O telefonema a pegou de surpresa. Atendeu com impaciencia, os olhos presos em um livro que tinha nas mãos, uma história policial que não conseguia parar de ler. Era bom estar sozinha, lendo um livro de suspense numa noite de ventania. O sábado já estava quase no fim e ela ali, presa aquelas paginas. O som do telefone era uma intromissão, um estorvo. Atendeu o telefona a contragosto.

Sem esperar iniciativa de quem quer que fosse no outro lado da linha, logo rosnou: “Alô”. Esperou uma resposta, mas a única coisa que ouviu foi o uivo do vento que batia forte em sua própria janela.

“Alô!” repetiu impaciente. Novamente não ouve resposta. Mas do que irritada, bateu o aparelho no gancho, “essa coisa velha deve ter pifado de vez” pensou.

Ao voltar para o sofá cheia e ansiedade para retomar a leitura, não encontrou seu livro, tinha toda a certeza de que havia o deixado ao lado de sua xícara de chá ainda fumegante. “Ótimo” resmungou sarcasticamente. Enquanto pensava onde ele poderia estar, virou-se para o andar acima, por um motivo que nem ela mesmo compreendeu, a tempo de flagear um vulto desaparecendo no topo da escadaria.

Ela nunca amedrontou ficar sozinha, pelo contrario, agradecia as raras ocasiões em que seus pais saiam e a deixavam, mas naquele momento, desejou mais do que nunca que eles estivessem em casa.

Mesmo suando de medo, tomou coragem e resolveu descobrir qual o mistério que a esperava no andar de cima, afinal, era isso que acontecia em seus livros, não é?

Armada com uma grande e afiada faca de queijo usada para decoração, subiu a escada. No ultimo degrau seu coração parou ao ver as quatro altas portas brancas baterem em seus batentes exatamente no mesmo segundo. Naquele instante todo ar que tinha abandonou seus pulmões e toda cor deixou suas bochechas, ela não movia um único músculo. Até que um grupo de bêbados passou em frente a sua casa gritando palavras aparentemente aleatórias e incompreensíveis, mas que foi suficiente para desperta-la, mesmo que isso quase a tenha feito rolar escada a baixo.

Apesar do desejo de se esconder debaixo das cobertas e ligar para seus pais implorando que voltassem logo, ela decidiu dar um passo a frente, aquela seria a chance de viver uma aventura, como nas historias que lia, ela poderia ser corajosa como sempre quis ser.

— Porém, não sabia como começar, como iria abrir as quatro portas ao mesmo tempo e derrotar o monstro que havia as fechado? Não podia se dividir em quatro, então teria que ser uma de cada vez.

Respirou fundo e decidiu começar pelo próprio quarto. Com a faca ao lado do rosto, na posição que vira milhares de vezes em seus filmes, abriu a porta lentamente e com todo o cuidado tocou no interruptor, acendendo a luz. Procurou em todo o canto e após certificar-se de que estava tudo como devia estar, seguiu para a outra porta. O quarto de seus pais. Com a mesma cautela, entrou e checou cada possível toca, assim como fez na próxima porta, o quarto de hospedes.

Tudo estava em ordem nas três portas que havia aberto, mas seu coração bateu mais rápido quando reparou que só restava mais um comodo. O banheiro.

Ela sempre odiou banheiros, por algum motivo sempre os achou assustadores. Se arrependeu em deixar aquela porta por ultimo. Mas entrou. O banheiro não era muito grande e não poderia ser mais comum. As juntas de sua mão não tinham cor nenhuma de tanto apertar o cabo da faca. Olhou atravéz do vidro fosco e perdeu o folego ao ver uma forma preta com não mais que 50cm de altura. Lembrava um gato, mas era impossível identificar por conta do vidro. Ela precisava abri-lo e ver o que a esperava, mas, pela primeira vez, não sabia se iria conseguir. Teria ela, tanta coragem? O que aconteceria se, de fato, houvesse um monstro ali e ele a atacasse? Ela conseguiria se defender? Eram perguntas muito difíceis de responder, mas ela precisava das respostas, mas do que nunca. Apertou com toda força o cabo de sua arma e quase arrancou a porta ofuscada, abrindo-a. Apontou a faca, pronta para atacar, mas não havia nada, era só uma sombra.

Um tanto aliviada, voltou-se em direção a porta que havia entrado e encontrou um gato preto em seu caminho. Seu pelo era tao negro que praticamente brilhava, mas não foi isso que chamou sua atenção. Foram seus olhos, azuis, mas não simplesmente azul, eram mais claros, mais claro que qualquer azul, que qualquer olho, que qualquer coisa que já vira, mas estranhamente familiares. Ela queria desviar o olhar e fazer alguma coisa, mas não conseguia, esqueceu de tudo, só o que via, pensava e sentia, era o brilho e a claridade daqueles olhos.

Subitamente ela desviou o olhar e saiu do controle do gato. Se preparou para atacar, quando estava prestes a se mover..

O gato preto de olhos brilhantes falou.

Mas o gato preto de olhos brilhantes não falou qualquer coisa.

O gato preto de olhos brilhantes falou seu nome.

Só mais estranho que isso, era sua voz. No mesmo instante que ouviu, soube qual o dono daquela voz. Era seu pai.

-Judite! Judite! Acorde!

-Pai..

-Oi querida, você estava tendo um pesadelo? Esta toda suada.

-Não.. não exatamente.

-Com o que sonhou, então?

-Bom... o telefone tocou e tinha um gat... Papai?

-O que foi?

-Seus olhos sempre foram.. tão.. assim... tão claros?

-Claro querida, é claro que sim.

Notas finais
Trecho em itlico: Helosa Seixas. Contos Mnimos. Rio de Janeiro. Record, 2001. p. 43
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.