As Treze Relíquias.
2 Capítulo 2 - Ressaca.
Notas iniciais
Vocês são demais, meu Deus! Não esperava, de verdade, tantos reviews, me animaram demais! Obrigada a cada um de vocês, principalmente aqueles que vieram da F&D, minha outra fic. Obrigada a todos pelo apoio, os elogios e tudo o mais!
Está sendo super divertido escrever essa fic, criar um mundo novo é bem bacana hahaha. Tudo que fica meio confuso será explicado durante o andamento da fic, e quem não entender algo, me pergunte nas reviews! Ficarei satisfeita em responder.
Espero que gostem deste cap, e que o entendam... Tudo é real ok?
Muito obrigada!
Beijos!
Com o beijo repentino, soltei uma exclamação de surpresa, abafada pelos lábios do homem. Ele se pressionou mais contra meu corpo, a adaga fria contra meu pescoço, e invadiu a força a minha boca com sua língua quente e faminta. Tinha o sabor doce de uvas, com um toque suave de algo queimado no meio, e era refrescante. Certamente ele vinha mascando goma. Senti um arrepio percorrer meu corpo, e o encarei com os olhos abertos em surpresa.
Logo a surpresa foi substituída pela raiva. Merda, quem ele achava que era para invadir meus aposentos e dizer tanta merda de uma só vez? Bartholomew Lucci estava morto pelas minhas mãos, e de forma alguma aquela poderia ser a mesma pessoa. O Lucci que eu matei era um homem magro, de feições encovadas e marcadas pela idade, e cabelos negros como piche. Aquele homem não se parecia em nada com ele, e o mais importante, estava vivo. E o atrevido ainda por cima me beijava.
Segurei minha vontade de morder sua língua quando ele desceu uma mão para minha cintura e apertou de forma desejosa, ciente de que se fizesse isso, a adaga fria em meu pescoço teria altas possibilidades de se provocar um corte na minha goela. Aquele devia ser algum pervertido louco, só podia. Eu arrancaria suas tripas assim que alcançasse uma espada, maldito abusado caluniador. Como ele conseguira invadir o Cálice com tanta facilidade e escalar até meus aposentos? Só aquilo já era um crime passível de morte. A guarda certamente estava adormecida novamente, era difícil encontrar bons guardas naquele tempo, e pelo jeito os nossos não eram bons.
Senti sua barba roçar em minhas faces enquanto ele continuava a me beijar durante longos minutos. Tudo o que fiz foi esperar sem reação, o coração batendo com fúria e medo da lâmina encostada na minha garganta. Ele manteve o contato por vários instantes, e eu me mantive sem reação, sem corresponder ao beijo quente ou as carícias em minha cintura, apenas sentindo aquele gosto doce e molhado de goma. Poderia até ser um beijo agradável, tirando o fato de ele ser um homem barbado, desconhecido, invasor de minhas acomodações, e com uma adaga na minha garganta.
Ou seja, simplesmente, poderia ser agradável se não estivesse acontecendo.
Quando ele finalmente liberou meus lábios, eu fechei a boca com força, o encarando com ódio, decidido à não permitir que ele a invadisse novamente. Enchi meus pulmões para gritar, mas ele pressionou a lâmina em meu pescoço como um aviso.
— Já falei nobre, um ruído e eu te mato. — Ele verbalizou a mensagem silenciosa da lâmina, mantendo seu rosto próximo do meu. Seu hálito também tinha o cheiro de goma, e tive certeza que ele andava mascando a substância, e que ela tinha boa qualidade, provavelmente algo produzido no meu próprio estado, famoso pela melhor goma de Jeera. Em silêncio, ele me encarou por um instante, os olhos brilhando com alguma expectativa que eu não pude identificar. O que ele esperava, que eu agradecesse ao beijo?
Por algum motivo, seu olhar despertou um medo em mim. O encarei, esperando sua próxima ação, ele podia fazer qualquer coisa. Esperei sua reação, com a mesma expectativa que ele me olhava.
