As Sete Despedidas
3 Capítulo três: A Torre de Astronomia
Notas iniciais
Nós precisamos da lua nesta noite
Nós somos o mar
POV Luna Lovegood
– Bom dia – virei-me imediatamente para trás, e lá estava ele, dando-me outro susto. – Como prometido – entregou-me um pedaço de papel dobrado.
“Eu, Professor Horácio Slughorn, concedo ao aluno Tom M. Ridlle permissão para a retirada do livro ‘Josef Mengele’ da Sessão Reservada da biblioteca de Hogwarts.”
– Mas tem seu nome aqui – murmurei.
– É claro que tem – disse ele, sentando-se ao meu lado no banco do Salão Principal. Estávamos no horário do café da manhã, e eu, como sempre, sentava na mesa da Corvinal, com uma xícara de café e alguns biscoitos. – Eu pego o livro, e entrego para você. Quando você terminar de ler, me devolve e eu devolvo para a biblioteca.
– Hm... Obrigada – sorri.
– Eu te entrego no final das aulas, ok?
– Ok.
E então ele virou-se e tomou o rumo da mesa da Sonserina. Voltei a concentrar-me na comida à minha frente. Sinceramente, eu preferia o almoço. Não serviam pudim no café, o que, na minha opinião, era um absurdo. Cho sentou-se ao meu lado, jogando a mochila sobre a mesa e afundando a cabeça entre os braços. Não me surpreendi. Ela deveria estar com sono, visto que, quando cheguei ao dormitório, ainda estava acordada, fazendo o dever de inglês, e continuou ali mesmo depois de eu ter dormido.
– Você deveria beber um pouco de café – disse eu.
– Não – a voz dela saiu abafada. – Eu tenho que beber muito café.
– Faça isso – eu disse, alcançando minha xícara para ela. A morena, por sua vez, pegou sem hesitar.
O período das aulas passou deveras rápido, e, quando o sinal anunciou que poderíamos, enfim, voltar aos dormitórios, fui diretamente par a biblioteca, onde o rapaz, que agora eu sabia que se chamava Tom Riddle, observava a movimentação dos alunos do lado de fora do castelo. Aproximei-me dele sem delongas e sentei-me à sua frente, fazendo-o desviar a atenção para mim. Ele suspirou e empurrou o livro até mim. Abri-o em seguida, sorridente por finalmente tê-lo conseguido.
– Obrigada – murmurei, sem tirar o sorriso do rosto. Ele assentiu e voltou a encarar o lado de fora.
– Tomei a liberdade de ler algumas coisas escritas aí – disse ele, depois de alguns minutos de silencio. – Não me parece o tipo de coisa que uma pessoa como você leria.
– Existe um típico específico de pessoa pare ler isso? – Inquiri, sem tirar os olhos das páginas.
– Normalmente eu não diria isso – sem aviso, tirou o livro das minhas mãos.
– Por que está dizendo agora? – Obriguei-me a encará-lo, mas mantive-me calma.
– Este homem injetava tinta nos olhos das crianças, sabia?
– Sim – disse com naturalidade. Ele arqueou a sobrancelha. – Pode me devolver o livro?
– Você me deixa curioso – ele fechou o livro. – Me encontre hoje na Torre de Astronomia, depois do horário do toque de recolher.
– Depois? – Inquiri, um tanto quanto surpresa.
– Ser monitor me deixa com alguns privilégios – disse ele enquanto se levantava. – Até mais tarde.
E assim ele desapareceu por entre as estantes. Por que queria me encontrar depois do toque de recolher? Bem, eu teria que encontra-lo para descobrir, ou poderia simplesmente deixar isso de lado e continuar seguindo a minha vida. Mas quando meus olhos se desviaram para a mesa, onde achei que o livro estaria, dei-me conta de que ele o havia levado consigo, e, assim, percebi que, talvez, estivesse me chamando apenas para entrega-lo a mim, então resolvi que iria.
Quando percebi que todos já haviam se recolhido para os respectivos dormitórios, saí de dentro do banheiro – onde aguardara escondida pelos quinze minutos anteriores – e rumei para a Torre de Astronomia. Poderiam perfeitamente instalar um elevador naquele lugar, pois subir aquelas escadas era realmente cansativo, e olha que eu havia me inscrito para ter tais aulas, ou seja, duas vezes por semana, era forçada a encarar aquilo. Quando empurrei as portas pesadas, deparei-me com a sala completamente vazia. Os telescópios jaziam apontados para o céu estrelado, como sempre faziam. Caminhei até um deles, olhando através das lentes. Eu gostava da visão que ele me proporcionava. Realmente gostava. Não que exatamente desse tanto valor a toda aquela questão astronômica, mas o céu era um infinito realmente belo.
– Não deveria distrair-se desta maneira, senhorita – a voz sussurrou bem próxima ao meu ouvido. Não me a virar-me para trás; tampouco precisava. Sabia quem estava ali.
– Se não soubesse da sua vinda, poderia até me assustar – murmurei com naturalidade. Não estava com medo. Sabia que era ele quem estava ali.
– Você desperta minha curiosidade – disse ele.
– Você pode devolver o livro agora? – Enfim encarei-o. A luz da lua refletindo em seu rosto, os olhos frios fixos nos meus. – Por favor.
