Meu horário já estava marcado e não cabia a mim desmarca-lo. Deveria apenas os cumprir. Entretanto desta vez serei um pouco mais detalhista, tenho algum tempo. Os pesadelos só virão às onze e quinze e o choro convulsivo às doze. Seja lá quando for.
Apesar disso não sei se é dia ou noite. Não consigo mais perceber. Tudo me parece a mesma coisa. Antes eu sabia que era dia pela luz, pelo calor e a movimentação nas ruas e a noite pelo escuro, pelo frio. Mas agora tudo é frio e escuro e eu pareço estar sozinho o tempo inteiro. Depois de um tempo tentando distinguir alguma coisa me irritei. Fechei as janelas e mandei que as cobrissem com grossas cortinas negras de modo a me isolar, e me impedir de forçar meus nervos já em frangalhos a decifrar o movimento do sol, ou da lua.
Meu apartamento é um breu. Não gosto da sociedade. Eu a desprezo e não me agrada nada que dela provenha, com exceção de algumas poucas coisas. A única iluminação aqui, além da luz do computador, provem de algumas velas, espalhadas por ai. Eu gosto do fogo, passo algumas horas do dia apreciando-o. Ou seriam segundos? Dias talvez? Não importa. Mas isso talvez explique algumas das minhas cicatrizes disformes talvez elas sejam apenas frutos da minha imaginação. tenho imaginado muitas coisas recentemente. Tenho visto coisas que não deveriam existir e eu nunca sei distinguir o que fiz e o que apenas imaginei. Parecem a mesma coisa para mim. Talvez isso seja apenas minha imaginação me pregando peças mais uma vez. Talvez seja tudo um fruto da sua imaginação leitor. Como distinguir o que é real e o que não é? Só sabemos que os sonhos não são reais quando acordamos, e se nós estivermos dormindo acordados? E se a vida é a penas um sonho do qual ainda não acordamos? Como saber se não somos todos partes de um grande sonho inacabado e a morte seja apenas o despertar para a realidade? Ou talvez a humanidade seja apenas um grande pesadelo de uma sociedade fracassada, fruto da mente de algum ser maior. Talvez seja por isso que eu me sinto tão sujo. Tomo vários banhos por dia, mas depois de um tempo eles pararam de ajudar. Acredito que já estava meio morto há algum tempo, mas não consegui despertar.
Agora mesmo meus dedos se fazer rígidos pressionando as teclas como um peso morto. Mas não sinta pena. Dizer que eu não sofro mais seria uma adorável mentira no entanto já não sinto como antes. Por mais que eu tente até a dor física que as vezes sinto faz-se incompleta, como se algo importante estivesse faltando como se estivesse tão cansado, quebrado e sozinho que nem mesmo meus próprios sentidos conseguem me acordar desse limbo ou ao menos se mostrarem presentes.
Bom, leitor, aqui vão algumas regras sobre nossa comunicação, é melhor avisa-lo do que pode acontecer durante esse período de correspondência. Aliás, seria o nome certo corresponder? Já que ninguém nunca responde? De qualquer maneira aqui vão algumas coisas que você deveria saber antes de continuar com esse jogo.
Número um: todos os nomes aqui são falsos, inclusive o meu. Então, não... meu nome não é Bruce e eu não moro no rio de janeiro. Pretendo manter a privacidade das pessoas que sobraram ao meu redor.
Número dois: não vou escrever com frequência exata. Na verdade pretendo escrever apenas em meus piores momentos. Portanto, não garanto a integridade dos meus pensamentos inescrupulosos e muito menos a linearidade dos meus sentimentos distorcidos.
Número três: eu nunca quis ser escritor. Nunca tive sensibilidade suficiente para tal, na minha opinião. Mas em momentos desesperados eu preciso extravasar a verdade de alguma forma. E essa foi a maneira que eu encontrei.
Por enquanto é só. Já basta de enrolação, aqui vai a primeira carta e eu a chamo de: O começo parte um.
Querido amigo, deveria realmente começar com querido? Apesar de isso ser apenas o que as pessoas fazem, provavelmente não. Eu não sei quem é você e posso dizer que mesmo que conhecesse ainda assim, não seria querido o mais adequado.eu não tenho afeto por ninguém, não mais. E sinto muito se lhe desagrada ou se considera um exagero, mas a verdade é que não quero gostar de mais ninguém. E quando digo gostar quero dizer em qualquer modo que seja.