O ruivo estreitou os olhos, me analisando, até comprimir os lábios, parecendo satisfeito com meu silêncio, e se afastou repentinamente, liberando minha garganta da presença opressora da adaga. Sua postura mudou totalmente, agora ele parecia relaxado e apressado, como se eu não estivesse mais ali. Deu-me as costas e guardou a lâmina, indo até minha cama, começando a revirá-la, sem olhar para mim em nenhum instante. Por todos os deuses, ele era louco com certeza.
Pensei em me mover, mas novamente me lembrei da velocidade com que ele entrara no quarto e me imobilizara. Certamente não seria seguro, antes que eu fizesse algo, estaria novamente com o aço na garganta. Minha espada estava do lado oposto do quarto, e eu não tinha mais nenhuma arma próxima, então engoli meus instintos e me mantive onde estava, lançando uma pequena prece aos deuses para que ele fosse atingido por alguma força celestial, e sumisse da minha frente.
— Garoto, onde estão as posses que tomou em sua missão? — Ele perguntou enquanto ia até meu armário e abria, ainda sem me olhar. Seu tom de voz era praticamente uma ordem, diferente de antes, uma ordem vazia, e não carregada de ameaças. Ergui uma sobrancelha, surpreso por ele ter conhecimento daquilo. Percebi que não lidava com qualquer um, se ele tinha conhecimento da missão que eu e meu irmão tomamos tanto cuidado para ocultar.
— Como sabe disso? — Perguntei, irritado, e meu tom de voz saiu carregado de escárnio. Tentei relaxar meu corpo, mas percebi que tremia.
O ruivo grandalhão se voltou para mim repentinamente, me encarando pela primeira vez desde o beijo. Enojado, juntei saliva e cuspi no chão, me livrando do sabor enjoativo da Goma.
Ele parecia sinceramente surpreso ao me ver ali, e minhas suposições sobre sua possível loucura apenas se tornaram maiores. Estreitando os olhos em confusão, ele soltou as roupas que tinha arrancado do armário, e percebi que ele estava no mínimo, assombrado.
— O que disse? — Questionou novamente, a face atônita, me encarando. No fundo de seu olhar, eu percebi uma faísca de medo.
Minha expressão se fechou ainda mais, e meu corpo estremeceu sob o olhar dele.
— Seu caluniador nojento. — Xinguei, carregando minha voz com veneno. — O que você está fazendo no Cálice, seu...
Calei-me quando o vi puxar novamente a adaga e avançar contra mim, num movimento repentino. Antes que pudesse gritar ou fazer qualquer outra coisa, já me via prensado novamente na parede, sob seu olhar, dessa vez carregado de fúria.
— Você... — Ele sussurrou, como se acabasse de me ver ali. — Maldito, não pode ser. — O homem parecia assustado, falando mais consigo mesmo do que comigo, com olhos vazios e a expressão selvagem.
— O que merda você quer? — Vociferei, erguendo meu rosto para me afastar da lâmina fria em meu pescoço novamente.
Sem me ouvir, ele novamente avançou contra mim, dessa vez apenas colando nossos lábios de forma rápida e forte, e se afastou novamente, seu olhar sério direto nos meus. Estremeci novamente sob aquele olhar, e percebi a chama de ódio no fundo deles novamente.
— Ah não... — Ele rosnou, colando novamente meus lábios, ignorando minhas exclamações silenciosas contra os lábios dele. — Mas que merda... — Disse, nos separando mais uma vez. — Você...
— Eu o que? — Perguntei alto, cheio de ódio. Quem raios era aquela pessoa?
— Ah, deuses... — Ele gemeu, e se afastou de mim, levando uma mão à cabeça. O observei enquanto ele andava contra a parede e desferia um soco. Dessa vez, ele parecia realmente irritado. — Merda! — Exclamou, começando a negar com a cabeça. Certo, ele era louco.
