As Ruínas
6 The Host
Notas iniciais
Meredith acordava de seu ronco com gritos e palavras atropeladas que vinham de fora da barraca. Ainda com os olhos abrindo, ela piscava sem parar esfregando a testa, só desejando que todos calassem a boca. Aquela situação já não era o suficiente para deixar todo mundo nos nervos? Por que tinham que arrumar confusão logo agora? Bufou, eles não paravam. O Pior é que não dava para entender o motivo da discussão, as frases não faziam sentido e o choro insuportável de Abigail já estavam tirando o sono da loirinha que lutava para dormir. Abriu os olhos finalmente, notando a claridade que parecia querer invadir o tecido da barraca amarela. Estava abafado lá dentro, cheirando a suor e Meredith notara como sua espiração estava pesada. Agora não queria mais ficar deitada ali. Não podia.
—Onde você as deixou?! -A Voz de Stephen vinha do lado de fora, seguida pela de Amber:
—No mesmo lugar, caralho!
Meredith deu tapas no rosto assoprando o ar, levantando-se com pressa, irritada com os olhos avermelhados. Ao por a cabeça para fora da barraca, sentiu o Sol lhe castigar as vistas, colocando uma mão sobre a testa bloqueando a luz, mantendo a cabeça abaixada e os olhos quase fechados. Aquele clarão estava muito forte, e a parte de trás de seu pescoço já sentia como seria rigoroso o calor daquele dia. Andava em passos tortos e cansados se aproximando do que parecia ser o grupo discutindo:
—O que está acontecendo? -Perguntou ela com raiva, ainda com tom sonolento.
Stephen se virou a ela abrindo os braços e deixando-os bater contra a cintura:
—As mochilas sumiram!
—O quê?
—É, quando acordamos elas não estavam mais aqui!
—Saco! -Meredith se virou, inclinando-se, ficando perante a barraca amarela, tentando fazer com que seus olhos se acostumassem com a luz para que pudesse ver. Deixou sua mochila ao lado da barraca a noite, e agora, com os vultos desaparecendo e a visão ficando nítida, notou que não havia nada ali de fato.
—As únicas que não sumiram foram a da Amber e o Alex! -Stephen vociferava, indicando um tom de desconfiança para com os dois.
—Eu já disse! -Amber berrou. -Eu dormi com a mochila dentro da barraca! O Alex também!
—É Cara, a gente não pegou não! Por qual razão a gente ia querer pegar as coisas de vocês? Se liga!
—Eu não sei! -Stephen os acusava em completo desespero.
Raven é quem tentava apaziguar a situação:
—Gente, vamos nos acalmar. Ficar berrando não vai fazer as mochilas aparecerem. Tenho certeza de que não foi culpa de ninguém.
—Será? -Amber se mostrava ainda nervosa pelas implicâncias de Stephen. -Porque quem ficou acordada de noite ontem foi você!
—Vai me acusar agora? Então me diz, por que diabos eu ia querer sumir com a minha própria mochila?
—Não sei, pra não dividir as coisas de repente....
—O quê?
—Hey! -Stephen se colocou no meio das duas esticando os braços para mantê-las afastadas. -Vamos parar. Amber, desculpe. Chega.
—Stephen.. -Raven o chamou, fazendo-o se virar.
—Fala..
—Acha que eles podem ter vindo aqui no meio da noite enquanto dormíamos?
—Eles quem?
—Os Maias, caralho!
Abigail enxugava as lágrimas:
—Por que os Maias iam querer nossas mochilas?... Não faz sentido.
—Isso se chama roubo, Abby. -Stephen continuava. -Já mataram um de nós. Faz sentido que queiram nos roubar também.
—Mas isso não tem nexo algum! Se eles tivessem subido até aqui de noite enquanto dormíamos.. não acham que teriam nos matado enquanto estávamos apagados?
—Ela tem razão. -Raven concordou. -Eles por algum motivo não se aproximam do templo. E se quisessem nos matar como fizeram com Henrich, teriam nos matado essa noite. Não acho que foram eles que pegaram as nossas coisas.
—Bem.... -Meredith se aproximou atraindo os olhares. -De qualquer jeito agora estamos mais fodidos do que nunca. Na minha bolsa tinha o protetor solar de todo mundo. Então, espero que gostem de torrar.
