Notas iniciais
Olá, terráqueos como vão vocês? Espero que gostem da minha fic, primeira postada aqui. Se vocês gostam de fanfics interativas, vocês podem encontrar essa no Fanfic Addiction. É isso, boa leitura!

Primeiro Capítulo
Califórnia — Estados Unidos, Setembro — Verão.

Sarah Capelotti

Soco. Chute. Soco. Soco. Chute.

Quando me preparei para dar outro chute no saco de pancadas, Jason segurou meu tornozelo no ar. Tive que me segurar nos ombros dele para não cair. Olhei-o irritada.

– Mais força na hora de executar os golpes, Sarah – Jason, meu treinador instruiu, enquanto soltava minha perna.

– Espero que se lembre, querido, que sou uma apresentadora e não uma lutadora de boxe – comentei sarcástica, oferecendo uma das minhas mãos para que ele retirasse minha luva.

– Acontece que eu só treino profissionais, querida, então se quiser que eu continue te dando aulas terá que seguir minhas regras – dito isso, puxou bruscamente a luva da minha mão. Olhei feio para ele mais uma vez, e dei às costas, retirando a outra luva. Sentei no banco tomando um gole d’água.

Eu não tinha mais o que argumentar ao meu favor. Jason Henderson era um dos maiores treinadores de boxe do mundo. Depois de assistir uma luta com o meu ex namorado, enfiei na cabeça que eu tinha que ter aulas com ele.

Meu ex, Nathan, riu, é claro. Ele sempre tinha a mania de me subestimar, então depois de ter terminado com ele por me trair – com a minha assistente, que obviamente, foi chutada da minha vida junto com ele — fiz daquilo um objetivo de vingança.

Liguei pra tudo quanto é pessoa até conseguir falar com Jason. Deu trabalho? Claro que deu, mas as filhas de Jason eram idólatras do meu programa, então com uma chantagenzinha foi fácil conseguir o que eu queria.

Fico imaginando até hoje a cara do meu ex ao ver as fotos de Jason me treinando. Deve ter sido cômica.
Ia me preparar para voltar ao treino quando a cabeleira roxa de Gary apareceu no vão entre a porta e o batente.

– Jesus amado! O que aconteceu, darling? * Você está um caco! – disse com a sua voz extremamente aguda, rebolando em minha direção.

– Talvez seja porque eu estava lutando, Gary! – respondi irônica, enquanto enxugava o suor do meu pescoço com uma toalhinha.

– Ah, claro! Esqueci desse seu péssimo gosto para esportes! – murmurou, mas foi alto o bastante para que Jason ouvisse.

Dei risada.
Gary achava um desperdício de tempo lutar boxe, tanto vivia trocando farpas com Jason.

– Cala a boca – ordenei, jogando minha toalha em seu rosto, fazendo com que ele desse um passo para trás, gritando histericamente com uma careta de nojo – O que veio fazer aqui?

– Que horror, honey!* O que esse brutamonte está fazendo com você, está perdendo os modos? – acusou indignado, com a mão no peito, olhando brevemente para Jason que lhe mandou o dedo do meio.
Estava me segurando para não rir.

– Já vi que sim! – exclamou, jogando seu cabelo para o lado. Revirei os olhos – Bom, eu preciso conversar a sós com você, sugar* – frisou o termo “a sós”, e olhei rapidamente, pedindo para Jason que se retirasse. O que ele fez sem contestar.

– Pronto, desembucha que tô ficando estressada com você! – pedi, me abanando com as mãos.
Céus! Como fazia calor na Califórnia.

– Lembra do surfista William Ryan que tá bombando? – afirmei desinteressada – Então, os empresários deles fizeram uma parceria com Whatever*, e ele vai ter um quadro no programa...

– O QUÊ? – gritei o interrompendo, levantando-me e indo em sua direção– Vocês ficaram malucos? O cara é surfista, não apresentador! Vocês nem pediram minha opinião! – choraminguei massageando as têmporas.

– Easy, tiger!* O bofe é super carismático, extrovertido, se ele aceitou é porque dá conta do recado – tentou me acalmar.

– Tá, mas EU aceitei alguma coisa? – apontei para o meu próprio peito.

– Sarah, querida, você sabe que seu pai pode muito bem tomar decisões por você, aliás, ele é seu empresário e dono da emissora – concluiu com o tom de voz sutil.

– Isso não é justo, Gary! – reclamei cruzando os braços emburrada.

