As Treze Relíquias.
7 Capítulo 7 - Bandidos Mentem.
Notas iniciais
Obrigada a todos os leitores que deixaram suas reviews! Fico sempre tão feliz com os novos leitores, e os antigos tão especiais! DE verdade, vocês moram no meu coração!
Capítulo dedicado a Meyilin, que está viciada na fic! Um beijo linda, obrigada pelas reviews!
Espero que gostem deste cap! Um pouco de Bartholomew gostosão haha.
Boa leitura!
Eu estava mastigando um dos pêssegos doces que Ronper havia deixado na carroça para o meu desjejum, quando ouvi o som de aço se chocando contra aço, numa melodia que soava conhecida aos meus ouvidos. Ergui minha cabeça, com uma pontada de curiosidade, engolindo o que tinha em minha boca. Aqueles eram sons de batalha?
Era a manhã do meu quinto dia de cárcere. Eu ainda não tinha saído daquela carroça nenhuma vez, com exceção aos chamados da natureza, e ainda me negava a me juntar a aqueles bandidos em suas noites de festança, por mais que estivesse cada vez me sentindo pior naquele cubículo de madeira. Minhas noites não estavam sendo muito agradáveis, muito menos meus dias de viagem. Bartholomew praticamente não aparecera mais nenhum dia depois do primeiro, ao que eu me sentia grato, porém um pouco receoso com o que estava mantendo ele tão ocupado, principalmente depois de descobrir que estávamos no dirigindo à Vila das Tortas. Minha preocupação era que Vila das Tortas era tão perto do Cálice, que já devíamos ter chegado no primeiro dia! Quando Hawe deixou escapar que estávamos indo para lá, eu me assustei e tentei fazer ele soltar os motivos, mas o sacristão se manteve em silêncio. Eu só podia supor que o bando tentava fazer um caminho mais comprido em direção à cidade, para que pudessem despistar qualquer um que nos seguisse.
Aliás, eu vinha passando bastante tempo com Hawe. Com ele e todos os outros também, já que sempre que entrávamos em movimento alguém vinha me fazer vigia na carroça, com medo que eu pudesse fazer qualquer besteira. Cada dia, dois ou três dos membros do grupo passava algumas horas na carroça comigo, e de alguma forma que eu não conseguia entender, eu passei a conhecer um pouco mais de cada um, apesar de evitar muita conversa com eles. Hawe era um dos que eu mais simpatizava, sempre tentando me ensinar uma oração ou um louvor, ou explicar algo sobre os deuses. Selena continuava irritante como sempre, e eu detestava os momentos que passávamos juntos, enquanto ela fazia de tudo para me provocar, mas às vezes, ela me arrancava sorrisos com todos os ditados populares que tinha na ponta da língua. Ronper tinha um jeito infantil e despreocupado, sempre falante, e sempre me trazia um fruto ou uma flor que ele capturara na beira da estrada, como se estivesse visitando uma amante, mesmo que eu percebesse apenas inocência no seu gesto. Dorian era um gigante meio simplório, e gostava de contar piadas antiquadas e dormir, roncando como uma tempestade. Corisseu era um dos mais calados, mas também sempre me trazia um petisco quando entrava, normalmente algum pedaço de carne salgada e um odre de vinho ou uma caneca de cerveja, apesar do olhar duro e os apelidos como “nobre cu de açúcar”.
E eu não estava na minha melhor situação. Eles cogitaram soltar minhas algemas no terceiro dia, mas depois que eu tentei fugir durante a noite, quando toda a barulheira da fogueira estava acabada, o bando abandonou a ideia. Hawe ainda insistia que eu tentasse me unir à eles, mas eu nunca o faria. Sabia que toda aquela simpatia era porque eles me queriam em seu bandinho, mas minha vontade ainda era tacar fogo em todos eles e torcer para nunca mais chover. De qualquer forma, eu estava com os cabelos cheios de nós e sujeira, precisando de um bom banho, e dolorido. Ainda não me acostumara com as algemas de metal, e minha rebeldia estava começando a enfraquecer depois de minhas três tentativas de fuga — noturnas, pois achei que quando todos dormissem eu conseguiria fugir, mas alguém sempre ficava de vigia — mal sucedidas, e depois de termos passado dias sem encontrar quase ninguém pela estrada que seguíamos.