—Merda! -Stephen berrou de raiva. -Não é só isso... minhas roupas.. estavam todas na minha mochila, os passaportes, tudo!
—Como vamos voltar pra casa? -Abby cobria os olhos com as mãos, esfregando-os.
—Eu só sei de uma coisa.. -Stephen cerrava os olhos. -Vou voltar pra casa nem que seja me arrastando!
Meredith levantou a mão como um sinal de "Pare" para Stephen:
—Espera aí, antes de você sair se arrastando, melhor olharmos o que temos. Só sobrou a mochila de quem mesmo?
—A Minha e a do Alex. -Amber disse tentando recuperar o tom calmo na voz.
—Okey, então vamos dar uma olhada no que temos, e ver o que podemos fazer.
—Tá bem... -Amber deu as costas à turma, sendo acompanhada por Alex. Os dois se dirigiam à barraca azul. Meredith esperou que eles se afastassem e se voltou para os outros, especialmente Raven:
—Você ficou acordada ontem?
—Sim.. -Respondeu a garota. -Mas não por muito tempo, fui dormir umas Duas e Meia da manhã.
—Eu estava aqui com ela, não conseguia dormir. -Stephen completou.
—Ahm... -Meredith se mostrava pensativa. -E Não viram nada?
Os dois se entre olharam, Stephen ameaçou dizer alguma coisa mas Raven saiu na frente interrompendo-o:
—A... Agente ouviu uma coisa...
—Que coisa?
—Parecia.. sei lá, era...
—Parecia algo se arrastando. -Stephen completou.
—Se arrastando? -A Loirinha se mostrou confusa.
—É, como uma cobra ou algo assim. Na verdade foi isso que me tirou o sono.
Meredith girou o torso, olhando em volta. Tentando ver se haviam vestígios de algum animal, mas não havia nada. O Chão continuava do mesmo jeito. Apenas é claro, os objetos que haviam desaparecido. Bufou com as mãos na cintura:
—Fodeu. Fodeu bonito. Os passaportes, dinheiro, roupas, protetor solar, água... comida...
Abigail estremeceu a ouvir as palavras "Água" e "Comida". Lhe bateu um desespero silencioso do qual quis esconder se virando, não conseguindo olhar nenhum deles nos olhos. Tampava a boca fitando de modo vago os arbustos que cobriam o pequeno muro na borda. Aquela vista antes linda, era grotesca para ela agora. Queria sua casa, sua cama, seu gato. Não poderia mais ficar ali, ou então um colapso mental seria inevitável.
—Aqui! -A Voz de Amber surgia. A Menina saiu de dentro da barraca seguida pelo Grego, erguendo sua mochila com uma das mãos exibindo-a para o grupo, que fora atraído em sua direção. -Venham. -Disse ela se abaixando pousando a mochila no chão.
Alex se aproximou fazendo o mesmo, se sentando ao lado da menina, pondo sua mochila entre as pernas. Raven, Stephen e Meredith os acompanharam, mas Abby continuou transtornada olhando para aqueles galhos e folhas verdes em sua frente, como se pudesse ver além deles, parecia que para ela, nada existia.
—Ela não vem? -Amber perguntou balançando a cabeça em direção a Abigail.
—Deixa ela, ela está péssima. -Raven suspirou limpando o suor da testa.
—Ok. -Amber usava sua mão intacta para abrir o zíper, olhando fundo para dentro da mochila. -Espera, vou tirar as garrafas primeiro. -Desceu o braço, tendo uma certa dificuldade em firmar seus dedos nas três garrafas de água, tirou-as entre os dedos deixando uma cair, a garrafa imediatamente rolou pra o lado, sendo pega pelo Grego. -Ah, obrigada.
Amber continuava revirando o interior da mochila, puxando para fora uma blusa preta de agasalho, jogando-a de qualquer jeito ao seu lado, em seguida saiu uma faca, ainda dentro do suporte de couro. Raven fez um olhar de espanto ao ver a faca, mas sua expressão era quase que uma de felicidade, já começava a pensar em como ela poderia ser útil. Amber continuou, retirando uma blusinha xadrez vermelha e branca, desodorante, repelente em Spray, um pacote de biscoito salgado, uma frigideira e sua carteira com todos os seus documentos.
