Notas iniciais
Feita a partir da música Paper Heart do girlgroup f(x). Eu sinceramente desejo uma boa leitura e as melhores vibrações para qualquer pessoa que estiver lendo. Obrigado por ser tão gentil com meu coração de papel ♥.

Um grupo de crianças corria e saltitava, com o júbilo da juventude, até um antigo jequitibá, admirando sua sabedoria como os antigos olhavam para seus xamãs. Os galhos marrons saltavam no ar, parecidos com um grupo de anjos tentando alcançar a luz do sol, em contraste com o céu azul. Sentadas no gramado que absorvia o sopro de terras distantes, estavam os pequenos. Alguns deles tinham seus primeiros fios de algodão nascendo e poucos, tinham seus rostos amarelados da cor do trigo. Em sua maioria eram seres bem dobrados de papel de seda. Macios e delicados, quase sempre voltavam para casa com seus joelhos machucados por sua curiosidade. Todos serenos e em uma estranha sintonia, enquanto eram banhados por um perfume doce que vinha das begônias cantoras ao seu redor. Uma sociedade de pessoas pequenas com problemas grandes. E se aproximava da grande árvore, um menino feito de pó de giz, verde. Tão frágil ao toque e entalhado diversamente pelas decepções de sua vida, poderia desaparecer com o sopro mais rude.

— Senhora? E-eu... Minha cor, minha textura... Tudo incomoda a todos... – Disse enquanto os seus olhos esculpidos profundamente, fitavam com uma profunda melancolia. Quando desabafou, gotejaram. Sua pele absorveu instantaneamente, seu rosto agora estava mole com todo o sofrimento internalizado. Era um boneco de vodu, amaldiçoado a ser julgado por ser diferente, incompreendido. – Por favor.... Me ajude... – Suplicou, com a lama descendo pelas suas maçãs do rosto. Sua tristeza era uma gangorra abandonada num sábado a tarde.

Assim que seu pedido ecoou pela área, toda a campina piscou em um verde neon, que parava a brisa e mostrava o que estávamos muito ocupados para ver. As epigeias se materializam e em seguida, alongavam os galhos das árvores, acordando-as de um sono profundo. Então, gritaram palavras estrangeiras e em um tom que humanos não poderiam ouvir. Acordaram todas as criaturas da floresta e em seguida, piruetavam por entre os pueris, que só podiam ver sua silhueta esmeralda e sentir os seus sorrisos telepáticos. As crianças retribuíam com maiores, a cada giro, estavam eufóricas e explodiam como pipocas com sabor de risadas escandalosas. O capítulo final desse espetáculo, Trías voaram por entre nós, despencando brilhos amarelados por toda a parte. E deram um presente para cada, seus paladares respondiam ao gosto de graviola que surgia crescentemente. Iludidas por esse ritual, mal percebiam o que ocorria atrás delas.

— Olá... – As raízes do jequitibá diziam, por meio de vibrações maternas. Ao mesmo tempo que uma pequena borboleta saía do casulo, a anciã chegou dos bailes de gala e festa a fantasia, e revelava sua verdadeira forma. Não precisava fingir mais. Sua cobertura de flores vermelhas num perpétuo banho de sangue. O sangue de todos os sábios reunidos. Formava uma cabeleira ruiva que se estendia numa explosão através de seus galhos. O cabelo apimentado, adornava o seu rosto feito das cascas de árvores, eram ásperas, mas formava olhos piedoso. Alguns de seus galhos formaram braços com dedos longos que cheiravam a abacaxi e poderiam envolver qualquer um, já que cresciam conforme à vontade. Uma médium, que clamava poesia sacra para secar lágrimas. As chamas da floresta apenas se acendiam, em um turbilhão de existência e destruição, alimentadas pelo vampirismo da evolução. Por fim, a árvore convidou todos a ler sua palma da mão, onde o toque de seus infantes pés descalços multiplicado pela velocidade que brincavam de pega-pega, resultavam numa aula de yoga de suas expressões faciais. Após algum tempo, sentiram vozes abafadas vindas de seus esqueletos calcificados com esmeralda. As raízes eram as agulhas, que penetravam seus corpos abruptamente por uma enfermeira rude, mas com boas intenções. Alguns soltavam pequenas exclamações enquanto isso acontecia. Dentro de suas veias, as estirpes deixavam sementes saírem de seus abraços. Sementes pálidas como antigas pinturas japonesas, que se rasgariam com o desrespeito dos ignorantes. Frutos que ecoavam a reação dos pais quando uma garota deu seus primeiros passos, os coros de seu primeiro aniversário e também, o trovão rasante de ter tirado sua primeira nota vermelha. Os últimos a subirem, viam seus colegas com as írises preenchidas por uma névoa densa e o corpo engessado em uma posição. O toque de sua pele, sintonizava suas mentes em uma animação em preto e branco, contando a história de uma pequena garota, feita de papel.

