Eu havia sido tomada pela dor que a escuridão me causava. Não era uma dor física. Eu não podia senti-la, mas sabia que aquela dor existia. Em algum lugar dentro de mim eu estava queimando e sendo consumida. Sentia que iria explodir. De dentro para fora e nada podia ser feito. Não podia ser salva, nem mesmo por Daniel.

O mesmo já havia me abandonado, me perdido. Sabia que não havia sido de propósito, se pudesse estaria ao meu lado enfrentando o escuro, mas não havia nada a ser feito. Meu pânico aumentou assim que deixei de sentir suas mãos tocando meu pescoço e mantendo minha cabeça firme — Isso aconteceu alguns minutos após eu desmaiar.

Agora eu estava em uma sala escura, sem nenhum controle do meu corpo. Não havia porta, nem janela. Somente um vazio negro. Tudo o que eu sentia era o chão que mantinha meu corpo ali.

Aquele pesadelo solitário durou cerca de dez minutos.

Ás vezes, a sala escura parecia me lembrar algum lugar ao qual já estive, mas minha memória ainda falhava. Em algum momento, quando eu já estava cansada demais daquele sonho, jurei estar de volta á minha — antiga — casa. O Acampamento Júpiter.

Não durou mais que cinco segundos. Apareci sentada no Campo de Marte, onde haviam alguns campistas treinando. Eles pareciam seguir suas vidas normalmente, sem nem se importar com uma garota que um dia morou ali.

Dentre muitos campistas que estavam ali, somente um chamou minha atenção. Ele tinha olhos cansados, como uma pessoa que há muito tempo não dorme direito, pele morena, cabelos encaracolados e lábios avermelhados. Seu rosto tinha uma feição amigável, e seus olhos castanhos escuro me fazia querer ser o alvo dele para poder ser olhada diretamente. Ele era muito familiar. Tudo ali me era familiar.

— Dave — murmurei, em pânico. Não sabia a razão de ter dito aquele nome, mas mesmo assim ele saiu sem nenhum esforço.

Eu gostaria de ter continuado ali, olhando o garoto treinar, esperando que ele me reconhecesse, mas nada aconteceu. Fui levada de volta para a sala escura, mas antes recebi um olhar, como se soubessem que eu estava ali.

Desapareci.

Estava sem folego, perdida novamente naquele abismo. Meu medo se multiplicou quando o chão sumiu de baixo dos meus pés; eu estava de volta no Acampamento Meio Sangue. Tudo aquilo foi muito rápido, mais ainda que no Acampamento Júpiter.

Tive tempo somente de visualizar os olhos azuis de Daniel, senti novamente a segurança que suas mãos me davam, então voltei para a sala escura. Me sentia ainda mais desesperada, pois o sentimento de que nunca mais verei Daniel me surgira, e então notei que ele era importante para mim. Mesmo que eu só o conhecesse há dez dias.

O chão começou a se formar sobre meus pés e antes que pudesse perceber eu estava em um lugar á céu aberto. Era catastrófico olhar para as pessoas que estavam mortas ao meu lado, os prédios enormes agora eram somente monumentos despedaçados, em fogo. Ponto de suicídio de pessoas em desespero, com medo da guerra. Eu estava com medo da guerra, mas estava distante de mais de algum prédio.

Pessoas (semideuses) estavam lutando contra exércitos inimigo, uma mulher de vestido branco estava parada há alguns metros de nós. Notei que exércitos humano disparavam com suas armas — que convenhamos, são inúteis — contra ela, as balas desapareciam no ar.

Tudo ali era horripilante, desde as pessoas lutando, até os destroços de São Francisco pelo chão.

Pedaços de concreto estavam voando, pareciam estar sendo jogados por uma força invisível, porém eu sabia que estava fazendo aquilo. Observei parada, enquanto uma dúzia de pessoas eram atingidas por um carro amarelo. Não as vi mais, pois o carro ficou sobre seus corpos inertes.

Eu não tinha reação, perante aquela tragédia. Há vinte minutos eu estava no Acampamento Meio Sangue, junto a Daniel. Mas agora meu coração parou de bater. Meus pés tremeram sobre o chão que dançava. Daniel estava há menos de dez metros de mim, porém entre a morte e a vida. Havia uma poça de sangue se formando ao lado de sua cabeça.