—Só um pacote de biscoito? -Meredith questionou de modo rude.
—É... eu comi o outro ontem... -Amber respondeu sem graça.
—Aff...
—Eu acho que tenho mais coisas... -Disse Alex abrindo a sua bolsa metendo o nariz dentro dela. Com as mãos, empurrava suas poucas roupas para o lado, afundando o braço entre elas para alcançar algo útil. Sua mão chegou ao fundo numa longa busca, saindo exibindo pelo menos 5 barras de cereal, do qual colocou no chão ali próximo de si. Retirou também uma garrafa térmica de café.
—Ué, café? -Meredith puxou os lábios estranhando.
—Não.. é suco. Não gosto de café.
—Suco nessa garrafa?
—É... sai com pressa, taquei o suco aqui dentro e sai.
—Suco de quê?
—Laranja.
—Ahm... mais alguma coisa?
—Acho que sim... -Alex procurou mais a fundo, trazendo com cuidado dois sanduíches de pão de forma cobertos por papel alumínio.
—Hum... melhor assim. São de quê?
—Vegetarianos.
—Graças a Deus. -Raven comemorou, mas seu rosto não mostrava alegria. -Então a Abby vai poder comer.
—Ok... -Meredith começava a pensar em como racionar tudo da melhor maneira, caso o plano de fuga de hoje falhasse. -Bem, guardem tudo.
—Não vamos comer? -Stephen pareceu indignado.
—Como assim?
—A gente não comeu nada desde que acordou.
—E vão morrer de fome se ficarmos aqui. O importante agora é fugir. Se não der certo, depois eu penso num jeito da gente organizar tudo.
—E por que é você quem decide? -Ele perguntou de modo seco e rude.
Raven puxou os lábios levantando as sobrancelhas, mostrando que não queria se meter nisso. Porém estava com fome, e com um pouco de sede, passava a língua entre os dentes refletindo sobre como poderia ficar sem "Café da manhã" pela primeira vez em sua vida. Amber pareceu concordar com Stephen, mas abaixou a cabeça imediatamente para não ser atingida por um olhar mortal que Meredith poderia lhe lançar, Alex fez o mesmo. A Loirinha encarou Stephen com um ódio que até hoje ele nunca testemunhara em seu rosto. A enfrentou sem prudência nenhuma. Aquele olhar de Meredith era de arrepiar, mas Stephen, mesmo se odiando por dentro, não perdeu a pose. Levantou o queixo a encarando de igual para igual. Um rebelde tentando destronar uma rainha soberba. Foram segundos tensos de silêncio, cortados por Abigail que os chamara com urgência:
—Pessoal! -Sua voz veio num tom de preocupação, já levando os olhares até ela. Desconcentrando aquela tensão horrível do grupo, que agora, pelo tom de voz da garota temiam ter algo ainda pior para se preocupar.
—O que foi? -Raven perguntou virando o pescoço, aliviada por não ter mais que olhar pra cara constrangedora de todos.
—Vocês tem que ver isso... -Abigail dava um passo lento para trás, se afastando da mureta ao lado do escadão.
Os 5 se levantavam quase que ao mesmo tempo em urgência. A Curta caminhada até aquela beira do templo lhes arrepiava. Chegando a ponta do escadão, ficando bem ao lado de Abigail, o grupo procurava com os olhos o que talvez estivesse atormentando a menina. A Vista para os Maias parecia normal. Um deles estava abrindo um coco com um facão, com uma rodinha de crianças em volta esperando. Os "Guardas" ainda encaravam o templo em seus postos. Nada parecia fora do ordinário naquela situação horrível.
—Abby, o que foi? -Raven perguntou confusa.
—Eu não estou vendo nada. -Stephen movia a cabeça para os lados, tentando prestar atenção lá embaixo, não notando nada demais.
—Vocês não entenderam! -Abigail disse por de trás deles, se afastando do grupo andando de costas.
—Então o que é?! -Stephen se exaltou.
—Olha pro Henrich...
