As Treze Relíquias.
9 Capítulo 9 - Vila das Tortas.
Notas iniciais
Primeiro OBRIGADA A THATYANE SANTANA sempre linda, que me acompanha desde o comecinho aqui no nyah, e deixou uma recomendação, linda aqui na fic! Obrigada mesmo!
E obrigada a todos que deixaram reviews!
Neste cap, tem bastante coisa! Na música, tentem imaginar um ritno animado haha, e ignorem quando eu tendo rimar "Perda" e "Malvadeza".
E no fim, não estranhem o Blaine! Ele ainda está sob efeitos divinos...
Um beijo!
Boa leitura!
O Docestado não tinha o nome de “Doce” estado à toa. Dos treze estados de Jeera era o mais fértil, e o que produzia mais alimentos. Parecia estar sempre no outono e na primavera, com flores brotando em todo o canto, e frutos pesando nos galhos das árvores até enverga-los, permanecendo todo o ano produtivo. A quantidade de bebidas, frutos, grãos, carnes e vegetais que o Docestado produzia era maior do que a do resto do reino junta, e pela venda das mercadorias, era também um estado muito rico. Era o estado abençoado pela deusa da fertilidade, e com exceção do Espinheiro, todo o território era produtivo e famoso pelos seus frutos e vinhos, os mais doces que podiam ser encontrados naquela parte do mundo, e isso lhe dava aquele nome.
Vila das Tortas era uma cidade que não fugia dessa realidade. Não tinha uma produção tão variada de frutos, mas comprava diariamente os produtos das colheitas de Bela Colheita, e baseava sua economia, basicamente, na produção e venda de tortas para as cidades próximas, principalmente Bela Colheita e Jarro Cheio. É, as cidades de Jeera não são muito misteriosas em relação seus nomes.
Deviam ser sete da manhã, conhecida como Hora das Tortas ali nos arredores, pois era a hora que todos os cozinheiros da vila colocavam suas tortas para assar. Mesmo ali, fora dos limites da pequena cidade, eu podia sentir o cheiro delicioso dos produtos assando. Dava água na boca só de imaginar aquelas tortas dourando no forno, recheadas de frango, carne, maçã, amora, ameixas e infinitos outros sabores. Ainda me lembrava da primeira vez que papai me levara à vila para provar uma torta gorda e recheada de maçã. Senti meu peito apertar com a lembrança do meu pai, meu louco e alegre pai.
— Ah, vejo que acordou docinho. — Ouvi Selena me cumprimentar, entrando na carroça de forma animada. — Bom dia pra você.
Fiz uma careta, sem querer responder. Mal tinha dormido na última noite, com a lembrança daquele maldito beijo que trocara com Bartholomew na manhã anterior, e me sentia cansado e irritado demais para discussões. Graças aos deuses, o bando pelo menos decidira me deixar em paz naquele dia, e ninguém apareceu além de Ronper, que ficou poucos minutos na carroça antes de sumir, e Corriseu que veio para soltar minhas algemas. Nem tive forças de tentar fugir naquela noite. Acabei aproveitando para pensar, e descobri que eu queria entender o que se passava ali com aquelas pessoas. Então, talvez, eu agisse um pouco mais tranquilamente até que eles me contassem algo.
— Aqui, compramos ontem, mas ainda deve estar gostosa, mesmo fria. — Selena depositou uma torta na minha frente, e eu ergui uma sobrancelha. Às vezes, achava que eles estavam lendo minha mente.
Sem nenhuma palavra, peguei a colher que ela colocara ao lado da torta e rompi a massa fina e crocante do alimento, encontrando um recheio escuro e cremoso de amora. O cheiro cítrico me arrancou um sorriso, e quando enfiei a colher na boca senti o prazer tomar conta do meu paladar, era doce, refrescante, e deliciosa.
— Sabia que ia gostar de amora. — Selena sorriu pra mim e se sentou no baú na minha frente. Estava vestida com calças de pano escuro e uma camisa larga novamente, os cabelos claros presos num rabo de cavalo, e na cintura a sua inseparável espada. — É bom comer logo, vamos entrar na Vila daqui alguns minutos.
Não seria um grande problema pro bando. Ao contrário de Jarro Cheio, ou de Bela Colheita, seria fácil entrar e sair dali. Apesar de Vila das Tortas ter crescido até se tornar uma pequena cidade, ela nunca tivera muralhas e portões, mesmo após todos os anos de desenvolvimento e até mesmo após a vila começar a ter um Lorde. Por isso o nome de “Vila”. E isso fazia com que a cidade não tivesse fiscalização sobre quem entrava ou saia.