Dia 1.

Um mundo onde o branco era apenas a falta de preto, as margaridas eram compostas por um tom gelo, em contraste com seu centro cinza apático. Pessoas debatiam sobre qual pássaro havia passado por elas, as cores os faziam confusos sobre quais araras eram quais. Um mundo onde todos eram julgados pela variação de seus tons, estavam acostumados a isso. Afinal, por que não? Com certeza, a forma mais correta de julgar alguém seria pelo tom de sua pele, não por uma boa conversa, certo? Um mundo onde todos estavam presos, eram chicoteados pelos seus pensamentos, chefiados pelos seus preconceitos e alegrados pelo olhar de relance dos raios ultravioletas, que davam vida à sua pele em pequenos momentos do dia. Podiam ouvir a arte, que os tirava da solidão perpétua que era a sociedade, os acordes de um violão a distância, mas apenas podiam presumir como era e quem tocava, sem nunca poder saciar a curiosidade. Lá também acontecia um fenômeno exótico, a aparência de alguém se moldava conforma a evolução espiritual dos seres. Sua alma ao nascer, era

Em meio a tudo isso, havia uma garota que gostava de ser envolvida pela fervura dos mares, pelas bolhas que explodiam conforme suas emoções quebravam em ondas e suas amigas focas faziam acrobacias para lhe alegrar. De cima, o brilho dos dentes ferozes, mas quando você realmente conhece algo, vê cara a cara por trás das películas do oceano, percebe que a mandíbula deles era uma distorção dos chapéus da festa surpresa que tinham preparado para ela. Enquanto devaneava nesse mundo, estava com seu gato deitado nela, em meio a um furacão de ronrons em um gramado feito de veludo, que era da tonalidade dos coelhos que interpretavam suas peças de teatro por ali. E após acordar do espetáculo ilusório, queria criar pequenas asas de abelhas, para poder sorrir para o céu, como ele sorriu para ela todos os dias. Pegar seu ferrão e explodir as nuvens em doces. Sempre fantasiava com outros mundos, onde estaria tudo bem. Desejava todas as noites, exatamente três vezes, ir para Arcádia. Uma utopia distante que mergulhava em alucinógenos seus pensamentos de desesperança sobre o mundo. Lá, as gotas que caíam sobre a grama, curavam as rachaduras que se formavam nas gargantas daqueles que vagaram através dos templos de areia. Os cactos, após diversos anos, davam sua primeira flor em conjunto, quando todos estivessem prontos. E quando a primeira alma desperta na alvorada, o dia de todos começa a ser preenchido com esse perfume doce, dando um motivo a mais para não desistirem de sua vida.

TAC! TAC! TAC!

Como um médico autopsia um extraterreste, a professora cutucava com a régua o quadro negro, quebrando o seu contato com o mundo interior. Seu corpo metálico lembrava o de uma boneca por trás da embalagem, bem-cuidado. Era alvo de muitas cartas de amor e elogios. As suas bochechas eram rasgadas, como se tivesse sofridos dois arranhões de tigres e subiam pra cima, fazendo duas espirais com pontas enferrujadas. Seus olhos que refletiam uma paisagem cheia de arranha-céus atemorizam qualquer um que não segue suas regras.

— Ili, qual a resposta da conta? – Apontava para cálculos que segundos atrás não estavam na sua mente, todas as respostas dissipavam no vapor dos seus pensamentos. Seus colegas de classe olhavam, ansiosos por uma boa risada e uma chance de tirarem a atenção dos seus recentes erros.

— Eu acho que... 13? – Disse com incerteza enquanto seus olhos expressavam dúvida.

