As Três Lágrimas do Youkai.
13 Capítulo 13 – Boa ação. (Atualizado)
Notas iniciais
Sesshoumaru olhava para as lanternas sem, no entanto, prender-se a elas. Sua mente vagava pelo passado. Ultimamente, já estava se acostumando fazê-lo.
Foi trazido de volta por um leve aroma salgado.
Com o canto dos olhos, percebeu um rápido movimento da hanyou para secar uma lágrima que lhe escorria no rosto. Ficou curioso pelo motivo, mas preferiu não comentar. Não estava no clima para mais perguntas. Lançou um último olhar às luzes que ascendiam aos céus e voltou à sua caminhada.
– Vamos.
Alguns segundos depois, Sesshoumaru ouviu os passos da jovem atrás de si. Apesar de não olhá-la, sentia que estava chateada e, mesmo sem entender, isso o incomodava. Não conhecia palavras de conforto, ou melhor, ainda era extremamente resistente a usá-las. Além disso, sua razão martelava em sua cabeça. É apenas uma hanyou, pouco me importa o que sente. Seja uma verdade superficial, seja uma mentira profunda, o fato é que ele não fez qualquer menção de confortá-la. Apenas continuou seguido seu caminho no mais completo silêncio.
...
Andaram o restante da noite até ver os primeiros raios de sol despontarem sobre as montanhas, que agora estavam mais próximas do que nunca. Sesshoumaru estimou que as alcançassem no inicio da tarde se mantivessem o ritmo.
As primeiras palavras desde a noite passada quebraram o silêncio.
– Sesshoumaru? – a hanyou falava num tom baixo e um pouco hesitante.
O youkai não se conformava com a falta de respeito com que ela lhe falava. Irritado, lembrou-se que ela havia dito que não pretendia usar qualquer tratamento mais respeitoso com ele. Sempre o tratava como “você” ou por seu próprio nome, como se fossem iguais. Humpf! Não somos iguais!
Apesar do desconforto, ele manteve o silêncio, indicando para ela perseguir.
— Acredita que alcançaremos as montanhas hoje? – perguntou.
Pelo canto do olho, ele podia ver que ela mantinha uma face vazia. Claramente buscava distrair-se com perguntas sobre a viagem. Ele não fazia objeção, pois, apesar de preferir o silêncio, se acostumou com a falação da hanyou. Vê-la tão silenciosa, o deixava inquieto.
— Provavelmente no início da tarde. – falou neutro.
Ele a viu concordar com a cabeça.
— Quanto tempo levará para atravessá-las? – questionou.
— Que eu me lembre, é minha vez de perguntar. Você mesmo disse que as perguntas seriam alternadas. – retrucou Sesshoumaru, referindo-se ao jogo que continuava pendente.
Divertido, ele viu a jovem se irritar e suspirar. Ela deu um sorriso de lado, criando a mesma expressão que usou para desafiá-lo para o duelo. Como se dissesse: desafio aceito.
— Pois bem, pergunte então. – induziu ela.
— Onde conseguiu a espada? – perguntou apontando para a arma na cintura da jovem. Imediatamente a expressão dela voltou a se entristecer e ele se arrependeu da pergunta.
— Meu pai me deu. – a partir daí, ele decidiu que evitaria fazer perguntas pessoais. Pelo menos por hora...
Ela se endireitou e voltou ao jogo.
— Além do frio, o que mais podemos enfrentar nas montanhas? Existem youkais por lá?
Sesshoumaru ponderou alguns instantes antes de responder e buscando distrair a hanyou.
— Não tenho certeza, não encontrei nenhum da última vez que passei por elas. Mas é provável que tenham se escondido. – ele viu uma leve preocupação cruzar a face da jovem e lançou uma provocação. – Por quê? Não me diga que está com medo.
A garota cerrou os punhos e elevou a voz.
— Lógico que não! Só perguntei porque estou como sua guarda-costas, então tenho que saber se terei que ficar alerta para emboscadas no lugar. – justificou-se.
— Claro. – debochou irônico.
— Ah, tanto faz. – deu de ombros. – Hm, vejamos... a minha próxima pergunta... – falou pensativa com um dos dedos batendo no queixo.
— Acho que é minha vez de perguntar. – retrucou Sesshoumaru.
— Na verdade não. Sua última pergunta foi: “Por quê?” – sorriu vitoriosa.
Irritado, Sesshoumaru sentiu-se passado para trás. Ralhou consigo mesmo por ter cometido tamanho deslize, o mesmo que horas atrás havia apontado na hanyou. Mas logo ignorou, afinal não estava levando o jogo a sério, apenas queria distrair a hanyou.
— Certo. – suspirou. – Pergunte.
— Pelo que entendi você já fez a travessia antes. A razão desta vez é diplomática, qual era o motivo da última vez?
