As Sete Despedidas

6 Capítulo seis: A Decisão


Notas iniciais
Olá de novo. Espero que gostem, boa leitura ^.^

Eu não tinha medo, eu era um menino

Eu estava numa idade frágil

Pov: Tom Marvolo Riddle

O inverno é, na minha opinião, a melhor estação do ano. Observar o cair da neve sempre costuma me entreter de maneira que nenhuma outra coisa consegue fazer. Gostava também do clima frio. Era tudo tão confortável... Sem suor, sem insetos, sem aquele ar abafado que o verão costumava carregar consigo. E, naquele ano, em especial, tinha o natal. Foram necessários sete anos naquela escola, para que finalmente algo diferente acontecesse, mas tudo valeu a pena.

Luna parecia diferente de todas as outras pessoas que eu já conhecera. Seu ar inocente era o que mais me encantava. Enquanto normalmente viva cercado de pessoas que cobiçavam riqueza e poder na sociedade, a menina apenas procurava ser ela mesma, sem se importar com o que qualquer um pensasse ou dissesse a seu respeito. Por mais que não parecesse , ela tinha uma personalidade forte, o que, de certa forma me admirava.

Naquela tarde de dezembro, decidi fazer uma pequena visita para a garota. Faziam três dias desde que a professora McGonagall passara anotando os nomes dos alunos que iriam permanecer em Hogwarts durante o natal, e, pela primeira vez, meu não estava na lista. É claro que isso foi o suficiente para surpreendê-la, mas não me pediu satisfações – e eu agradeci por isso.

O Salão Comunal da Corvinal ficava em uma torre, e não era tão alta quanto a Torre de Astronomia, ou quanto a Torre da Grifinória, para minha sorte. Para minha sorte também, não havia ninguém por perto, o que me ajudou muito na hora de entrar. Normalmente, éramos proibidos de visitar outros Salões Comunais que não fossem o da nossa própria Casa, e se eu fosse pego ali, certamente não iria acontecer nada muito bom.

– Tom? – A voz fina e baixa chamou meu nome assim que adentrei ali. Lá estava ela, parada enfrente à estátua de uma das fundadoras da escola. – Olá.

– Boa tarde, Luna – disse eu. – Está ocupada?

– Não – disse ela. – Acabei de ler a última edição d’O Pasquim há poucos minutos. Meu pai jura que viu fadas no nosso jardim. Eu falei sobre elas para ele há muitos anos, mas ele não deu muita bola.

– Fadas? – Arqueei a sobrancelha.

– É, sabe, são meio azuis, e às vezes até meio roxas, e ficam voando pelos jardins – continuei com a sobrancelha arqueada.

– Não são libélulas?

– Não – disse ela. – São fadas.

– Certo – melhor não me opor. – E seu pai pôs isso na revista?

– Colocou na semana passada. Dessa vez, ele reclamou pelo retorno dos leitores. Chamaram ele de louco, sabe? – Eu não me surpreendia. – Mas tudo bem, eles não precisam acreditar, se não quiserem.

– Ah – murmurei. – Por um acaso, Helena não está aqui, está?

– Não, ela costuma dormir à essa hora, por quê?

– Nada não – disse eu.

Helena não ia muito com a minha cara graças a um feito no ano anterior. O diadema de Rowena Corvinal – sim, a fundadora da Casa Corvinal – estava em posse de Helena, e este era um objeto que eu almejava muito, graças a seu grande valor, tanto histórico, tanto simbólico. Consegui, num golpe de sorte, convencer a mulher a me contar onde este estava, e, ao final de tudo, o objeto acabou por sofrer danos que a deixaram furiosa. Graças a isso, passei a desfrutar do desgosto da mulher desde então. A última coisa que poderia acontecer-me ali, era ser visto por ela, então adiantei-me em me retirar logo.

– Quer dar uma volta? – Inquiri.

– Claro – ela sorriu.

Cruzamos os jardins da escola e caminhamos até uma árvore antiga que jazia ali desde muitos anos antes de fazermos parte da escola. Luna sentou-se sobre a grama, cruzando as pernas, e passou a encarar o chão já branco por consequência da neve. Sentei-me ao seu lado.

– Tom – murmurou ela. – Como vamos ir até... Bem, não sei aonde vamos, mas, como vamos até lá?

– Carro – disse eu.

– Mas... – Parecia hesitante, mas eu sabia o que ela iria dizer.

– Avery disse que me emprestaria – adiantei-me. – Nós vamos partir até Londres abordo do Expresso de Hogwarts, e, a partir de lá, seguiremos viagem de carro.

– Até...?

– Little Hangleton. – Disse eu. – Vou lhe apresentar ao lugar onde Merope Gaunt passou sua trágica vida de casada.

– O lugar onde você nasceu? – Inquiriu, os olhos mais arregalados que o normal.

– Não, não – suspirei. – A casa do meu pai – dei uma pausa. – Falecido pai.

– Você não gostava do seu pai – disse ela. – Você nunca fala dele.

– Não – disse seco. – Ele não merecia que ninguém gostasse dele. Era insignificante.

– Você parece ter ficado mais abalado com tudo isso do que demonstra – ela deitou-se na grama. – Não se culpe por erros cometidos por outras pessoas.

– Luna – curvei-me sobre ela, sério. – Se eu tivesse feito uma coisa horrível – comecei. – algo que você nem imaginaria que eu pudesse ter feito, seria capaz de olhar nos meus olhos de novo?

– Sabe – disse ela, calma como eu nunca pensei que estaria em tal situação. –, criar hipóteses não é algo muito bom. – Ela se calou por uns segundos. – Tudo tem motivos. Acho que se você tivesse feito algo ruim, não seria por nada.

Joguei-me no chão ao seu lado, encarando os galhos da árvore. Não chegava a me arrepender de nada que fizera em meu passado, mas, por um momento, pensei que, se ela soubesse de tudo... Não poderia perde-la outra vez. Não naquele momento. Quando menos esperava, ela debruçou-se sobre mim, apoiando um dos braços sobre o meu peito, enquanto apoiava a cabeça sobre o outro, e encarava-me com os típicos olhos saltados.

– Às vezes eu acho que você poderia ser um príncipe disfarçado* – disse ela. Não consegui evitar o riso. Isso era a última coisa que eu seria nessa vida. – Não estou brincando.

– É mais fácil que eu seja parente de Salazar Sonserina, Luna – disse eu.

– Tudo é possível – ela murmurou, desta vez com o rosto mais próximo ao meu.

E então eu a beijei pela segunda vez. Era como se seus lábios gélidos por conta do frio acariciassem os meus, numa sincronia que eu não queria que acabasse. Rolamos na grama, rindo, até que enfim nos separamos; desta vez eu estava por cima.

– Talvez algum dia eu te conte o que aconteceu com o meu pai – sussurrei.

– Não conte nada que não ache que eu deva saber – disse ela.

– Eu quero que você saiba. – Afirmei. Um meio sorriso surgiu nos lábios dela.

Mal sabia eu que aquele seria a pior escolha que já fizera na vida. A escolha que mudou tudo. Absolutamente tudo.

Notas finais
*Referência à uma frase que Cathy diz a Heathcliff, em Morro dos Ventos Uivantes. Citação da música Michicant, por Bon Iver. Espero que tenham gostado, e até o próximo.