Enchi meus pulmões para gritar, dessa vez sem pensar nele ou sua maldita adaga. O ódio me deixou cego, mas antes de berrar, uma outra voz baixa invadiu o quarto.
— Bartô, o que está fazendo? Temos pouco tempo até a guarda voltar ao normal! — A voz exasperada invadiu o cômodo, e eu procurei sua origem, visualizando uma nova silhueta na janela. Eu devia ter imaginado que ele não conseguiria invadir o Cálice sozinho, mas a ideia nem passara pela minha cabeça até ver aquela pessoa ali. Malditos sejam os deuses, estávamos no topo de uma torre, não devia ser tão fácil de escalar.
A figura na janela estava na mesma postura que o primeiro invasor, porém era uma visão menos assustadora. Ele era pequeno e magro, com uma aparência mais veloz. Os cabelos brilhavam negros, escorrendo lisos até sua cintura, e ele tinha a expressão séria e repreensiva.
O grandalhão ruivo se voltou para ele, parecendo surpreso novamente. Num instante, retomou sua postura, e me encarando uma última vez de forma incrédula, virou-se para o homem da janela.
— Malditos sejam os deuses, é ele Ronper. Droga, é ele. — Repetiu irritado, lançando sua adaga contra meu armário, onde ela se fincou de forma perfeita. O medo preencheu meu peito, aquele homem era louco, e não havia nada mais perigoso que um homem alienado e armado.
O homem da janela se voltou para mim com olhos desconfiados. Quando eu engoli em seco, assustado, ele arregalou o olhar, tomado pela surpresa.
— Deuses... — Ele murmurou, e o ruivo se aproximou dele.
— Precisamos sumir daqui, agora. — Disse, num tom desesperado. — Precisamos de um novo plano, maldição. Temos de ir agora, se não conseguirmos escapar daqui está tudo arruinado...
— Que merda vocês tão dizendo? — Eu gritei, dessa vez esperando por socorro. Com uma expressão surpresa, o homem me encarou novamente, novamente parecendo ter esquecido que eu era um ser vivo ali.
— Merda, vamos embora. — O moreno de cabelos longos, Ronper, invadiu o quarto velozmente, puxando uma lâmina negra de sua cintura, e avançando contra mim. Encarei a lâmina, e a vi brilhar, dourada como ouro, mas ainda mais reluzente, como se liberasse uma luz própria. Me encantei com a beleza da arma por um instante, era algo que eu nunca vira. Tinha um brilho mágico, incomum, e emanava perigo, porém de uma forma atrativa. Nós, humanos, sempre nos atraímos pelo arriscado, pensei enquanto ele avançava, mas logo o medo voltou contra mim como um soco gélido.
Antes que eu pudesse gritar, me mover ou mesmo pensar, ele enfiou a lâmina no meu abdômen, até o cabo. Ela pareceu brilhar, e eu não senti nenhuma dor, apenas o desespero da minha morte eminente. Minhas pernas pareceram perder as forças, e quando ele se afastou para trás, a adaga em mãos, e a observei s desfazer em partículas douradas, como areia soprada pelo vento.
Quando meus joelhos cederam e eu caí, sem nenhuma energia em meu corpo, a última coisa que eu vi foram os olhos castanhos do homem barbado, que ainda me olhavam com certa desconfiança e surpresa. E em algum lugar no fundo da minha consciência, tive uma certeza infundada e sem razão aparente, de que ele era verdadeiramente Bartholomew Lucci.
Foi quando desmaiei.
=—=
Acordei em minha cama, com o sabor azedo do vinho adormecido em minha boca, e uma dor de cabeça alucinante. Perguntei-me se aquilo seria um dos sintomas da tão falada ressaca, a qual eu nunca vivenciara. Sentei-me com dificuldade na cama, sentindo a cabeça rodopiar.