Assim como Stephen, todos dirigiram seus olhares ao canto esquerdo lá embaixo, procurando com os olhos o cadáver do rapaz, mas o curioso é que não encontraram. Não havia nada ali perto dos arbustos onde antes estava Henrich.
—Ué...
—Ele sumiu. -Meredith fez uma careta desentendida.
Amber tentou tampar o sol sobre seu rosto com as mãos para ver melhor:
—Gente... será que levaram o corpo embora?
—E deixaram a mochila? -Meredith apontava para baixo. -Ela ainda está lá.
—Isso é muito estranho. -Stephen coçou a cabeça.
O Grego abanou as mãos em repulsa ao olhar aquele povo Maia. Em sua cabeça já imaginava que eles podiam ter devorado o corpo do rapaz ou feito algum tipo de ritual bizarro, o tipo que coisa que ficara presa em sua mente após ver alguns filmes de horror hollywoodianos sobre jovens perdidos em matas. Se estremeceu de arrepio em pleno calor de 28 Graus, se afastando do grupo:
—Esse lugar todo é estranho! Tem alguma coisa muito errada aqui.
Os olhares de Stephen e Meredith se encontraram quando um se virou para o outro quase que automaticamente. O Sorriso diabólico que ameaçava aparecer no rosto da loira era capaz de ler a mente do rapaz.
—Está pensando o mesmo que eu?
—Acho que sim... -Respondeu ele. -Está pensando no quê?
—Em tentar pegar a mochila do Henrich.
—Não.. não era isso que eu estava pensando.
—Então o que era, garoto?
—Que isso tudo tá sem sentido. Isso é loucura. As nossas mochilas aqui em cima somem! Mas a que está caída la embaixo não? Mas o corpo do Henrich sim? O que está acontecendo nessa porra?!
—E Se for uma armadilha? -Raven questionou como se tivesse um estalo.
—Como assim? -Amber pareceu aflita.
—Assim, tipo. Podem ter roubado nossas coisas, mas deixado a mochila do Henrich de propósito lá... pra fazer a gente descer pra pegar, e aí atiram em todos nós.
Meredith enrolou um cacho de cabelo no dedo:
—Olha... por mais que essa sua teoria seja ridícula, absurda e complexa demais pra um bando de índios selvagens... tenho que admitir que você pode estar certa.
—Não, não não! -Stephen vociferou. -Nada a ver. Como eles saberiam que queremos a mochila do Henrich?!
—Porque nela tem o celular via satélite, eles sabem que queremos escapar. -Raven respondia com confiança.
—Mas Raven, -Stephen insistia. -Eles provavelmente nem sabem o que é um celular via satélite. Nem em mil anos vão pensar nisso!
—Nossa como você é preconceituoso!
—Ah, pelo amor de Deus. Vamos dar o fora daqui logo!
—Tá, então vai lá machão, que eu vou descer por essa merda dessa corda.
—Não! -Abby gritou ao fundo interrompendo os dois. -Eu vou descer primeiro. Não aguento ficar mais nem um segundo aqui.
—Ah, agora a bonita quer descer? Então tá.. -Meredith proferiu com deboche, dado ao medo que Abby demonstrou ontem ao se recusar a descer pelo poço com ela. -Vamos nessa!
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—Me desce logo! -Dizia Abigail agarrada a corda, ajustando o quadril para arrumar sua posição. A Corda estava amarrada em sua cintura, e suas mãos suadas lutavam para segurar com firmeza. Sua expressão era de pavor, o medo da queda combinado com a necessidade de sair logo daquele lugar lhe consumiam.
—Toma. -Meredith lhe esticou o braço portanto uma Lamparina.
—Não... -A menina disse com medo, não conseguindo tirar uma das mãos da corda para pegar o objeto.
—É muito escuro lá embaixo, pega.
—Eu não consigo.... não vou tirar minhas mãos daqui!
—Abigail, calma. Tira só uma mão.. pega...
Meredith balançou o pulso dando uma leve sacudida na lamparina, insistindo para que Abby a pegasse. A Garota hesitou, apertando a corda com ainda mais força. Seus suspiros de medo eram evidentes, olhava para baixo e rapidamente levava o olhar para cima. Não conseguia fitar aquela escuridão profunda. Ali pendurada, balançando de leve com o vento bem em cima do poço, Abby conseguiu ainda que modo trêmulo, esticar a mão esquerda bem rápida, tremia tanto que até parecia ter Mal de Parkinson.