— O que vocês querem em Vila das Tortas? — Questionei, curioso. Eu realmente estava com aquilo na minha cabeça, afinal, não havia nada de valor naquela vila, além das tortas. Nenhum morador era rico o bastante para despertar o interesse de um ladrão, e até mesmo Lorde Gartan, líder da cidade, não tinha tantas posses.
— Dinheiro. — Selena respondeu com simplicidade, se inclinando e enfiando um dedo no recheio da torta, chupando-o em seguida. Revirei meus olhos para ela. — Pode não parecer um alvo tão interessante, mas todo lugar tem dinheiro.
Abaixei meus olhos e voltei a comer a torta, pensando naquilo.
— Vocês sempre dizem que precisam fazer algo pelo reino, mas no fundo são apenas ladrões não é? — Questionei com um sorriso cansado, encarando a torta. Tinha tido um sonho naquela noite, nos poucos minutos em que dormi, onde eu estava sentado em volta da fogueira com o bando, cantando “Chamas de Neréia e Chuvas de Gotsha” ao lado de Bartholomew. No sonho, eu realmente tinha entrado pro bando, e sentia como se estivesse vivendo uma das grandes histórias dos livros, e estava feliz. Mas eram apenas sonhos, e Tormé gostava de brincar com as mentes dos mortais adormecidos.
— Claro que temos outros objetivos na cidade, docinho. — A mulher respondeu, e ergui meus olhos. Ela tinha aquele sorriso divertido dela. — Só que o Bartô é muito sério com isso. Mesmo que você tenha beijado ele novamente você ainda não conseguiu conquistar o coração negro dele. — Ela cruzou os braços de forma divertida, e eu me irritei novamente. Não acredito que aquele maldito contou pra ela o que aconteceu. E céus, ela tinha a habilidade de me tirar do sério. Alias, acho que tirava todos do sério.
— Cala a boca. — Respondi, enfiando mais uma colherada na boca, e ela riu. “Talvez se eu não der atenção ela me deixe em paz” pensei.
— Seja sério Blaine-docinho, vocês do Docestado sabem que não se brinca com amor e desejo meu querido. São chamas que queimam mais do que as de Neréia. — Ela inclinou a cabeça levemente pro lado, me observando como se quisesse me analisar. — Sabe que o desejo também é celestial não sabe?
Joguei a colher nela, mas novamente Selena foi mais ágil e se desviou enquanto ria alto da minha reação, deixando a colher suja bater contra a madeira da carroça com um estrondo. Fechei minha cara numa careta irritada.
— E a idiotice é mundana! — Gritei, empurrando a torta para longe. Havia perdido o apetite com aquele assunto. Selena apenas riu novamente, se levantando e pegando a torta.
— Bom, se não quer mais eu vou ficar com ela. — Disse, se afastando em direção a saída da carroça. — Eu adoraria te pressionar até você ficar roxo de raiva, mas Hawe disse pra te deixarmos em paz, então eu vou ajudar os rapazes a arrumarem nossa partida...
Ela saiu antes que eu pudesse gritar alguma ofensa. Soltei um suspiro irritado e bati minha cabeça de leve contra a madeira da carroça. Merda, que desânimo.
Esvaziei minha mente, tentando afastar as lembranças daquele beijo. Aquele toque fora, no mínimo, absurdamente enlouquecedor. E eu me irritava ao lembrar o quanto gostara daquilo, e uma pequena chama se acendia no meu interior.
No mínimo, Lux estava me castigando por algo que eu fizera e não me recordava.
— Ah, Wilton, dai-me forças... — Murmurei, encarando o teto da carroça.
— Hawe comentou que estava te ensinando a orar, mas não sabia que você se tornara tão fiel. — A voz me atingiu, e eu me levantei de um pulo.
Silencioso como sempre, Bartholomew havia entrado no veículo sem que eu percebesse. O encarei assustado por um momento, mas fechei a expressão em seguida. Acho que nunca me acostumaria com aquele homem. Tentei encontrar minha fúria que estava tão presente até momentos atrás, mas não a encontrei. Por algum motivo, eu mal consegui encontrar algumas palavras irônicas.