– Claro que é, vai ter um gato daquele pertinho de você. Eu daria tudo para ter essa chance! – suspirou, batendo palminhas ridiculamente. Revirei os olhos.

– Então pode ficar pra você – retruquei entediada.
Então me lembrei de Chloe. Puta que pariu. Ela iria me matar

– Gary do céu, que horas são? – indaguei inquieta. Então ele consultou o relógio de seu celular.

– Nove horas, por quê? – perguntou de volta, interessado.

– Tenho que buscar a Chloe no aeroporto. Meu Deus ela vai me enterrar viva! To indo tomar banho, tchau! – estava quase alcançando a porta, quando Gary me puxou pelo braço.

– Nananinanão, darling! Você vai sim buscar alguém no aeroporto, mas esse alguém éWilliam Ryan – arregalei os olhos, enquanto Gary sorria diabolicamente.


*Darling, honey (conotativo) e sugar (conotativo), são apelidos carinhosos em inglês, respectivamente, na fanfic significa: queridinha, meu bem e docinho.
*Easy, tiger! (conotativo) também é uma expressão inglesa que significa "Calma, gata!"
*Whatever Show a.k.a Whatever, programa de TV que a protagonista apresenta.

William Ryan

Fechei os olhos. Eu teria que me acostumar com aquilo. Dezenas de paparazzis miravam suas câmeras em minha direção, me deixando cego temporariamente.

Respirei fundo colocando os óculos de sol, talvez aquilo ajudasse. Olhei para os lados à procura dela.

Sarah Goulart Capelotti, umas das apresentadoras mais famosas do mundo atualmente, com apenas vinte anos tinha seu próprio programa e era idolatrada pela maioria dos jovens.

Era alto suficiente, crítica, simpática com os fãs e não tinha papas na língua.
Cocei a nuca, dando mais uma olhada para o ambiente à procura dela. Finalmente a encontrei encostada em uma pilastra, antes da faixa que separava eu – e consequentemente, ela também — do público.

Caminhei até ela sorrindo, tentando fazer tudo o que meus empresários haviam instruído. Sarah mantinha uma expressão de tédio.

Retirei os óculos de sol e a enlacei pela cintura. Sarah automaticamente espalmou as mãos no meu peito, quando olhei para o seu rosto esperando um sorriso, ela tinha o semblante carrancudo, parecia até mesmo ofendida.

Beijei o canto de seus lábios.
Então foi rápido demais, segurei seu pulso antes que a palma de sua mão se chocasse contra minha bochecha.

– O que diabos você está fazendo? – perguntei entre dentes mantendo o sorriso, tentando parecer feliz para os fotógrafos.

– O que diabos você está fazendo? – rebateu irritada, puxando seu braço de minha mão, fazendo toda minha atuação ir por água a baixo.

– Estou fazendo o que os nossos empresários combinaram, amor! – respondi sarcástico, passado as mãos inquietamente pelo meu cabelo.

– Meu assistente não disse nada a res... – então ela parou de tagarelar bruscamente, exibindo seu olhar de compreensão – Ah, então era isso... – murmurou envergonhada, mas ainda assim, levemente zangada.

– Era isso o quê? – cruzei os braços sem entender. Então ela abanou a mão, como quem diz “nada”.

– Deixa pra lá, porém não encoste nunca mais essa sua boca em mim, entendido? — informou azeda – Não sei o que os nossos empresários combinaram, mas fique sabendo que não vou aceitar nenhuma ordem deles.

– Tá, tá – confirmei cansado de todo aquele falatório – Então, vamos? – coloquei a mão na sua cintura conduzindo-a até a saída do aeroporto, mas antes disso, teríamos que enfrentar os paparazzis e repórteres – Sorria e deixe que eu responda as perguntas – sussurrei em seu ouvido e ela se esforçou para sorrir. Já era um bom começo.

– Verdade que você e Sarah já trocavam mensagens antes mesmo de se conhecerem pessoalmente? – um cara gordo com um gravador na mão questionou afobado. PuxeiSarah para mais perto.

– Sim, sim. Temos bastante amigo em comuns, acabamos nos conhecendo através de sms e telefonemas – respondi tranquilamente como meus assistentes orientaram. OuviSarah murmurar “que mentira” ao meu lado, mas felizmente, apenas eu ouvi.

– Verdade que a ideia do novo quadro em seu programa que William apresentará foi sua,Capelotti? – uma moça negra perguntou confiante.

Vi o pânico se espalhar pelo o rosto de Sarah. Apertei sua cintura, tentado lhe transmitir confiança.