“Deuses, que sonho estranho...” pensei, comprimindo os olhos, confuso. Tentei me lembrar do que sonhara exatamente, mas não conseguia me lembrar. Me esforcei mais, mas apenas me recordei de uma sensação de medo e confusão, e um sabor forte de goma. Estranho. Quando respirei fundo, meu abdômen deu uma pontada forte, e eu me livrei das peles que me cobriam, encarando meu corpo tórax sem nenhuma marca. Estranhei, doía como se um cavalo tivesse me pisoteado naquele ponto específico. Após alguns segundos pressionando o local dolorido em busca de algum sinal da razão da dor, decidi tomar por algum resultado da festança de onde, da qual eu lembrava pouco.
Por Lux, se aquilo era uma ressaca, abençoada fosse a minha linhagem por sofrer pouco com aquela sensação. Me joguei novamente nos colchões, ignorando o sol que já ia alto nos céus, e me enrolei nas peles, esperando que o sono chegasse. Não estava disposto o bastante para retornar à minha rotina no Cálice, que envolvia meus estudos e treinos, e a dor no meu abdômen, agora que eu estava ciente dela, latejava juntamente com a minha cabeça.
Porém meu descanso retomado durou pouco, levado dos meus braços quando eu ouvi minha porta ser aberta repentinamente, e passos rápidos adentrarem os aposentos. Apertei mais os olhos, os barulhos incomodando minha mente ferida pelo álcool.
— Blaine. — A voz me chamou, repreensiva, e eu fiz uma careta ao reconhecer Lortan como o dono dela. Maldito fosse, ele ia continuar me importunando? — Blaine. — Ele insistiu, enquanto eu fingia estar profundamente adormecido. — Blaine, o almoço está servido, e o pai disse que se não levantar agora ele vai vir aqui e despejar todo o vinho do Docestado em sua cabeça e chutar seu rabo até as Terras do Inverno.
Minha atuação foi para a latrina quando ele terminou de dizer aquilo, e eu soltei um risinho abafado ao imaginar meu pai dizendo aquilo, batendo na mesa e rindo. Meu irmão soltou um suspiro exasperado, e eu abri meus olhos, me sentando com dificuldade, mas um sorrisinho nos lábios, a despeito de minhas dores.
— Até as Terras do Inverno? — Questionei em tom brincalhão, mas ele apenas suspirou novamente.
— Você é mesmo uma desgraça. — Disse, cruzando os braços. Estava muito bonito hoje, vestindo um gibão verde e limpo, com detalhes em púrpuro, e um par de luvas de couro tingidas de roxo, os cabelos ruivos brilhando, limpos e escovados. A visão dos cabelos vermelhos me trouxe uma lembrança estranha, mas eu não consegui me lembrar bem. — Até que horas ficou no banquete? Até agora?
Cocei meus olhos, buscando energia para me levantar, mas encontrei apenas o retumbar de minha dor de cabeça.
— Não tenho certeza. — Comentei, comprimindo meus olhos com as duas mãos. — Acho que estou com ressaca. — Disse, após alguns instantes, liberando minha cabeça da pressão e o encarando. Lortan me olhava com estranheza.
— Com o que? — Ele perguntou, erguendo uma sobrancelha vermelha.
— Ressaca. — Repeti, o olhando como se ele fosse retardado. Percebi que ele não reconhecia a palavra, provavelmente porque também nunca tivera uma. — Aquela coisa que os outros sentem após noites de bebedeira.
Seus olhos foram tomados por surpresa, e eu quase dei risada.
— Deuses, o que você fez ontem? — Ele questionou, ainda com a expressão surpresa, mas eu apenas ri fracamente, me forçando a ficar de pé e me dirigir até a bacia de água fria que algum serviçal trouxera para minha higiene matinal. Lavei meu rosto na água gélida, e senti que era agradavelmente bom, e melhorava um pouco minha cabeça. Lortan continuava a me encarar com surpresa nos olhos, como se eu tivesse me tornado um desconhecido, ou algo assim. Porém, quando eu me levantei, pegando uma toalha de linho ao lado da bacia, sua expressão tornou a se fechar na carranca conhecida. — Bem, que seja. Desça já pro salão, antes que papai realmente suba aqui.
