Foi o seu poder que o tirou da inércia. Lukas não soube dizer quanto tempo levou para perceber que não estava mais no navio destruído, e muito menos no mar. Só sabia que, de repente, estava com os joelhos sendo espetados pela grama seca de algum lugar desconhecido.

Não era estranho ter se materializado num lugar aleatório após uma experiência de choque. Ou pânico. Aquilo já havia acontecido tantas vezes a Lukas que ele nem se incomodava mais. Achava, na verdade, que era uma maneira de seu poder socorrê-lo. No entanto, era frustrante não saber em qual ano fora parar.

De novo.

E estava sozinho. Por algum motivo, o corpo de Diana não viajara com ele. O corpo de Diana. Lukas sentiu que ele levaria muito tempo para se acostumar com esse fato. Num momento, eles conversavam e riam, no outro, tudo virara sangue e fumaça. Vermelho e preto. Quase como uma péssima metáfora.

Ele olhou em volta, tentando se desvencilhar da tontura e do cansaço extremo. Atrás de si, havia algumas árvores com poucas folhas e muitos frutos. No chão, a grama ainda verde estava quase toda coberta por folhas coloridas caídas recentemente daquelas árvores. Ou talvez levadas por ventos de lugares distantes.

Ela morrera. Lukas apertou a cabeça. A tontura era efeito colateral da viagem ou ainda era por causa do choque? Talvez ambos. E se ela não estivesse morta de verdade? E se... E se aquilo tivesse sido algum tipo de ilusão surreal ou... Ou mais uma das estátuas de Diana, e não a própria? Ele tinha que voltar. Tentou ficar de pé, mas a tontura o derrubou. Temeu precisar de ajuda para levantar.

E depois que a vertigem passasse? Ele não se lembrava de em qual ano o corpo de Diana estava. E se fosse no limite de anos em que ele conseguia viajar de uma vez só? Ou mais... Lukas duvidava que conseguiria ficar acordado por tempo o suficiente se fizesse mais de duas viagens consecutivas.

Ele não podia arriscar sua vida assim, não por uma pessoa cujo rosto começava a esquecer.

Fechou os olhos com força. Olhos castanhos, rosto fino, cabelos cacheados. Olhos castanhos, rosto fino, cabelos cacheados... Castanhos ou loiros? Os olhos eram mesmo daquela cor? Ficou em dúvida se a imagem ainda estava intacta ou se já havia sido contaminada por sua imaginação.

Parecia primavera. O sol estava quase no final do horizonte, mas aquilo significava que era quase noite ou quase dia? Lukas sentia-se mais perdido do que quando estivera afundando no mar, sem lembrar-se nem mesmo do nome de sua acompanhante.

— Não posso me esquecer de você de novo.

Desejou ter um lápis e um bloco de notas seco. Ele procurou nos bolsos da calça e puxou uns papéis encharcados. Era impossível ler qualquer anotação que ele pudesse ter escrito sobre seus dias com Diana. Os papéis amarelados mal continham o grafite fraco que teimava em ficar borrado. E se deixasse o bloco secar? Será que conseguiria ao menos ler algumas palavras? Duvidava. Ele precisava era de um novo bloco. E de uma nova mente, porque aquela estava muito ferrada por causa de seu poder e não cooperava. Nem mesmo agora que não fazia mais diferença, já que Diana estava morta.

Lukas sentiu o famoso nó na garganta proveniente do choro, porém as lágrimas nunca vieram. Encarando o céu crepuscular, ele sentiu-se sufocado pelo vazio.

Respirou fundo. Não podia se dar ao luxo de surtar. Tentou erguer-se mais uma vez. O mundo duplicou-se e rodopiou, mas ele conseguiu ficar em pé. Pela primeira vez desde que se materializara naquele lugar, enxergou ao longe algumas casas. As luzes estavam acesas e ele pensou ter ouvido gritos de animação.

