As Sete Despedidas

10 Capítulo dez: Epílogo


Notas iniciais
Pois bem, aqui está o fim. Eu, particularmente, gostei bastante de escrever esta estória, espero que tenham gostado de lê-la ^.^ Posso dizer que este último capítulo ficou deveras dramático, mas tudo bem. Espero que façam uma boa leitura. Aliás, feliz ano novo a todos ^.^

Me enterre ao seu lado

Eu não tenho esperança na solidão

Sete anos depois

POV Tom Marvolo Riddle

As nuvens escuras no céu e o vento que não cessava indicavam que uma tempestade não demoraria a vir. Como de costume, todos se recolhiam para dentro de suas casas, e as ruas ficavam completamente desertas, exceto por um ou outro que corria até o ponto de ônibus mais próximo. Quando desliguei o computador do meu escritório e juntei minhas coisas, deixei a sala, certificando-me de que havia, de fato, trancado a porta antes de entrar no elevador. Passei por todos os funcionários que ainda trabalhavam dizendo um breve adeus. Alguns respondiam cordialmente, enquanto outros reviravam os olhos, provavelmente frustrados por eu tê-los feito trabalhar até mais tarde naquele dia.

Desci até o estacionamento e rumei para o meu carro. Àquela hora do dia, com aquele tempo, certamente não iria encontrar nenhum familiar ou amigo de Luna prestando suas condolências em frente ao túmulo da garota, então girei a chave, ouvindo o motor ligar logo em seguida, e tomei o rumo do cemitério.

Senti um leve roçar de dedos sobre o meu rosto, o que despertou-me naquele fim de tarde. Abri os olhos lentamente, para deparar-me com uma loira sorridente deitada ao meu lado, coberta até o pescoço. Ela tateou os meus braços por baixo do cobertor até encontrar uma das minhas mãos, e a puxou para fora, passando a brincar com a mesma.

– Olá, Tom Riddle – murmurou ela. – Dormiu bem?

– Sim, Luna Lovegood. Muito bem, e você? – Ela assentiu. Abracei seu corpo ainda nu, trazendo-a para mais perto de mim. Meu semblante tornou-se sério de repente. – Você está bem?

Ela riu, aperou minha mão e acariciou meu rosto, sua face cansada e os cabelos ainda molhados por conta do suor. Ela estava linda, como sempre estivera.

– Melhor impossível – sussurrou. Sorriso em seu rosto se alargou. – Eu estou tão feliz, Tom, tão feliz...

Sorri. Aquela era a melhor coisa que eu poderia ouvir dela.

Estacionei o carro sob uma árvore caminhei pelo amplo gramado até alcançar a lápide, aquele maldito pedaço de parede de mármore, com seu nome escrito. Antes de dizer qualquer coisa, peguei a pá que havia trazido junto e comecei a cavar, espalhando grama e terra para todos os lados. Sabia que não deveria estar fazendo aquilo, mas eu precisava vê-la, tocar seu rosto depois de todos esses anos. Eu precisava dela.

Quando o metal bateu contra algo duro sob a terra, soube que estava perto, e, em alguns segundos, o caixão já estava quase que completamente à mostra. Quebrei pedaços da madeira que me separava dela e a joguei-os junto ao monte de terra.

– Luna... – Sussurrei, ajoelhando-me e, com as pontas dos dedos, acariciando sua face. Não passava de um monte de ossos cobertos de poeira, mas, para mim, ainda era ela. O rosto intacto, os cabelos macios e o vestido branco que ela usava desde a última vez em que a vi. – Luna – sussurrei novamente, deitando-me ao lado dela, passando a mão pelo topo da sua cabeça.

– Quando nós chegarmos na escola – disse ela, apoiando o braço na janela do trem, enquanto eu tentava enxergar alguma coisa através da forte chuva que insistia em cair. –, vai ser tudo igual à antes?

– Igual à antes? – Inquiri.

– Sabe, nos encontrando apenas na biblioteca, ou em algum outro lugar onde as pessoas provavelmente não nos vejam – murmurou.

– Mas não ficamos nesses lugares apenas porque ninguém nos vê – menti. Na verdade, não gostava muito da exposição, e tinha certeza de que, se passasse a ser comum nos ver andando pelos corredores juntos, ou almoçando juntos, ou qualquer outra coisa, alguém iria começar a implicar, e eu já fazia uma ideia de quem seria.