— Todas as vezes que você está em minha sala, você começa a olhar para o nada. Quer saber? O mundo não procura quem faz isso, eles procuram quem sabe fazer contas! Flora, qual a resposta disso? – Um timbre metálico ecoava sempre que terminava suas frases.

— 9i.

— Viu? Todos sabem a resposta. Menos você. – Ela virou para lousa e continuou a fazer mil cálculos e periodicamente, todos olhavam para Ili como se fosse a tragédia mais cômica de um teatro grego. Não era compreendida ali ou em nenhum lugar. A cada riso, um maremoto de águas cravadas em pérolas cruzava silenciosamente o pequeno peito de papel da nossa garota. Tão forte que toda a habilidade de aprender se foi, tão quieto que ninguém nunca percebeu que sempre esteve ali. As águas cheias de raiva e tristeza que formavam um redemoinho ao redor de seu coração, o afogando em comentários que podiam ser ouvidos como se dois fantoches alternassem xingamentos em cada ouvido. Burra. Alucinada. Demente. E todos esses faziam com que a pressão da água aumentasse e só diminuísse com a única lágrima que descia dos seus cílios desenhados e manchava lentamente a folha de seu rosto, que nunca mais seria a mesma. Então desapareceu, até ter que ir embora.

Ili saltitava com sua mochila até o barco, passava pela multidão de rostos inexpressivos, como se fosse um brinquedo que acabaram de ligar, patinava pelas ruas como uma pequena fada, a da graciosidade. Corria com suas sapatilhas delicadas tocando os paralelepípedos, um contraste da sua leveza com o mundo concreto. Sentia o vento cortando pelo seu rosto, trazendo o som das ondas de seiva se quebrando lentamente na costa. O cheiro adocicado da substância servia como um nitro.

Pilotado pelo Capitão Lenhoso, o paquete atravessaria o mar de seiva. Sempre esperava por Ili, tinha uma consideração pela menina, e após ela entrar na embarcação, partiu. Sentou no último lugar disponível, perto da popa e abriu sua mochila abruptamente. Em meio a papéis amassados, canetas pedindo ajuda por estarem separadas de suas tampas e borrachas desaparecidas, ela retirou seu caderno de desenhos. Um diário feito de forma diferente. Ao vê-lo, se sentia em casa. Abraçou sua capa dura e fria com cuidado e se sentiu envolvida por um abraço muito maior que qualquer um que já recebeu. Seus órgãos internos festejavam, estourando pinhatas que explodiam em uma névoa branca, espalhando papéis coloridos para todos os lados, quando seus dedos tocavam os desenhos novamente. Sentia a textura dos lápis que foram usados há meses.

Os desenhos eram sua família, seu caderno era seu lar. E no seu lar, todos a abraçavam e não cansavam de cuidar dela, para que ficasse bem. Era a rainha de tudo. O que mais ouvia era como nunca conheceram alguém tão inteligente. Lá, criou aquedutos que levavam água para comunidades distantes. Foram construídos para ficar contra o sol e eram de tijolos de safira. Nos dias mais quentes, o sol aparecia distorcido através das lentes dos minerais, como se estivesse embaixo de um oceano, esfriando e esperando para brilhar novamente. O som da água correndo unia a nação, para ver este espetáculo.

Se levantou no meio de uma guerra e tocou: “Meu peixe-dourado. ” O mais novo hit da nação que ela tinha composto em alguns minutos, e parou uma enorme guerra entre tesouras e colas. Apesar de seu cabelo sair um pouco mais curto e um pouco colado, valeu a pena. Um dia, todos os cidadãos tocaram essa mesma música com sinos de natal, as vibrações ecoavam em uma onda de choque permanente pelo reino. Era como se fosse banhado por um holofote, de união e gratidão. Todas as manhãs os espíritos do café e do açúcar, que se assemelhavam a bolas de gases, a envolviam em um tufão como tivesse trevas e luz, feito de aromas que relaxavam seu lindo cérebro todos os dias. Reino que se expandia e a envolvia como um campo elétrico. A protegendo do mundo real. Brincando com seu cabelo, e a distraindo de qualquer negatividade. Não podia ainda explicar, mas seu mundo era diferente. Apesar de ser imaginário, era o único lugar em que ela se sentia em casa. Não era normal. Era seu e por apenas ser só seu, ela segurava o seu caderno e nunca o deixaria ir.