Se eu entrasse no meio e respondesse daria muito na cara que tudo havia sido combinado. Então logo ela respondeu, com sua habitual segurança.

– Não, na verdade nem sei de quem foi essa ideia espetacular – soltou um risinho irônico. Merda, mil vezes merda.

– Sarah, sempre muito engraçada não é mesmo? – olhei-a arqueando as sobrancelhas, bravo. Ela sorriu arrogante, dando de ombros – A ideia foi de Joshua, pai e também empresário de Sarah.

– William, aqui – olhei para a direção da voz – Como é pra você saber que faz parte da liga profissional de surfe?

– É uma grande honra sem dúvidas, espero ser o primeiro inglês a ganhar a World Championship Tour* — respondi, sem consegui conter a emoção.

*World Championship Tour, também podendo ser chamado de "Circuito Mundial" ou "Divisão de Elite mundial" é a competição mundial de surfe que é disputada pelos 36 melhores surfistas do mundo.

***

Eu estava sentado em um sofá de couro vermelho, definitivamente, nunca tinha visto um sofá tão luxuoso e confortável. Aquilo deveria ter custado mais do que meu apartamento na Oxford Street, que demorou séculos para eu juntar a pequena fortuna que ele custava e me
mudar para longe do meu pai e de suas ordens.

Do outro lado da sala, Sarah estava esparramada em um puff igualmente vermelho, fazendo bolhas de chiclete e as estourando-as com as unhas, e os resíduos que permaneciam da goma de mascar no seu esmalte era retirado com os dentes.
Uma porquice tamanha.

Quem visse duvidaria que aquela fosse realmente Sarah Goulart Capelotti, a apresentadora mais elegante que existia na face da terra. Tá certo que ela era bem esquentadinha, mas aquilo não significava que ela precisava fazer aquela nojeira.

Não entendia porque ela era tão idolatrada. Eu deveria ter assistido a seu programa duas ou três vezes, e sem dúvidas nenhuma Ellen DeGeneres era muito mais foda. E também nem era tão linda, ela era só bonita.

Se uma pessoa fica famosa muito rápido e causa todo esse alvoroço, de duas uma: ou ela muito boa no que faz ou passou duas, cinco, dez vezes pela fila da beleza antes de nascer, e sinceramente, Sarah não se encaixava em nenhuma das duas.

Quando finalmente voltei à realidade, eu estava olhando pra os peitos de Sarah. Ok, talvez os peitos dela fossem generosos, e mesmo que toda contorcida, sua barriga a mostra estava lisinha, mas ela não tinha uma cintura muito definida.

Ri me sentindo um gay. Que cara se importa se a mulher tem cinturinha ou não? Céus, o que tinha acontecido comigo?

Sarah olhou para mim com uma cara de "tá rindo do que, retardado?" apenas balancei a cabeça e desviei o olhar para o relógio na parede.

– Olá, darlings! — um ser extravagante de cabelos roxos escancarou a porta, dando passagem para um senhor elegante, vestido em um terno, provavelmente, super caro, como qualquer coisa naquele prédio — Que carinhas são essas? Vamos lá, animação galera, vocês são dois dos jovens mais amados do mundo — levou as mãos ao nível da cabeça, chacoalhando exageradamente — E claro, gostoso — comentou baixinho, no singular, no masculino, olhando para mim.

Arregalei os olhos e desviei o olhar. Que cara — se é que podemos chamá-lo assim — mais estranho.

– Menos, Garon, menos — o homem falou áspero, balançando as mãos freneticamente -Sarah — falou com o tom tão duro que até eu fiquei com medo por ela. Sarah se levantou imediatamente, com as mãos para trás, como se estivesse atendendo o chamado de um general.

– Sim, papai? — perguntou com a voz trêmula.

Era óbvio que ela tinha medo daquele homem, até eu teria. Era Joshua Capelotti, um dos homens mais autoritário, rigoroso e rico do planeta.

– Me diga que palhaçada é essa, Sarah? — falou entre dentes, erguendo o tablet para que ela, eu e o "cara" do cabelo roxo pudéssemos ver uma foto do momento em que ela ameaçou dar uma tapa no meu rosto.

Então percebi que toda aquela armadura de Sarah Capelotti se desfazia quando estava perto do pai. Era como a presa do lobo feroz. O homem era um bruto, nem ao menos havia me cumprimentado.

– E-eu... Bem, pai, isso é, eu... — ela gaguejava, enquanto passava as mãos pela saia, deixando rastros de suor.