— Estou é perdendo a fé. — Respondi por fim, cruzando os braços. — Se os deuses me ouvissem, você estaria morto.
O bandido abriu um gigantesco sorriso pra mim, prepotente, também cruzando os braços e se apoiando contra a parede da carroça. Estava com os cabelos bem alinhados de lado, em curtas ondas de fogo que reluziam a pouca luz que entrava através do tecido da carroça, e usava uma camiseta limpa e de qualidade relativamente boa, cor de areia, com um colete negro sobre ele. As calças também eram de boa qualidade, de tecido cinzento, e as botas eram de couro preto. Estranhei, ele estava muito... arrumado. Bonito, mas muito diferente do normal. Certamente estava querendo se passar como comerciante ou algo relacionado ao entrar na Vila das Tortas.
— Você não perde a língua afiada não é? — Ele falou, e andou em direção um dos baús, se sentando. Permaneci em pé, o mais distante possível do ruivo. — Selena estava te incomodando? — Questionou, me olhando com um brilho divertido nos olhos.
— Quando vocês não estão me incomodando? — Perguntei irritado. Lucci riu.
— Como se você não merecesse. — Ele respondeu, apoiando os cotovelos nos joelhos e erguendo o rosto na minha direção. Deuses, ele era enorme, não sei como aquele baú não quebrava. — Sabe por que eu estou aqui?
— E quando eu sei de alguma coisa que vocês fazem? — Retruquei grosseiro, lhe lançando um olhar irritado. Estranhamente, eu não estava com tanta vontade de avançar contra ele e derrubá-lo em pancadas, mesmo ainda estando irritado. — Veio me vigiar porque vamos pra Vila das Tortas. — Sugeri, mas ele franziu as sobrancelhas vermelhas.
— Não. — Ele começou a brincar com os dedos, encarando-os como se fossem brilhantes. — Dorian e Hawe virão aqui mais tarde para isso. — Voltou a me encarar, e um sorriso divertido brilhou em seu rosto. — Estou aqui porque preciso da sua ajuda, Lordezinho Açucarado.
Franzi minha testa.
— De jeito nenhum. — Respondi automático. — O que vocês querem?
O sorriso dele foi tão malicioso, carregado de segundas intenções, que dei um passo para trás quando ele se levantou e se aproximou de mim, seu sorriso brilhando na penumbra que era o interior da carroça. Senti minhas costas encostarem-se à madeira da carroça quando ele bateu a mão aberta na parede, bem ao lado do meu rosto, e quase no mesmo instante o veículo começou a se movimentar, lentamente. Lucci segurou em meu braço com a mão livre para que eu não perdesse equilíbrio com o solavanco, e encostou a boca na minha orelha, me fazendo arregalar os olhos e ofegar quando minhas chamas acenderam repentinamente. Aquilo fora tão rápido...
— Preciso que me conte tudo o que sabe do Castelo das Tortas. — Sussurrou baixo no meu ouvido, com a voz grossa e absurdamente excitante. Senti um arrepio percorrer minha espinha, eriçando os pelos claros de meu braço. A mão dele apertou meu braço de forma leve, e senti sua língua quente passar de forma leve no lóbulo do meu ouvido, me arrancando um gemido baixo, e deixando um pingo de fogo ali, queimando. Fechei minhas mãos em punho enquanto sentia meus músculos se contraírem de forma involuntária, e eu continuava buscando recuperar meu controle. De alguma forma, eu sabia que ele estava sorrindo agora. — Vamos invadir a morada de Otelo Gartan.
Cerrei meus olhos com força, tentando esquecer da presença dele ali.
— Vocês não conseguirão... — Era muita audácia tentar invadir o castelo de um lorde. Mesmo que fosse um castelo tão velho quanto o das Tortas. — E eu não vou falar nada.
Senti a risada baixa de Bartholomew em meu ouvido, e percebi que todo meu corpo parecia em chamas.
— Já invadimos o Cálice, meu doce, tolo lorde. — Ele disse, divertido. — Não acho que o velho Castelo das Tortas, com suas torres quadradas e muralhas de madeira vão nos impedir. Até o início da noite você vai nos contar o que sabe.
Senti então ele esfregar a barba ruiva no meu rosto, me arrancando o ar do pulmão, e então morder a minha orelha de forma leve. Inconscientemente apertei as bordas de seu colete preto, puxando-o mais para perto. Não conseguia mais batalhar contra aquilo, eu era fraco demais.