O que me levou a dedução de que seguíamos alguma estrada que não a Estrada Fértil. Fazia sentido, pois não havíamos chegado em Vila das Tortas ainda, e porque, praticamente ninguém no reino seguia alguma outra estrada senão a Fértil, que era a melhos e mais larga, o que explicaria a falta de viajantes. E isso apenas me fazia com esperanças ainda menores.
De qualquer forma, aquele som de aço se chocando chamou a minha atenção, e eu nem percebi que me levantara do meio de minhas peles e caminhara em direção a saída da carroça. Não podiam ser sons de batalha, eu conseguia reconhecer quando espadas se chocavam em batalha, era uma música muito mais feroz e incontrolada, ponteada por gritos de guerra e urros. Não, aquilo só podia ser um treino.
E quando eu afastei o tecido grosseiro que servia de entrada para a carroça, senti o sol em minha cara e pulei para fora cuidadosamente, tomando cuidado para não me desequilibrar e dar com a cara do chão devido minhas algemas. Não vi ninguém por perto de primeira, mas quando olhei em volta, observando a área gramada na qual eles haviam decido acampar, encontrei as figuras que trocavam golpes a alguns metros dali.
A cena me deixou estático pelo longo momento em que durou. Ronper e Bartholomew lutavam acirradamente sob o sol claro da manhã, e um pouco mais distante pude reconhecer Hawe e Dorian também treinando. Os dois primeiros estavam empapados em suor, cada um empunhando espadas extremamente distintas, que se moviam como borrões nas mãos dos dois bandidos. Bartholomew tinha uma careta de esforço enquanto defendia um golpe com sua espada negra, e rapidamente lançava um ataque veloz contra o parceiro, enquanto Ronper se mantinha no mesmo ritmo com sua espada levemente alongada. Aquilo fazia meus treinos no pátio do Cálice, com Hirmo Goés, parecerem brincadeira de criança.
Eles pareciam deuses da batalha. Lucci usava apenas as calças pretas com as botinas de cano alto, deixando seu peitoral musculoso exposto. Senti uma pontada estranha no baixo ventre ao observar todos aqueles músculos trabalhando enquanto ele empunhava aquela espada tão peculiar, lançando golpes que me tiravam o fôlego devido a destreza com que eram desferidos. Seus braços deviam dar no mínimo dois dos meus, e os músculos de sua barriga eram definidos como uma escultura. A pele branca reluzia ao sol, e a barba e cabelos ruivos se assemelhavam a chamas enquanto ele se movia, tão veloz quando o próprio vento. Aquela espada negra não era mais fina? Provavelmente ele trocara de arma para o treino.
Ronper não ficava para trás, vestido todo de negro, com a camisa colada ao corpo devido o suor, os cabelos negros e soltos dançando como uma tempestade enquanto ele dançava aquela música mortal de aço contra aço. Seu olhar era concentrado como eu nunca vira, e seu corpo se movia com certa graça onde o corpo do ruivo se movia com ameaça. Lutavam de forma totalmente diferente, mas igualmente admirável. E mortal.
Gostaria de ter analisado os outros dois em seu treino também, mas meus olhos pareciam grudados na primeira batalha. Principalmente no Lucci, em toda aquela glória mortal, que eu sabia ser apenas um espectro de toda a imponência que ele devia demonstrar em batalhas reais. Estremeci apenas de me imaginar contra aquele homem, e entendi mais uma pouco do porque aquele bando era tão famoso e perigoso.
As espadas se chocaram no ar, acompanhadas por um pequeno rugido dos dois. Observei boquiaberto, enquanto ambos forçavam suas espadas um contra o outro, presas naquele beijo frio e amargo do aço, que trazia o sabor da morte. Olhei a careta de esforço de Ronper, e um fogo tomou conta de mim quando observei seu oponente com um sorriso selvagem no rosto, um fio de suor descendo de suas têmporas, e todos seus músculos retesados pelo esforço. Minhas faces esquentaram, e eu me forcei a desviar o olhar, sem sucesso, e com a mente nublada por razões que eu não compreendia. Senti o sangue me subir às faces, e quando os dois se separaram repentinamente, perdi o ar, surpreso.