– Já vi que não tem justificativa, não é mesmo? Só me dá desgostos — revirou os olhos — Me desculpe por isso William, Sarah é uma garota muito rebelde...

– Não, ela estava certa, afinal, Sarah nem me conhecia e eu cheguei praticamente a beijando, se fosse eu no lugar dela teria a reação parecida, até mesmo pior. Também acho um absurdo algumas exigências que estabeleceram no contrato — defendi, vendo Joshua abrir e fechar a boca várias vezes, aparentemente sem respostas.

Ele estava vermelho como fogo, só não sabia se era de raiva ou vergonha. E o tal de Garon estava com mão na boca, surpreso.

– Mas se assinou foi porque concordou — sentenciou, voltando a sua postura egocêntrica.

– Não necessariamente, quem cuida dessas coisas são meus assistentes e empresários — rebati neutro, mantendo o controle.

Arrisquei um olhar para Sarah, que tinha um sorriso mínimo no rosto, porém a maior porcentagem da sua expressão dizia: "se eu fosse você não faria isso". Mas o que importava?

Ela não era eu.

– Então eles responderam e concordaram por você, Ryan — replicou entre dentes, nervoso com minha confiança ao confrontá-lo.

– Pode ser, mas se eu e sua filha não concordamos, devemos rever as casulas. Não é mesmo, Sarah? — perguntei naturalmente. Todos os olhares na sala se voltaram para ela.
Eu e o "cara" do cabelo roxo a incentivando dizer o que ela realmente queria e seu pai estava quase surtando, com os glóbulos saltados.

– É... Pode ser — ela mordiscou o lábio inferior, fixando seu olhar no meu. Sorri para ela.

Ainda não sabia se odiava menos essa Sarah ou a que eu conheci no aeroporto ou se não gostava nenhuma das duas.

Talvez, eu simpatizasse com as duas versões de Sarah, no fim elas renderam boas risadas a mim e a Camryn quando eu estava no telefone contando tudo a ela, minha irmã mais nova.

Sarah Capelotti

Chloe quase me matou por não poder ter ido buscar ela no aeroporto. Ela era minha amiga desde quando nasci, éramos vizinhas e eu a odiava, porém quando começamos a estudar juntas percebemos que todo aquele ódio se transformara em amizade.

A mãe de Chloe fazia as unhas da minha e seu pai tinha a pizzaria mais famosa da cidade, que hoje era a rede de pizzarias mais famosa do mundo.

Mas por incrível que parecia Chloe não seguira os passos de sua família no mundo das pizzas, ela era aeromoça. Havia recebido férias e tinha aproveitado para ajudar sua família nas filiais espalhadas pela Califórinia.

Minha amiga ficou me atazanando por vária horas, perguntando se William era tão atraente e gostoso — palavras dela, não minhas — quanto parecia nas fotos e entrevistas.

Devo admitir, "cala a boca" nunca foi tão usado em um dia só na minha vida.

Chloe era extrovertida, linda e comunicativa, mas também era um pouco insistente. Não que isso fosse ruim, era bom, quando ela sabia como e onde usar, do contrário se tornava um defeito.

Porém, eu não podia sentar no meu próprio rabo e falar mal do rabo dos outros — isso soou estranho, eu sei -, eu também era mandona, odiava quando as coisas não saiam do jeito que eu queria — como William ter um quadro no meu programa e meu pai querendo que eu tivesse um namoro de mentirinha com ele só porque meu programa não alcançava a audiência esperada.

Talvez toda essa autoridade em cima dos inferiores a mim, fosse uma válvula de escape por meu pai ser tão mandão comigo. Eu não tinha orgulho nenhum de dizer, me sentia até mesmo desprezível: no fundo, eu me parecia com ele.

Já Chloe, talvez fosse uma proteção contra o mundo. Após o seu irmão ter saído de casa restou apenas ela — já que seus pais estavam ocupados demais no mundo de negócios -, então a garota teve que lidar com tudo sozinha, toda vez que eu a perguntava o porquê de toda aquela pose de mulher autossuficiente e orgulhosa ela olhava para mim com um sorriso triste nos lábios e dizia: "Eu tive que aprender com a vida, Sarah, não tive escolhas, não sou assim por opção, eu simplesmente tive que arcar com as consequências. Talvez algum dia você me entenda".

Chloe tinha vinte e dois anos, e viveu como uma mulher de trinta, enquanto eu tinha apenas vinte e um e vivi como uma garota famosinha de dezesseis. Eu me orgulhava de ser amiga dela e me sentia envergonhada por ser Sarah Capelotti.