— Eu te odeio, Bartholomew Lucci. — Sussurrei em seu ouvido, enquanto ele descia os lábios para o meu pescoço, me fazendo abrir os meus em busca de ar, e me encolher com o arrepio, arqueando as costas e ofegando — E espero que morra nesse ataque. — Terminei minha maldição, enquanto lutava com todo meu desejo.
Seus lábios quentes como chamas abandonaram meu pescoço, e fechei os olhos, buscando respirar, enquanto minha cabeça girava levemente.
— Espero fazer você engolir suas palavras. — Ameaçou em meu ouvido.
E então, como folhas levadas pelo vento, eu senti ele se afastar de forma silenciosa e delicada, e mesmo abrindo os olhos rapidamente, ofegante, não o encontrei ali.
Sem ar e com as pernas repentinamente cansadas, me escorei contra a parede e levei uma mão até minha testa, afastando uma mecha de cabelo prateado.
As chamas de Neréia ainda queimavam minhas entranhas. Possivelmente, ela as emprestara para Lux, porque o que mais queimava era a minha intimidade, lá embaixo, endurecida pelo recente contato.
=—=
E naquela noite, a terra brilhou como o sol
E durante a guerra entre a água o fogo
Sobre Iris foi deitado o lençol
Radás assim encerou o jogo
Dando fim a competição
E no fim nem Neréia e nem Gotsha
Ganharam de Iris o coração.
Dorian pausou a cantoria por um segundo para tragar seu cachimbo, e foi impossível para eu não murmurar junto com ele o refrão. “Chamas de Neréia e Chuvas de Gotsha” era uma das minhas canções favoritas, aliás, todos adoravam a canção. Até Hawe cantarolava baixinho conosco, mas Dorian era de longe o mais animado na cantoria, praticamente gritando com sua voz de trovão, que não era tão bonita, mas conquistava pela animação. Tentei ignorar o fato de ter sonhado com aquela canção naquela noite.
E assim acabou a triste epopéia
Chora Neréia! Chora Neréia!
E entre as deusas acabou a picuinha
Gotsha sozinha, pobrezinha!
E chamas que queimam como a dor da perda
E chuvas que lavam toda a malvadeza
Foi o que restou daquela grande dor
São as lembranças desse grande amor!
Chamas da Neréia e Chuvas de Gotsha!
Porque do amor ninguém debocha!
E quando Lux decide brincar com a paixão
Sempre machucará coração!
Chamas de Neréia e Chuvas de Gotsha!
Porque do amor ninguém debocha!
Para as deusas sobrou apenas a solidão!
E para nós os mortais essa canção!
Dorian terminou a canção com um grito absurdamente desafinado e alto, e Hawe acabou rindo, coisa que eu nunca vira. Percebi que sorria também. Apesar da música ser um pouco trágica, e a letra fosse emocionante, a música podia ser cantata de forma animada, o que chamávamos da Versão de Bar ou em uma balada lenta. Obviamente ele estava cantando em Versão de Bar, e ainda estava fazendo mais graças ainda.
“Chamas de Neréia e Chuvas de Gotsha” contava a história de Iris Leda, uma sacristã extremamente devotada aos Treze Deuses, por quem Neréia e Gotsha se apaixonaram muito tempo atrás, causando um terrível conflito pelo amor da mulher, considerada uma das mais belas e devotadas mortais de toda a história. Alguns diziam que Lux, entediada, decidiu pregar uma peça nas deusas, e as colocou uma contra a outra pelo amor da sacristã, outras diziam que a deusa da loucura simplesmente tivera uma crise de alienação. Por isso Radás, sentindo-se culpado pelo que a esposa celestial fizera, levou Iris Leda deste mundo, e proibiu Gotsha e Neréia de a verem, dando assim fim à guerra de fogo e água que as duas travavam pelo amor da mulher. Eu costumava chorar bêbado quando ouvia a versão lenta da música, emocionado com as dores das deusas, que agora choravam, uma sua chuva, e a outra suas chamas.
— Adoro essa música! — Dorian anunciou alegre, tragando seu cachimbo em seguida e soltando uma grande nuvem de fumaça. Eu brinquei com meus dedos discretamente enquanto lembrava de toda a história daquela música tão querida.