Assim que o barco parava devagar perto de uma ponte de madeira, todas as crianças começaram a descer. O som dos passos tirou Ili de seu grande devaneio, guardou sua bolsa e foi para sua casa. Era perto dali. Alguns dias, o mar contava as maiores histórias e a beijava antes de dormir.

Entrou e sentiu a rotina se repetir. Sua avó, uma mulher com a cara similar às portas que foram fechadas em sua vida, assistindo televisão, porém sem sintonia nenhuma. Seu rosto era marcado por favos de mel e o granulado instável era refletido neles. Seus olhos de caramelo não focavam em mais nada e as abelhas que a rodeavam, zuniam mais alto que a televisão e a contavam os segredos da vizinhança por meio de um código secreto. Os chiados ficavam intensos e cada vez mais rápidos, em contraste com a parede acinzentada. Perto dali, escutava a água escorrendo pela pia. Sua mãe lavava as panelas enquanto deixava a sopa esquentando no fogo.

Lily imediatamente olhou para o teto e pensou como era se sentir uma batata lá dentro. Seus órgãos eram atingidos por uma imensa onda de calor, como uma sauna inteira, em contraste com sua casa. As paredes somente tinham cor e os móveis não tinham nenhum adereço. Muitas das lâmpadas dos cômodos não ouviam bom dia ou eu te amo serem ecoados, antes de pifarem. Porém, gritos e pratos quebrados as assustavam. Em que sempre, desligavam, menos no quarto de Ili. Lá, brilhavam de diferentes cores, dançavam em gelo, branco e cinza. Lá, se dissolviam num espectro, mesclando suas personalidades em uma só. O cabelo de nossa garota de papel acompanhava seus pulos, sendo jogado para os lados, em um só movimento de liberdade. Sua voz já não era mais ouvida e as ondas sonoras cortaram o ar em desespero para serem ouvidas, chocavam-se uma a outra. Seu corpo vibrava em um eterno estado musical, prestes a detonar em notas musicais pelo ar. Sintetizadores fizeram correntes que a seguravam, virarem labaredas e se espalharem pelos cantos de seu quarto. Juntaram-se em fila, e expandiram em supernova, uma a uma esculpida em forma de diversos corpos que derretiam tudo que tocavam e dançavam. Seu corpo era plasmático e não poderia ser definido por nada e ninguém, além da dança, seu maior combustível, que os moldavam em uma plateia só. A festa, era um incêndio, composto por chamas, alegria, luz e música. E Ili, observava seus amigos enquanto pulava em seu canto, um sorriso rasgava seu rosto como uma tempestade de raios.

Mas seu quarto naquele dia, não estava festejável. Estavam simples, com um lençol branco sem dobras em sua cama. Sua janela observando seu amante, os oceanos. E um cavalete como muitas pessoas que foram tratadas com amargura, vazio. Em um só salto, em sua cabeça, era quase ornamental. Seu corpo se acomodou no colchão como um pássaro se sentia num ninho. Protegida pelas luzes, música, chamas e alegria. Seus olhos começaram a observar o teto, e o projetor da sua mente refletia a imagem de alguém.

Seu pai olhava para ela, sorrindo. Apesar de ela só poder visita-lo sábado, ele era sua definição de felicidade. Uma de suas memórias estava sendo reproduzida. Ela o filmava em sua câmera, pois gostava de seus olhos idealizados. Tinha em seu rosto, um splash de cor. Podemos sentir a quentura do verão em seu centro acinzentado e se transformava de forma gradual em tons mais claros, mas igualmente alegres. Em preto e branco, sua sobrancelha era feita de pequenas pétalas, como se fossem parte de uma flor. No seu cabelo, flores nobres se movimentavam com o vento. E, seus crisântemos desabrocharam repentinamente em um júbilo. Dentro delas, pequenas pipas bailavam com os ares, enquanto eram conduzidas por formigas. Suas milhões de pétalas lembravam um cânion, nele um rio de perfumes místicos corria, nutrindo as flores com o que os românticos procuravam, fragrâncias variadas. Pequenas partículas de pólen voavam longe, quando um vento bateu. Então ele a puxou com cuidado para não a amassar. E a colocava em um cavalinho. Ela batia em sua cabeça como se fosse um tambor e vozeava sua animação em um pequeno agudo. E começavam a girar, e uma aromaterapia com absinto aconteceu, fez com que sua imaginação frutificasse em mangas feitas de rubi e folhas feitas de esmeralda. Rara, e refratando o mundo pelo seu lado esquerdo, de jeitos que ninguém nunca pensou em ver. Perto dele, estava perdida em um eterno Halloween. Doces e fantasias. Tudo que sempre quis.