E o que dizer de Maurício Menegaro? Irmão de Chloe Menegaro. Meu amor desde... Sempre?

Ele foi o primeiro garoto — talvez até mesmo o único — que me apaixonei e tive vontade de ter algo mais.

Mas eu era só a melhor amiga da irmã, quatro anos mais nova. A criancinha. Céus, eu era perdidamente apaixonada por ele.

Ainda não sabia se usar o passado era adequado. Fazia cinco anos que eu não via, e o sentimento que eu nutria por ele, até então, permaneceu intocado. Nunca fui muito corajosa quando o assunto era amor. Não tive coragem de fazer outra coisa a não ser fingir que não aconteceu nada.

Ele fazia faculdade de direito, mas nas horas vagas era modelo. Moreno dos azuis e um corpo que exalava a luxúria.

Em um dia eu estava indo para a casa da família Menegaro, já que todos os sábados eu dormia na casa de Chloe, ou vice-versa.

Começou a chover. me encontrou no meio do caminho.
Era uma daquelas chuvas de verão, rápidas e arrebatadoras, eu estava com um short e uma regata branca. Eu tinha consciência que estava tudo colado e a mostra, apesar do sutiã.

Meu corpo estava ganhando forma, tinha curvas silenciosas, mas ainda assim, não deixavam de serem curvas.

Eu o abracei, então ele olhou para os meus lábios e não teve mais volta. Eu tinha apenas quinze e ele dezenove, mas quem se importava?

Os meses em que se sucederam vivemos felizes e apaixonados, mas então ele foi embora, sem dizer adeus, sem dar explicações. Até hoje não entendia os motivos de sua partida.

Chutei a areia debaixo dos meus pés, colocando os óculos de sol. Eu não me permitiria chorar, não depois de tanto tempo.

Ele me deixou com dezessete anos.

Por Deus, ele deveria saber que se tinha responsabilidade para transar com uma garota de apenas quinze anos, deveria ter pelo menos a capacidade de dar motivos suportáveis para sumir.

Olhei para o mar, logo reconheci Ryan. E o mais incrível, ele acenou para mim de cima da prancha, sorrindo. Talvez ele não fosse tão desprezível...

Acenei de volta.

Ele desapareceu entre as ondas, e surgiu no fim delas, sorrido e tirando o cabelo da testa.

Que aparecido. Revirei os olhos, rindo.

Ele aparentemente cansou de surfar e se sentou na prancha, com uma perna de cada lado, tirando aquela cordinha, que une o surfista à prancha, do tornozelo.

Realmente, eu não sabia nada sobre surfe além de saber que é um esporte radical praticado em oceanos com uma prancha e um surfista.

Quando me dei conta, William estava correndo em minha direção com a prancha de baixo do braço.

– Oi — falou ofegante, mas mesmo assim sorrindo, cravando sua prancha na areia.

– Oi — respondi, sorrindo minimamente — Obrigada por mais cedo, ter enfrentado meu pai e tudo mais — agradeci tímida.

– Não foi nada — balançou as mãos, demonstrando como aquilo era banal. Não para mim — Me desculpe pelo quase beijo, também... — desculpou-se sem jeito — Então, o que tá fazendo aqui? — perguntou tirando sua roupa de surfe. Tapei os olhos.

– Ah, meu Deus, me diga que você está com alguma roupa aí de baixo — implorei, enquanto ele ria histericamente — É sério, William, não tem graça — ele tirou a minha mão dos olhos.

– Ei, viu? Estou vestido! — exclamou apontando para a sunga — Não uso isso sempre, só pra deixar claro, acho meio gay — comentou indicando sua roupa de banho.

– Certo, certo! — concordei afobada, balançando as mãos freneticamente — Você não tem mais roupas aí, não? — ele riu mais uma vez, assentindo. Pegou sua bolsa e vestiu uma bermuda.

– Assim tá bom, senhorita?- contemplei seu tórax nu. Mordi os lábios. Mmm.

– Pode ser — concordei, ainda incomodada com a falta de camiseta — Respondendo sua pergunta, não que eu acho que seja da sua conta, mas enfim — disse atrapalhada — Estou dando umas voltas, minha amiga do Brasil está aqui tratando de uns negócios da família.

– Ah, sim — concordou, embaraçado com a falta de assunto — Quer dar uma volta?

