As Sombras de Noah
1 A mansão Richfields - Parte 1
Notas iniciais
— Mas o que temos aqui? — Afirmou o detetive John Callow ao observar a cena de um homem estirado, envolto em sangue, no meio da sala principal de uma mansão. Callow usava, nesse dia, seu traje comum: Um sobretudo bege com um conjunto social por baixo em combinação com os seus sapatos recém-engraxados e com o seu chapéu preto em sua cabeça. O detetive acabara de entrar na mansão, deixando uma porta grande de vidro adornado atrás dele. Pisava em um tapete de veludo que cobria todos os objetos na sala (sofás, criados-mudos, entre outros) e se estendia até as duas escadas curvadas situadas no nordeste e noroeste do cômodo.
— Vejo que chegou em boa hora, detetive Callow — um homem idoso de terno o cumprimentou. Seus cabelos eram brancos e finos e raros — Sou Edmund, o mordomo da mansão dos Richfields. Hoje de manhã, a casa inteira amanheceu assombrada com a visão do senhor Henry Richfields caído inerte ao chão. Oh céus, ele era um bom homem — E então ele pôs a mão a frente do rosto para enxugar uma lágrima. John era o melhor detetive da região de Noah. Recebeu várias menções, medalhas e troféus por seus méritos passados. Segundo um censo, 99% dos crimes em que fora convocado foram solucionados com sucesso. Outra peculiaridade do detetive é o raciocínio lógico baseado em porcentagens, como ele mesmo demonstrará. O mordomo Edmund provavelmente não sabia disso, pois deu pistas de uma inimizade oculta entre ele e a vítima. Muitas vezes observou o mordomo franzindo as sobrancelhas e desviando o olhar, o que indicava incerteza no que proferia. Tinha 70% de certeza disso, 30% incerto por conta da idade avançada. O detetive observou, também, os móveis. Havia pedaços de o que antes era uma cadeira no chão, próximo ao cadáver, junto a uma pequena mesa próxima que tombou e ao tapete que estava um pouco emaranhado embaixo do corpo. Mas, longe dele, tudo estava perfeito. O sofá, a mesa de vidro que ficava a frente dele, a televisão gigantesca, o grande relógio antigo de corda, enfim, tudo estava limpo, alinhado e polido. Um mordomo que fizesse um trabalho tão bem-feito para um senhor tão rico não faria uma imagem tão boa assim dele. Tinha 40% de certeza disso, 30% incerto por conta da possibilidade de haver outros mordomos e 30% incerto pela personalidade do senhor Richfields. Tudo seria desvendado futuramente. Outro aspecto é: O crime ocorreu de manhã e apenas ao início da tarde o detetive foi comunicado. Fato. Mais de um culpado, provável. Tudo isso dependeria de uma análise futura de todos os envolvidos no panorama desse crime. Apenas puxou um charuto de seu sobretudo e o acendeu com um isqueiro. Estendeu a mão esquerda e o cumprimentou.
— Muito prazer. Sinto muito pela perda — Callow percebeu que o homem usava luvas e, por apertar a sua mão movendo o braço inteiro e deixando o antebraço imóvel, concluiu com 90% de certeza que ele era destro — permite-me fazer uma análise do corpo do seu patrão?
O mordomo, em resposta, acenou positivamente com a cabeça, abrindo espaço para o detetive passar — Chamarei a senhora Richfields para te prestar mais detalhes sobre o falecido — Callow repetiu o aceno do mordomo e, sem nenhuma pressa, foi entrando a uma porta de madeira escura e envernizada. Finalmente, o detetive se aproximou da vítima.
De cócoras a frente dele, pôde notar, primeiramente, que o homem vestia um terno formal com uma gravata borboleta ao pescoço. Ele possuía cabelos lisos, mas curtos, e castanhos. Havia certa dificuldade em encontrar vestígios corretos de violência, angústia ou autoflagelo, já que o corpo estava lá desde a manhã, segundo o mordomo. O que o deixava pensativo foi o sangue em que a vítima estava envolvido. Ainda estava líquido. Observou o tórax dele e encontrou cinco facadas na região da barriga. Não quis concluir nada, mas tinha uma suposição forte do que ocorrera ao senhor Richfields. Guardou para si e foi verificar os bolsos dele. Havia uma caneta em boa forma, centenas de dólares e um cartão de uma choperia. Atrás desse estavam números. "1302". O detetive confiscou o cartão. Logo depois, da mesma porta em que o mordomo entrou, veio a senhora Richfields, não acompanhada.
