Notas iniciais
Narrado: Dona Carmelita
O caminho da destruição

Eu e Affonso estávamos a dormir em nossos aposentos, quando um ruído me despertou. Sempre fui de sono leve. O barulho persistiu. O que haveria de ser? Um ladrão, talvez. Arrepiei-me a nunca. Curiosa e com medo do que ou quem poderia ser, remexi o delegado na cama algumas vezes, na esperança de acorda-lo.

- Hora essa, não faz papel nem de delegado e nem de marido. – resmunguei. –

Levantei-me da cama, deixando o corpo inútil a roncar. Peguei a sua arma, que repousara na primeira gaveta do guarda-roupa. Sorte que fora astuciosa para reparar onde ele guardava coisas importantes ou de valor, é claro.

A arma não estava carregada, nem me preocupei em carregar, só queria que, seja lá quem habitasse lá em baixo, fosse embora, como brisa passageira. Abri com delicadeza a porta, a suspendendo, para garantir que não faria nenhum ruído, e não fez.

Os passos na escada, foram tão silenciosos que nem pude senti-los, praticamente flutuei sobre a escada. Desci um a um, com cautela e cuidado. O ruído havia parado como se fosse apenas um devaneio de minha mente sonolenta.

E então o ouvi de novo, desta um mexido de panelas, vindo da cozinha, obvio. Segurei a arma com as duas mãos e segui até lá, a silhueta de um homem parado do outro lado da mesa, me fez puxar o gatilho, e fez-me perceber também que não carregara a arma.

- Carmelita, acalme-se! Sou eu, Cheny. – disse o motorista, que havia ficado pálido, e estava de mãos para cima. –

- O que você está fazendo aqui seu tolo? – pensei duas vezes antes de abaixar a arma. –

- Eu precisava te ver.

- Na cozinha?

- Meu estomago roncou como um porco.

- Certamente, por que você é um porco Cheny. Já pensaste se meu marido vem aqui ao invés de mim? Podes ter certeza, que uma bala estaria a dançar no meio de sua testa agora.

- Não pensei que alguém iria ouvir.

- Receio que você não pense, agora suma daqui, em duas piscadas que eu der. – pisquei. –

- Carmelita, tenha piedade. – segurou-me as mãos. – Vim aqui só para vê-la dormir, nem que fosse de longe, por segundos passageiros.

- Repare que sorte, me viu acordada. Agora não hesite e suma!

- Eu tenho percebido coisas Dona Carmelita. – seu tom era ameaçador, largou as minhas mãos e começou a passear pela cozinha escura. – As idas constantes a igreja, mas o engraçado é que nunca vejo você sair pela porta da frente.

- O que quer dizer com isso?

- O delegado está a desconfiar de vos, apenas uma fofoca em seu ouvido, trancaria você por anos em seu quarto.

- Não ouse me ameaçar! – apontei o dedo indicador para ele. –

- Ameaçar? É uma palavra forte.

- O que você quer Cheny?

- Que você fuja comigo. – eu ri, debochando. –

- Com você? Um pobre coitado, pé-rapado e morto de fome. Poupe-me querido. Se você se olhasse no espelho com mais frequência, notaria que é um reles motorista e eu sou uma rica e culta mulher.

- Estou cansado de seus tratamentos inferiores. Eu não mereço isso Carmelita.

- Então se vá.

- Seria fácil, fácil demais. Eu não serei feliz, pois você também não. Escolha, ou foge comigo ou conto tudo ao senhor seu marido.

Cheny sumiu pela porta da cozinha. Em seguida ouvi o som de chicotes e cavalgadas a se afastar. Eu estava encolerizada. Não podia permitir que alguém tão inferior a mim destruísse minha vida de tão forma.

Eu precisaria fugir as pressas com o Conde, para uma vida de mais riqueza em São Francisco, com a nobreza e cercada de outro e prata. Não era mais do que eu merecia. De qualquer forma, eu precisava fugir. Era o único modo.