Sesshoumaru abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um grande barulho ecoando não muito longe dali. Em seguida escutou gritos vindos do mesmo local. Pelo cheiro, ele percebeu que vinham de uma vila humana, mas havia um cheiro fraco de yoki pelo local. Provavelmente um youkai menor estava atacando o vilarejo.
Indiferente, ele continuou a caminhada, não pararia por um simples problema humano. Foi surpreendido por um vulto que passou ao seu lado, correndo em direção ao local. A jovem já estava com uma das mãos na bainha da espada correndo por entre as árvores.
Antes de desaparecer por completo, ela gritou:
— Continue nesse ritmo. Já eu o alcanço!
Incrédulo, Sesshoumaru parou até vê-la perder-se de vista. Ligeiramente irritado com a atitude da hanyou, ele balançou a cabeça em negativa e voltou a caminhar. Não demore ou ficará para trás pensou indiferente. Mal se deu conta que passou a andar mais lento do que o de costume.
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Tsukiyo desembainhou a katana. Mesmo distante do local ela sabia tratar-se de um youkai menor, mas não conseguia simplesmente seguir em frente como Sesshoumaru. Sempre foi cercada de pessoas que tentariam salvar os aldeões. Ela não podia ser diferente.
Saindo do bosque, viu-se em frente a um pequeno campo e uma pequena aldeia. Na estrada da vila estava um youkai lacraia, não muito grande. Olhando rapidamente ao redor, ela notou duas casas completamente destruídas e uma terceira sendo atacada. Alguns homens tentavam, em vão, afugentar a criatura.
Tsukiyo sorriu, esse será fácil, ela já havia enfrentado diversos youkais desse tipo e esse em particular era bem menor do que os youkais que estava acostumada a enfrentar. Imediatamente, ela tomou impulso e, transferindo um pouco de energia para a lâmina, saltou em direção à criatura.
Bastou um golpe com a lâmina azulada para derrubá-la.
Ela sacudiu a katana para retirar o sangue e aproximou-se do youkai para ter certeza que estava morto. Felizmente, a criatura não se mexeu, não tendo qualquer sinal de vida. Satisfeita, Tsukiyo se permitiu um sorriso pelo bom trabalho.
Ela se virou e constatou que os aldeões a encaravam. Muitos a encaravam com medo ou desconfiança. Olhares que já estava acostumada a receber. Quando se era uma mestiça como ela, recebia-se muitos olhares de desprezo por youkais e de medo pelos humanos. Tsukiyo não se importava, pois os poucos olhares de agradecimento que percebeu, fizeram valer a pena.
O silêncio tomou conta, criando certa tensão o local. O clima foi quebrado por uma mulher que se aproximou. Não era jovem, mas não podia ser considerada velha, Ela tinha um sorriso simpático no rosto. Agarrado em suas vestes, estava um garotinho assustado. Provavelmente seu filho, imaginou Tsukiyo.
— Em nome de todos da vila, eu quero lhe agradecer por ter salvado nossa aldeia. – sua voz era sincera, e apesar de sentir alguns olhares nervosos em cima de si, Tsukiyo agradeceu o gesto.
— Não foi nada. – falou desconcertada.
— Muito obrigada. – reforçou a mulher, oferecendo-lhe uma leve reverência.
Sem saber o que fazer, Tsukiyo imitou o gesto. Elas se olharam uma última vez e sorriram.
— Há algo que poderíamos fazer par recompensá-la? – questionou uma velha que se aproximara da mulher.
A senhora era provavelmente a conselheira ou miko da vila, pois trajava as tradicionais roupas brancas e vermelhas. Sua influência levou outras pessoas a acompanhá-la, mesmo que algumas a contragosto. Tinha baixa estatura e a pele trazia os traços da idade avançada, passando um ar de sabedoria.
— Não, muito obrigada. Esse youkai já vinha me incomodando há tempos. –mentiu Tsukiyo. Não achava que o povo da vila lhe devia algo. – Mas obrigada pela oferta.
Dizendo isso, ela se virou para tentar alcançar Sesshoumaru. Parou no meio do caminho e disse rubra de vergonha.
— Na verdade, tem uma coisa sim...
A velha e a mulher lhe sorriram e ela logo fez seu pedido.
Poucos minutos depois, já estava correndo de volta à floresta. Tinha de se apressar ou Sesshoumaru a deixaria para trás. O espírito estava leve e o humor levemente mais alegre. Estavam certos, pensou nos pais e amigos, fazer uma boa ação realmente alegra a alma. Desta vez, a lembrança deles não trouxe tristeza, pois havia feito exatamente o que teriam feito.
Sentiu-se orgulhosa de si mesma.
...
Correu por entre as árvores seguindo o cheiro de Sesshoumaru, que agora se tornara familiar. Poucos minutos depois o encontrou caminhando pela trilha, não muito distante do local em que se separaram.
