As Sete Pérolas de Dicenam — HIATUS!

1 Capítulo Um — O (Quase) Grande Dia


Notas iniciais
Primeiramente: obrigada por estarem aqui! Depois de (quase) dois anos num hiatos de fanfic, eu voltei! E espero que tenha voltado para ficar. Pode ser que minha escrita esteja um pouco enferrujada, mas graças a (linda) da minha beta, tudo está saindo conforme planejado. É preciso ter um conhecimento razoável do universo de Harry Potter para entender o que diabos está acontecendo nessa história; qualquer dúvidas, estarei respondendo os comentários com o maior amor que possa dar. Boa leitura! CHEQUEM AS NOTAS FINAIS!

= Capítulo 1 =

A última semana de Aliyah na casa de seus pais parecia uma viagem de avião cheia de turbulências constantes. Ela sabia que seria metralhada de perguntas por seus irmãos, eles estavam tão ansiosos por Aliyah que mal queriam sair do mesmo aposento que ela, e a mãe Josephine e o pai Rocco não diminuíram sua lista de regras e nem deixaram de dar conselhos que ela não iria seguir, tampouco colocaram medo nela, na verdade, sequer tocaram em outro assunto sem ser aquele. Meio assustados, meio ansiosos e meio felizes demais, agiam como se sua filha fosse partir amanhã e nunca mais voltar.

Apesar de ser necessário, após um tempo, tornou-se um tanto sufocante e deprimente.

Aliyah ficava em seu jardim, com a companhia dos gritos animados de seus irmãos e de formigas e insetos barulhentos.

Não podemos dizer que ela também não estava ansiosa, porque estava. Limitava-se cada noite a ler apenas uma parte de seu livro de Trato de Criaturas Mágicas, se apaixonando ainda mais pelas criaturas que viviam, talvez, bem debaixo do nariz dela. Sua preferida era o Agoureiro. Às vezes, deitava-se na cama e lia até a manhã chegar de mansinho. Todos os dias, seus irmãos acordavam mais cedo que ela para rasgar mais um pedaço de papel e contar os dias até primeiro de setembro.

No penúltimo dia de agosto ela decidiu arrumar sua segunda mala, colocando suas coisas mais importantes: materiais escolares, duas escovas de dente, três pacotinhos de Diabinhos de Pimenta — um doce que seu primo de terceiro grau trouxe para ela de uma viagem à Inglaterra —, quatro pares de meias amarelas com azul e mais outras mil tranqueiras que provavelmente não usaria, contudo, queria ter certeza de que não as esquecera em casa. E, quando o último dia de agosto chegou, foi falar com seus pais que poderia ir para a Estação sozinha.

— Ahm... Pai?

Pai Rocco gritou do andar de baixo.

— Tomei uma decisão.

Resmungou, com medo do que poderia vir a seguir. Aliyah supôs que aquilo deveria ser um sim.

E já estava no terceiro degrau quando seu pai largou a xícara de café preto e falou alto:

— E posso saber que decisão foi essa? Ou sirvo apenas para dizer “sim” e “não” de vez em quando?

Aliyah pensou bem devagar.

— Apenas para dizer “sim” e “não” de vez em quando?

— Onde estão seus modos afinal?

— Era a primeira opção, não era? — disse Aliyah retomando todo seus cálculos e passos para chegar na resposta certa. Tirou do bolso do vestido florido suas anotações em um pedaço de papel higiênico nada higiênico, leu em voz alta — Vou pegar o Tren Oculta às oito horas da noite. Sozinha.

— Sozinha onde?

— No Tren Oculta.

— Não diga bobagens — pai Rocco voltou a tomar seu café da manhã — Não existe essa de “sozinha”.

— Existe sim! Está escrito nas anotações.

— Suas anotações são feitas em um pedaço de papel higiênico, não podem ser consideradas anotações de verdade — disse pai Rocco — e nem vão, esteve tomando o chá que sua mãe toma? Está ficando doida de pedra que nem ela. É só esperar, o efeito não dura por muito tempo, a não ser que coma os bolinhos açucarados de sua avó... Aí sim, será caso perdido. — pegou um pedaço de pão do dia anterior em cima do guardanapo amarelo, mergulhando-o na manteiga — De qualquer maneira tínhamos um combinado: nada de ir a lugares sozinha até os vinte e quatro anos. E iríamos para Armênia de qualquer jeito ou nem teria ouvido isso tudo até aqui.

— Por que querem ir até Armênia? — perguntou Aliyah, tentando se concentrar em qualquer coisa que não fosse o cheiro magnífico de biscoitos recém assado.

— Vamos comprar os presentes de seus primos — respirou fundo, impaciente — Já te falei isso mil vezes!

— Sou uma menina de pouca memória, pai.

— E ainda quer ir sozinha.