—Pega, pega!
A Mão da menina se balançava de um lado para o outro e seus dedos lutaram para pegar a Lamparina. Sua expressão de agonia ao fazer tal tarefa eram desconsertantes. Até que finalmente, pegou a coisa já trazendo o objeto para si, soltando um gemido de medo:
—Hammm.... Stephen! -Gritou ela.
O Garoto, na manivela ao lado de Alex lhe levaram o olhar.
—Me desce!
A manivela começou a girar, acompanhada dos rangidos da madeira que transmitiam uma sinfonia do movimento. Os braços dos dois rapazes se esforçavam em não descê-la muito rápido. Stephen agora notava como seu esforço era maior. Realmente Henrich era mais forte, e contribuiu com muito em descer e erguer as meninas. O Grego não possuía a mesma força, e agora o esforço era redobrado...
Abby pendeu a cabeça para cima, dando uma última olhada em suas amigas na beira do buraco, que a observavam ser engolida pela escuridão, com um olhar que representava alívio, esperança pela possibilidade que finalmente escapar, e medo. Conforme descia e desaparecia, a luz da lamparina era quase como um vagalume que flutuava, indo para baixo pouco a pouco...
Um gemido, ameaçando virar choro, vinha por de trás de Meredith. Era um murmúrio de dor e agonia.
—Ai...
A Loira se virou, deparando-se com Amber curvada reclamando de dor, colocando sua mão esquerda ainda enfaixada próximo a barriga. A Garota se contorcia para frente de olhos fechados, e o modo como seu abdômen se contraída, e seu rosto fazia caretas acompanhados dos gemidos que ela tentava abafar prendendo os lábios, entregava que a coisa estava muito séria.
—Amber... o que foi? -Meredith perguntou mostrando desconfiança. Raven imediatamente fitou a garota em agonia, de modo sério cerrando os olhos, tentando ver sua mão machucada que ela escondia ao se curvar para frente.
—Tem algo errado... -Raven disse se aproximando da menina. Colocou a mão em seu ombro. -Amber, se vira.
—Não!! -Ela respondeu ao ponto de chorar.
—Amber, eu preciso ver o que está acontecendo, pra que a gente possa cuidar.
—Não!! Não, por favor não mexe, eu estou com medo!
—Amber, calma...
—Por favor...
—Deixa eu ver.. -Raven mostrava compaixão em sua voz. Passando a Amber um certo conforto e delicadeza, que fizeram com que a menina se virasse a ela, estendendo a mão vagarosamente derramando uma lágrima. -Eu vou dar uma olhada, só isso... tudo bem?...
Amber aquiesceu, ficando cabisbaixa. Meredith ficou mais perto enquanto a faixa era desenrolada lentamente por Raven, vendo a ação de pertinho... a garota ainda permanecia curvada, agora diante de Raven. Sua dor não cessava, Amber ficou com uma mão apoiada no joelho enquanto a outra era vagarosamente revelada. A menina de trancinha retirava a faixa com cuidado, para que não raspasse ou causasse aflição sobre a ferida.
—Ah!!!!!! -Um grito surgiu de Raven, que se lançou para trás num pulo de susto desesperado.
Amber, tomada pelo pavor e não tendo coragem de olhar o ferimento, tentou recolher a mão no mesmo segundo, sendo impedida por Meredith, que lhe segurou pelo pulso num reflexo rápido e ousado. O movimento veloz da Loirinha fora tão absurdo, que havia parado o braço de Amber com a agilidade de uma mata-moscas. A morena fitava Meredith com medo e olhos cheio d'água, tendo o pulso segurado e a mão levantada diante de Meredith que a fitava de modo sério.
—Por favor, me solta! -Amber implorou.