No meio do caminho havia um riacho. Lukas cambaleou até ele. Se tinha mesmo a intenção de descobrir que lugar era aquele, ele precisaria tomar um banho primeiro. Jogou-se na água e fechou os olhos. A sensação de pânico de quando esteve no meio do lar dos peixes retornou com força e ele emergiu, tremendo. Sentiu o imenso buraco antes de ter se materializado lá sem memórias de sua acompanhante.

Ele balançou a cabeça, os cabelos molhados espalhando água para todos os lados. Precisava se concentrar no presente. Ele tirou primeiro a camiseta e a esfregou, tentando tirar o máximo de sujeira que fosse possível. Colocou a camiseta na grama e depois sentiu-se estúpido; não havia mais a luz do sol para secar suas roupas.

— Por que um menino de olhos tão bonitos tá com as roupas tão rasgadas?

Foi, provavelmente, o maior susto que Lukas levou. Procurou a dona da voz por entre as árvores, no entanto tinha ficado escuro bem rápido. Ele começou a achar que havia imaginado a voz. Estava cansado, triste e ainda em choque. Talvez fosse apenas sua imaginação lhe pregando peças.

— Aqui em cima. — Ele ergueu a cabeça, procurando a origem da voz mais uma vez. Obviamente era de alguém do sexo feminino. Parecia ser jovem, mas ele não conseguia distinguir seu vulto no meio da escuridão. A garota, então, percebendo a dificuldade dele, pulou do galho de uma das árvores e espalhou terra ao atingir o chão.

Lukas ficou inesperadamente envergonhado. Esteve a segundos de ficar pelado no riacho e a menina o tempo todo na árvore, quieta e o observando. Sentiu vontade de sair correndo e se esconder em algum buraco, mas estava cansado. E um pouco tonto. Ele ignorou a vermelhidão no seu rosto e ficou contente por estar muito escuro para ela perceber.

— E então?

— Então o quê? — Ele perguntou, ligeiramente confuso. Ainda não conseguia ver a menina direito, mas o timbre de sua voz lhe lembrava Diana. Provavelmente muitas coisas o lembrariam da acompanhante mais corajosa que ele tivera a sorte — mesmo que só se lembrasse do finalzinho de sua parceria — de ter.

— Você é muito bonito para estar com essas roupas. Vai acabar pegando um resfriado assim.

Ela virou-se, deu alguns passos e olhou por cima do ombro. Lukas não se mexera um centímetro sequer. A garota alcançara por uma fração de segundo um trecho da floresta em que a luz forte da lua chegara e ele pensara ter reconhecido aquele rosto.

— Se eu fosse você, me seguiria.

Ele piscou os olhos.

— Por quê?

Ela sorriu e Lukas estremeceu. Era terrivelmente parecida.

— Apenas me segue.

Se fosse outra pessoa, qualquer outra, ele teria apenas revirado os olhos e continuado a esfregar as roupas numa tentativa miserável de limpá-las. Mas não era qualquer pessoa. Talvez ele estivesse errado, talvez fosse um engano. Mas ele sentiu a necessidade urgente de seguir seu instinto. Só dessa vez.

— Para onde nós estamos indo?

A menina caminhava por entre as árvores escuras e idênticas como se conhecesse cada palmo daquela floresta. Como se fosse dona daquela floresta. Lukas refletiu se ela não seria filha de alguém importante do vilarejo que enxergara de longe. Quis perguntar, mas preferiu não. Não era o tipo de pergunta que se fazia a alguém que acabara de conhecer (e, especialmente, a alguém que quase o vira ficar pelado.).

— Arranjar uma roupa decente pra você.

Os olhos dele se arregalaram.

— Mas... Que... Peraí, eu não pedi nada.

Ela parou novamente sob o luar e ele estremeceu de leve. Não era possível. Ele precisava superar logo o choque de ter visto Diana morrer tragicamente, porque não aguentaria vê-la em mais ninguém.

— Dane-se.