A inspiração a atingiu como a flecha atinge um alvo. A sua aura estava adornada por respingos espalhados de uma substância sombria e mal interpretada, que escorriam por todas as camadas do seu eu interior. Formando uma imagem que era retratada aos poucos. Parando o gotejar, milhares de agulhas penetravam sua pele rapidamente. As pontadas eram como chicotadas, que grafavam uma coruja de írises arrancadas por trás de toda essa loucura. Localizada em suas costas, seu corpo era percorrido por centelhas de sua marca. As penas negras caíam por todo seu corpo. Abandonadas. Se fixavam conforme as curvas seu espírito. Então a substância começou a brilhar sob a luz negra. Amarelo neon tremulava a ave para cérebros nus. Cintilava pela luz em espelhos multicoloridos, refletindo como em um caleidoscópio. Vidros que eram como uma grande roseta de uma Igreja, brilhavam conforme a luz interior aumentava e uniam seus fragmentos em um símbolo só. Oscilava intensamente, como as tempestades de areia. Antes se camuflava nas neves, porém assim que decidia sua presa, brilhava intensamente, a amedrontando com suas asas e a hipnotizando com a resplandescência de seu esqueleto leve colorido. Então, seu olhar vazio despertou em um flash. Como dois faróis, uma luz violeta ofuscante reluzia deles. A marca começou a se aproximar e a se reunir com sua pele impressa. Convertendo-se em um. Sabedoria e humanidade. Os sussurros de espíritos perdidos invadiam seus neurônios. Os flashbacks das suas vidas que já se foram, passavam em uma fração de segundos. O cheiro forte da tinta, entorpecia sua mente em um transe, onde tudo fluía em questão de segundos. A tatuagem ligou-se a sua pele, penetrando pelo seu sangue. Manchando-o com as cores do arco-íris. O oxigênio em seu cérebro tinha gosto de suspiros celestiais. Finalmente chegou a inspiração.

Seu pulo da cama balançou pó pelo quarto. Se colocou de frente ao cavalete. O pincel de madeira velha passeava entre seus dedos, por onde poderia sentir sua textura seca. Escorregou-o até a tinta turquesa em sua paleta. O asfixiou em abstracionismo. A tela compartilhou de seu ar. O asfixiado afundou nela, pintou lentamente um círculo. Na imagem, ainda podíamos notar o movimento dos fios do pincel, cada um deles era tão marcante. Enquanto o vento levantava as cortinas para o ar e batia em seu rosto, as linhas se movimentavam em frames e compunham algo que era visto pelo sétimo sentido. Independente de referências visuais encontradas em qualquer lugar. Uma ilusão de baunilha, que o distraía daquilo que apenas podia ver. Um pequeno gole de vinho tinto, degustado apenas com a atenção plena. A imaginação era mais uma vez seu lar, seu porto-seguro. Sua melhor amiga quando se sentia sozinha. A única que quando se sentia mal, pegava um foguete em seu reino mágico e viajava para longe. Enquanto todos os cidadãos, que a amavam davam um adeus, sabendo que a teriam de volta e felizes de terem ajudado a construir a nave. A abraçava e afundava seu rosto para chorar em seu suéter quente. Conseguia sentir o tecido macio em seu rosto. Se sentia protegida por um holograma de sua mente, que a fazia perceber que estava tudo bem. Então era apertada fortemente para perto, deixando as mãos de sua amizade a envolverem, deixando os discursos bem articulados sobre como tudo ia acabar bem dominar sua mente. Suas lágrimas eram fiéis a torrente do tempo e caíam conforme a colônia de algodão doce estimulava seu olfato.

