As Treze Relíquias.
1 Capítulo 1 - Bartholomew Lucci.
Notas iniciais
Sim, eu fui uma má autora, e postei essa fic na mocosa, escondida. Desculpem! Prometo que esta fic não atrapalhará em nada o andamento de F&D, darei conta de tudo!
Enfim, em relação à esta fic, é bem diferente do que eu costumo escrever na temática YAOI. Na verdade, todo o reino e o enredo da fic, eu já tinha planejado, só precisei adaptar para inserir o romance homossexual. E sabe, eu acho que ficou bom.
Espero que todos gostem!
Boa leitura!
Batuquei meus dedos sobre a mesa de forma despreocupada, apreciando o som discreto causado pelas minhas unhas chocando-se contra a madeira escura e polida do tampo. Observei pela janela da carruagem a paisagem externa, vendo árvores frondosas que cercavam a Estrada Fértil, os cavaleiros armados que formavam a guarda da nossa carruagem, e o céu claro da manhã. Um sorriso brotou em meus lábios quando vi algumas crianças correrem ao lado da carruagem, todas sujas de poeira e maltrapilhas, mas com sorrisos no rosto, acenando alegres. Respondi o aceno de uma garotinha de cabelos desgrenhados e bem magrelinha.
— Blaine, por obséquio, poderia ao menos fingir interesse pelo assunto? — A voz do meu irmão me atingiu, trazendo-me de volta para a realidade. Voltei meus olhos para Lortan, que me encarava de forma severa e dura. Era um olhar assustador, mas não me intimidei, afinal, vivia há 17 anos sob aquele olhar, e a muito me acostumara a ele. Tentei disfarçar minha distração, mas acho que não foi muito efetivo. Ele suspirou de forma impaciente. — Papai só podia estar louco quando mandou você comigo. — Meu irmão levou a mão ao rosto, parecendo cansado.
Senti minha irritação despontar.
— Não me venha com essa, sem minha presença nunca teria conseguido. — Respondi cruzando os braços e o encarando com seriedade. Nunca fui muito de ficar ouvindo calado, acho que estava no meu sangue. — Você não tem um pingo de diplomacia nesse seu sangue ralo. — Falei irritado. Os olhos de Lortan se tornaram tão duros que eu me surpreendi que eles não caíssem de suas órbitas e rolassem pela mesa, transformados em rocha.
— Se considera diplomacia enfiar uma espada através do peito de um criminoso rendido... — Ele respondeu, com o tom ácido.
Revirei os olhos. Lortan era meu irmão mais velho, com 20 anos de idade. Era o legítimo herdeiro da família Becklan, e eu acho que isso mexeu com a cabeça dele demais, por isso ele sempre fora um jovem desencaixado, com os ideais de honra e responsabilidade gravados profundamente em sua personalidade, e o peso de um governo futuro sobre os ombros. Às vezes eu via em seus olhos que ele não queria aquilo, e ficava com pena do meu irmão. Mas a maioria do tempo eu só via a prepotência maldita dele, e aí eu ficava com uma raiva. Coisa de irmão, de qualquer forma.
Enfim, dizer que Lortan não tinha diplomacia era uma mentira tão grande quanto dizer que o céu não era azul. Ele fora criado e educado para ser Governador, e por resultado, diplomata. Eu, como seu irmão, fora educado para ser seu conselheiro, amigo, e companheiro de governo, e também aprendera a ser um diplomata por isso. E, infelizmente para o meu irmão, eu exercia as funções sociais com muito mais habilidade do que ele, e isso o tirava do sério.
