As Três Lágrimas do Youkai.
32 Capítulo 32 – Razões. (Atualizado)
Notas iniciais
No dia seguinte, Tsukiyo sentiu-se mais disposta, graças aos tratamentos de Kagome. Passou a manhã na cama e, depois de muita discussão, conseguiu fazer Sesshoumaru levá-la ao menos até varanda da casa. Ela passou a tarde ali, observando sossegada a paisagem campestre. De tempos em tempos, Zakuro fugia de suas tarefas para sentar-se com ela. Mesmo Sora parou algumas vezes para conversar.
Sesshoumaru ficou próximo a ela alheio a tudo que acontecia a sua volta. Ao menos era o que aparentava. Eles pouco conversavam e quando o faziam algumas pequenas discussões surgiam. Tsukiyo olhava para ele e por vezes via em seus olhos uma pergunta se formando, mas era algo que nunca saía do youkai. Ela imaginou que fosse algum resquício dos eventos que ocorreram algum tempo atrás: o beijo; sua traição; a discussão; a luta... De alguma forma ela sentia que nem tudo foi resolvido. Provavelmente porque Tsukiyo ainda não se perdoara e talvez nunca o fizesse.
No fundo, ela temia a pergunta dele.
No fim da tarde, quando o céu era tingido de uma coloração laranja e rosa e o sol já desaparecia ao longe, o tilintar de espadas ecoava na casa. Como forma de agradecer Sora por ter trazido a espada de Tsukiyo, Sesshoumaru concordou em fazer um rápido treinamento de combate com o jovem. Bakusaiga e Tessaiga chocavam-se uma contra a outra.
Nenhum deles usava poder, pois era apenas um treinamento básico e Sesshoumaru estava mais preocupado em observar a técnica de espada do rapaz.
– Você deixa muitas aberturas. – falava o Dai-youkai entre um golpe e outro. – Olhe a posição dos pés... Chama isso de defesa?...Não hesite em atacar...
As espadas se encontravam e se afastavam. Os dois avançavam e regrediam. Era evidente que Sesshoumaru tinha vantagem e mal chegava a usar toda sua força ou técnica, mas Sora não deixava a desejar, era muito habilidoso com a espada. Tsukiyo via claramente os golpes e, apesar de não lutar, absorvia as correções de Sesshoumaru e as associava a sua própria maneira de lutar.
Chegou a suspirar desejando participar do treino também.
Pela quinta vez, Sora foi ao chão, desarmado. Suava e arquejava, mas seus olhos continham um brilho determinado e alegre. Depois de perceber o quanto respeitava Sesshoumaru, Tsukiyo só podia imaginar o que aquele treino significava para o menino. Internamente, desconfiava que Sesshoumaru também soubesse.
Do outro lado, sentados à sombra de uma árvore, Inuyasha e Zakuro observavam a luta. A menina ora ria das derrotas do irmão, ora se encantava com a maestria de Sesshoumaru. Inuyasha observava tudo com um misto de orgulho e apreço, que Tsukiyo realmente não sabia dizer por qual dos dois combatentes ele sentia. A ideia de que poderia ser tanto por Sora quanto por seu meio-irmão fez Tsukiyo sorrir discretamente.
Ele realmente é seu irmão, Sesshoumaru. Refletiu entretida. Seus olhos retornaram ao Dai-youkai que demonstrava uma posição de defesa qualquer ao rapaz. Estava sério enquanto ensinava o sobrinho, mas havia um brilho especial em seus olhos que Tsukiyo nunca havia visto e não sabia descrever. Talvez fosse apenas especulação, mas ele parecia sentir o mesmo que ela.
Assim como Tsukiyo, Sesshoumaru parecia se sentir em casa...
Sem perceber, Tsukiyo teve o olhar tomado pela ternura. Ficou a contemplar o youkai. Pode nunca admitir, Sesshoumaru, mas seus olhos o denunciam mais uma vez:
Eles são sua família...