— Já chega. — Disse Bartholomew, se afastando e abaixando a espada, de forma que a ponta quase tocou no chão. Ele limpou o suor da testa com a mão livre, enquanto Ronper soltava um suspiro cansado, começando a ofegar em seguida.
— Por que? — Falou em tom de indignação, mas não pareceu nem um pouco animado para retomar a luta, como se apenas quisesse mostrar que podia continuar com aquilo. — Eu ia chutar seu rabo.
— Temos um espectador. — O ruivo comentou, e se voltou para mim com aquele sorriso.
Ó Neréia, porque suas chamas estavam correndo no meu corpo?
Ronper se voltou para mim, com um olhar confuso, mas abriu um sorriso gigantesco em seguida, embainhando a espada.
— Blaine! — Gritou animado, e começou a caminhar na minha direção, enquanto Bartholomew permanecia no lugar, lançando um sorriso indecifrável na minha direção. Pude perceber que Hawe e Dorian também pararam seus golpes e se voltavam na minha direção. — O que foi, quer ir no banheiro? Água? — Perguntou o moreno assim que chegou perto o bastante para que eu pudesse sentir seu cheiro de suor.
— Não, nada... — Falei, ainda meio catatônico, tentando me concentrar nele enquanto sentia meu fogo arrefecer um pouco. — Os barulhos me espantaram, só isso.
— Ah sim. — Ele abriu aquele sorriso fácil e matreiro dele para mim. — Bom, não podemos perder o jeito não é. Afinal, somos criminosos, se não pudermos nos proteger, quem irá?
Anui com um gesto de cabeça, sem encontrar movimento na minha língua. A imagem de Bartholomew em luta não saia de minha mente, e atrapalhava meus pensamentos.
— Vejo que decidiu sair da toca, docinho. — A voz grossa me atingiu, e eu me assustei, vendo Bartholomew cruzar os braços alguns metros atrás de Ronper. Porra, ele precisava ser sempre tão silencioso quando se aproximava? — Por que milagre de Orfélia decidiu agraciar nossos olhos com sua figura? — Disse com um sorriso, parando ao lado do moreno.
— Por porra nenhuma. — Respondi, fechando minha cara. O cheiro de treino dele me atingiu junto com seu sorriso torto, e as chamas de Neréia se atiçaram em meu interior. — Preciso de água. — Inventei alguma razão para ter saído da carroça, querendo evitar mais piadinhas vindas daquele ruivo nojento.
— Ah, é mesmo, tem um rio aqui perto! — Ronper falou animado, se aproximando de mim. — Você pode até tomar um banho se quiser. Eu vou te levar lá.
— É, você tá mesmo precisando depois de ficar trancafiado naquela carroça mofada. — Bartholomew completou, e eu o encarei com ódio nos olhos. Olha quem estava falando, o homem que suava como um cavalo depois de uma cavalgada. — Deixa que eu levo ele Ronper, também preciso de um banho. Vou deixar ele esfregar as minhas costas.
Deuses, o que aquele homem era, um vidente que lia mentes? Eu abri minha boca para reclamar, mas antes que pudesse emitir um som senti a mão brusca do ruivo agarrava meus pulsos algemados e começar a me arrastar.
— Uma porra! — Gritei, já dando alguns passos junto com ele para longe do moreno, que soltou um pequeno riso. — Seu porco nojento, o inferno que eu vou deixar você...
— O que? E eu falei que ia fazer alguma coisa, meu nobrezinho doce? — Ele falou entre um sorriso, sem parar de andar. Pude ver Hawe e Dorian me encarando com curiosidade, enquanto nos distanciávamos. — Só se você quiser.
— Vá pro inferno! — Gritei, tentando me soltar, mas ele apenas gargalhou e continuou a me arrastar, até entrarmos na pequena mata que circulava a área gramada do acampamento.