– Não sou boba, Tom – disse ela. Suspirei.

– Entenda que seus amigos não gostam de mim – disse eu. – E eu não gosto deles.

– Mas você poderia fazer um esforço – retrucou. – Pelo menos por mim.

– Não garanto que será uma boa ideia.

Depois de desembarcar do trem e deixar todas as malas nos quartos, seguimos juntos para o salão principal. Não haviam muitas pessoas lá ainda, mas o maldito Potter ria com seus amigos na mesa da Grifinória, até que um deles – o Weasley – cutucou seu braço, apontando para nós. Imediatamente, todos se viraram, nos encarando como se fosse a coisa mais absurda que já tivessem visto. Já estava começando a ficar com vontade de virar as costas, quando senti a mão de Luna tocar a minha, e seus dedos se entrelaçarem com os meus.

Certo. Eu iria permanecer ali. Não por eles, mas por ela.

– Avery – disse, quando ele finalmente atendeu ao celular. – Preciso de um favor.

– Fala – murmurou a voz sonolenta do outro lado da linha.

– Tome conta de tudo na empresa amanhã, sim? Preciso dar uma saída. Foi uma emergência.

– E você vai aonde? – Inquiriu ele.

– Não importa – disse eu. – Apenas toma conta de tudo.

– Como queira.

Desliguei o telefone e concentrei-me em dirigir o mais rápido possível. Precisava chegar a Little Hangleton o logo. Algo me dizia que precisava ir até lá, e eu fui, sem pensar duas vezes.

– Do que você tem medo? – Inquiriu ela, encarando o salgueiro, deitada na grama ao meu lado, enquanto eu me escorava na árvore e lia um velho livro sobre filosofia que havia pegado na biblioteca.

– Hm? – Murmurei, interrompendo minha leitura.

– Lembra que naquela noite em que nos encontramos no jardim você me disse que tinha medo? – Assenti. – Do quê?

– Ah – murmurei. – É uma longa história. – Pousei o livro sobre as pernas, visto que, pela maneira com que me encarava, ela não se importaria em esperar. – Eu vi muitas pessoas morrendo, Luna – disse eu. – Elas pareciam tão... Frágeis. Não quero ser visto dessa forma – suspirei.

– Então você tem medo de... Morrer? – Sussurrou a última palavra. Mesmo relutante, assenti. Ela apoiou as mãos no chão e sentou-se de frente para mim. Passou os dedos pelo meu rosto com um discreto sorriso nos lábios. – Não deveria ter medo dessas coisas.

– Eu digo isso a mim mesmo todos os dias. – Encarei o gramado.

Ela não disse nada, e, ao invés disso, beijou-me timidamente.

– Ainda vai demorar para o seu dia chegar – murmurou ela. – Todos irão morrer um dia, está bem? Você não é o único. Não tenha medo.

Depois de longas horas de viagem, finalmente cheguei ao meu destino. Estacionei o carro próximo à casa e, agora dentro dela, encaro tudo ao meu redor. O prendedor de cabelo que ela usara algumas vezes quando estivemos ali pousado sobre o sofá, mesmo fraco, seu perfume ainda está impregnado no ar. Subo as escadas. O quarto que ela passara a ocupar comigo a partir do segundo dia de estadia no local ainda estava desarrumado. Lembro-me de que ela insistira para que arrumássemos ao menos a cama, mas eu neguei, dizendo que ninguém além de mim iria estar ali.

Os lençóis ainda manchados de sangue jazem dentro do cesto de roupas sujas. Os lençóis que estavam na cama no dia em que ela se entregara pela primeira vez a alguém. A mim. Justamente a pessoa que acabara com tudo o que ela tinha. Que acabara com sua vida. Tudo, absolutamente tudo ao meu redor me lembra dela. São todas provas concretas de que um dia ela existiu, e de que eu a perdi.*

Soco a parede ao meu lado, lembrando do dia em que tive que abrir a maldita boca para contar sobre o meu passado amaldiçoado. Porque não poderia guardar tudo aquilo apenas para mim? Não era óbvia a reação que ela teria? Talvez fosse, mas não pensei naquilo. Simplesmente não pensei.

– Eu preciso te contar uma coisa – respondi quando ela me pediu o que iriamos fazer no terraço em plenas onze horas da noite. A garota, por sua vez, não perguntou mais nada. Certamente já sabia o que iria lhe dizer. – Deveria ter dito isso há tempos atrás.