As pessoas costumavam dizer que meu irmão nascera com a aparência do meu pai, e a personalidade da minha mãe, enquanto eu nascera com a aparência da minha mãe, e a personalidade do meu pai. Lortan tinha os cabelos ruivos e ondulados dos Becklan , o rosto forte e a pele morena, um corpo musculoso e grande, além dos olhos violetas que eram a marca da família. Olhando para ele, realmente, era inegável que ele era filho de Lord Malbec Becklan. Eu, ao contrário, puxara totalmente para minha mãe, uma Abdula do Deserto Branco: cabelos de um loiro-prateado, lisos e longos, traços mais suaves, pele branca e um corpo mais esbelto, mas bem treinado. Meus olhos eram dourados como os da minha mãe, e eu os achava bem bonitos. Acho que Lortan tinha 1,83m de altura, e eu não passava dos 1,70m.
Agora, em relação às personalidades, era totalmente diferente. Lortan tinha todas as qualidades de nossa mãe: inteligente, responsável, alerta, atento, perspicaz, frio e calculista. Na boca da plebe, eu sabia que costumavam dizer que mamãe era o juízo e o governo de Docestado, enquanto papai era o carisma. Eu puxara esse lado do carisma: tinha uma facilidade maior de comunicação, não conseguia ser tão calculista quanto Lortan, me irritava fácil, e era uma pessoa bem querida. Meu irmão não era bom em combate, eu o era. Eu odiava cálculo, ele adorava. No fim, éramos diferentes como o céu e a terra, talvez até mais. Mas o importante é que nos completávamos, e por isso meu pai fazia questão de dizer que eu precisava apoiar Lortan sem eu governo futuro.
E eu só podia engolir minha vontade de mandar meu irmão enfiar seu governo no rabo, e obedecer, mesmo contra minha vontade. Por isso eu estava ali com ele, atravessando nossas terras numa carruagem cambaleante, retornando para o Cálice após realizarmos a justiça do Governador. E também por isso eu tinha de ficar ouvindo suas baboseiras.
— Nossa missão era caçar o ladrão Bartholomew Lucci e sua trupe, e levarmos de volta para o Senhor nosso Pai tudo o que ele roubara, para que seja restituído ao seu legítimo dono. — Comentei.
Bartholomew Lucci era um ladrão famoso em todo o reino de Jeera, e que vinha causando rebuliço em Docestado nos últimos meses. Era famoso por ser praticamente incapturável e muito forte, com seguidores poderosos e numeroso. Já causara problemas em vários outros estados, e nunca conseguiram sequer chegar próximos de prendê-lo. Quando saímos atrás dele, tínhamos poucas esperanças de encontra-lo, mas o destino se mostrou favorável.
Tínhamos de matar o homem, e quando o encontramos, foi um ato de misericórdia. Tivemos de viajar por semanas, e no fim o encontramos embrenhado do meio da Mata Sem Dono, num estado deplorável. De alguma forma, ele e sua trupe haviam se envenenado com Reumatis, uma fruta rara que nascia no Docestado, e produzia um ácido bem poderoso. Docestado era conhecido como o estado mais fértil de Jeera, mas nem tudo que produzíamos era consumível, e o desconhecido podia matar. No fim, eu acabara por furar seu coração, mas todo seu intestino já vazava pelos buracos causados pela fruta, enchendo sua barriga como se ele fosse um balão.
—Eu só fiz a parte suja de matá-lo. Ele nem ia viver o bastante para investigarmos o homem. — Complementei. Meu irmão insistia que devíamos ter analisado se ele não estava envolvido com outros ladrões, pois um surto de roubos vinha acontecendo no reino. Era tolice pensar assim, afinal, todo estado tinha criminosos.
Lortan soltou um suspiro novamente, parecendo desistir, e se levantou, abrindo uma grande arca de madeira que estava no canto da carruagem. Aqueles foram os tesouros que encontramos na posse do ladrão que vinha causando problemas em todo o estado do Docestado. Depois que eu o matei, nós os recolhemos e guardamos para análise posterior.
E por isso naquele dia, íamos contar o que havia ali em bens e fazer uma listagem com tudo que houvesse ali. Me lembrei que era disso que meu doce irmão falava quando eu estava me distraindo com a batucada na mesa.