Em algum lugar dentro de si, Tsukiyo sentiu o coração se aquecer. Estava diante de uma cena única com todas aquelas pessoas. Um céu mágico, colorido com o fim da tarde, consagrava o evento. Muitos nem se importariam para apreciar a cena cotidiana, mas ela sabia que era especial: era algo puro e íntimo, com significado para eles e apenas para eles. Enquanto, por um lado, sentiu-se como uma intrusa que viu mais do que deveria. Outra parte de si desejava profundamente pertencer àquele lugar. Bem no fundo, desejava sentir-se como eles: segura e feliz.
Desejava se sentir em casa como outrora se sentiu.
Antes que memórias boas e ruins viessem à mente, Tsukiyo foi salva pela voz de Kagome que se sentou ao seu lado.
— Estão dando tudo de si, não acha? – perguntou a miko observando o filho.
— Parece que sim. – falou Tsukiyo voltando sua atenção aos dois combatentes. – Mas Sesshoumaru poderia ser menos rigoroso. – sugeriu quando Sora foi ao chão mais uma vez.
— Talvez. – falou enigmática. – Mas acho que essa é a forma dele mostrar que se importa com Sora. Sesshoumaru sabe o quanto esse treinamento significa para ele.
Kagome tinha o olhar tingido de pura ternura maternal, que se estendia para além de Sora e Zakuro. Quem a visse perceberia que era uma ótima pessoa, sempre se importando com os outros, sempre disposta a se sacrificar por aqueles que ama e por aqueles a sua volta. Ela sorria e Tsukiyo se viu tragada por aquele sentimento contagioso.
Sem perceber, estava fazendo o mesmo que miko.
— É, talvez seja. – respondeu aérea.
— Hm, eu conheço esse olhar... – provocou Kagome.
— Ahn? O que? – perguntou confusa.
— A maneira como olha para Sesshoumaru. – explicou, fazendo Tsukiyo corar. – Já tentou dizer a ele como se sente?
— E-eu... n-não é b-bem assim. É complicado e... – maneava a cabeça e tentava fazer as palavras terem algum sentido. – Quer dizer, não faz diferença. Ele não...
O silêncio recaiu trazendo as palavras que não podiam ser ditas. Vendo a reação da jovem, Kagome falou:
— Não acho que seja assim. Ele a salvou não foi? Conheço Sesshoumaru há muito tempo e ele não faz isso por qualquer pessoa. Apenas aquelas que são importantes para ele. – sua expressão vazia demonstrava que sua mente retornava ao passado. – Chega a ser engraçado, na primeira vez que nos vimos ele tentou me matar, mas tempos depois foi meu salvador em mais de uma ocasião. Ele é um youkai frio, mas bem no fundo ele se importa... – fez-se uma pequena pausa. – Não sei há quanto tempo o conhece, mas digo-lhe isso: faz anos que não o vejo assim. Debaixo de toda a pose, ele parece quase... feliz. E acho que seja por sua causa.
— Kagome-san...Eu fico grata por suas palavras, mas... não é por mim que ele está assim. – falou triste. – Posso até ser a causa, mas não é por mim.
— Acha que ele está assim por sua semelhança com Rin, não é? – falou a miko, tirando uma expressão de espanto de Tsukiyo. – Inuyasha me falou que quando é humana você tem o mesmo cheiro dela e posso confirmar que na aparência são bem parecidas.
Tsukiyo anuiu melancólica.
— Então você também a conheceu... – falou melancólica.
— Desde que ela era pequena. – confessou, Kagome. – Foi a primeira vez que vi Sesshoumaru com uma humana.
Tsukiyo se perguntou se sua presença não trazia sofrimento para aqueles que conheceram e gostaram de Rin. Uma ponta de culpa a assolou. Ao lembrar-se do sonho, um sorriso bobo cruzou os lábios da jovem.