Aliyah acordou às seis e meia da noite seguinte e estava demasiada exausta e excitada para voltar a dormir.

Levantou-se com os cochichos de seus irmãos nos beliches posicionados na forma de um trapézio e vestiu o jeans porque não queria usar roupas feitas por sua avó pela quinta vez nessa semana e nem queria entrar na estação com vestes bruxas, mudaria de roupa em qualquer casebre do vilarejo mais próximo.

Verificou novamente suas anotações e as listas de exigências de Dicenam para se certificar que não havia esquecido nada, ou pior, não comprado; viu se seus irmãos estavam bem levantados e vestidos e então desceu para sala de estar e ficou andando ao redor da mesa de jantar até que seus pais chegassem também. Onze minutos mais tarde, as duas malas grandes e pesadas de Aliyah foram colocadas na traseira da mini-van vermelha dos Coradelli. Mãe Josephine convencera os gêmeos, Marek e Nico, a se sentarem na cadeirinha do banco de trás e, depois de choros e berros, eles partiram.

Chegaram à estação do Centro Cultural Metropolitano La Estación — chamado pelos mais antigos de Armênia — às 19:38h. Rocco tirou os mais novos do banco de trás e abriu um sorriso bem devagar para Aliyah, que estava de cara fechada. Após muito esforço conseguiu transportar as malas dela para um carrinho de metal cheio de adesivos de marketing e, juntos, caminharam até os fundos da estação, cumprimentando os humanos de vez em quando, admirando as novas exposições de arte e outros acontecimentos culturais. Nos fundos, um grupo grande de bruxos se reunia com risadas e apresentações, diante de uma porta dupla oval de madeira desgastada e maçanetas enferrujadas e sujas de batom velho.

— Eu odeio essa parte — resmungou pai Rocco — Minhas costas ficam doendo por semanas!

Mãe Josephine o repreendeu com um beliscão no ombro, apesar de sorrir. Tudo aquilo era novo para Aliyah e tudo que ela conseguia fazer era ofuscar-se de baixo do sobretudo azul marinho de seu pai. Ainda bem que não viera sozinha, já ficaria perdida antes mesmo de sair de sua bicicleta, a quinze quarteirões atrás, onde fica sua casa.

—... Acho que deveríamos entrar, não? Nossos filhos estão ansiosos! — disse uma mulher com o cabelo tão vermelho mas tão vermelho que parecia uma gigantesca cereja. Ela foi acompanhada com urros estranhos de homens mais estranhos ainda e deslizou o palmo para dentro de seu vestido.

Voltou segurando um pedaço comprido e torto de madeira, fechando os olhos e sussurrando algo muito baixo, nem o menininho que estava agarrado em sua meia-calça de onça conseguia decifrar, muito menos Aliyah. Alguns se afastaram quando um raio esverdeado saiu quicando da ponta da varinha e mergulhou na escuridão da fechadura da porta pequena. Todos sorriram e Aliyah queria ir para casa, apertando suas mãos em cima do tecido duro de seu pai, ele afagou os cachos marrons dela com o palmo e sorriu, apesar de não a olhar segundo nenhum.

Mãe Josephine deixou claro que queria ser a última a entrar, enlaçando sua família com a corda da decisão e mantendo-se recuada. Os pequenos gêmeos e a destemida Makenna não questionaram, mas sempre ficavam na ponta dos pés para tentar enxergar o que havia além da portinha de madeira.

A vez dos Coradelli chegou e logo atrás, outra multidão de bruxos começava a chegar.

— Já podemos ir, mamãe? — disse Nico.

— Deixe Aliyah ir primeiro, querido. — mãe Josephine retrucou com paciência e delicadeza, abrindo um sorriso bem grande.

Aliyah queria dizer não e sair correndo de volta para a mini-van, mas o barulho alto e as risadas altas que vinham do outro lado a deixava tão ansiosa que seria impossível recusar tal oferta. Soltou a cintura de seu pai e foi caminhando lentamente até a passagem, averiguando tudo ao seu redor. Viu uma grande placa de plástico no alto da parede com as letras T e O pintadas de branco, tinha certeza de que quando chegara aquilo não estava ali. Nem sequer olhou para trás e também não precisou se curvar para passar pela porta pequena, diferente de todos os adultos que o fizeram primeiro e diante dela.

Do outro lado não era claro e nem cheio de fadas rodando para lá e cá, como ela havia imaginado por meses. A noite caía feito um véu escuro e esferas brilhantes flutuavam em uma linha reta e em um espaço de dois metros, crianças corriam por todos os lados e tudo que ela conseguia ver era uma estação de trem comum, tirando o fato de livros saírem com cambalhotas de dentro da mala de um garoto e homens barbudos berravam sobre as novidades comestíveis do mundo bruxo, cada um segurando um coelho de chocolate colorido e vivo, pulando de mão em mão.