Eu apenas anui, sentindo meu abdômen dolorido, e sem encontrar energia para discutir. Ele abandonou o aposento com passos duros, e eu comecei o cansativo processo de me arrumar para o almoço.
Limpei meus dentes com a pasta preparada por Hirmo Samião, uma mistura refrescantes de ervas, que segundo ele, prevenia os dentes de apodrecerem. Depois limpei a mistura de minha boca com um copo de água com limão, que também fazia parte do processo de higiene bucal, e vesti um gibão simples, roxo e verde, sem muitos adornos. Passei os dedos por meus cabelos loiros, desfazendo os nós formados durante a noite, e saí de meus aposentos, ainda atormentado por minhas dores.
— Bom dia Hirmo Joseph. — Cumprimentei o homem miúdo vestido em suas vestes amarelas. Ele deu um sorriso para mim, os dentes amarelos, mas todos presentes.
— Quer dizer boa tarde, jovem senhor. — Ele disse, parando no corredor. Era o Hirmo das Letras e Educação, e cuidava de ensinar as crianças do castelo a ler e aprender o básico de cálculo e outros assuntos. Todos os Hirmos da educação se vestiam de amarelo, o que dera ao velho Joseph o apelido de Mestre-Gema. — Seu pai parecia furioso durante o almoço. — Seu sorriso aumentou, irônico, me fazendo sorrir também.
— Ah sim. E o quanto ele gargalhou ao me insultar? — Perguntei, cruzando os braços.
— Bastante. — O velho sorriu divertido, e eu ri, me despedindo e seguindo para o grande salão.
Quando entrei nos aposentos, o almoço já estava pelo menos no meio, e meu pai gargalhava ao ouvir alguma história contada por Hirmo Clare, nosso Hirmo dos Conhecimentos Populares. Até mamãe tinha um sorriso nos lábios ao ouvir a história, e minhas irmãs riam de forma animada. Acho que mesmo Lortan tinha uma expressão simpática.
— Blaine! — Meu pai rugiu ao me ver, com um sorriso no rosto barbado. — Seu lixo nascido das minhas bolas, venha já almoçar! — Terminou, gargalhando, e tomando um longo gole de vinho. Minha mãe revirou os olhos, mas não se proclamou. Cumprimentei educadamente a todos, e me sentei, sendo servido por uma criada com um prato cheio de carne de javali com molho de vinho. Dificilmente algum prato não continha álcool no Docestado.
Comi, inicialmente com uma lentidão, ainda incomodado por minha ressaca. Logo percebi que estava faminto, e devorei tudo com vontade, saboreando bem os sabores da carne suculenta e bem temperada. Hirmo Clare continuava suas histórias animadas, era um dos mais queridos de meu pai. Era um homem jovem, com os cabelos negros, e uma cicatriz na face direita. Sempre tinha uma boa história para contar e animar a mesa, era o mal dos Hirmos Populares, cuja função era acumular conhecimento popular e se manter informado das novidades do reino. Vestia sua túnica de retalhos, e comia com animação enquanto falava.
Outros Hirmos se sentavam conosco, mas a maioria preferia receber suas refeições em seus aposentos. Também estavam na mesa alguns homens de confiança de meu pai: o Capitão da Guarda, Merry, e outros homens importantes do castelo. Como eu disse, papai amava festas, e refeições sem uma mesa cheia era considerado um insulto no Cálice.
— O que aconteceu à você jovem senhor? — Perguntou Hirma Shelen, a Hirma da Alquimia, que se sentava ao meu lado. — Não é de seu costume dormir até tão tarde, mesmo após uma comemoração. — Ela disse, com um sorriso. Era uma mulher bonita, de cabelos loiros e olhos verdes como esmeraldas, já com seus 35 anos, mas cheia de um chame. Sempre tive algumas fantasias com ela, porém sua função lhe prometia ao celibato, e eu nunca tivera chances.