Lortan abriu uma outra arca e puxou dela alguns pergaminhos, pena e tinta, esvaziando-a. Colocou tudo sobre a mesa de forma organizada, enquanto eu o encarava, com o rosto apoiado na mão. Seria tão divertido contar aqueles bens que eu poderia morrer umas dez vezes no processo.
Vi enquanto meu irmão enchia uma mão com os tesouros do baú e jogava sobre a mesa. Havia uma variedade de tesouros ali, todos objetos valiosos: tiaras de prata incrustadas de pedras preciosas, pingentes variados, presilhas de ouro e diamante, broches esmaltados, correntes de ouro em prata em diversos tamanhos, anéis, pequenas esculturas decorativas, e por aí ia. O dinheiro que havia com eles, já havíamos separado a muito tempo, uma quantia absurda que somava mais de 100 Hórus.
— Pode começar a analisar. — Lortan anunciou, sem olhar para mim, enquanto puxava um longo colar de pérolas do meio dos objetos sobre a mesa, e o analisava, escrevendo as características do objeto no papel, e jogando-o no baú vazio.
Com um suspiro, eu comecei a imitá-lo no trabalho, começando por um pingente de ônix negra.
Como eu já esperava, a tarde foi ridiculamente entediante. Era muita coisa para contar, e o interior da carruagem foi se tornando abafado e incômodo durante o passar das horas. Paramos apenas para almoçar, e quando finalmente acabamos, minha mãe doía de tanto escrever, e eu queria sair e cavalgar de volta pro meu castelo.
— Graças a Deus acabamos. — Eu reclamei, massageando a mão. Lortan me encarou sério.
— Sim. Foi uma sorte, terminamos bem à tempo de chegar em Bela Colheita.
Só então eu tive o cuidado de observar pela janela, e percebi que já era final da tarde, e entrávamos numa rua conhecida: a Rua Doce, que levava direto ao nosso castelo. Não pude evitar um sorriso, finalmente estávamos de volta à Bela Colheita, a capital onde os Becklan residiam.
— Ótimo. Preciso de uma massagem do Hirmo Samião, minha mão está me matando. — Comentei, estalando os dedos da mãos, doloridos. Lortan me encarou com uma sobrancelha arqueada.
— Uma mão que carrega uma espada com mais facilidade do que uma pena, é a mão de um bárbaro. — Ele recitou, como se aquilo fosse um ditado popular. Fiz uma careta.
— E um irmão que não cala a boca morre cedo. — Respondi, cruzando os braços, e me reclinando na cadeira.
=—=
Chegamos em Cálice pouco tempo depois, sacolejando naquela maldita carroça. Cálice era o castelo dos Becklan, nossa morada, e de onde comandávamos todo o estanho. Era uma das construções mais belas em todo o reino, e enchia os olhos de qualquer um: Um castelo enorme, construído com pedras grandes e firmes cobertas por trepadeiras verdes que subiam até o alto das paredes, dando ao castelo uma aparência selvagem e natural. Suas torres subiam altas e imponentes, com topos pintados num roxo escuro, completando as cores da família, roxo e verde. No alto da Torre Maior dançava nossa bandeira: Um cálice torto derrubando vinho, cercado por frutas, num fundo verde.
Atravessamos as grandes muralhas, cumprimentando os guardas, e descemos da carruagem junto com o anoitecer. Era ótimo sair daquele aperto, e eu me espreguicei, sentindo o aroma doce no ar, que me era familiar: o aroma do Cálice.
— Precisamos ver o pai. — Lortan disse, enquanto me observava. Rapidamente, deu ordens aos homens que nos acompanhavam, enquanto eu aproveitava a brisa de casa. — Vamos. — Disse por fim, caminhando para a entrada do castelo. O segui, um pouco resignado. Eu queria descansar e comer alguma coisa, mas sabia que papai gostaria de saber de nossa viagem antes de tudo, então forcei meu desgaste para o fundo de minha alma e fui.
