Notas iniciais
Narrado: Dona Carmelita

A certa encontra o errante.

Três badaladas anunciavam que a missa das seis havia começado. O motorista que sempre estacionara na frente do chafariz perante a igreja, fez o mesmo nessa noite, porém me surpreendeu ao descer e me acompanhar até a porta.

– Chenny, pode voltar aos seus afazeres agora. – me dirigi á ele. –

– Perdão Dona Carmelita, mas terei de hesitar.

– E por quê? – indaguei. –

– A pedido do Delegado Affonso.

– Ele comentou algo?

– Não, disse apenas que o horário que a missa finaliza é tarde e que eu teria de lhe esperar na porta.

– Mas que absurdo, me encontrarei com você no chafariz, como toda quarta-feira. Agora vá para a carruagem e espere lá. – ele permaneceu imóvel. – Não me ouviu Chenny? – sua expressão era a mesma. — Creio que meu marido tenha ficado um tanto abalado com os últimos acontecimentos da delegacia.

– Sim, eu acho.

– Com certeza, ele tem lhe passado todo esse estresse, não é mesmo, mon namour?

Ele sorriu com malícia. – Sim, Dona Carmelita.

– Então, teremos de dar um jeito nesse seu estresse, receio.

– Formidável.

– Depois da missa, em que você aguardará na carruagem, nos arrumaremos um jeitinho de reformar essa situação. – ajeitei sua gravata. – Até mais Chenny.

Já havia uns meses em que meu caso com Chenny havia chafurdando, precisamente desde que conheci o Conde, que era em todos os aspectos melhor que Chenny.

Prossegui até dentro da igreja, o véu branco de renda cobria o meu rosto. Sentei-me na última fileira, um homem de cartola sentou-se ao meu lado.

– Demoraste. – ele murmurou. –

– O delegado tem desconfiado mais e mais. Está cada vez mais difícil sair desacompanhada. -falei de modo que só ele pudera me ouvir.

– Vamos conversar melhor na mansão. Espero você atrás da igreja.

O Conde saiu pela porta que existia na lateral. A igreja estava cheia e movimentada, depois de 3 minutos sai sem deixar suspeitas. Encostado na parede daquela viela escura, ele ouviu meus passos sigilosos se aproximarem, então começou a andar na minha frente.

Duas ruas depois havia a sua mansão, naquele bosque que a esta hora da noite era plenamente assustador. As árvores secas do inverno, afundadas da neve e iluminadas somente pela lua, tinham seus galhos dançantes pelo vento.

O Conde Monffour abriu o enorme portão de ferro que rugia. Era a primeira vez que eu entrara ali, me parecia mais bonita de longe, mas com certeza a sua família desconhecida era rica.

– Qual o ramo de sua família mesmo? – indaguei ao me aproximar mais. –

– Forneciam talheres e porcelanas de outro e prata para a realeza.

Eram realmente ricos. Viver com Monffour, seria o sonho de qualquer mulher. Eu havia me casado com Affonso apenas por dinheiro, mas se casar com Monffour seria a perfeição, pois além de sua riqueza, eu o amara.

Ele abriu com cuidado a porta de madeira de sua mansão, lá dentro era bastante arrumado, porcelanas de prataria guardadas em um armário de vidraça, um tapete vermelho que subia a grande escada, um papel de parede escuro e uma luminária acesa no teto.

– Tenho de voltar com pressa, então vamos usar bem o nosso pouco tempo.

– Está com pressa mon namour? – segurou minha cintura, trazendo meu corpo para mais perto dele. –

– O delegado tem desconfiado e tomado providências, principalmente depois de Catrão descobrir que a duquesa o traia.

– Maldito Catrão. E o que viremos a fazer?

– Não sei, as opção são poucas. – o envolvi em meus braços. –

– Fugir talvez... – me pareceu soltar facilmente as palavras. –

– Fugir?

– Sim, não iria?

– Iria a muitos lugares em busca de prazer, mas Affonso nos encontraria.

– Podemos ir para São Francisco, a cede dos negócios da minha família habitam lá.

O conde sabia de meus sinceros interesses.

– A cede, hum. – pensei. – Parece boa ideia.

– Cuidarei de tudo, apenas esteja na frente da igreja daqui a duas terças.

– Combinado.

O Conde me beijou com intensidade, desamarrando meus longos e enrolados cabelos.

– Será assim todo dia em São Francisco. – sussurrou em meu ouvido, o beijando e seguindo a reta do pescoço. –

– Posso me acostumar com isso. – mais gemi do que falei. -