Notas iniciais
Sejam bem vindos a Chawon, o mundo onde o impossível é só questão de opinião. ;)

Afogamento. Seus pulmões lutaram pelo ar inexistente. Sentiu algo passando rapidamente pelas suas pernas e olhou para baixo. Um peixe amarelo se escondeu no meio de um recife de coral a poucos centímetros dele. Virou a cabeça de um lado para o outro. Pânico. Como era possível estar afundando?

Procurou raciocinar... Ele precisava encontrar uma luz ou qualquer coisa que o indicasse a superfície. A direção do alívio da pressão em seus pulmões. Já sentia seu cérebro mandando avisos para todo o corpo: ar. Precisamos de ar. Onde está o ar?

Estava a quantos metros abaixo do nível do mar? Não seria bom para seu corpo se subisse rapidamente, em busca de oxigênio; tampouco seria ideal se desmaiasse ali, cercado por toneladas de água.

Aonde diabos fora parar?! Geralmente ele anotava num bloquinho de papel informações que o ajudassem. A superar a amnésia. Ela era um dos efeitos colaterais de usar o seu poder, então ele não se preocupou com isso. Daqui a pouco ela sumiria. Ele só não fazia ideia se lembrar era urgente ou não, porque estava afundando. E o desespero estava vencendo.

E o bloquinho de papel já deveria estar inútil... Ele deve ter pensado nessa possibilidade. Deve ter pedido a companhia de alguém, caso houvesse a mera possibilidade de ele parar no mar. Com amnésia.

Alguém! A nuvem do desespero se afastou e ele procurou um corpo. Um braço, um pé, alguma coisa! Esqueceu que precisava de oxigênio e se concentrou em achar o seu acompanhante.

Se é que ele tinha algum... Droga, essa amnésia era mesmo insuportável! A última coisa da qual ele se lembrava era uma taverna. Um brinde e gritos de alegria.

Será que ele tinha sido estúpido o suficiente para usar seu poder bêbado?!

De repente uma mão agarrou a sua e ele gritou. As bolhas escaparam de sua boca e ele a fechou, prendendo o restante de ar. Olhou para a esquerda. A mão o puxou para cima. Ele foi forçado a nadar por infinitos metros, o desespero rondando o limite de sua mente. Torcendo para ele perder a consciência. Gritando para ele ignorar tudo e inspirar.

Inspire, inspire...

Não.

Inspire e vai ficar tudo bem...

Não!

INSPIRE AGORA!

A cabeça dele emergiu. Ele tossiu e vomitou um pouco de água. Ouviu alguém — seu acompanhante! — fazer o mesmo ao seu lado e se virou para olhá-lo.

Olhá-la, na verdade. Uma jovem com os cabelos escuros grudados no seu rosto lutava para acalmar a respiração. Ele teve o impulso de afastar os fios. Não precisou. O som de um motor chamou sua atenção e ele olhou para cima.

E gritou.

Era um galeão. A poucos metros dos dois. O grito assustou a jovem que tentou encará-lo por trás da cortina de cabelos molhados. Ela não teve tempo de afastá-los. O rapaz gritou de novo — dessa vez, um aviso — e a puxou ao voltar para os braços acolhedores do lar dos peixes.

Ele nadou o mais rápido que conseguiu e, de vez em quando, olhava para trás. Torcia para a jovem estar seguindo-o. Não conseguia lembrar-se dela, graças à maldita amnésia temporária, mas sentia que ela era importante. Para ele ou para alguém ou para alguma coisa.

A proa do galeão comprido passou no exato local em que eles estavam segundos atrás. O rapaz procurou a jovem, sua possível acompanhante, e viu que ela já voltava para a superfície. Devia ser corajosa. Ou burra demais. Emergir ao lado de um navio desconhecido era o mesmo que pedir por problemas.

Seríssimos problemas.

— Não. Ei! — Ele bateu os braços na água para chamar a atenção dela. Olhou para o navio, em pânico, mas não viu nenhuma cabeça os olhando.

— Qual é o seu problema, Lukas? — Ele notou que ela não tinha perguntado com raiva, como qualquer pessoa normal faria num momento daqueles. Não. Ela parecia calma, no controle da situação. Ou talvez estivesse acostumada com os ataques súbitos de paranoia de Lukas. Eles tinham tanta intimidade assim? Como era possível a amnésia apagá-la de sua mente completamente?

— Qual é o seu problema?

A jovem encarou-o, desconfiada.

— Você me obrigou a vir contigo para esse lugar. Disse que era urgente. Não me explicou nada, só me puxou enquanto me convencia a parar de resmungar. E então nós apare... — Ela parou de tagarelar e bufou. — Ah, é mais um episódio de amnésia, né? Esses efeitos colaterais são bem chatinhos.

Lukas arregalou os olhos.

— Eu não lembro... Como você sabe dos efeitos... Como você sabe da amnésia?

— Porque uma vez você passou muito mal. — Ela nadou para mais perto dele, igualmente confusa. — Vomitou tanto sangue, não sei como você não morreu. Foi muito tenso. Você não podia mais esconder de mim que era um... Você não lembra disso? — Ele balançou a cabeça. Ok, eles eram íntimos. Lukas arriscaria dizer até muito. Ela não parecia agir como sua namorada, porém com certeza sabia coisas demais a respeito dele. E se importava o suficiente para esquecer do gigantesco navio ainda ao lado deles.

— Não. Não, eu não me lembro de... De você. — confessou. Envergonhado. Confuso. Frustrado. Odiava ter sido logo a amnésia o efeito colateral da vez. Preferiria até mesmo uma hemorragia ou coma. Amnésia era irritantemente inadequado.