Mas Meredith era mais forte. Apertou o pulso da garota trazendo-o até si, aproximando-o de seu rosto contemplando aquela visão grotesca. A Palma da mão de Amber residia em carne viva. Não havia pele lhe cobrindo aquela região, apenas os dedos ainda estavam intactos, assim como as costas da mão. O Buraquinho da ferida quase não existia, pois a palma da mão estava exposta por completo, num vermelho vivo, a carne parecia em frangalhos como se tivesse sido mastigada. O Curioso, é que sangue não escorria, a carne parecia seca. Meredith notava agora o tom roxo que os dedos da menina começavam a apresentar. O Tendão do meio da palma estava evidente, como uma corda fazendo o ligamento até o pulso, parecia mais saltado que as outras veias expostas e arrebentadas, em ruínas como estradas destruídas numa metrópole.
—Me.. me.... solta... -Amber choramingava.
—Fique parada! -Merdith lhe ordenou. -E Cale a boca!
A Loira olhou mais de perto, não demonstrava nojo ou repulsa pela grotesca ferida. Naquele tendão saltado, notou que um tipo de veia estava enrolada nele. Era fina e aparentemente de cor verde, dava para dizer que era de cor verde somente pelas pequenas partes que não estavam cobertas de vermelho, pelo sangue preso de Amber que por alguma razão não escorria. Meredith esticou seu indicador de leve, levando-o próximo ao tal tendão.
—Não!! Não!! Não encosta!!! -Amber berrava implorando.
—Que nojo!! -Raven gritou ao fundo cobrindo a boca.
—Fique quieta!!
A ponta do dedo de Meredih se aproximava, ela sabia que aquilo não era uma veia enrolada no tendão como uma serpente, mas queria ter certeza.
—Não... se.. mexa...
Amber fechou os olhos em agonia, quando a ponta da unha de Meredith lhe encostou de leve na região. Ao mesmo tempo que Amber solou um grito estridente sacudindo o braço segurado pela loira, Meredith conseguiu ver que aquela coisa enrolada no tendão, se moveu. Como uma cobra, aquele fiozinho verde se desenrolou do tendão, se debatendo e se contorcendo feito uma lesma ou algo do tipo, se embrenhando de volta na carne desaparecendo, abrindo caminho para dentro da mão de Amber, se escondendo por baixo de sua carne viva em frangalhos. A Coisa provavelmente fez uma entrada forçada, pois agora sim um respingo de sangue se dera por onde a coisinha entrou. Pequenas gotas vermelhas espirraram na bochecha de Meredith, que fechou os olhos por um pequeno segundo para que a substância não os atingisse, abrindo-os de novo na mesma hora, vendo o que parecia ser a calda daquela estranha "Serpente", desaparecendo embaixo daquele vermelho, deixando para trás um novo buraquinho por onde entrara, de onde agora escorreu sangue em uma quantidade horrenda, descendo pelo pulso da garota, que aos berros conseguiu se soltar de Meredith dando um passo brusco para trás.
—Ah!!! Ah!!!! -Com a bocarra aberta, a saliva não conseguia ser segurada pelos lábios secos de Amber, que babava e gritava sem parar em desespero sentindo uma ardência terrível, entrando em um choque de pavor ao ver toda a palma de sua mão exposta e mordiscada como se um abutre ou algo assim tivesse se alimentado dela. Como que ela não havia sentido todo esse estrago sendo feito? Sentia algo se arrastar por dentro de sua mão. Estava ali... debaixo de sua carne... seus ossos pareciam pressionados contra alguma coisa. Os dedos se movimentavam em espasmos involuntários, dando pequenos tremeliques enquanto algo cavava sua carne, se movimentando por debaixo dela como se abrisse caminho.
—Me ajudem!!! -Ela berrou ao prantos.
Meredith a fitava como se estivesse diante de um saco de lixo, limpando delicadamente a bochecha respingada de sangue com a ponta do dedo. Raven deu as costas em completa expressão de nojo.
—Socorro!!! -Amber continuava a gritar curvada para frente. Seus dedos praticamente dormentes não sofriam, mas a ardência que lhe arrebatou com aquela coisa se movimentando sob sua carne lhe causavam mais pavor, do que dor. Meredith pensava em como os nervos de Amber já deviam estar completamente rompidos ou desfeitos, isso explicaria como a mocinha não havia sentido essa dor escruciante durante a noite. Essa agonia deve ter sido causada quando o que quer que fosse que se hospedava em sua carne, mudou de posição.
—Cheguei ao fundo!!! -A Voz de Abby surgiu do fundo do buraco.
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