— Pode achar que é loucura, mas sonhei com ela uma vez. Na verdade, parecia mais que um simples sonho. Não consigo explicar a sensação. Estávamos num campo de flores e ela fazia uma coroa com elas.
— Parece algo que Rin faria... – sorriu Kagome com a cabeça em outros tempos.
Tsukiyo lembrou-se da história da miko, contada a ela noite passada pelos pequenos. Zakuro havia falado tudo no maior fervor junto a Sora, que parecia se orgulhar da aventura dos pais. Coube a Kagome apenas acrescentar detalhes, e a Inuyasha engrandecer seus próprios feitos, enquanto Sesshoumaru depreciava os mesmos.
— Kagome-san, como conseguiu?
— O que?
— Se manter firme a Inuyasha mesmo sabendo que ele amava apenas Kikyou, e que você era apenas a lembrança constante daquela que detinha o coração dele? – seus olhos tinham uma súplica por respostas que a miko não pôde ignorar.
Ela pensou um instante antes de começar a responder.
— Eu era a reencarnação da alma de Kikyou, então foi uma situação bem estranha. No início eu a odiava. Amaldiçoava por ser o obstáculo intransponível entre mim e Inuyasha. Mas ao mesmo tempo, se não fosse por ela eu nunca teria o conhecido. De alguma forma eu não conseguia realmente odiá-la, éramos irmãs de alma, afinal. Até cheguei a salvar sua vida uma vez.
Kagome fez uma pausa para buscar as palavras certas para continuar o relato. Tsukiyo ouvia tudo com grande atenção e admiração.
Contemplando o céu, sem encarar diretamente a jovem, a miko continuou:
— Só me entristecia o fato dela sempre ser a preferência de Inuyasha e eu, apenas a reserva. Pode me achar louca, mas nunca desisti dele porque o amava muito. Apenas permanecer ao seu lado bastava para mim, naquela época. No fim, isso era tudo o que eu podia fazer. – um sorriso fraco apareceu em seus lábios. – Depois, Kikyou morreu novamente e foi um grande impacto para Inuyasha. Achei que talvez ele nunca se recuperasse, mas eu estaria ali se ele precisasse. Fui mesquinha e cheguei a me sentir feliz por isso. Porém, no fundo estava tão triste quanto ele.
Os dedos dela brincaram com a aliança dourado que pousava em seu dedo. Kagome olhava distraída para o horizonte, como se olhasse para o passado.
— Depois de enfrentar Naraku, ficamos três anos separados. Cheguei a achar que ele havia me esquecido, mas quando nos reencontramos, soube que ele sentia o mesmo que eu. E estamos juntos desde então. – Kagome olhou, enfim, para Tsukiyo. – Inuyasha nunca deixou de amar Kikyou e nunca exigi que o fizesse. Ela era e ainda é muito importante para ele. Confesso que ela, também é importante para mim e por isso nunca a condenei. No fim, Inuyasha encontrou lugar para mim em seu coração e me ama verdadeiramente por quem sou. Sinto-me muito feliz com isso, e não poderia pedir nada mais.
Depois de alguns minutos de silêncio assimilando as palavras de Kagome, Tsukiyo falou:
— Entendo... Não há muito que possamos fazer, não é?
— Infelizmente, isso depende deles. – falou Kagome. – E Tsukiyo, não importa o que você faça, Rin sempre terá um lugar no coração de Sesshoumaru.
Percebendo a tristeza de Tsukiyo, a miko pôs-se a aconselhá-la.