Engoli um pedaço grande da carne antes de responder.
— Ah, acho que a festa de ontem foi demais até pra mim. — Sorri, e ela deu um risinho, voltando-se pro seu prato.
— Deve ter sido uma festa incrível então...
A refeição foi bem divertida, e quanto todos estavam satisfeitos, meu pai nos enviou para nossas tarefas normais. Todos saíram do salão, com exceção do meu próprio pai e minha mãe. Quando me levantei para sair, ele murmurava algo para ela, com um sorriso em lábios, e a passava um braço grande em volta de mamãe, que ria. Saí com um sorriso, era sempre agradável ver os dois daquela forma, um casamento arranjado que dera certo, entre tantos que deram errado, mesmo os dois sendo tão diferentes.
Suspirei, saindo pro castelo. Sabia que tinha perdido as lições de batalha com Hirmo Goés, nosso Hirmo das Artes de Batalha, e agora tinha a tarde toda para mim. A dor de cabeça melhorara bem, mas agora que me levantara, a dor no abdômen retornara, ainda intensa. Decidi procurar por Hirmo Samião, o Hirmo da Medicina, que devia ter algum remédio que melhorasse a dor.
Foi quando eu me virei para tomar o rumo dos aposentos do Hirmo, ainda na entrada do Grande Salão, que meus joelhos cederam.
A dor em meu abdômen intensificou uma centena de vezes, até não ser apenas aquele ponto que doía, mas sim todo o meu corpo, como se eu tivesse sido mergulhado num mar de adagas e chamas, sendo perfurado por mil lâminas, e queimado por um inferno de chamas. Todo meu corpo se contraiu em dor, e eu me contorci, caindo deitado, sem perceber o grito desesperado que saia de minha garganta. Minha visão se embaçou devido a dor, e eu levei minhas mãos inconscientemente para meu rosto, arranhando a pele de forma desesperada. Meu coração retumbava em meus ouvidos, e eu podia senti-lo queimar.
Percebi apenas levemente um servo que passava pelo corredor correr até mim, gritando assustado palavras que eu não compreendi. Uma voz nítida soou em minha cabeça:
“Meu nome é Bartholomew Lucci”
Meu peito foi tomado de desespero no mesmo instante, e senti minha garganta doer com meus berros intensos, e minha coluna se arquear completamente. Minha cabeça parecia que seria rompida. Em meio aos berros, vi enquanto uma pequena multidão se agrupava em minha volta, e senti alguém segurar minha cabeça, mas a dor não me deixou.
Por fim, percebi que perdia a consciência, e quando vi uma silhueta enorme abrir caminho através das pessoas que me cercavam, com uma barba e cabelos ruivos, meu peito quase explodiu num desespero desenfreado, enquanto minha mente era repleta por imagens entranhas de um homem ruivo com o rosto oculto em sombras, uma figura negra, e uma adaga dourada.
— Blaine! O que está acontecendo? O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM O MEU FILHO?! — O berro enorme me atingiu, e só então, no limiar da minha consciência, percebi que era meu pai. Tentei manter meus olhos abertos quando ele se inclinou em cima de mim, e vi seu rosto assustado diante do meu, a sua imagem embaçada pela dor, e ao seu lado, uma figura, tão nítida quanto uma pintura, me encarando com olhos piedosos.
Uma mulher de cabelos mais negros do que a noite, olhos de um cor-de-rosa brilhante, pele branca como mármore, e lábios que clamavam para serem beijados. Ela estava nua, e pude ver o seio mais perfeito que já vira em toda minha existência, firme, rosado e delicado. Só sua imagem já exalava luxúria, e a visão de tamanha beleza amenizou, ainda que levemente a minha dor.