=—=
Bartholomew Lucci me largou na beira do riacho como se soltasse um saco de feno. Senti meu ódio arder no peito e pensei em avançar contra ele, mas logo me lembrei de como ele era mais forte do que eu, e aquele treino que eu acabara de presenciar apenas reduzia minhas esperanças de vencê-lo em combate.
— Você se debate como um porco indo pro matadouro, deuses tenham piedade. — Ele falou num tom irritado, arrancando um embrulho do bolso e abrindo, me olhando pelo canto do olho enquanto arrancava algo de dentro dele e jogava na boca. Reconheci o cheiro de goma automaticamente. — Não é como se você não quisesse isso, eu sei com que frequência vocês nobres se lavam depois de qualquer esforço ridículo.
Fechei a cara para ele, arrumando a minha postura. O riacho corria ruidosamente atrás dele, com águas cristalinas que brilhavam como as lágrimas da própria Gotsha correndo sobre o leito de rochas coloridas. Pelo seu tamanho pequeno, devia ser algum afluente do Verde ou do Gozo, que corria despercebido pelas matas do Docestado até se juntar aos seus irmãos num dos grandes rios.
— Como espera que eu tome banho com essas algemas? — Questionei, enquanto o homem apenas me encarava com aqueles olhos esverdeados, que pareciam mais brilhantes junto àquela paisagem de água e mata. Senti um arrepio percorrer meu corpo quando ele avançou contra mim, colocando as mãos na gola da camisa puída que Ronper me arranjara.
— Assim. — Ele falou com simplicidade, e com um sorriso, rasgou o tecido com brusquidão, desnudando meu peito. Ofeguei em surpresa, e ele apenas riu, se afastando um passo. — Dá pra ficar relaxado um pouco? Você não acha que eu ia soltar as algemas né? Tenho medo que tente me afogar se eu fizer isso. Seria inútil com essa fraqueza toda, mas bem irritante.
— Filho da puta. — Rosnei, enquanto ele terminava de rasgar a minha camisa, jogando o tecido no chão.
— Minha mãe choraria se ouvisse quantas vezes você a xingou. — Falou com simplicidade, seu hálito adocicado de goma atingindo meu rosto. Ele se afastou definitivamente, e eu apenas observei. — Agora você cuida do resto. — Pude ver seus olhos descerem por meu peito desnudo, até as minhas calças largas. — Vou subir alguns metros para me banhar, eu sei que você ia ficar doido se eu oferecesse te ajudar com um banho. — Disse com um sorriso, e eu fechei mais a minha cara.
— Quem sabe Gotsha de afogue. — Rosnei, desejando que a deusa das águas realmente intercedesse por mim.
— Ela teria que fazer isso mesmo se quisesse lavar meus pecados. — Ele respondeu com simplicidade, começando a se afastar. — Ah, e nem pense em fugir. — Anunciou, se voltando para mim, alguns metros para frente. — Isso apenas resultaria em uma perseguição com nós dois nus, e em eu te agarrando no final, colando nossas peles expostas enquanto tento controlar sua fúria. — O sorriso irritante se alargou em seus lábios. — Não que eu tenha interesse nesse seu corpo magrelo.
Lucci se afastou definitivamente, com uma risada, e eu fechei minha face em indignação, sentindo meu rosto ferver. Filho da puta, desgraçado, nojento.
Por alguma razão, aquilo me enfezou mais do que eu gostaria. Minha beleza era relativamente famosa pelo Docestado, e eu prezava muito por ela, afinal, a nossa deusa era a deusa da beleza e do amor, e todos se importavam muito com as aparências nas terras doces. Eu tinha uma fama enorme com as mulheres, e também já tinha ouvido falar do interesse de alguns nobres na minha pessoa durante as festas e banquetes no Cálice. O filho de Lorde Bradson inclusive me enviara dezenas de convites para visitar Monte Poente, a cidade de seu pai. Ofender minhas aparências era algo que eu não aceitava bem.
O ruivo desaparecera, alguns metros pra cima do rio, em algum lugar que a mata me impedia de vê-lo. Ainda irritado, me livrei das calças com certa dificuldade devido as algemas, e entrei no riacho, sentindo a água fresca e limpa em meus pés de forma prazerosa e bem vinda naquele calor da manhã.