Eles caminharam por mais alguns minutos; Lukas tropeçando em tudo que não conseguia enxergar e a menina praticamente dançando com aqueles pés leves e que mal faziam barulho ao pisarem nas folhas secas e galhos. Ele ouviu vozes de pessoas animadas e ficou surpreso. Aparentemente, a população do vilarejo fazia uma festa. Conseguia ver alguns homens soltando altas gargalhadas e uma ou outra criança correndo pelas ruas. Ao invés de levá-lo para a multidão, sua guia parou de repente e empurrou Lukas até a sombra de uma árvore.

— Espere aqui. — murmurou ela antes de desaparecer na direção do vilarejo.

E Lukas esperou. Não era como se tivesse outra opção. Sua curiosidade sempre incontrolável o mandava esperar. Só assim poderia acabar com a sensação de deja vú. Só assim poderia seguir com as suas lembranças de Diana. Pelo menos, era o que ele achava.

Poucos minutos se passaram até que a menina da árvore retornasse com o prometido embaixo do braço. Lukas não conseguiu controlar a careta. Eram roupas muito elegantes para ele. Não estava acostumado a vestir aquele tipo de roupa.

— Onde você arranjou isso?

— É segredo. — Ela sorriu e jogou as roupas novas e secas para ele. — Não vai se trocar? — Lukas as examinou com atenção, tentado a voltar à tentativa de secar a roupa que já vestia. — Com essa aparência de quem acabou de sair de uma guerra, as pessoas vão fazer perguntinhas chatas. E eu não to a fim de chamar atenção. Não hoje.

Ele piscou os olhos. Conseguiu afastar temporariamente a sensação de que aquela garota era muito parecida com o que ainda lembrava de Diana.

— O que tem de tão especial hoje?

A menina da floresta o olhou confusa.

— É o festival de primavera. Dã. Anda! Troque logo de roupa.

Não querendo ficar pelado na frente de uma desconhecida, Lukas se escondeu atrás do tronco de uma árvore. A menina não se importou. Para ela, não faria a menor diferença.

— Onde você mora? — Lukas perguntou, torcendo para não parecer tão curioso quanto realmente estava.

— Por aí.

Ele pensou ter detectado um pouco de tristeza em sua voz e ficou sem saber como fazer as perguntas. Queria saber quem ela era. Precisava investigar o quão ela e a sua Diana eram parecidas. Lukas começava a suspeitar que seu poder — aquela maldita habilidade de viajar no tempo! — havia o levado de volta ao passado. Ao passado em que conhecia Diana. Ao exato momento em que eles se conheceram.

Ao começo da perda de suas memórias. Oh, a maldita amnésia! Ele nunca entendeu o porquê de seus poderes vierem acompanhados de efeitos colaterais tão irritantes.

A menina estava tão quieta. Lukas estranhou até. Ele terminou de vestir o sobretudo marrom e saiu de trás do tronco. Teria sido um movimento imperceptível para a menina se ele não tivesse quase beijado o chão ao sentir uma forte vertigem.

Ela agarrou o ombro dele e encostou-o na árvore.

— To começando a achar que você tava numa guerra...

— É, por aí.

Eles se encararam; Lukas piscando os olhos várias vezes para a tontura passar logo. Mesmo com a visão embaçada, ele conseguia ver os mesmos traços faciais de Diana naquela menina.

A proximidade física o fez ficar com vontade de contar a ela sobre as viagens pelo tempo e espaço. Entretanto nada falou. Se ela era mesmo a Diana, a sua Diana, ele não iria estragar aquela chance de recomeçar já contando um de seus segredos a ela. Afinal, aquela parecia ser uma Diana muito diferente da qual vira morrer minutos atrás.

— Resposta justa. — murmurou ela e se afastou. Lukas continuou a olhando. Ainda sentia a mão morna dela em seu ombro. — Vamos lá.

— Hã?

A menina olhou para ele por cima do ombro e sorriu.

— Bora pro festival de primavera. Você parece estar morrendo de fome.

Notas finais
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