Assim que chegamos próximos da entrada, já encontramos os Hirmos reunidos em nossa espera. Provavelmente meu irmão mandara alguns cavaleiros na frente para anunciar nossa chegada. Observei os homens vestidos em suas vestes coloridas, e segui Lortan até eles.
— Jovens Senhores. — Cumprimentou Grã-Hirmo Elias, com um leve inclinar de cabeça. Usava as vestes brancas que identificava sua função, e um cajado que usava para se apoiar. Era um velho miúdo e sábio, de cabelos brancos como a neve e rosto enrugado. Seus olhos azuis sempre transpareciam uma chama de sabedoria e perspicácia que me assombravam desde meus tempos de garoto. — Espero que tenham viajado em segurança. — Ele disse com sua voz grave e suave, enquanto os outros Hirmos se inclinavam em cumprimento.
— Sim, graça aos deuses nós viajamos bem, e tivemos sucesso. — Meu irmão respondeu à todos. — Temos muito o que conversar.
O velho anuiu em concordância.
— Com certeza. — Respondeu, complementando o gesto.
Os Hirmos da Entidade eram uma ordem de homens que estudavam para servirem em castelos como conselheiros. Cada conselho de Hirmos contava com 13 integrantes, cada um estudado em uma especialidade que variava de Medicina até Artes de Batalha. Eram homens sábios e inteligentes, e servos leais às famílias à quem eram aderidos. Dentre todos os 13, o Grã-Hirmo era o representante maior, o mais sábio e que falava em nome de todos. Assim, Grã-Hirmo Elias gesticulou para que os outros fossem embora, e todos espalharam-se, indo cumprir suas funções normais no castelo.
Assim que todos se afastaram, ele abriu um pequeno sorriso para nós.
— Lorde Malbec já foi avisado da chegada de vocês, e organizou um pequeno banquete em comemoração ao vosso retorno. Pediu que banhem-se e compareçam ao Grande Salão após isso para a reunião.
Eu abri um sorriso com o fato. Papai amava festas, e qualquer razão era uma boa razão para um banquete. Lortan fechou a expressão, sério como sempre.
— O Senhor meu pai sempre exagera. — Ele disse, firme. — Um banquete é desnecessário numa ocasião como esta, e precisamos conversar o mais rápido possível.
Fiz uma careta para ele, estraga-prazeres de uma figa.
— Infelizmente mestre Lortan, ordens são ordens, e o Senhor seu pai ainda é nosso suserano. — Grã-Hirmo Elias sorriu, e piscou de forma significativa para mim, enquanto Lortan fazia uma careta insatisfeita.
— Ótimo. Que seja então, banhemo-nos. — Ele disse, e irrompeu pela entrada do castelo, suas botas retumbando no piso de pedra do corredor. O velho Grã-Hirmo se voltou para mim com um sorriso suave em lábios.
— Ele é mesmo muito parecido com a sua mãe neste aspecto. Lady Becklan disse a mesma coisa ao seu pai quando ele falou sobre a comemoração.
— O frio daquele deserto faz essas pessoas ficarem sem senso de festança. — Eu comentei com um sorriso, e caminhei em direção à entrada. — Conversamos mais tarde, Grã-Hirmo Elias.
O velho anuiu com a cabeça, e eu entrei em Cálice, seguindo diretamente pros meus aposentos.
Eu sempre gostara de meus aposentos. Eles ficavam no alto da Torre Leste, e eram amplos e bem localizados, frescos no verão quando eu abria as janelas e capturava alguma brisa, e quentes no inverno, quando eu acendia a lareira. As janelas davam vista ao Jardim Principal, e durante o dia eu podia ver as crianças brincando entre as árvores, desviando dos frutos caídos e das lagoas que estavam entre as árvores, e subindo em galhos para comerem os doces frutos. Durante a noite, podia ver amantes escondidos se embrenharem entre as árvores na calada da noite, e imaginar seus sussurros apaixonados e secretos. Ali ficavam minhas roupas, minha grande cama e minha mesa de estudos, que dificilmente era utilizada, mas me era familiar ao local.