— Acho que estamos chegando. — Hawe anunciou, coçando a barba com uma mão. Ele estava novamente com sua faixa azul sobre o pescoço, que simbolizava seu cargo religioso falso. — Perceberam que os sons diminuíram? Provavelmente entramos numa rua mais distante. — Ele lançou um olhar para mim. — Vamos nos hospedar na Casa Torta.
Ergui uma sobrancelha. Nunca tinha ouvido falar do lugar, o que só podia dizer que não ficava na parte central da vila.
Quando a carroça parou, me levantei de um salto, curioso para ver onde estávamos. Talvez, com agilidade, eu conseguiria pelo menos ser visto por alguém da cidade, e eles me reconheceriam com certeza, alguém tinha de me reconhecer.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o tecido da entrada foi afastado, e minhas esperanças foram por água abaixo. Todos nós eu estávamos no interior nos voltamos para a entrada, e para minha surpresa, havia um homem gordo e de cara redonda, careca, com um bigode gigantesco no rosto, nos encarando. Franzi minhas sobrancelhas pro desconhecido que nos encarava irritado, e vi Bartholomew surgir ao lado dele rapidamente.
— Ah deuses, é mesmo o bendito moleque Becklan. — Ele falou, me encarando. — Arght, quando eu aceitei essa tarefa não esperava que vocês fariam algo assim. Vou querer um Hórus por noite pelo garoto, e três Cardeais pra cada um de vocês.
Bartholomew torceu o rosto, e vi Hawe se levantar.
— Vejo que começaram rápido as negociações. — Hawe os encarou sério, parecendo levemente irritado. — Então o senhor realmente é apoiador?
Não entendi nada, mas pude perceber que o homem gordo se tornou automaticamente vermelho e ficou bem sem jeito, ao mesmo tempo que aparentava irritação com uma careta.
— Pagando o preço certo, sim. — Ele rosnou. — Nunca prometi nada de graça.
— Ah, vocês nunca prometem. — Hawe resmungou, fechando os olhos de forma cansada.
— Já fiz o trato com o senhor Tommy aqui. — Lucci avisou e seus olhos brilharam de forma misteriosa, e pude ver Tommy arregalar os olhos, assustado. — Tenho certeza que sabendo das implicações, ele vai cumprir sua parte. Agora, vamos descer e nos acomodarmos.
Eu não estava entendendo nada até o momento, e por isso encarei Hawe e Dorian com estranheza enquanto eles saiam.
— Ah, será ótimo passar uma noite num colchão. — Dorian comentou enquanto saia, e eu arregalei os olhos, ainda paralisado enquanto eles se afastavam. Apenas Bartholomew ficou ali, segurando o tecido afastado da porta e me encarando com a expressão séria.
— Não vai vir? — Ele perguntou, e eu franzi minhas sobrancelhas. Reparei que o som da cidade tinha ficado para trás.
— Onde estamos? — Perguntei. — Aquele homem me reconheceu...
— Estamos um pouco afastados do centro de Vila das Tortas, na Casa Torta. — Ele falou, e eu entendi o porque dos sons da cidade terem ficado para trás. — O dono da estalagem é um amigo, e não vai nos entregar, então pode tirar a oferenda da janela docinho, porque não vai se salvar dessa vez.. — O ruivo sorriu de lado, e eu senti minha irritação voltar.
—Traíra! É a obrigação dele como cidadão informar as autoridades! — Gritei nervoso. Mais uma vez, o pouco de esperança que eu tinha ia por água abaixo.
— Ah, pelos deuses, eu não estou com paciência para suas discussões agora. Estou pagando um Hórus por noite para você dormir confortável e tomar um banho quente, então é melhor não me irritar e sair logo. — Seu tom era sério, mas eu tinha voltado a me irritar. Quando eu voltasse pro Cálice meu pai certamente ficaria sabendo deste homem, Tommy. Fechei minha cara para ele, e ele rangeu os dentes, irritado. — Blaine, eu não estou brincando, não me obrigue a ir aí.
Dei uma gargalhada com intenção de irritá-lo, e vi se rosto se fechar, sentindo certo prazer sádico.
— Ah, me obrigue a sair daqui, eu quero ver. — Rosnei o desafio irritado, mesmo sabendo que não teria chances contra o brutamontes de mais de dois metros.. — Eu não vou dormir na cama suja do Gordo Tommy. Prenda-me novamente aqui na carroça ou o que quiser, mas não me pense que eu vou...