— Inuyasha sempre me disse que saber que eu estava sempre por perto para ele o ajudou a superar tudo. Para nós nunca parece o bastante, mas é importante para eles. São eles que decidem o que sentem, nós só podemos esperar... – confessou. – Sabe, Tsukiyo, a morte não é algo fácil de ser superado, nada se torna igual depois dela. E para Sesshoumaru, que só se abriu para uma pessoa e assistiu, impotente, a morte dela, é ainda mais difícil. Não acho que ele vá esquecê-la e, por favor, não deseje que o faça. Rin é parte da vida dele. Se ela não o tivesse resgatado da escuridão de ódio que o consumia, Sesshoumaru teria morrido por dentro. E nunca seria o homem que está diante de nós agora.
— Não desejo. Eu não desejo que ele a esqueça. – revelou a menina. – Acho que me sinto como você: por mais que eu quisesse não consigo odiá-la ou lhe desejar mal. Simplesmente não consigo.
— Parece que é mesmo a reencarnação dela. – falou doce.
— Talvez... Além disso, sei como é ter o coração dividido. Entendo um pouco Inuyasha e Sesshoumaru. É difícil deixar o passado quando ainda se tem a chance de revivê-lo. – refletiu. O peso das palavras deixava claro suas dúvidas. – Nesse ponto entendo como Inuyasha se sentiu quando Kikyou voltou dos mortos e ele se apaixonou por você. Pode ser belo, mas o amor é o sentimento mais sufocante que existe.
— Pode ser... mas é o único sentimento capaz de salvar alguém da escuridão. – concluiu Kagome.
Tsukiyo não escondeu sua surpresa. A frase imediatamente a lembrou de Akarin. A miko parecia ver através dela, acertando todos seus pontos frágeis.
Kagome se levantou e sorriu diante da expressão da jovem.
— Nesse caso, não existe escolha certa ou errada. Existe apenas isso: a escolha. É difícil, mas em algum momento deve ser feita. Quando tomá-la, apenas tenha certeza que foi você a escolher e não o mundo escolhendo por você.
O olhar castanho da miko recaiu sobre a família. Tsukiyo acompanhou seu olhar, absorvendo os ensinamentos da mulher.
Sora estava deitado na grama, exausto, com Zakuro ao seu lado conversando. Sesshoumaru e Inuyasha iniciavam uma discussão.
— Se o treinasse devidamente, eu não teria que ser rígido. Aliás, nem posso dizer que fui. – falava Sesshoumaru.
— Deixe-me fazer o mesmo com você para ver se vai aguentar seu...
— Osuwari!
O grito de Kagome encerrou a briga infantil quando Inuyasha foi puxado pelo cordão até cair de cara no chão. Sesshoumaru embainhou sua espada e os irmãos, Zakuro e Sora, não conseguiram conter algumas risadas.
— D-droga. – reclamou o hanyou.
— Vamos, Inuyasha, já chega. – ordenou a miko. – Sora, vá se lavar enquanto eu e Zakuro preparamos o jantar.
Seguindo as ordens da miko, cada um seguiu para seu canto. Antes de entrar acompanhada pelo marido, Kagome lançou um último olhar cheio de significado a Tsukiyo.
Quando a jovem percebeu, estava sozinha com Sesshoumaru.
O youkai sentou ao seu lado, sem expressar uma palavra. A noite tomava conta do lugar e Tsukiyo observava as estrelas junto a Sesshoumaru. O silêncio caiu sobre o lugar, até que ela decidiu quebrá-lo.
— Então, o que vai acontecer agora?
O youkai a olhou por um instante para voltar sua atenção ao céu.
— Isso vai depender. O que vai fazer?
— Como prometido, vou te escoltar até em casa. – falou divertida ao perceber a incredulidade na expressão do youkai. – Ei, não era bem a intenção inicial, mas cumpro com minhas palavras. Disse que seria sua guarda-costas até completar sua missão e ela só se completará quando voltar ao seu shiro.
Tsukiyo não pôde evitar um sorriso. As palavras de Kagome voltavam a sua mente: “Apenas permanecer ao seu lado bastava para mim, naquela época” E Tsukiyo acreditava ter entendido. Kagome, acho que isso me basta também. Mesmo que o tempo seja curto, valerá a pena...