Ele o tirou de dentro do casaco e pousou-o sobre a mesa. Eu poderia muito bem caminhar até ali, pegá-lo e ir embora, mas decidi apenas fitar a capa dura e negra com escritas douradas por longos segundos que, ao meu ver, pareceram minutos, enquanto sentia seu olhar ainda sobre mim. Os cabelos negros levemente ondulados caídos em parte sobre sua testa formavam um penteado impecável, que, unindo à pele pálida e os olhos pouco expressivos, tornavam-no absolutamente perfeito.
– Por que me pediu para vir aqui? – Inquiri. Ele debruçou-se sobre a pequena janela, a brisa noturna balançou os fios negros.
– Por que você veio? – Ele não me encarava.
Por que eu havia ido até lá? Bem, nem ao menos eu sabia. Ele era um completo estranho que alugara um livro para mim. Apenas isto. Eu não deveria estar ali. Poderia acontecer qualquer coisa, e ninguém saberia. Mas, ainda assim, eu fui. Em passos lentos e silenciosos, caminhei até ele, encostando-me na parede ao seu lado.
– Não sei – disse por fim.
– A porta está fechada, e todos dormindo. – Disse ele. – Não deveria confiar tão facilmente nas pessoas. Aliás – olhou para mim. –, como se chama mesmo?
– Luna.
– Ah – voltou a olhar para fora. – Nome inspirado na Lua?
– É – disse eu. – Minha mãe gostava dessas coisas. Meu pai também.
– Seu pai eu sei que edita O Pasquim, mas e sua mãe?
– Ela morreu – por um instante, ele encarou-me. Fora a troca de olhares mais intensa da minha vida, embora tenha sido breve. No momento seguinte, seus olhos voltaram-se para o lado de fora outra vez.
– A minha também – mururou.
– Sinto muito.
– Não sinta – disse quase me cortando. – Não sentiria se soubesse da história toda.
– Por que não conta? – Pensei duas vezes antes de dizer aquilo, mas achei que talvez fosse parecer mais simpática se o dissesse. Toda vida, ele riu baixo.
– Contar a história da minha vida trágica para uma garota desconhecida que possivelmente esconde uma personalidade completamente obscura dentro de si? – Disse ele. – Acho que não tenho nada a perder. – Dizendo isso, sentou-se no chão, convidando-me para sentar ao seu lado em seguida. – Digamos que minha mãe sempre foi apaixonada por um mesmo cara. Um cara que nunca olharia para ela.
– Amor platônico é algo triste – disse eu.
– E como – suspirou. – Um dia ela decidiu que seria uma ideia brilhante embebedar ele e fazer com que ele... Bem... “Deitasse” com ela, e por mais óbvio que isso fosse, ele caiu – revirou os olhos. Continuei a fita-lo, esperando ansiosa pelo resto da história. – E aí, no mês seguinte... – Ele abriu os braços, como se apresentasse a si mesmo.
– Ah – arregalei os olhos. – Que triste.
– Ainda não acabou – disse ele. – Sabe como as pessoas antigamente eram bastante conservadoras, não é? – Assenti. – Ele foi forçado a casar com ela quando descobriram que estava grávida, só que, na primeira oportunidade que teve, ele fugiu. E aí, no dia em que eu nasci, ela morreu, sabe-se lá porquê. No orfanato nunca me contaram.
Fiquei em silêncio. Não tinha nada para falar. Absolutamente nada que vinha na minha mente naquele instante parecia algo certo a se dizer. Ele também ficou quieto, encarando o livro sobre a mesa, enquanto eu fitava seu rosto, ainda com os olhos arregalados, na esperança de ouvir mais alguma coisa. Mas ele não disse nada. Suspirei. Aquele silêncio passara a tornar-se constrangedor.
– E o seu pai? – Inquiri.
– Ele também morreu.
– Você encontrou com ele depois?
– Sim.
– Como foi que ele morreu.
– Hm – murmurou. – Talvez esta seja uma história para um outro dia. Mas e a sua mãe?
– Ah – tentei segurar, mas um riso abafado saiu dos meus lábios. Não era uma história tão emocionante. – Acidente em laboratório – ele arqueou a sobrancelha, me encarando. – É trágico.
– Eu imagino – disse ele. – Parece que não somos o tipo de pessoas que “nasceram viradas para a lua”.
– É, pode-se dizer que sim – ri.
E silêncio novamente. Mas, desta vez, ele me encarava também. Os olhos tão negros e inexpressivos que chegavam a assustar. Era engraçado como conseguia me sentir bem perto dele, mesmo não o conhecendo como deveria conhecer para sentir-me tão livre enquanto estava com ele. Ele era tão diferente do restante das pessoas que conheci ali. Diferente de Harry, embora me lembrasse muito dele. Diferente de Ron, e de Neville, e de Hermione, e de Gina, e de todos os outros, e diferente de mim. Tinha algo nele que me fazia quere-lo perto de mim. Talvez Tom Riddle fosse a única pessoa a me compreender. Por um momento, encarei os lábios finos entreabertos, e a única ideia que passou pela minha mente foi a de uni-los aos meus. Não o fiz, apesar disso. Suspirei e levantei-me do chão frio, dizendo que estava tarde, e eu com sono. Ele assentiu, mas não moveu-se em um sequer centímetro depois que eu deixei a sala com o livro nas mãos.
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