- Amor, já fez os deveres? — perguntou a minha mãe, abrindo a porta do meu quarto.

- Estou fazendo.. — falei, enquanto tentava ao máximo me concentrar no dever de matemática.

- Eu estava vendo você se esforçando esses dias... — começou ela, nem se importando pelo fato de eu estar me concentrando no dever de matemática — e .. eu sei que você quer ir muito para esse show do tal Jason Mraz.

- Ai meu deus ! — gritei, pulando da cama, jogando os deveres no chão.

- Acredite se quiser, eu vou comprá-los hoje ! — disse ela, sorrindo.

- Ah mãe ! Você é o máximo ! — gritei, abraçando ela, e começei a rodopiar.

- Que bom que gostou, querida. Estou feliz por estar feliz.

- Tenha certeza que está fazendo uma menina feliz.

- Vou comprar então agora. — eu sorri para ela. — Volto daqui a uma hora, mais ou menos — disse ela, enquanto pegava o seu casaco, e saia do meu quarto. — Pode preparar o jantar?

- Claro. — disse animada, enquanto a seguia.

Quando passamos pela porta, ela parou e olhou para mim. Eu apenas fiquei fitando-a. Ela era linda para uma mulher ao auje dos 37 anos de idade. Os cabelos ruivos, e as sardas que eram espalhadas pelas bochechas e nariz, a faziam parecer ainda mais jovem. O corpo magro, o sorriso encantador... ela já fora convidado para ser modelo, mas ela se considera muito velha para isso, porém, eu não acho isso.

- Eu amo você — falei, falando tudo o que eu sentia. Abracei-a e dei um beijo em sua bochecha.

- Também te amo, amor. — falou ela, me abraçando fortemente. — E o que quer que aconteca, nunca esqueça que eu sempre vou estar do seu lado, aonde quer que esteja. — Ela então respirou — Você é a melhor coisa que já aconteceu em minha vida, minha tchuquinha

- esse apelido é velho ! — falei, rindo. Ela me chamava assim quando eu era mais nova.

Ela sorriu, entrou no carro e saiu.

Essas foram as últimas coisas que eu me lembro, antes de ter recebido mais tarde, uma visita de policiais.

- Com licença, você é a senhorita Milly ? — perguntou um policial.

- Sim, sou eu — falei, estranhando policiais estarem presentes na minha casa.

- Bem, senhorita Milly, houve um acontecimento terrível... — começou um policial, e eu então pisquei, o que poderia haver de errado? — a sua mãe teve um acidente de carro, perto daqui..

- Hã? — perguntei, não prestando atenção no que ele me falara anteriormente. Tudo aquilo era um choque para mim.

- Sua mãe sofreu um acidente de carro — repetiu o policial.

- Ela... ela... ela... está bem? — começei a gaguejar.

- Desculpa te falar de cara, será um choque para você. — falou um outro policial, ao lado do primeiro. — A sua mãe não aguentou os ferimentos..

- Com-o ? — lágrimas apareciam nos meu olhos. — ela-a... mor-reu?

- Sim — respondeu simplesmente o primeiro policial.

As minhas pernas começaram a tremer, e eu comecei a ver tudo meio torto.

- Você está bem? — perguntou o policial, pegando o meu braço.

- Eu.. eu... eu.. — gaguejei novamente. — Cadê minha família?

- Estão a caminho. — disse ele calmamente.

Minhas pernas então começaram a tremer mais e eu então cai no chão, começando a chorar feito um bebê. Eu não sabia o que fazer naquele momento, e nem havia percebido que a minha mãe tinha morrido ! Assim.. ela nunca mais voltaria ! Nunca mais receberia um abraço dela, conselhos, beijos de manhã...

De repente eu recebi um abraço apertado, era da minha avó. Ela não falara nada, apenas me abraçava e chorava comigo. Por que estava acontecendo isso comigo?

No próximo dia, minha avó ficou dormindo comigo, tentando me fazer dormir, porém, eu não consegui, e nem ela.

Quando acordei,o dia estava monótono, nada mais fazia sentido.. a casa estava praticamente vazia sem a presença da minha mãe. A energia que ela soltava de manhã, não existia mais na casa.. tudo estava diferente.. triste.. monótono.

- Quer um pedaço de bolo, querida? — perguntou a minha avó, chamando a minha atenção enquanto estávamos sentadas na mesa.

Eu então olhei para o bolo,era de chocolate, o preferido da minha mãe.

- Era o preferido da minha mãe.. — falei, respirando fundo enquanto falava. Seguirei as lágrimas que queriam descer

- Sim, querida.. eu me recordo. — falou ela, enquanto pegava a minha mão. — Milly, precisamos ser fortes nesse momento.

- Eu não sei se vou aguentar, vovó.. — falei, percebendo que a minha voz falhara, e as lágrimas que antes queriam sair, se \'soltaram\'.

- Você vai precisar ser forte, porquê você está apenas no começo desse caminho.. — falou ela, enquanto olhava para o lado, com um olhar triste.

- Tem algo que quer me contar, vovó? — perguntei, confusa.

- Tem — disse ela simplesmente.

- O que?

- Não sei se é o momento certo.. — falou ela, mordendo o lábio inferior.

- Vovó, o meu dia já está uma disgraça, pode soltar a bomba que eu aguento. Não tem bomba maior do que a notícia que eu recebi que a minha mãe morre... — eu começei então a chorar. Era uma bomba tudo isso que estava acontendo comigo, fato.

- Nem eu e nem os seus tios conseguimos a sua guarda, querida — ela falou, começando a chorar. Eu raramente via a minha avó chorando.

- Você está querendo dizer que eu vou ter que... — comecei a falar.

- Você terá que morar com o seu pai. — disse ela, concluindo.

- O QUE? — gritei enquanto chorava. Era uma bomba aquilo... um fato.

- O seu pai disse que você poderia ficar uma semana aqui, até viajar para miame. Ele explicou que quer estar do seu lado, nesse momento dificil..

- Para ele pouco importa que ela esteja morta.. — falei, bufando de raiva, e lágrimas de raiva saiam dos meus olhos. — ele nem a amava..

- Mas ele se preocupa com você.

- Ele pode estar querendo se preocupar comigo. Talvez nem está sofrendo com nada disso que esteja acontecendo.

- Milly, você não vê o seu pai desde os seus 10 anos. Ele pode ter mudado nesse tempo.. — falou ela, tentando pensar no lado positivo.

- Pessoa não mudam, vovó. Só podemos mudar as pessoas quando ainda são bebês — falei.A minha mãe sempre me falava isso como explicação que mesmo eu pensando, nenhum namorado meu iria mudar.

- Nem todo caso é assim, milly. Não seja tão cabeça-dura como a sua mãe. Seu pai pode estar se esforçando para mudar.

- E como você sabe? Tem algo que comprove isso? — perguntei, encarando-a.

- Não pensa só negativamente, querida.

- Eu sou realista. — falei, colocando um pedaço de bolo na minha boca.

- Isso não é realismo. — disse ela,me encarando. — Olha, eu vou falar com você de um jeito mais rude. Você pode odiá-lo quanto quiser, pensar que ele não vai mudar.. porém, tem que se conformar que vai morar ele, e ponto final.

Eu apenas pisquei, e não falei nada. Eu não sabia o que falar.

- Desculpe por ter dito isso assim, querida, mas como você mesma diz. eu apenas quero ser realista. — engoli em seco após da frase.