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Permaneceram em silêncio. Ao longe, grilos eram ouvidos e uma brisa trazia tranquilidade. Tinha tudo para estar em paz, mas a mente de Sesshoumaru perturbava-se com a dúvida. Chegou a pensar que perdoara a jovem por tentar traí-lo, mas a dúvida ainda o perseguia. Se não soubesse sua razão talvez nunca fosse capaz de superar aquela questão.
Com receio da resposta, Sesshoumaru respirou fundo e perguntou aquilo que estava tentando desde que ela despertara.
— Por que roubou a Tenseiga? – havia algo angustiante no seu tom, que ele próprio estranhou. – A melhor opção para ganhar poder seria Bakusaiga. Então, por quê?
Ela não parecia surpresa. Sesshoumaru a viu inspirar fundo e responder. O tom era baixo e o olhar perdido em outros tempos. Em outras pessoas.
— Sabe, uma amiga uma vez me disse que o poder da Tenseiga era muito maior que o de Bakusaiga. – começou tomada pela tristeza de suas palavras. – Acho que estava desesperada e acreditei que seu poder poderia me ajudar.
Sesshoumaru virou-se para ela. Por alguma razão sentia-se ansioso com a explicação. Ela determinaria como tudo aconteceria dali a diante. Seria ele capaz de perdoá-la ou a justificativa não seria suficiente para Sesshoumaru superar aquilo tudo?
Vendo-a hesitar, ele decidiu dar um empurrão para que continuasse a falar.
— Para quem a queria?
— Para alguém muito querido para mim. – confessou.
Sesshoumaru imaginou, pelo que sabia do passado da jovem, que ela se referia aos pais. Ela se culpa pela morte deles, refletiu, acreditando ter descoberto o motivo. Não, se fosse os pais, ela teria falado. Ele pensou nas palavras que ela usou. Não sabia quem era esse “alguém”, mas infelizmente para ela, a espada poderia não ajudar.
— Tenseiga não pode trazer de volta quem se foi a muito tempo. Ela só funciona nos primeiros minutos após a morte de alguém, quando os mensageiros do outro mundo vêm recolher a alma da pessoa. – revelou, ele.
— Não, eu... Não quero Tenseiga para trazer alguém de volta. Sei que depois da morte não há volta.
Sesshoumaru se viu confuso. Então para que a quer? Percebendo o olhar do youkai, a jovem completou.
— Não para trazê-lo de volta à vida. Eu pretendia usá-la para salvá-lo antes que se fosse.
Sesshoumaru percebia claramente que ela tentava segurar as lágrimas. Os olhos estavam marejados e ela discretamente mordia os lábios. Os ombros tremiam levemente e o youkai compreendeu.
Tratava-se de uma grande confissão e pelo brilho dos olhos dela, carregavam uma verdade dolorosa.
— Por minha culpa, ele foi pego por um mal. Um ser maligno o envenenou com algo tão potente que está corroendo sua alma. – as palavras traziam a dor à tona. – Se... se ele continuar assim, cairá num abismo profundo e nunca conseguirei trazê-lo de volta. Ele vai morrer e eu não posso fazer nada por ele. É tudo culpa minha...
As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Uma parte de Sesshoumaru não queria vê-la chorar e se recriminava por tocar naquele assunto, mas outra parte, dizia que era necessário. Sua razão dizia que enlouqueceria sem as respostas. Ele permaneceu em silêncio, permitindo que a jovem contasse tudo calmamente, respeitando suas pausas quando necessário.
— Andei por muito tempo sem saber o que fazer, mas quando vi a Tenseiga, pensei que ela conseguiria purificar a alma dele. – o desespero era evidente em sua voz. – E-eu... eu não sabia mais o que fazer, não sei nem se funcionaria, mas eu tinha que tentar alguma coisa. Eu.. s-sinto muito, Sesshoumaru! Não queria ter feito da maneira que fiz, mas já não sabia o que fazer...!