— Olá detetive — Seus olhos estavam um pouco vermelhos e sua voz, frágil como vidro. A mulher era mais jovem que a vítima, tinha cabelos loiros e olhos azuis. Era um pouco acima do peso, também — Vejo que necessita da minha presença, mas não conseguirei conversar aqui. Por favor, pode me acompanhar?
Os dois cruzaram a sala principal da mansão e chegaram a uma cozinha. Havia janelas de vidro brancas com pequenas cortinas roxas e brancas, além de um balcão, uma pequena mesa e vários utensílios culinários. A dama puxou uma cadeira e ofereceu o assento ao detetive. Ao se sentar, a Callow foi oferecido um pouco de café, e ele aceitou. Ela mesma foi preparar e, ao terminar, sentou-se a frente dele, entregando-lhe café e tomando uma xícara.
— Então, o que quer saber sobre Henry? — A dama disse logo ao terminar. John sabia o que perguntar primeiro.
— Primeiramente, a senhora cozinha? — Ele provou um pouco do café, que estava ótimo.
— Oh, sim. Meu marido adorava quando cozinhava para ele. E, ainda por cima, não gosto de depender tanto do criado, o Edmund.
— Ah, entendo. Diga-me agora sobre seu marido, por gentileza.
— Henry era um homem rígido. Ele prezava bastante o dinheiro que conseguia e sempre era muito orgulhoso por isso. O nosso filho, Kyle, era sempre forçado a seguir o mesmo ramo do pai e Edmund haveria de fazer um trabalho perfeito, como ele sempre fazia. Mas eu o amava, ah se amava. Todos o amavam. Na verdade, até mesmo Edmund que não era da família.
— Seu marido tinha algum problema com bebidas?
— Não conheço ninguém que beba que não tenha problemas com isso, senhor Callow. Sim, ele tinha. Ele constantemente chegava bêbado em casa.
— Conhece alguém daqui que teve alguma desavença com seu marido?
— A minha irmã, Rosaria. Ela se encontra no segundo andar, no quarto com um adesivo de boas festas na porta.
— Muito obrigado pela sua colaboração, senhora Richfields — John Callow levantou-se da cadeira e realizou uma reverência com o chapéu em mãos, mostrando seu cabelo preto e barba média. Se virou e concluiu que a dama falava a verdade com 95% de certeza. Agora, iria em direção não da senhora Rosaria, mas de Kyle Richfields.
Entrou novamente na sala anterior, a sala principal, e desta vez entrou pela porta que Edmund entrara pela primeira vez. Era uma sala de escritório, cheia de papéis e contas, com uma janela pequena ao fundo dela. Havia uma escrivaninha, duas cadeiras a frente dela, uma estante cheia de livros e troféus e um computador que Edmund usava. A porta de madeira fez barulho ao abrir e, então, ao entrar foi recepcionado pelo mordomo:
— Olá senhor Callow, teve sua conversa com a senhora?
— Sim — Disse de modo descontraído, observando alguns troféus do senhor Richfields. Alguns poucos eram de Mona Richfields, provavelmente a esposa de Henry. Nenhum deles eram de culinária — Senhor Edmund, poderia me dar a cortesia de informar o quarto do jovem senhor Richfields, Kyle?
— Não entendo — Disse o mordomo coçando a cabeça — Por que deseja vê-lo?
— Foi uma indicação da senhora Mona.
— Oh sim, certamente. Desculpe-me, eu não funciono mais tão bem assim. Permita-me — E foi até a porta em que John havia entrado e a abriu — Perdoe-me, senhor, mas deixei o computador ligado. Poderia desligá-lo para mim?
John estranhou o pedido do mordomo mas, por cortesia, o atendeu. A tela do computador tinha várias janelas abertas e inúmeras informações, mas em uma janela estava escrito algo: “Compromisso: 13, 02”. John olhou aquilo por um instante e, logo depois, desligou o computador. Seguiu o mordomo logo em seguida. John começou uma conversa assim que deixaram o escritório:
— Senhor, pode me dizer se o número 1302 tem algum significado?
— Não, senhor, provavelmente não — Disse o mordomo, em tom verdadeiramente confuso — Deve ser alguma identificação para algo.