Fechei a boca surpreso quando ele rosnou e saltou para dentro da carroça, parando na entrada com uma posição semelhante à de um felino preparado para o ataque. Arregalei meus olhos, a visão era intimidadora, e me vi arrependido pela minha língua solta. Dei alguns passos para trás, e ele se aproximou silenciosamente, com um sorriso maligno em lábios, idêntico a mais cedo.
— Bartholomew, é melhor me deixar em paz... — Ameacei, assustado, encostando-me à parede novamente. Eu não ia suportar mais algum momento como aquele de mais cedo, só de olhá-lo ali, naquela posição, se aproximando tão silenciosamente e com aquele sorriso em lábios, eu já sentia meu estômago dançar com as chamas.
— Eu te avisei pra não me irritar, docinho. — Aumentou seu sorriso, e pude ver que ele mascava goma novamente. Estava começando a odiar aquilo. — Agora, você vai ter de pagar.
— Lucci, não! — Eu ameacei, e comecei a dar me virar para me afastar dele, e começamos a nos rodear de forma lenta, como dois animais ariscos prontos para se atacar, cada um observando os passos do outro com cuidado. Percebi que de alguma forma, eu estava achando aquilo divertido apesar do frio na barriga de medo que sentia, misturado ao fogo em minhas entranhas. “Chamas e Chuva na minha barriga, como a canção” pensei, dando um pequeno sorriso.
— Você está sorrindo? — Ele perguntou curioso, aumentando seu sorriso, seus olhos brilhando de forma divertida.
Foi quando eu senti a minha mente literalmente romper com um “craque” que eu sabia que só ocorrera na minha cabeça. Perdi totalmente controle de minhas emoções, e senti uma energia enorme, anormal, tomar conta de mim. Meus olhos pareciam em chamas quando os pisquei, mas não doíam nem incomodavam. Uma felicidade tranquila me invadiu, e quando olhei para Bartholomew, senti uma vontade irrefutável de incomodá-lo.
E então, de forma rápida, sem nenhum comando meu, meu corpo avançou contra ele, e com uma velocidade que não era minha, eu colei meus lábios nos dele, sentindo uma estranha ligação entre nós se formar. Ao contrário das outras vezes, dessa vez eu não sentia nenhum descontrole, nenhum controle, na verdade não sentia nada. Era como se eu estivesse dividindo o corpo com outra pessoa, ou repentinamente tivesse me tornado outra pessoa.
Não aprofundei o beijo, e me afastei rapidamente, com uma risadinha. Percebi que Bartholomew me encarava com surpresa nos olhos, e ele levou uma mão até a boca, como se sentisse algo estranho ali. Meus lábios pareciam queimar, e eu sorri, achando a sensação prazerosa.
— Mas o que... — Ele me encarou confuso, e eu ri, correndo rapidamente para fora da carroça.
Pude ouvir o grito de Bartholomew, e apenas gargalhei novamente, olhando para trás e vendo ele pular da carroça e correr em meu encalço. Eu estava extremamente mais rápido do que eu era normalmente.
“Que estranho... Mas divertido, de alguma forma.” Pensei, enquanto corria pela rua de cascalhos.
— É meu presente, Blaine. — Pude ouvir meus lábios falando, e então percebi que quem estava comandando minha mente era ninguém menos que Lux, a deusa.
“Lux?” Questionei afobado, mentalmente. Minha boca emitiu uma gargalhada.
— Eu mesma. — Ela acelerou o ritmo, olhando para trás, e pude ver que Lucci não estava mais atrás de mim, provavelmente tinha ficado bem para trás. — Escuta Blaine não tenho muito tempo aqui no seu corpo. Ajude Lucci. Pergunte para ele sobre as Relíquias, e não segure seus desejos. Eu dei um presente para vocês agora, um sempre saberá...
Um baque repentino me trouxe de volta ao comando do meu corpo. Senti a presença da deusa se afastar enquanto me chocava com algo enorme que surgira repentinamente na frente, como se saísse diretamente das sombras do chão. Não percebi o que era, mas cedeu ao choque do meu corpo, e senti me embolei com aquilo quando começamos a rolar pela rua de cascalhos que agora descia, de modo que me machucou levemente, mas acabei achando meio divertido. Percebi, enquanto rodava, que a presença de Lux me deixara como se eu estivesse bêbado quando ela partiu.