Os dois não tiveram tempo para discutir o blecaute das memórias de Lukas. Uma voz grossa masculina veio de cima deles, fazendo-os tremer de susto.

— Homens ao mar!

A jovem fez uma careta só vista por Lukas. Apesar do novo problema descendo por uma escadinha de corda, ele a olhava pelo canto do olho. Sentiu uma necessidade anormal de conhecê-la.

Um homem pulou na água na frente deles, obviamente ansioso. Ele examinou os rostos de ambos os aparentes náufragos e só então percebeu que eles eram desconhecidos. Gritou alguma coisa para os outros tripulantes do navio, provavelmente sobre esse novo fato. Lukas não prestou atenção. Não conseguia parar de olhar a jovem. Ela sentiu o olhar dele e sorriu levemente.

O homem apontou para a escadinha de corda e disse mais alguma coisa. Lukas foi expulso do transe quando a jovem aceitou o convite e nadou até a escadinha. Os dois subiram com um pouco de dificuldade; Lukas querendo saber o tempo todo o porquê dela estar indo ao encontro da tripulação. Já decidira que ela não era burra. Agora só restava descobrir qual era o limite de sua coragem.

Quando eles finalmente chegaram ao fim da escadinha, Lukas foi acometido por uma forte sensação de deja vú. Ele quase caiu em cima do homem abaixo de si. Ouviu a exclamação dele e sentiu que já sabia que aquilo aconteceria. Não era uma visão ou qualquer coisa do gênero; todas as pequenas coisas que aconteceram naquele longo momento, ele sentiu que já sabia delas antes. O resmungo que a sua acompanhante soltou ao pisar no convés imundo... Um dedo coçando o nariz numa tentativa de tirar as melecas... Todas aquelas mínimas coisas.

A sensação durou apenas um minuto. Assim que ela passou, Lukas recuperou a voz e a audição. Um velho de aspecto forte e saudável estava parado na frente dos dois. Após analisar atentamente os rostos novos, ele fez uma pergunta a Lukas, porém este havia acabado de ver a bandeira de uma caveira no ponto mais alto do navio.

Piratas.

Por que, por que seu poder o levara àquele dia? Por que a maldita amnésia ainda não havia passado? Ele precisava de respostas imediatamente. Precisava, agora mais do que nunca, de todas as suas memórias. Precisava lembrar quem era...

Lukas virou-se para a jovem, sem perceber que ignorava claramente o velho.

— Você é... Diana? Esse nome apareceu na minha cabeça. — murmurou incerto.

Ela assentiu devagar. Voltou a olhar para o velho, franzindo a testa, e Lukas percebeu ela tirando a luva vermelha de couro de uma de suas mãos. Decidiu não comentar nada sobre. Percebera que ela queria discrição, embora não fizesse a menor ideia do motivo de ela ter feito isso. Felizmente, ninguém mais reparou.

— Nós somos náufragos. — Ela mentiu para o velho e todos os outros tripulantes do navio pirata. Aparentemente, ela também havia visto a caveira na bandeira. — Nosso barco afundou há alguns minutos e estávamos esperando ajuda... — Ela encolheu os ombros.

O velho pareceu acreditar. Lukas teria acreditado em todas aquelas tristes palavras e até sentiria vontade de abraçá-la, caso não soubesse a verdade. Diana mentia bem. Diana. Agarrou-se a esse nome, como se isso pudesse fazer sua amnésia desaparecer.

Como se sua vida dependesse disso.

No entanto, eles eram piratas. Imprevisibilidade e anarquismo faziam parte dos boatos espalhados pelos sobreviventes. Lukas sabia que não podia esperar bondade por parte deles.

Então o velho disse as últimas palavras que ele esperava ouvir naquele navio:

— Sorte de vocês que estávamos retornando a uma ilha aqui perto. — E se afastou.

Lukas e Diana entreolharam-se. Ela decidiu recolocar a luva assim que os tripulantes cansaram da novidade resgatada do mar e separaram-se em diferentes direções. Os dois ficaram no meio do convés; ele chocado demais com a inesperada reação do pirata, ela confusa e novamente aborrecida com Lukas. Diana puxou-o para um canto e bateu em seu braço.

— Ai! Por que você...?

— Fale baixo! Por que aqui? Por que você nos trouxe aqui?

— Eu não sei! Ainda não lembrei. — Ele olhou ao redor, atento. Recebeu um novo tapa, dessa vez na cabeça. — Ai. Para com isso.

— Você tem que lembrar agora!

— Eu sei disso. Me bater não vai mudar nada. Não é assim que funciona. Você deveria saber disso. — Diana o encarou.

— Você disse que não se lembra de mim. — murmurou num tom melancólico.

— E não lembro.

Lukas parou de analisar os piratas trabalhando e a encarou de volta. Sentiu agonia. Por que, por que, por que ele se sentia assim? Por que a necessidade de lembrar quem ela era para ele e o motivo deles estarem ali estava quase sufocando-o? Nunca fora assim. Em nenhuma das outras vezes em que ele usara seu poder e ficara momentaneamente esquecido. O que tinha de diferente nessa?

— Diana, quem é você?

Ela abriu a boca. Iria responder. Ele viu que ela estava refletindo e desejou ser capaz de ouvir seus pensamentos. Ouvir o que se passava em sua cabeça. Poderia ser a resposta para a sua amnésia. Para o problema no qual tinham se metido. Poderiam ser as lembranças das quais ele tanto necessitava.

Diana balançou a cabeça, murmurou que seria melhor se ele se lembrasse sozinho. E deu-lhe as costas.

Notas finais
Comentários são sempre bem vindos. É muito importante pra mim saber o que vocês estão achando da história. ♥