O youkai entendia. O desespero contido em suas palavras chegava a ser contagiante. Havia sido sincera em cada frase. Ela se sentia impotente e esse era um sentimento que ela compreendia bem. Lentamente, Sesshoumaru limpou as lágrimas dela e olhou-a com uma ternura que não sabia existir em si. Naquele momento deixou a máscara cair, apenas por um momento. Por que ele sabia que em momentos como aquele, que ele próprio já passara, precisava-se saber que alguém compreendia.
E ele sabia:
Só havia um motivo para o desespero apresentado por ela,...
– Qual é o nome dele?
A pergunta do youkai era desprovida de qualquer julgamento. Só havia nela compreensão. A jovem percebeu, pois se permitiu respondê-la num sussurro.
– Akarin.
... era por amor.
Um pequeno sorriso escapou dos lábios dela ao pronunciar o nome. Sesshoumaru sentiu uma pontada no peito ao ver o que ele significava para ela, mas afastou rapidamente qualquer ciúme. Sabia perfeitamente como era isso. A divisão dos seus próprios sentimentos a fizeram sofrer uma vez, nada mais justo que o mesmo acontecesse com ele... ao menos, apenas naquele instante.
Devagar, ele a ajudou a se levantar, encaminhando-a para dentro. Por hora estava satisfeito. Tinha conseguido sua resposta e se viu mais curioso ainda sobre a jovem. Conhecia o mesmo sentimento e sabia como era sufocante. Perplexo, se viu pensando que não queria vê-la desse jeito.
Encontraria uma forma de ajudá-la.
...
Logo amanheceu e Sesshoumaru já estava do lado de fora da cabana. Tinha consciência de que a cada dia que passava era mais um passo para longe do término da guerra. Queria continuar ali, mesmo que significasse continuar a conviver com seus parentes irritantes, mas não podia ignorar seus deveres como Senhor das Terras do Oeste.
Como se lesse seus pensamentos, uma voz falou ao seu lado.
– Vai partir, não é? – Inuyasha estava parado ao lado do meio-irmão olhando para o nascer do sol.
Sesshoumaru pôs-se a anuir com a cabeça. Inuyasha foi direto ao ponto.
– Ela precisa de uma espada nova.
– Então você percebeu. – disse Sesshoumaru não aparentando surpresa.
– Tenho lá minhas experiências com isso. Não existe nada pior que a sensação de não controlar a si próprio e atacar pessoas queridas. – o hanyou tinha a face contraída. – Se ela perder o controle, você tem que pará-la, Sesshoumaru. Da maneira que for...
O Dai-youkai, que se atentava a cada palavra, deu as costas ao meio-irmão, indo em direção ao interior da casa. Antes de passar pela porta, dirigiu uma última palavra a Inuyasha.
– Não vou deixar isso acontecer.
Apesar de estar de costas, sentiu o hanyou sorrir.
Sesshoumaru entrou na casa ainda escutando as palavras finais de Inuyasha, que parecia falar mais para si mesmo que para o Lorde.
– Quem diria que o otimista seria você...?
Sesshoumaru ponderou as palavras do meio-irmão buscando compreendê-las por completo, mas logo afastou tais pensamentos. Não vou deixar nada acontecer, repetiu, confiante, para si mesmo. O youkai se aproximou da jovem adormecida. Assim como das outras vezes, ela tinha a face serena e ele quase desistiu de seguir adiante. Quase.
Sesshoumaru sacudiu levemente o ombro da garota. Ela acordou num sobressalto, mas quando seus olhos caíram sobre ele, pareceu relaxar.
– Sesshoumaru, o que...?
– Como está se sentindo? – cortou o youkai.
– Ahn? Ah, bem melhor, eu acho. – falou confusa com a pergunta repentina do youkai. – Por q...?
– Estamos partindo.
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