Quando cheguei, a água do banho já estava em meu quarto, soltando fumaça. Suspirei satisfeito, eu realmente precisava de um banho para me livrar da poeira da estrada e do cheiro de mofo daquela carruagem. Rapidamente me despi e tomei meu banho, esfregando toda a sujeira do meu corpo e lavando meus cabelos compridos.
Ao me dar por satisfeito, me sequei com uma toalha de linho e escolhi um gibão enfeitado para a festa. Era uma peça bonita, verde-escura, com um cálice roxo bordado no centro, e as bordas também roxas. Penteei meus cabelos, tirando alguns nós que se formaram durante a viajem, e passei um perfume das Terras Inundadas, que tinha um cheiro amadeirado e agradável. Por fim calcei minhas botas de couro e sai, em direção ao Grande Salão.
Os sons da festa já inundavam o castelo, e eu não pude deixar de sorrir. Se meu pai achava que enganava alguém dizendo que a festa era pra mim e pro meu irmão, ele estava iludido. Pelos deuses, por que raios ele começaria a nossa festa sem nós?
Entrei no salão, e meus ouvidos foram automaticamente infestados pela música e pela algazarra. Vários homens do castelo estavam nas mesas, bebendo e comendo com fartura. Na mesa principal estava o Grã-Hirmo Elias e minha família: meu pai e minha mãe , minhas irmãs, e meu irmão mais novo. Lortan também já havia chegado e estava ao lado de meu pai, provavelmente contando sobre a missão. Todos no salão começaram a me cumprimentar ao me ver entrar, e eu correspondi com acenos, enquanto me encaminhava para a mesa principal.
— Senhor Pai. — Eu disse formalmente, me ajoelhando perante meu pai. O salão caiu em profundo silêncio, e todos observavam a cena. Meu pai tinha um sorriso enorme no rosto.
— Seja bem vindo de volta, meu filho amado. — Ele anunciou, e eu me levantei. Malbec Becklan era um homem grande e corpulento, com cabelos ruivos e ondulados num corte curto, salpicados de prateado devido a idade, e uma barba ruiva sempre cortada por um sorriso de dentes brancos. Na cabeça usava a tiara de Governador, uma tira de ouro incrustada com uma grande ametista púrpura. Já tinha 50 anos, mas parecia mais jovem, e era um homem querido, alegre e carismático, e um governante amado por todos. Era conhecido como O Governador Louco, mas nunca fizera nada de tao anormal assim. — Sente-se conosco, e conte sua aventura à todos, enquanto festejamos ao retorno de você e seu irmão ao Cálice!
A última frase foi encerrada com um grito, e um levantar de sua taça dourada. Todo o salão irrompeu em palmas e gritos animados, e meu pai soltou uma gargalhada alta.
Antes de me sentar, cumprimentei também minha mãe.
— É bom tê-lo de volta. — Ela disse gentilmente enquanto se levantava e me envolvia num abraço. Mamãe estava vestida de forma magnífica num vestido verde com bordados roxos. Era uma mulher bela, com seus longos cabelos prateados e os olhos dourados como o sol. Nos cabelos, usava uma presilha prateada com ametistas, e lhe dava um toque de surreal.
— Também estou feliz em voltar. — Respondi em seus braços, sentindo seu cheiro de perfume delicado.
Depois dela cumprimentei minhas irmãs, Tayla e Maila, dando abraços nas duas, e beijos. Tayla parecia com papai, os cabelos longos e ruivos, e era muito bonita, enquanto Maila tinha os cabelos de nossa mãe, e também era uma bela moça. Dei um beijo carinhoso também em Senno, meu irmãozinho de três anos, e finalmente me sentei.
