Notas iniciais
Narrado: Freira Angelina

O caminho da escuridão

Eu cheguei ao meu quarto por volta das sete, após a janta e a reza. Caminhei entre as freiras até os domínios de meu quarto. Ao abrir a porta deparei-me com a cena, a Irmã Maria Guta ajoelhada a minha cabeceira, com o meu diário na mão, lendo atentamente.

– O que estas a fazer irmã? – me excedi. –

–Ele é o diabo, o diabo na pele de um cordeiro sedutor. – ela balançava o diário freneticamente, acompanhando suas palavras. –

– Eu o amo irmã! – ela acertou uma bofetada bem na minha face. –

– Você, ama Jesus Cristo, e somente ele! – eu passava a mão na bochecha, tentando espantar a dor. – A partir de hoje, dobrarás o número de tuas rezas, sairás somente acompanhada e te livrarás de todas as memorias que incluem este homem.

Fui incapaz de dizer uma só palavra. As maçãs de meu rosto esfriaram, virando berço das lágrimas.

– Livrai-nos do mau amém, lembra? É o que eu irei fazer livrar-te desse mal, desse demônio.

A irmã saiu do quarto batendo a porta e levando meu diário consigo. Me enfureci, enchendo o coração de cólera.

– Livrai-nos do mau, amém irmã. E é o que eu irei fazer livrar-me deste mal. –

Por impulso sai pela porta, acompanhando os passos simultâneos da freira, discreta, sem ser notada. Não havia freiras nos corredores mais, já estavam desenguiçadas em seus quartos, repousando. A área externa do convento, coberta de neve, estava vazia do mesmo modo. Talvez ela o quisesse, alias quem não o queria? Ele era perfeito. Era isso, ela estava tentando me afastar dele, mas não para me encaminhar a santidade e sim para consumar aquele homem, o meu homem.

– Adeus irmã. – passei por ela com desdenha e pressa. –

Atingi com velocidade o outro lado do bosque.

– Angelina, pare já! – ordenou, porém ignorei a. –

Fui até a cabana de tralhas, um tanto afastada do convento. Tomei em minhas mãos um machado e então lancei as mãos para trás do corpo. Seguiria o provérbio, cortai o mal pela raiz, não era de Deus, mas servia.

– Angelina, voltai ao convento imediatamente e rezai 3 ave marias. – apontou para o convento, me ordenando. Permaneci parada. – Ouviste pecadora?

– Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seus servos ou servas, nem seu boi ou jumento, nem coisa alguma que lhe pertença.

– Para que ditas os dez mandamentos?

– Não darás falso testemunho contra o teu próximo. Não furtarás, não adulterarás, não matarás... – sorri. – Aliás, matarás por amor.

– O que?

Avancei com voracidade para cima da freira acertando-lhe machadas que lhe racharam a cabeça, três ou quarto no máximo. Seu corpo que debruçou sobre os joelhos, sangrava como um porco em abate e então caiu totalmente sobre a neve manchada de vermelho. Larguei o machado que afundou na neve.

– O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nos perdoamos a quem nos tem ofendido... – choramingava as palavras. – Amém. – me benzi. -

Sai de lá cambaleando. Eu matei, mas fora por amor, e o pior, eu não me arrependia disso. O que eu não poderia permitir era que meu caso com o Conde fosse rompido, não, isso eu não permitiria.