Segurando a tela com seus dedos, observava os infinitos círculos que desenhou. O tom gelo com uma intersecção laranja com seu vizinho vermelho. Ela conseguia ouvir o discurso calmo do petróleo, em contra a risada contagiante do branco floral formando as cinzas sábias que lembravam as praias da Islândia. As figuras a lembravam de seu pai, as flores em sua cabeça vistas de cima, competindo uma com a outra pela luz macia do sol. Sentia em seus dedos de papel, a textura da lona coberta com gesso e a tirou. O forte cheiro da tinta a óleo cobria seu quarto, enquanto ouvia o gotejar de algumas cores pelo chão. Conseguia ver um rio monocromático correndo pelo seu quarto, se continuasse assim. Colocou sua paleta no lugar e tirou o quadro. Respirou fundo. Sua aliada imaginação, colocou sua mão no ombro de celulose, seu corpo que se moldava aos olhos de quem via, porém agora era felicidade sem forma. Sorriu enquanto segurava seu quadro e olhou para ela, e acenou. Então se pôs a andar até a cozinha, para mostrar sua primeira obra-prima para a família.

Andando pelas madeiras em sua casa, seguiu o cheiro amarelado da sopa. Se pudesse, flutuaria até lá igual aos desenhos. Passou por um arco de madeira e viu a silhueta de sua mãe contra a luminosidade da janela. Sua pele era feita de pedaços de couro bronzeados em produtos químicos. Pretos, cinzas e até cinzas mais claros. Que brigavam para ver quem sobrepunha e apareceria para o mundo, pareciam um tabuleiro de xadrez mais colorido. As bordas de cada um eram um preto intenso como se marcassem território. E os fios de seu cabelo eram como os fios do material, como se fossem embebecidos em mel. Grandes tranças nagô, duas almas entrelaçadas caíam até sua cintura. Usava um vestido que seguia os mesmos esquemas de sua pele.

— Mãe... Olha o que eu fiz! É o papai! – Disse Ili em um agudo esverdeado, segurando o quadro que era quase maior que ela, apenas mostrando seu rosto que era como um caderno, com um grande sorriso desenhado a lápis, marcando seu rosto. Mas não sabia que o mesmo, logo sumiria. Sua mãe mal virou a cabeça e franziu as sobrancelhas. As gotas da torneira ricocheteavam a armadura impermeável que era seu corpo. E os sonhos da filha ricocheteavam a armadura impermeável que era seu coração.

— Eu não sei porque eu comprei coisas para você pintar. – E continuou a lavar os pratos. O sorriso encolheu, e a garota piscou várias vezes. Ainda sem entender. – Você poderia gostar de matemática, números, ciência... – Jogou a panela contra o fundo metálico da pia e semicerrou seus olhos. Podíamos ouvir todos os animais mortos do couro que era feita, darem um tom selvagem em sua voz. – Mas você gosta de pintar! De artes! E nem sequer é boa nisso... – Ili largou sua tela, e seus olhos molhados observavam o canto da parede a sua direita, e agora teria que carregar o peso daquelas palavras. O peso de ser ela. Seus lábios caíam levemente para baixo, desapontados. Dois grandes lagos estavam prestes a desabar por trás de seus olhos.

— Você pintou um quadro de novo? Crianças... – Podia ouvir a voz amargurada de sua vó, que a fez fechar os olhos com força, para tentar não ver e não estar mais ali.

— Por que eu te deixo falar com seu pai? Por que você é assim? – Ao ouvir isso, Ili levou seus dedos frios para perto de sua orelha, fechou os olhos com mais força ainda e balançou a cabeça negativamente. Os gritos e comentários só passavam de um eco distante. Estava de volta na espaçonave. Percebeu que estava do lado de fora de uma capsula, as paredes brancas e insossas podiam ser vistas lá dentro. Com um pequeno vidro na porta, viu sua amiga imaginária balançando seus dez braços finos e grandes, que tinham luvas em seu suéter azul. Onde havia descansado seu pequeno rosto. Porém ao seu lado, viu um ser formado de letras embaralhadas em formato humano. Entre elas podia-se distinguir as mesmas que ouviu antes. Demente. Alucinada. Burra. Seu mundo estava corrompido por um vírus, a realidade. Que se levantou, se aproximando do vidro. A encarando enquanto um grande “Perdedora” era visto por nossa protagonista. E logo elas se embaralharam em uma grande frase. Ili movimentou os lábios conforme lia.