Pisei sobre as pedras arredondadas do leito, até chegar na parte mais profunda, onde as águas batiam no meu peito. Apesar do tamanho do riacho, a correnteza era relativamente forte, e precisei forçar minhas pernas para permanecer no lugar. Dei as costas para o lado em que Bartholomew se encontrava, e submergi minha cabeça, apreciando a sensação gélida da água no meu corpo quente, apagando o resto das chamas que ainda queimavam em meu interior.
Deixei a correnteza levar a sujeira do meu corpo, mais do que me esfreguei, já que não conseguia nada satisfatório com minhas mãos algemadas. Ainda assim, dei um jeito de passar os dedos por meus cabelos loiros, desfazendo os nós que pudessem estar ali. Tentei esvaziar minha mente de todas minhas preocupações e raiva, e deixei a natureza de Lux me dominar, tentando entrar em contato com a deusa. Sempre que fazia isso — e fizera algumas vezes durante aqueles dias — eu me sentia meio tolo, imaginando se aquilo era verdade ou se meu sequestro estava me deixando louco. As mensagens mentais que eu recebi poucas vezes, junto com as razões misteriosas que todos do bando alegavam por terem me sequestrado, eram coisas que eu não me permitia pensar muito, pois sempre acabava frustrado e irritado no final.
“O desejo de meu amoroso coração prevalecerá” ela dissera da última vez, naquela voz que se assemelhava a mistura de centena de vozes femininas. Eu ainda não entendera aquilo, e pelo jeito nunca entenderia. Na realidade, os deuses entravam mesmo em contato com nós mortais? Era algo que eu precisava perguntar a Hawe quando ele viesse me ensinar mais orações e louvores.
Após vários minutos, me peguei pensando em Bartholomew. Talvez, com sorte, ele se esquecesse de mim ali, e iria embora sem me buscar, e eu poderia passar o resto de meus dias na paz daquele riacho agradável. Mergulhei e peguei uma pedra do fundo do riacho, distraído, numa brincadeira sem sentido, e quando emergi abri minha mão, vendo uma grande pedra arredondada pelos anos de degaste pelas águas correntes, maior que a palma de minhas mãos, e negra como a noite, brilhando pela água e pelo sol. Negra como a noite em que Bartholomew apareceu em meu quarto, surgido das sombras, como o peregrino que era.
A imagem dele treinando invadiu minha mente novamente, e as chamas se acenderam em mim mais uma vez, pequenas, mas vorazes. Eu ainda não entendia aquilo, aquela sensação estranha que nublava minha mente sempre que eu o via, e aquele beijo descontrolado e cheio de desejo que eu dera nele alguns dias atrás. Essa era outra coisa que eu tentava não pensar muito sobre.
— Já está limpo? — A voz dele me atingiu, e eu dei um pequeno salto de surpresa, derrubando a pedra negra no fundo do riacho. Amaldiçoado fosse, ele conseguia manter silêncio até na água, o desgraçado.
Voltei-me para ele com o coração descompassado pelo susto, e a face irritada.
— Você precisa ser tão silencioso assim? — Deixei escapar, sem conter meu tom irritado. Ele me olhou com sincera surpresa, arqueando as sobrancelhas. Ainda estava desnudo, e a água que batia no meu peito mal atingia seu abdômen, mostrando o quanto ele era maior do que eu. Seus cabelos molhados reluziam ao sol de forma irreal, e eu contive a curiosidade de descer meus olhos para sua cintura e tentar olhar pela água cristalina para o resto de seu corpo.
— Desculpe. Velhos costumes de ladrão. — Falou, com um tom de sinceras desculpas, algo que eu nunca tinha ouvido de seus lábios. — Não quis te assustar.
Fechei a minha expressão e o encarei, sem encontrar palavras. Seus olhos verdes pareciam piscinas profundas, nos quais eu poderia me perder, e ele sustentava meu olhar com uma determinação indecifrável. O silêncio tenso se instalou entre nós por um longo instante, no qual a minha língua parecia ter se tornado morta.