— Sim, você tem razão — Pensou no número de alguma rua ou num quarto de hotel instantaneamente. Ambos pararam de falar para subir a comprida escada curvada na sala principal. Ao chegar ao topo, Callow continuou — Não há nada que você conheça com esse número?
— Agora que você falou — Disse, em tom mais baixo — pode ser uma d...
E o mordomo foi interrompido por um adolescente que se encontrava no final do corredor no andar superior. Ele olhou para ambos e Edmund continuou:
— Boa tarde, senhor Kyle. Este é o detetive Callow e gostaria de perguntar algumas coisas para você.
— É sobre o meu pai? — Respondeu o garoto. Callow indagou-se se haveria outro assunto pelo qual um detetive seria chamado. Edmund acenou com a cabeça — Oh, sim. Obrigado, Edmund. Senhor Callow, por favor, poderia vir comigo? Edmund, está dispensado — E, depois de uma cortesia um pouco exagerada, Edmund virou-se e saiu do corredor, indo em direção a escadaria. Callow foi seguindo o rapaz até que pararam a um quarto com a porta aberta, havia uma moça lá. Kyle era jovem, alto e tinha uma aparência séria no rosto. Não mostrava nenhuma expressão.
— Com licença — Disse John. A moça olhou para ele por um longo tempo com as sobrancelhas levantadas. Ela estava sentada em uma cama com os cabelos longos e castanhos a frente do rosto. Parecia estar surpresa ou assustada — Sou o detetive John Callow do Departamento de Noah. Tenho apenas algumas perguntas para vocês.
Os dois se entreolharam um instante e foi a moça que respondeu, desviando o olhar, numa voz calma:
— Pergunte o que quiser saber, detetive.
— Senhor Kyle, fale do relacionamento do seu pai com o mordomo, o senhor Edmund — perguntou Callow.
— Meu pai geralmente nos tratava todos bem, com exceção de quando bebia — Disse Kyle numa voz bem calma — Mas com Edmund ele era um pouco diferente. Ele exigia bastante dele, por ser rígido como era, e Edmund nunca nem levantou o tom de voz. Se bem que um dia ele me contou que queria deixar esse lugar.
— Entendi. E você, moça, como se chama?
— Ela se chama Daisy Sowd, a minha prima. Ela não fala muito — E então ela acenou com a cabeça — Está um pouco em choque com o que aconteceu ao meu pai — falou isso e olhou para baixo.
— Algum de vocês sabem quem foi que viu o senhor Richfields primeiro na sala?
— O mordomo veio nos avisar logo a tarde, mas não tenho certeza se foi ele que o avistou primeiro — Respondeu Kyle. Tudo parecia girar em torno do mordomo Edmund, e ele mesmo estava escondendo algo. Suspeitava dele, por alguma razão pessoal ou financeira, 60%. Suspeitava de Mona Richfields, por razões de vingança por não tratá-la bem, ou por ter mais méritos (troféis) que ela, 25%. Suspeitava de Kyle Richfields, pela mesma questão que a mãe dele, 5%. E de Daisy Sowd apenas 10%, por conta de Rosaria, caso fosse sua mãe, e por conta de seu comportamento. Não tinha obtido muitas informações de Kyle Richfields, então Callow armou sua fala.
— Ouvi dizer, pelo senhor Edmund, que seu pai o pressionava para que você seguisse a carreira dele. Diga-me, senhor Kyle, agora que seu pai se foi, pretende honrar a orientação dele?
Houve um pouco de silêncio e Kyle olhava diretamente para o detetive John Callow.
— Primeiramente, meu pai não me pressionava, ele apenas desejava que eu o seguisse para que eu obtivesse o mesmo sucesso que ele. E sim, se for possível, pretendo seguir o caminho do meu pai.
Aquilo fez o grande detetive John Callow parar por um minuto. Havia encontrado uma mentira de alguém, apenas não sabia de quem exatamente. Ou Mona havia mentido para realçar o mau comportamento do marido e justificar o seu ato, ou Kyle havia mentido, o que era mais provável, uma vez que culparia o mordomo de mentir e o livraria de qualquer inimizade com o seu pai. Suspeitava 40% de Edmund, 25% de Mona, 25% de Kyle e 10% de Daisy. Agora, uma conversa com Rosaria o ajudaria e apenas uma coisa poderia resolver o mistério…
…1302.
Fale com o autor