O garoto que corria atrás de seus livros saltitantes parecia aborrecido e de cinco em cinco minutos parava para respirar, exausto. Aliyah sentiu sua boca seca e se virou para ver seus irmãos engatinhando pela abertura — apesar de terem altura o suficiente para passar na ponta dos pés — e seus pais tendo de ser abaixar também, ouviu até pai Rocco praguejando sobre suas costas já estarem doloridas. Os gêmeos estavam rindo e Makenna corria para os coelhos de chocolate coloridos e vivos.

— E então filha, o que achou do trem? — mãe Josephine colocou o palmo esquerdo por cima do ombro dela, envergando sua coluna para chegar bem perto do rosto dela e depositar um beijo.

— Do trem?

Não tinha trem nenhum ali.

— Sim! Do trem. À sua esquerda.

Aliyah virou-se a tempo de ver rodas gigantescas de ferro sobrevoarem acima de sua cabeça e quase arrancar o cachecol de uma menina de cabelos louros com pontas rosas fora, em seguida, outras e outras rodas e várias partes de uma locomotiva que ela não sabia o nome. Peça por peça, o trem apareceu. Era gigantesco e com as mesmas letras da placa de plástico em cima da porta, porém, prateadas; havia enfeites dourados por todo lugar e, ao invés de ser preto e mórbido como todos os trens que ela já pegou na vida, este era branco. Sem nenhum arranhão.

— Ah... esse trem.

Rocco parou ao seu lado e inspirou por segundos incontáveis, depois segurou o carrinho com as duas mãos e ficou na ponta dos pés para ver por cima de tanta gente. Sem sucesso, começou a praguejar de novo e bateu os pés fortemente no chão, começando a caminhar para frente e a desviar de todos sem maestria alguma, quase passando por cima do pé de uma senhora de amarelo.

— Por que o pai está tão estressado? — perguntou Aliyah.

Josephine demorou um pouco para responder, escolhendo palavra por palavra.

— Você sabe que seu pai é um pouco... Temperamental em relação a multidões — respondeu mãe Josephine — e, apesar de adorar nos acompanhar na sua primeira aventura, ele ainda se sente um pouco inseguro. Até porque, você é a nossa primeira filha que está, finalmente, indo para Dicenam... É um pouco...

— Assustador? — completou. — É, pois é, imagine para mim!

— Assustador não era bem a palavra que estava procurando, mas também serve. Tudo vai dar certo!

A locomotiva a vapor começou a fazer barulho e a estação apinhada de gente vibrou. Josephine achou melhor acompanhar suas crianças entre as barracas de comércio alimentício e muito açucarado após Aliyah lhe dar seu voto de confiança que tudo ficaria bem. Agora, afivelava sua bolsa de couro ao redor da cintura e caminhava com passos largos entre os bruxos, deixando a ponta de seu tênis sujo sempre que algum desastrado pisava e pedia perdão grosseiramente, como se a culpa fosse dela.

Ela começou a andar em direção aleatória e por um bom tempo não reconheceu o rosto de ninguém. As pessoas já despediam de seus filhos e o relógio de pulso amarelo e azul mostrava os números grandes e indicava sete e cinquenta da noite.

Continuou a andar em círculos. Que diabo era para ela fazer?

— Vó, você promete cuidar bem do Estevão? — um garoto de cabelos de fogo e cheios de sardas perguntou para aquela mesma senhora com meias de onça a minutos mais cedo.

— De quem?

— Do Estevão. Meu sapo.

— Ah, David — ela ouviu a senhora o repreender e continuou a andar.

Uma garota com o cabelo rastafári estava montada na garupa de um outro garoto, porém mais velho e mais alto. Ambos estavam cercados por um grupo pequeno de meninos e eles riam de algo que Aliyah não entendia e também, pareciam falar por códigos.

Parou diante quatro degraus que flutuavam no ar, também brancos e brilhantes, ela sentia que iria escorregar e cair nos trilhos se pisasse ali.

— Olá — alguém ou algo gritou em sua frente. O barulho da locomotiva parecia mais alto dali.

Aliyah tomou um susto tão grande que quase caiu para trás, se o homem magricelo a sua frente não tivesse segurado seu braço. Ele usava uma farda branca e esquisita, com detalhes dourados e um monte de círculos com desenhos bordados do lado direito, tinha um chapéu de maquinista, apesar de não parecer um maquinista; pelo menos, não era igual aos dos filmes e livros.

— Obrigada — respondeu após se recompor — Você salvou a vida do meu jeans.

— Diga a ele que estou honrado, então — sorriu de volta.

O homem não tinha nenhum crachá ou nenhum modo de identificação, pois Aliyah procurava por qualquer forma de saber seu nome.

— Não vai entrar?

— Entrar...?