Num movimento delicado, ele ergueu a mão da água e levou até meu rosto, se aproximando um pouco para tocar numa mecha encharcada do meu cabelo e afastá-la do meu rosto. Me encolhi com o contato, mas permiti que ele o fizesse por nenhuma razão que eu pudesse pensar, enquanto o fogo parecia se atiçar no meu interior.
— Desculpe por isso. — Ele falou, afastando a mão novamente. — Eu devia ter soltado suas algemas para você se lavar.
— Você devia me libertar. — Eu rosnei, minha irritação voltando como antes. Mas por algum motivo, quando ele deu um suspiro cansado, aquilo me atingiu.
— Eu gostaria. — Proclamou com um sorriso cansado, e seu tom de honestidade me atingiu de forma intensa. “Nunca confie num melão pela forma como ele retumba quando se bate nele” recordei o ditado popular do meu estado, sem acreditar totalmente no ruivo. — Sei que Hawe falou com você. Selena também. — Novamente, ele ergueu a mão e tocou meus cabelos, desta vez me arrancando uma lufada de ar quando se aproximou um passo. — Precisamos de você, Blaine.
Seus olhos me encararam, sérios, sem nenhum brilho de sarcasmo ou de superioridade, extremamente diferentes dos olhos escuros e amedrontadores que ele usava quando me intimidava. Nunca o ouvira dizer meu nome, e o modo como ele soou em sua boca fez meu corpo estremecer.
— Conte o que você querem. — Deixei escapar, sentindo meu corpo queimar novamente, e minha mente começar a nublar com aquela proximidade. Senti deus dedos se enfiarem em meus fios de forma gentil, me arrancando um arrepio. Aquele rio tão gélido agora parecia uma piscina termal.
Mais uma vez, um sorriso cansado tomou seu rosto.
— Nós não queremos nada. Nunca iríamos querer algo assim — Ele falou com simplicidade, soltando um pequeno riso amargurado com a fala, e se aproximando mais de mim, aquele hálito de goma invadindo minhas narinas. — Nós precisamos. Nós devemos. Temos uma missão, Blaine.
Eu não consegui me controlar, e ergui minhas mãos algemadas, tocando em seu peito musculoso com as pontas de meus dedos trêmulos, sem perceber o que fazia. Uma sensação estranha percorreu meu corpo.
— Conte-me. — Insisti, e senti sua outra mão deslizar para minha cintura, aproximando um pouco mais nossos corpos, enquanto meus pensamentos rodopiavam confusos e preguiçosos em minha mente. Eu queria saber. Eu queria entender porque estava ali, porque aquele homem exercia tanto poder sobre mim, e porque todas aquelas pessoas pareciam precisar de mim.
E eu queria entender porque meu corpo queimava daquela forma.
— Às vezes os deuses traçam caminhos tortuosos para nós mortais. — Disse em tom baixo, abaixando seu rosto e apertando os dedos em minha cintura. Meu corpo estremeceu, e eu ergui meu rosto para mais perto do dele, sem perceber.
— Hawe me disse que os deuses sabem bem o caminho que traçam para nós mortais. — Respondi, corrigindo sua fala. Eu não devia estar tão perto dele, eu não devia estar gostando tanto daquele cheiro de goma, e eu não devia estão tão quente. Deuses, eu estava sem controle novamente.
— Sacristãos mentem.
— Bandidos mentem. — Corrigi novamente, ouvindo meu coração retumbar em meus ouvidos, apagando qualquer outro som. — Vocês devem estar mentindo com essa história toda.— Era bem verdade que eu duvidava daquilo, porque nada mais parecia fazer sentido.
Senti os dedos grosseiros de Bartholomew afagarem meus cabelos molhados quando ele desceu sua mão para minha nuca.
— Eu menti. — Disse, inclinando levemente sua cabeça para o lado, aqueles olhos castanho-esverdeados indecifráveis, como todo o resto do homem.
— Quando? — Perguntei tolamente, sentindo o ar de meu pulmão começar a me fazer falta. Meus lábios formigavam, e quando ele abaixou a cabeça e colou os lábios quentes — tão quentes, deuses— na curva do meu pescoço, senti um gemido baixo escapar de minha boca, fechando meus olhos, e meus dedos arranharam seu peito, enquanto todo meu corpo reagia num pequeno espasmo de descontrole, as chamas me dominando novamente. Ele beijou meu pescoço, subindo até minha nuca, e parando próximo ao meu ouvido
— Quando disse que não tinha interesse no seu corpo. — Ele sussurrou no meu ouvido, me arrancando um suspiro com o hálito batendo na região sensível.