Quando finalmente parei de rolar, eu estava sobre a coisa em que batera. Não foi pequena a surpresa que eu senti quando balancei minha cabeça, tentando afastar minha sensação de tontura, e vi que estava deitado sobre Bartholomew Lucci, que me encarava com os olhos verdes furiosos. O álcool em minha mente me fez sorrir com aquilo.
— Deuses, como você foi parar aí? — Falei rindo, e percebi minha voz alterada pelo álcool que não bebera, mas nem liguei. Estava com vontade de beijar o Lucci, e apoiei minhas mãos em seu peito, apertando a sua camisa.
— O que... Mas que infernos aconteceu com você? — Ele segurou minha cabeça com as mãos grandes, de forma gentil e senti uma tontura repentina. — Por um momento você ficou com os olhos cor de rosa e seus cabelos pareciam...
Dei um sorriso, o imitando, e agarrando sua cabeça com as mãos. Caramba, aquele homem era bonito, e aqueles olhos misteriosos me deixavam quente.
— Eu fui possuído por Lux. — Falei com toda a honestidade de embriagado que sentia. — Ela disse que nos deu um presente. — Sorri, satisfeito.
Os olhos de Bartholomew se arregalaram, e eu ri, balançando a cabeça para me livrar de suas mãos grandes.
— O que? E ela disse mais alguma coisa? — Ele perguntou, parecendo subitamente interessado. Eu afaguei de forma atrapalhada seu rosto barbado, com uma risadinha. Aquilo estava sendo divertido, dessa vez quem queria saber as coisas era ele, e não eu.
— Disse para eu perguntar sobre as Relíquias. — Repeti o que a deusa acabara de me falar. Dessa vez os olhos de Lucci se arregalaram ainda mais e ele delicadamente tentou me ajudar a me levantar. Não consegui perceber como, mas quando dei por mim, ele estava sentado no meio da rua, e eu estava sentado em seu colo, envolvendo sua cintura com as pernas, e com as mãos em seu ombro, ofegando e vermelho. Ele me encarava nos olhos, uma mão na minha cintura e a outra no meu rosto.
— Ainda não é hora para isso... — Ele me disse, parecendo sério, e afagando meu rosto com um polegar. Levei minha mão ao seu rosto também e limpei uma mancha de poeira da estrada na sua bochecha.
— Deuses sabem o que fazem. — Falei com convicção, e o encarei nos olhos. Lucci soltou um suspiro.
— Espere um pouco mais. Você está me parecendo extremamente fora de si. — Ele sorriu, e eu envolvi seu pescoço com meus braços, aproximando nossos rostos, com um sorriso divertido nos lábios. Eu estava achando aquilo tudo muito divertido.
— Eu estou, e provavelmente amanhã vou estar muito arrependido. — Verbalizei, e senti ele segurar minha cintura com as duas mãos. Queria beijá-lo, mas ele parecia um pouco mais maleável agora, então aproveitei para fazer minhas perguntas. — O que seu beijo faz com os outros? — Perguntei, próximo dos lábios dele. Ele ainda mascava goma, mas devia ser de alguma fruta que não a uva, pois tinha um cheiro mais cítrico.
Ele pareceu ponderar por um instante se devia falar, e levou uma das mãos ao meu cabelo, passando os dedos pelos fios de forma distraída. O bandido tinha essa mania, eu percebi.
— Faz com que eles vejam a morte, o terror, e sintam o maior medo de todos. — Ele comentou, mantendo a mão nos meus cabelos, e me encarando com os olhos sérios. — Pode matar também, mas não fiz isso com seu irmão.
— Não me sinto com medo quando te beijo. — Falei com simplicidade, sem querer pensar muito. Um dia eu ia me arrepender muito da minha língua solta. — Porque não funciona em mim?
— Porque seu beijo também faz alguma coisa. — Respondeu ligeiro, soltando meus cabelos e tocando meu rosto.
— O que?
— Não sei. — Ele me puxou mais pra perto, e nossos lábios ficaram a milímetros um do outro. — Você precisa beijar alguém normal para descobrir. — Sua mão se apertou mais na minha cintura. — Mas não quero você beijando outra pessoa.
— Como se você mandasse em mim... — Falei com um sorriso, e ele retribuiu. Foi quando colamos nossos lábios de forma lenta.
No fundo mais inalcançável da minha mente, senti minha sobriedade reclamar daquilo.
E eu tive a pequena noção que quando voltasse ao normal eu ia me arrepender profundamente daquilo, e amaldiçoar Lux por três vezes.
Notas finais
Beijos!
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