— Entrar no T.O., oras! O que mais seria?

— Aaah... Então é isso que significa T e O! — enquanto respondia sentiu que seu cérebro parecia uma roda pequena para hamster, ela demorava demais para entender algumas coisas — Tren Oculta. T.O. Entendi agora.

— Então...?

— Não estou com minha passagem, moço... Está com meu pai! Ou com minha mãe. Ou com meus irmãos...

O maquinista quase caiu para trás com tanta informação.

— Assim você me deixa bem confuso...

Dando uma última espiada para trás, Aliyah estreitou os olhos para tentar reconhecer seu pai ou mãe, qualquer pessoa que pudesse ajudá-la. Qualquer coisa, na verdade. Ficou na ponta dos pés e até fez uma concha com as mãos ao redor dos lábios, pronta para gritar.

— Cheguei! — disse pai Rocco ofegante — Finalmente! Ei, para que colocam tantas pessoas num lugar só? Sabia que existem pessoas que são claustrofóbicas? Isso pode causar mortes! — dirigiu-se ao maquinista — Aliás, onde estão meus filhos?

— Pai, o maquinista quer a passagem.

— Ah, você já vai? E sua mãe, concordou com isso? Não vai dizer tchau para seus irmãos?

— Tenho um minuto para estar dentro do trem — Aliyah ofegou sem estar cansada e ergueu seu pulso — Sete e cinquenta e nove.

— Pelas barbas de Merlin!! — o maquinista e pai Rocco falaram ao mesmo tempo.

Como se não colocasse a total confiança em sua filha, Rocco olhou para o enorme relógio no final da estação, tendo que fazer contas mentais para saber que horas eram. Ele era péssimo com ponteiros. Ela também tinha certeza de que àquilo não estava lá antes.

Sacou um retângulo de papel de dentro do bolso traseiro e o ergueu para o maquinista. De relance, Aliyah conseguiu ler apenas o nome do trem e informações adicionais, como seu nome, data de nascimento e qual era seu destino.

Ela andou pela aglomeração até que encontrou com compartimento vago no meio do trem. Primeiro desafivelou sua bolsa e a colocou em um assento próximo à janela, depois andou de lá para cá sem motivo algum e pôs-se a sentar num dos estofados dourados da esquerda, no lado contrário de seu pertence.

— Vem logo! Para de ser tão pesado! — Era a garota de cabelos loiros com as pontas rosas do início da estação que quase perdera o cachecol puxando algo por uma alça e fazendo tanta força que a almofada de seus dedos ficara branca.

— Quer uma ajuda? — perguntou se levantando do assento e abrindo a porta roliça de vidro.

— Por favor — ela ofegou.

Quando Aliyah segurou a alça avermelhada que a garota tanto puxava, quase perdeu todo seu ar. O menino deitado ao chão segurava nas paredes do corredor com tanta fúria e desgosto que mal parecia estar pensando em outra coisa a não ser se livrar da menina que o puxava segundos antes.

— Não esquenta com ele — assegurou a de cabelo colorido — Está só sendo mimado porque não queria deixar a mamãe e o papai. Bebê chorão!

— Não sou bebê chorão! — berrou de volta, levantando-se e colocando as mãos na cintura. — Você que é bruta.

— Não sou!

— É sim!

— Não sou!

— Querem se sentar? — Aliyah voltou para a cabine, recolhendo sua bolsa com um dos braços e voltando a sentar-se na janela.

A dupla se sentou do lado contrário e fizeram questão de fecharem a porta; segundo a garota, ninguém era digno de passar toda a viagem com eles. Ninguém questionou.

Do outro lado, Aliyah conseguiu achar seus pais. Mãe Josephine chorava ao ombro de pai Rocco, mas também sorria; seus irmãos davam petelecos um no outro e Makenna arrancava a pata do coelho de chocolate com a boca ferozmente. Ela não era muito boa com leitura labial, porém, conseguiu entender que sua mãe lhe mandara um tchau e dissera que a amava e que seu pai desejava boa sorte e notas boas. Quando pensaram que ela não estava mais vendo, Josephine continuou:

— Eu nem consegui dizer uma boa sorte para ela, Rocco... Esse era o dia mais importante da vida de Aliyah e eu não consegui vê-la... Eu a decepcionei.

O Tren Oculta entrou no túnel e tudo ficou preto.

Notas finais
Ih... Então, como foi? Espero que tenham gostado. (A IMAGEM USADA NO INÍCIO DO CAPÍTULO FORA PEGA DO GOOGLE). Em média meus capítulos atingiam, no máximo, mil palavras, então, leitores antigos podem ficar meio cansados. Garanto que daqui para frente não terão menos de duas mil e também espero que isso não seja um incômodo. Obrigada por ler e deixe um bolinho antes de sair! Até o próximo. :*