E quando ele se afastou, me encarando, ainda mantendo a proximidade de nossos corpos, eu pensei, em algum recanto do meu cérebro envolto naquele fogo estonteante, que eu devia espanca-lo até a morte e xingar toda a sua linhagem.
Mas o que eu falei foi a única coisa que eu nunca esperei.
— Eu já sabia.
E então ele tomou os meus lábios, e toda minha mente desabou, num turbilhão confuso e prazeroso, um furacão de chamas e luxúria, um descontrole emocional onde nenhuma emoção se proclamava maior do que o desejo.
Seus lábios eram fogo e suas mãos eram brasas, e quando eu abri meus lábios para permitir a entrada de sua língua, tudo aumentou em proporções inimagináveis. Meu corpo fervia como uma sopa, e eu investi contra ele na mesma intensidade que ele investiu contra mim, devorando seus lábios com uma fome desmedida, sentindo aquele gosto de goma que era tão bom quanto os céus. Meus dedos arranharam seu peito de forma descontrolada, e eu me estiquei para aumentar nosso contato, e quando ele me puxou contra si, colando nossos corpos, senti sua ereção se atingir no abdômen, enquanto a minha se enfurecia entre as minhas pernas. Nossas línguas dançavam como loucas, se tocando e explorando um ao outro. A mão na minha nuca subiu, agarrando meus cabelos loiros com força e me arrancando um gemido luxurioso, abafado por aqueles lábios quentes e doces.
“O prazer dos corpos é a minha alegria, Blaine” ouvi novamente a voz de Lux em minha mente, mas não me surpreendi, como se já a esperasse. A voz apenas trouxe consigo ainda mais desejo e tesão, e eu senti minhas mãos algemadas descerem pelos músculos de Bartholomew, sentindo aquele peitoral recém trabalhado no treino, o abdômen definido, e a pele estranhamente macia, quente como o inferno.
Gemi contido contra sua boca quando ele mordeu meu lábio inferior e deslizou sua mão pelas minhas costas, me arrancando um arrepio. Por todos os deuses, eu poderia morrer naquele beijo, nos lábios quentes daquele homem que eu tanto detestava.
E exatamente como da outra vez, assim que ele me soltou para eu nossos lábios pudessem buscar ar, minha mente voltou ao normal como se um balde d’água fosse jogado em minhas chamas. O riacho se tornou gélido novamente, minha ira se contorceu no meu interior, e minha expressão se tornou surpresa como a de uma donzela pedida em casamento por um cavaleiro desconhecido.
E Bartholomew também me encarava com um brilho de surpresa nos olhos, mas de forma muito mais contida.
Fiquei estático por um instante, sentindo aquela mudança repentina de sentimentos embrulhar meu estômago. Lucci se afastou de mim discretamente, ainda me encarando com aquele olhar confuso e surpreso. A fúria tomou conta de mim, e minha visão embaçou devido meu ódio contra o homem.
— MORRA! — Eu gritei, e avancei contra ele, pela primeira vez acertando seu rosto com as mãos fechadas, fazendo ele soltar um grunhido de dor e agarrar rapidamente meus pulsos com mãos de ferro. — Desgraçado, filho da puta! — Me debati da forma mais selvagem que pude, determinado a espanca-lo.
— Idiota. — Ele resmungou, cuspindo na água do riacho.
Minha fúria me dominava enquanto ele começou a me arrastar pelo riacho, para a beira. Uma fúria contra o homem, contra tudo que ele fazia comigo, contra os deuses e contra o mundo, incluindo a mim mesmo.
E principalmente contra ereção no meio das minhas pernas, que se tornou visível quando o ruivo me arrancou da água, sumindo em seguida dentro da mata de forma séria, me deixando ali, molhado, com a calça velha e larga e a camisa rasgada para vestir.
Notas finais
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