— Ei, Sesshoumaru!
Tsukiyo sabia que chamá-lo apenas pelo nome o deixava irritado e isso era, em parte, motivo de fazê-lo. Desde criança, a jovem detestava tratar os outros por títulos. Sempre as tratava como iguais, acreditando ser a forma mais correta: sem distinções, sem preconceito.
Sesshoumaru virou com uma expressão de desgosto costumeira pela “falta de respeito” dela. Ao avistá-la, por trás da expressão ranzinza, Tsukiyo notou leve confusão. Assim que o alcançou, ele perguntou:
— O que é isso? – falou apontando para as roupas de Tsukiyo.
A jovem trajava um casaco de pele e calças num tom castanho e botas de mesma cor, que iam até o meio da canela. Divertida com a reação dele, ela segurou um sorriso e tentou falar da forma mais indiferente que conseguiu, apenas para provocá-lo.
— Roupas de inverno. Sabe, já que vamos para as montanhas geladas, imaginei que minhas outras vestes eram inapropriadas. – explicou passando a caminhar à frente do youkai que havia parado por um instante. – Melhor prevenir, pois eu não sei quanto tempo demoraremos nas montanhas ou como é o clima na vila dos youkais. O pessoal da vila foi muito gentil de me emprestar essas roupas para usar por cima das que já tenho.
Ela o viu dar de ombros e prosseguir. Eles caminharam lado a lado em silêncio. Desta vez nenhum dos dois estava com vontade de jogar. O melhor era não se falarem, pois do contrário uma discussão logo surgiria.
Aos poucos sentiam a mudança da paisagem. O terreno inclinava-se de maneira a fazer os dois subirem e descerem grande ladeiras e o ar tornava-se frio à medida que se aproximavam das montanhas. Próximo do início da tarde, Tsukiyo se via caminhando em uma paisagem coberta por neve. Haviam chegado ao pé de uma das montanhas da grande cadeia a sua frente. Conseguia perceber que entre elas haviam um vasto espaço, coberto por depressões e até alguns locais planos.
Quando começaram a subir, percebia que começaram a avançar com dificuldade com a alta camada de neve cobrindo-os até seus joelhos. Ali, da base da montanha, Tsukiyo olhou para o pico, desanimada. Ele deve ter quilômetros de altura! Desse jeito demoraremos séculos para atravessar. Os pensamentos da jovem foram interrompidos por um tremor abaixo de seus pés.
A neve a impedira de ver, mas não estava pisando no chão. Youkai! Uma criatura se ergueu da neve, desequilibrando Tsukiyo e a jogando para trás. Um youkai de tamanho mediano mirou Tsukiyo, irritado por ter sido pisoteado. Realmente não tenho sorte com a paisagem, lamentou ao lembrar-se do youkai que se disfarçara de pedra.
A criatura mostrou os dentes para Tsukiyo e avançou. Ela desviou rolando para o lado no último segundo e se preparou para sacar a katana, mas Sesshoumaru foi mais rápido. Usando Bakusaiga, ele lançou uma onda de energia que atingiu o youkai. O impacto arremessou a criatura contra a base da montanha.
— Atenção onde pisa. – Sesshoumaru repreendeu-a.
Ela estava prestes a retrucar quando o solo começou a tremer novamente. Não apenas o chão abaixo de si, mas tudo em sua volta.
— Não acho que seja outro youkai... – exclamou Tsukiyo em voz alta.
Ela olhou em direção à montanha e constatou que uma grande massa branca estava se desprendendo. Criada pelo impacto da criatura mesclado ao poder de Sesshoumaru, a avalanche avançava feroz, engolindo tudo ao seu redor. O que começou com o descolar da camada mais superficial da neve da montanha, cresceu numa onda albina com mais de dois metros. Mesmo vindo do distante pico da montanha, a avalanche ganhou velocidade e em poucos segundos os alcançaria.
Antes que Tsukiyo pudesse sequer pensar em como escapar, sentiu braços passando ao redor de si. Sesshoumaru a havia pego nos braços, com uma das mãos segurando as pernas e a outra firmemente em suas costas. Ele tomou impulso e levantou voo, passando por cima da avalanche e indo em direção ao pico da montanha, que ainda encontrava-se a quilômetros de distância.
A concentração de ambos era tamanha que Tsukiyo nem se constrangeu por estar sendo carregada por Sesshoumaru. Não era momento para brincadeiras, provocações ou distrações. Mal chegamos à montanha e já fomos atacados por um youkai e quase soterrados por uma avalanche. A jovem presenciava com temor e admiração a força da natureza que soterrava tudo e todos até a base da montanha. O estrondo da avalanche alcançando a base gelada da montanha ecoou longe, chegando aos ouvidos aguçados dela.
O vento gelado ia de encontro ao seu rosto, deixando Tsukiyo se perguntando o que os aguardaria naquela travessia.
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