Meu corpo, que até então não me respondia correu em sua direção. Minhas mãos estavam tremendo e eu não sabia como agir.

Seus olhos ainda estavam abertos e fixos em mim, mas qualquer um via que ele não tinha muito tempo de vida. Uma lagrima escorreu pelo meu olho.

Ao meu redor, pessoas morriam, Gaia estava tentando destruir o mundo, sirenes, caos, porém eu só conseguia pensar em Daniel que estava morrendo nos meus braços.

Mesmo de cara com a morte ele soltou um sorriso tranquilizador, ao me ver. Julgando pelo seu sorriso, tudo estava bem, mas eu sabia que não.

Enquanto eu encarava Daniel a beira da morte milhares de coisas aconteciam ao meu redor, mas nada mais importava. Ele estava morrendo e eu nunca havia me sentido daquela maneira antes, era como se... uma parte de mim estivesse morrendo.

— Estou de saída — disse ele, com a voz embargada, eu via que ele fazia grande esforço para soltar algum som.

— Não é uma opção — forcei o tom severo, mas desabei em lágrimas diante daquela cena. — Daniel, não durma! Olhe para mim, tudo vai ficar bem. Não sei o que está acontecendo, mas tudo vai ficar bem, Daniel — meu ultimo berro foi em vão, pois ele já não estava mais comigo.

Um sentimento confuso me dominou. Eu não sabia como me sentia. Devastada, com certeza, mas tudo era confuso demais. Ver aquele corpo inerte na minha frente me fez ter mais certeza que eu nunca queria perde-lo, mas já era tarde.

— Liza! — gritou alguém próximo a mim, mas eu simplesmente os ignorei. Uma porta de carro amarela pousou ao meu lado, ferindo minha perna. Com um impulso eu me levantei e corri para o lado.

Na verdade foi bom toda esta distração, eu morreria se tivesse que ficar ali ao lado de Daniel, vendo-o apodrecer.

Novamente tudo aconteceu muito rápido.

Vi o mesmo garoto que treinava no Acampamento Júpiter, ele estava lutando junto com outros semideuses. Eles lutavam contra monstros, mas seu alvo era a mulher semiadormecida. Ela lançou um carro que estava em chamas no meio da rua. O veiculo atingiu um hidrante e depois caiu sobre os monstros e os jovens. Outro grito ecoou da minha boca, este era mais alto que qualquer um que mortais, ou heróis estavam soltando.

Entre o som do meu grito agudo tudo se silenciou. Tudo ao meu redor escureceu, até que eu só podia ver silhuetas ao meu redor. Ainda sentia o fogo dos prédios ou dos carros, mas não os via mais.

— Você tem uma escolha — disse uma voz em sussurro. — Algumas coisas devem acontecer, é a lógica da vida, mas você tem uma escolha que deve ser tomada com atenção.

Tentei dizer algo, perguntar quem estava dizendo aquilo, porém não conseguia emitir nenhum som, era como se somente aquela voz agoniante pudesse ser ouvida.

— Você deve escolher quem salvar, escolher se vai preservar a vida daqueles que ama, ou da raça humana — então tudo voltou ao normal. Eu ainda estava gritando em meio aos destroços de uma guerra, na qual eu já tinha a certeza que seriamos derrotados, via pessoas que eu amava morrendo. Peguei uma espada que estava no chão.

Todos os meus músculos tremeram, mas mesmo assim a ergui e corri na direção do monstro mais perto de mim. Era uma benevolente.

Cenas de batalhas descrevida por filmes ou livros são bem diferentes. Existe o som heroico de fundo, o momento de fraqueza do herói e a derrota do monstro, mas tudo o que eu ouvia era o som doce que o desejo de vingança pela morte de Daniel e tudo se finalizou quando algum monstro — não tive tempo para distinguir qual, foi tudo muito rápido — cravou suas garras em meu estomago e cai no chão.

Soltei outro berro agoniante, até que tudo acabara. Eu estava gritando novamente nos braços de Daniel, no Acampamento Meio Sangue.