Então voltando para a história, vou dizer como tudo isso termina. Eu vou escrever minha história para você amigo, vou juntar todas as cartas e manda-las para um endereço desconhecido. Não importa que o endereço não exista e que minha história fique presa nos correios, eu só pretendo e preciso me livrar dela de qualquer maneira possível. Depois vou até a sorveteria mais próxima e vou tomar um banana Split enquanto vejo o pôr do sol uma última vez, voltarei então para casa para escrever minha última carta e então minha história finalmente acabara. Sem eufemismos, eu vou cometer suicídio, dar fim a essa desprezível e esdrúxula existência. E então nada. Silencio. Apenas ruídos esperando pelo primeiro grito. O pingar de uma pia, as asas de uma mosca, passos no andar de cima...
Para os curiosos que adentrarem no quarto apenas para dar uma olhada nos corpos mutilados, podem ir agora. Vocês já sabem como essa história termina. Adeus. Para os interessados que se preocuparem em pensar “porque” ou “por que você vai fazer isso” ou até “o que aconteceu” vou finalmente começar a história. Esqueça todo o resto e foque em mim por alguns segundos. As cartas logo acabarão e você pode voltar para a sua vida normal. Ainda está ai amigo? Ou já se cansou desse texto monótono, repetitivo e sem vida? que seja.
Podem me chamar de Bruce mesmo que esse não seja o meu nome, assim como “amigo” provavelmente não é o seu. Sou de família rica, muito rica. E consequentemente cresci sem nenhum amor. Sempre fui “mimado” com todos os brinquedos que eu queria, jogos e todo o resto. Mas essa distração das grandes massas rapidamente perdeu o brilho que possuía e me desinteressei por aqueles simples brinquedos. De algum modo, consegui desenvolver um certo gosto por literatura e músicas clássicas ainda criança. Talvez por certa influência dos meus avos antes deles morrerem. Sempre estudei nos melhores e mais difíceis colégios da minha cidade. Não que eu desse muita importância para isso. Na verdade considero a escola uma total perda de tempo. Além de estudar para conseguir um diploma, ser desnecessário para mim economicamente, nunca dei valor para o conhecimento que podia aprender em livros. Não me refiro no entanto ao conhecimento em si, esse eu sabia, mas as informações desnecessárias constantemente repetidas pelos professores. Como eu disse, eu podia aprender simplesmente lendo os livros. E se haviam bons livros, e eu tinha os melhores, eu aprendia em casa. Então qual o propósito da escola?
Imaturo? Talvez. Talvez esse tenha sido meu real primeiro erro. Mas vamos ignorar. Suportei os professores antipáticos, arrogantes e prepotentes até o meu segundo ano, quando um belo dia eu não apareci mais. Meus pais tentaram me dissuadir, mas digamos que eu fui bem convincente. E não vamos fingir que foi realmente uma boa tentativa de dissuasão. Era mais uma obrigação do que uma vontade. Então livrei ambas a as partes de tamanho ridículo.
Apesar de ser sempre introvertido e discreto, eu tinha amigos. Dois na verdade. Vamos chamá-los de Mel e Jorge. Nós estudamos juntos desde que me entendo por gente. O que seria mais ou menos na alfabetização. Eu me apaixonei por Mel assim que a vi. Amor inocente de criança. Algumas semanas depois do primeiro dia de aula combinamos de namorar. Andávamos de mãos dadas pela escola e sempre brincávamos juntos para o intervalo. O amor de criança foi aos poucos desaparecendo, principalmente quando ela me forçava a brincar de casinha. Ela era possessiva e não queria que eu jogasse bafo com mais ninguém. Então, um dia quando por acidente quebrei uma de suas bonecas favoritas, acredito eu por descuido, passamos semanas sem nos falar. O namoro havia acabado. Mas o distanciamento não durou muito e logo estávamos brincando novamente. Durante nossas brigas sempre acabávamos disputando por Jorge. Eu queria brincar com ele e ela também. Um ignorando o outro. Jorge coitado, ficava desesperado. Mas sempre acabávamos por arrasta-lo conosco. Seria cômico se não fossem lembranças dolorosas.
Por hoje é só leitor. A ferida já está doendo novamente. E preciso me recolher por alguns instantes. Sinto que os pesadelos estão próximos. Não adianta mais ficar acordado, eles vêm mesmo assim. Além disso a luz da vela mais próxima esta atraindo minha pele com o calor que ainda tento sentir. Não adianta me queimar. Queimadura de primeiro, segundo e terceiro grau parecem mais frias que a água que ainda pinga do chuveiro quebrado. Mas eu tenho que tentar. Tentar sentir novamente a morna sensação de felicidade ainda que seja fabricada. Me despeço por agora. Tentarei voltar logo.
Com desprezo,
Bruce.
Fale com o autor