Antes de conversamos, festejamos muito, para o desgosto de Lortan. Papai bebia como sempre bebera, quantidades sobre-humanos de vinho, acompanhado com as variadas comidas: javali assado, legumes cozidos no vapor, linguiças defumadas, frutas caramelizadas, e outras delícias, que eu também devorei. Também bebia vinho em grandes quantidades, mas sequer chegava perto do que meu pai bebia.
Os Becklan eram conhecidos por sua resistência ao álcool. Desde crianças, podíamos tomar um pouco de vinho sem nenhum problema. Até mesmo Senno tomava alguns goles de vez em quando, e nunca se alterava. Diziam que era porque descendíamos diretamente de Lux, a deusa das festas, do álcool, do sexo e da fertilidade. Havia um boato de que Lorde Malbec era a reencarnação de Lux em terra, e por isso nunca se embebedava, por mais que ingerisse quantidades absurdas de álcool, mas na realidade o povo se iludia. O fato não era que meu pai nunca ficava ébrio, na verdade ele nunca estava sóbrio, então ninguém nunca soube a diferença entre ele bêbado, ou sóbrio, logo interpretavam que mesmo bebendo, ele nunca ficava ébrio.
— Bem, contem-me como foi a missão. Já sei que foi um sucesso, mas mesmo assim, gostaria de saber o que fizeram para capturar o famoso Bartholomew Lucci. — Disse ele, mordiscando uma asa de pato em seguida.
Lortan se pôs a contar nossa viagem, enquanto eu apenas complementava um ou outro detalhe que ele se esquecia ou deixava de citar. Papai ouvia tudo pacientemente, sem deixar de comer ou beber, mas prestando uma atenção que dificilmente eu vira nele. Acho que isso se devia ao fato dessa ter sido a primeira missão deste porte que eu e meu irmão realizávamos. Mamãe também mantinha-se atenta à nós, mesmo que conversasse com as meninas e Sonne.
— Então eles haviam comido Reumatis? — Grã-Hirmo Elias perguntou, erguendo uma sobrancelha. — Este homem não era assim tão esperto se enganou-se com uma fruta tão perigosa.
— Ladrões normalmente são bons com as espadas, e não com as cabeças. — Meu pai retrucou, virando uma taça de vinho. Logo um servo passou e a encheu. — Essa é uma terra perigosa para desinformados.
— Toda terra é perigosa para desinformados, tanto no sentido real quanto no figurado. — A Senhora minha mãe entrou na conversa. — É bom que tenhamos nos livrado de um homem como este.
Grã-Hirmo Elias anuiu em concordância.
— Sim. O rei ficará satisfeito quando souber que livramos o reino do Peregrino das Trevas. — Comentou com sua voz suave, me fazendo fazer uma careta. Nunca tinha ouvido chamarem Lucci daquela forma, e o nome me causou certo desconforto. — Já enviei um mensageiro até o Núcleo, com a liberdade de vossa senhoria.
Lorde Becklan concordou com a cabeça.
— Fez bem. O Rei gostará de saber disso. — Papai se levantou. — Fizeram um bom trabalho meus filhos, e agora merecem seu descanso. Bebam o quanto quiserem, festejem e comemorem nossa vitória. — Ele abriu os braços, e o salão uivou em clamores à ele. Papai sorriu, o povo o amava. — Hoje é um dia feliz, pois meus filhos se tornaram verdadeiros homens! Bebamos à Lux pela graça concedida, e festejemos com ela essa alegria tão grande!