— Diga adeus a sua amiga. – Após um segundo para se dar conta da situação, fechou e viu a figura abeirar o botão de lançamento. — Não! — Gritou e posicionou seus pés contra o chão liso para pegar impulso. Se chocou com a porta, o lado esquerdo de seu ombro se preencheu por uma onda de dor. Fechou os olhos e jogou novamente seu leve corpo. Era um plano de mestre, como ela conseguiria abrir essa porta sendo apenas uma garota de papel? Segurou a maçaneta e começou a mexe-la várias vezes, a adrenalina dilatou suas pupilas e sua força aumentava. O som da maçaneta sendo girada preencheu toda a nave. E seus gritos de desespero cortavam a sua garganta em pedaços falhos de voz. Olhou e conseguiu ver a cápsula sendo despachada e sentiu a porta lentamente se abriu.

— Não, não pode ser... Não, por favor... – Seus olhos se fecharam. Seu corpo caiu de joelhos ao chão. Não poderia estar mais em pé e levou sua mão ao rosto. Pranteava enquanto sentia a água escorrer em cascata pelos seus dedos. Manchando o papel, a manchando inteira de uma forma que ninguém fez antes. Os soluços viam e voltavam, mas não era o suficiente. Levantou seu rosto e soluçou. Seus olhos ardendo podiam ver apenas um paredão de estrelas vazias, que sempre se recusaram a ser suas amigas. Podia ouvir as últimas fagulhas de estrelas mortas a distância se dispersarem na matéria negra. Podia até sentir os hologramas da parede que dividiria este universo com os outros. Mas não a via mais. Não ouvia sua voz. Não sentia seu abraço. A única coisa que se sentia, era solidão.

Olhou ao redor e começou a perceber os desenhos que fizeram nas paredes. Era a única família que tinha e seus lábios fizeram um movimento crescente. E viu no fundo do corredor, as paredes se descascarem para inexistência em um turbilhão que estava chegando até ela. Como pedaços de uma folha, eram rasgados e espalhados pelo infinito. Dissipados para longe por uma brisa leve.

— O quê? – Seus olhos confusos observavam os fragmentos que viam em sua direção. O resto do corredor começava a se desmaterializar como vidros quebrados, em uma paz silenciosa. As paredes foram rachadas e estes estilhaços flutuavam pelo ar. Um branco fantasma tomou conta da cor do universo, as estrelas não brilhavam mais. Não poderiam ser identificadas pois desvaneceram no esquecimento. O coração da sua imaginação parou de bombear sangue e agora tudo estava falecendo. Olhando para os lados, com seus olhos preenchidos por nada além de lágrimas, tentou pegar um dos pedaços. Conseguiu! Pegou mais um! E outro! Tentou encaixá-los. Formavam um triângulo que era um recorte de um dos desenhos que sua companheira de aventuras fez. Sentia a textura dos giz-de-cera como no seu caderno. Os pequenos traços formavam duas bonecas de palito, de mãos dadas e sorrindo. Animada com a possibilidade de salvar tudo, secou suas lágrimas com uma mão, que agora caíam de felicidade. Porém, como surpresa, o desenho quebrou na metade, quebrando as mãos que as mantinham juntas. Voaram, exatamente como assopramos os dentes-de-leão. Eram rápidos demais para pegar no ar. Seguiam caminhos diferentes.

Perdendo toda sua esperança, se tornou imóvel. Sua visão embaçada por decepções, memórias perdidas e sonhos quebrados. O que te trazia mais conforto foi levado, despedaçado em sua frente. Era incolor e inóspito. Não tinha som, era apenas oco. E estava no meio dele, perdida. Suas lágrimas fluíam tanto que faziam parte de seu rosto, porém seus pedidos de ajuda não eram ouvidos por ninguém, se perdiam na imensidão que era o nada. Ela agora, sem tudo que pensou, era parte disso. Era nada. Desdobrando seu peito, encontrou seu coração de papel que batia lentamente que se desequilibrou, e começou a se distanciar, a última coisa a desaparecer. E começou a se rasgar em sua frente. Mal conseguia vê-lo, já que estava embaçada, mal sabia o que era si mesma em meio ao vazio. E logo, as gotas que caíam pelo seu rosto se dissolveram. E com um encarar sério, foi quebrada. Seus olhos profundos fragmentados em pedaços, mas nunca deixavam de estar em luto. Sempre se questionou o que compunha o vazio e aqui estava sua resposta: Pedaços de uma garota em prantos, por ver tudo que tinha ser fragmentado em sua frente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!