– É sobre o seu pai, não é?

– Quando me contaram toda a história do que havia acontecido com a minha mãe, você pode imaginar o rancor que senti do velho Tom Riddle – comecei. – Se não fosse por ele, eu não seria mandado para aquele orfanato. Minha mãe provavelmente também não teria morrido. Então eu dei um jeito de descobrir onde eles moravam. Demorou muito, mas consegui.

“Quando finalmente descobri Little Hangleton, já tinha mais de quinze anos, mas fui lá, mesmo assim. Encontrei com meu pai pela primeira vez na vida, com ele e com meu avô. Incialmente, devo admitir que fiquei surpreso com a semelhança que tínhamos, mas éramos pai e filho, isso era normal. Ele provavelmente nunca pensou que algum dia fosse encontrar o filho que abandonou quando este ainda estava no ventre da mãe, mas tentou se aproximar de mim, conversar comigo, de pai para filho.”

– E você? – Inquiriu ela.

– Eu – suspirei. – Eu fiquei com raiva dele. Eu o odiei, mais do que já havia odiado qualquer outra pessoa no mundo. E então, sem pensar duas vezes, eu... Eu o matei.

Os olhos azuis se arregalaram mais do que o normal e ela estremeceu. Deu curtos passos para trás, como se tentasse fugir sem chamar atenção, mas a saída não estava daquele lado. Me esforcei ao máximo para pensar em algo que pudesse dizer, algo que a acalmasse, mas não havia nada. Mesmo depois de tanto tempo, eu não sentia o mínimo arrependimento pelo que havia feito, e não iria mentir dizendo que o fazia.

– Você – sussurrou ela. – Como você... Como você conseguiu fazer uma coisa dessas? Seu próprio pai!

– Eu sei que era meu pai, Luna – disse eu. – Mas veja bem as condições! Seu pai é ótimo para você. Ele e sua mãe viveram felizes até o dia em que ela morreu, mas, no meu caso, não foi assim, e você sabe. – Dei alguns passos na direção dela.

– Não chegue mais perto – disse ela. – Você... Eu não quero ficar perto de você.

– Luna – disse eu, ignorando o pedido dela e me aproximando, enquanto ela dava passos para trás, cada vez maiores.

– Por favor, pare! Pare!

E então o chão faltou sob os pés dela. Lembro-me de que na última vez em que vi os olhos azuis, eles estavam arregalados, como se pedissem socorro. Tentei correr, segurar sua mão, mas, quando cheguei à borda do prédio, o corpo dela já havia despencado, e, em poucos segundos, pode-se ouvir o barulho dele se chocando com o chão.

– Não... – sussurrei. – Não!

Virei as costas, passando pela porta e adentrando novamente na escola. Desci as escadas o mais rápido que pude, mas de nada adiantou. Quando alcancei o local onde ela estava, nada que eu fizesse iria adiantar.

Luna Lovegood estava morta.

Deixo o quarto nervoso. Nunca iria me perdoar.

No final do corredor, vejo algo reluzir, e, em seguida, como se nada daquilo tivesse acontecido, a vejo ali. Um sorriso no rosto, os cabelos soltos, o vestido branco de seda e a mão esticada na minha direção, como se estivesse me convidado.

– Luna – murmuro, e ela assente, ainda sorrindo.

Em passos rápidos, vou até ela e seguro sua mão ainda mais pálida do que o de costume. Ela me puxa para mais perto. Nossos lábios se unem e sinto minhas forças se esvaírem. Ela ainda está aqui enquanto sinto meu corpo cair ao chão. Depois de me despedir dela tantas vezes, agora finalmente ira me juntar a ela.

Não sinto medo como achava que sentiria. Pela primeira vez, poderia afirmar que estou feliz.

Mas eu vim e eu não era nada.

O tempo não nos dará nada.

Por que você escolheu se amparar

Num homem que você sabia que estava caindo?

Notas finais
*Frase do personagem Heathcliff. Como puderam ver, as maiores referências d'O Morro dos Ventos Uivantes estão aqui, e, embora a música (The Enemy, por Mumford and Sons) seja o tema da versão do filme de 2011, posso afirmar que prefiro, infinitamente, a versão de 2009, falando sobre cinema, obviamente (Nada supera o livro). Enfim, espero que tenham feito uma boa leitura da fanfic, e obrigada por acompanhar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!