Após os gritos de todos, a festa aumentou em proporções assustadoras. Mamãe e as crianças se retiraram, e o salão se tornou uma algazarra de servos, homens da guarda, cavaleiros e músicos, que dançavam, bebiam e comiam. Meu pai observava tudo com olhar satisfeito, e bebia muito. Eu bebi até me sentir ébrio, e me surpreendi ao me ver apertando um seio farto de uma serva, que se afastava rindo, ruborizada. Pude ver que até mesmo Lortan parecia animado, balançando o corpo no ritmo da música com um sorriso nos lábios.
Quando me retirei da festa, mal conseguia andar, e era o último dos Becklan a sair. Meu pai e Lortan já haviam se dirigido aos seus aposentos há algumas horas, mas eu continuara celebrando com os outros. Sabia que estava ridiculamente bêbado, mas também sabia que aquilo passaria, então aproveitei a tontura e capenguei sorridente em direção aos meus aposentos, cantarolando a última música que tocara no salão.
Foi fácil adormecer quando me joguei em meu colchão de penas. Faziam dias que eu acampava ao relento da beira da estrada, ou adormecia sentado na carruagem. O colchão era macio como o paraíso, e o cobertor quente como um beijo apaixonado de Lux. Mal deitei, eu já dormia, embalado pelo cansaço e o álcool.
Acordar foi tão fácil quanto adormecer.
Abri meus olhos repentinamente no meio da noite, sem motivo aparente. Devia ser quase alvorada, pois eu já não sentia os efeitos do álcool em minha cabeça, e ainda estava escuro, mas a lua chia clareava o quarto com seu brilho prateado. Meus sentidos estavam à flor da pele, e eu me sentei na cama atento. O cobertor de pele escorreu por meu corpo e exibiu meu tórax à brisa gélida que invadia a janela aberta. Observei o quarto lentamente, mas não vi nada de estranho. Me levantei para fechar a janela, usando apenas um shorts de dormir confortável, tentando esquecer essa preocupação repentina.
Foi quando o vi.
A silhueta do homem estava delineada na janela. Ele mantinha uma mão segura num dos vidros, e a outra pendia ao lado de seu corpo. A lua iluminava seu rosto, e sua pele parecia brilhar ao luar. Meu coração disparou, surpreso, e o homem abriu um sorriso branco. Era um homem enorme, usando roupas escuras e uma espada presa ao cinto. Tinha uma barba curta e ruiva cobrindo parte do rosto, e por um instante eu imaginei que fosse Lortan, mas ele era péssimo em escalar, e estávamos no topo de uma torre.
Antes que eu pudesse ter alguma reação, ele saltou para dentro velozmente, e sem eu ter como reagir, encostou uma adaga na minha garganta. Minha pulsação aumentou, e eu senti que suava frio, assustado com o homem. Ele era intimidador, quase dois metros de altura, e eu pude perceber o quanto era musculoso quando ele colou seu corpo ao meu, me prensando contra uma parede.
— Nenhuma palavra, nobrezinho. — Sussurrou, sua voz era grave e agradável, apesar de ameaçadora. — Senão eu te degolo como a galinhazinha que você é.
Estremeci com aquilo. O encarei, ele tinha olhos de um castanho esverdeado que eram hipnotizantes. Seus cabelos ruivos e curtos estavam espetados num penteado bagunçado, e ele ainda sorria.
— Quem é você? — Eu disse, tentando me afastar o máximo possível da lâmina, erguendo a cabeça. — O que quer aqui?
O homem deu-me um sorriso ainda maior que o anterior, e senti sua mão livre em meu rosto. Ele se inclinou, se aproximando o bastante para que eu sentisse sua respiração em meus lábios. Fiquei paralisado por um instante, como se o tempo parasse.
— Meu nome é Bartholomew Lucci. — Disse ele, num tom sério, fechando o sorriso pela primeira vez. — E eu estou aqui por isso.
Num movimento rápido, ele cortou a distância que separava nossos corpos, e colou seus lábios aos meus de forma desejosa, me assustando.
Notas finais
De coração, deixem reviews! Preciso saber o que acham.
Beijos!
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