Não conseguia ouvir o que meu pai gritava, me chacoalhando de leve, mas as palavras dela me atingiram com perfeição.
“Durma, Blaine.” Disse, num tom doce, sem mover os lábios, numa voz que parecia a mistura de mil vozes em minha cabeça.
E então, mergulhei numa escuridão infindável.
=—=
— Ele está em perfeito estado, pelo menos até onde eu pude ver. — Escutei a voz distante dizer. Me parecia uma voz familiar, mas não pude reconhece-la. — Por enquanto dorme, não sei dizer por quanto tempo mais.
— Deuses sejam bondosos... — Pude ouvir outra voz murmurar, e um pequeno soluço vindo de outra pessoa. Tudo me parecia muito conhecido, mas distante, tão distante...
— Não é hora para isso, Blaine. — Uma voz soou em minha mente, muito mais próxima. Na escuridão da minha visão, vi surgir lentamente uma luz arroxeada. Me concentrei mais, e pude ver que ela aumentava, se aproximando de mim.
“Quem é você?” perguntei, mas nenhuma palavra saiu de minha boca, apenas soou em minha mente.
— Eu sou você, Blaine Becklan, filho de Malbec Becklan, gerado no ventre de Dia Becklan. — A voz voltou a dizer, mais próxima, e eu também a reconheci. A luz aumentou, e pude ver que era a mulher que estava ao lado de meu pai no momento do meu ataque. Ela caminhava, nua, sua beleza estonteante envolvida num brilho arroxeado que parecia emanar de sua pele. — Eu sou seu sangue e tua carne, sou sua mãe e também seu pai. Sou aquela que caminhou por essas terras, que gerou o primeiro Becklan, e que cuida da linhagem dos Governadores Doces até hoje. — Falou, sua voz me atingindo, mas sem mover os lábios.
Ela já estava próxima o bastante para que eu visse seu sorriso carinhoso. Ainda assim, por mais que sua expressão fosse doce, seu olhar trazia uma luxúria quase palpável, um brilho faminto nos orbes rosas, e pude ver que sua intimidade estava rosada e molhada. Um desejo selvagem brotou em meu corpo quando ela abriu mais seu sorriso, e seus cabelos se tornaram vermelhos como o sol poente, assim como os cabelos de meu pai.
“Você é...” tentei dizer, mas quando ela aumentou mais o sorriso, não consegui terminar.
— Sim. Eu sou Lux. E agora meu amor, levante-se.— Continuou a dizer, sem mover a boca. Ela sorriu, e eu pude ver seus dentes perfeitamente brancos, mas seu sorriso tinha mais dentes do que um sorriso humano. — Eu sou você. — Repetiu, e de repente, se transformou num redemoinho de luz roxa, desaparecendo com um estalo.
Meus olhos abriram-se repentinamente, e eu encarava o teto branco dos aposentos de Hirmo Samião.
— Jovem senhor? — Ouvi a voz dele me atingir, surpresa. — Lorde Malbec! — Chamou, num tom de emergência.
— Acordou? — A voz de meu pai chegou até mim, e eu me virei com dificuldade, ainda confuso com toda aquela situação. Vi meu pai se levantando de um banco próximo da cama, seu grandes olhos violetas cheios de lágrimas. Minha mãe me encarava, sentada, com a mão sobre a boca, e as faces molhadas. — Blaine!
“Eu sou Lux. Eu sou você.” Escutei a voz novamente em minha mente, e um arrepio percorreu meu corpo, enquanto meu pai se aproximava, um sorriso gigantesco em lábios, soltando uma série de agradecimentos aos deuses.
— Oi pai... — Eu murmurei fracamente, tentando dar um sorriso para acalmá-lo, sentindo meu corpo cansado e dolorido, e meu estômago parecia bem alterado e sensível.
“Eu sou você.” Novamente a voz soou em minha mente.
“Eu sou você.”
Notas finais
Muito obrigada!
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