– Nós dois? Juntos? — arqueei as sobrancelhas, apontado o dedo para mim e para ele, como se aquilo fosse uma ideia absurda.

O que obviamente, para mim, era.

– Sim, Sarah — falou de um modo tênue e devagar, depositando as mãos no bolso, fazendo com a bermuda escorregasse um pouco pelos seus quadris, me proporcionando um vislumbre mais profundo dos seus pelos que se iniciavam debaixo do seu umbigo. Engoli seco.
Puta que pariu.

– Tudo bem, mas só se você vestir uma camisa — falei com um pouco de dificuldade e William sorriu.

***

– Sério, eu não entendo nada de surfe — admiti, saboreando mais uma colherada do meu sorvete com fondue.

– Eu sei — William concordou, exibindo seus dentes perfeitos, mas não havia vestígio de convencimento, só complacência — É complicado, até mesmo para mim no começo foi bem difícil entender tudo. Meu avô era um amante do surfe, tinha uma oficina de pranchas no fundo da sua casa — contou com os olhos brilhando, assim como no aeroporto quando respondeu a última pergunta.
William e eu tínhamos algo em comum: a dedicação pelo nosso trabalho.

– Meu pai sempre achou tudo uma babaquice, mas eu não me importava — deu de ombros, mas não pude deixar de notar que ele usou o passado — Sempre depois dos almoços de domingo ficava num canto da oficina observando cada ação do meu avó. Meu tio também tinha a mesma paixão pelo surfe que eu e meu avó, quer dizer, ele ainda tem, mas é uma vida muito incerta e ele tem filhos e esposa, optou por deixar a vida nos oceanos para mim.

– Isso é fantástico, William! — sorri amplamente, me mortificando por tê-lo julgado mal.
William era um cara muito legal, bonito, esforçado, bonito, bom de conversa, atraente, engraçado e bonito. Eu já disse atraente e bonito? Era válido reforçar que ele era muito gato.

– Quando você começou a surfar? — questionei realmente interessada, enquanto William mastigava com força.

–Acho que eu surfava desde quando eu estava no útero da minha mãe com uma prancha imaginária — riu levemente, o acompanhei — Mas de verdade, ganhei minha primeira prancha da minha mãe quando eu tinha oito anos — contou — Inglaterra nunca foi um lugar bom para tomar um banho de mar, muito menos para surfar, a água é congelante, então um dia eu e meu tio fomos para alguma praia da França — mastigou mais um pedaço da sua casquinha, enquanto eu raspava minha taça — Não me lembro direito o nome, mas foi irado! — contou nostálgico, não conti o sorriso.

– Tô adorando poder te conhecer melhor, William — suspirei, largando finalmente minha colher, e empurrando a taça um pouco para o lado. Apoiei meu cotovelo na mesa, sustentando o rosto na minha mão — Me desculpe por ter sido tão grossa.

– Já pedimos desculpas demais um para o outro, não acha? — acenei com a cabeça, rindo — Você me disse que não sabe nada sobre a arte de surfar. Quer aprender?

– Mas você tem só treze dias, a próxima etapa começa dia nove — inventei uma desculpa, mas a verdade era que eu não esperava pelo convite — Sabe agora como aNetwork Television* transmite o campeonato, eu tô um pouquinho por dentro — falei, demonstrando metaforicamente com o polegar e o indicador a quantidade.

– E daí? — deu de ombros, amassando o papel toalha e jogando no montinho em cima da mesa — A próxima etapa é aqui na Califórnia, eu só tenho que ir pra cidade que vai ser disputado Hurley Pro Trestles* uns dois dias antes, só pra conhecer as águas e fazer os exames de doping*.

– Vou fingir que entendi — recostei-me na cadeira. William soltou uma risadinha.

– Hurley Pro acontece em Trestles, aqui na Califórnia, por isso o nome dessa fase. É a semifinal do World Championship Tour, ou seja, é uma etapa do circuito. É como se fosse uma copa do mundo, que tem suas etapas, entende? Mas ao invés de bolas e jogadores, são pranchas e surfistas.

– Mmm, acho que entendi — sussurrei pensativa — Eu topo as "aulas particulares" — fiz aspas no ar — Mas, a gente tem que se lembrar que agora você tem que gravar seu quadro e eu o programa — ponderei, olhando William contrair os lábios.

– Eu só vou gravar meu quadro quando tiver nas competições, acho que você nem se deu o trabalho de saber como vai ser, né? — encolhi os ombros, arrependida por nem me importar — Tudo bem... Vai ser tipo um reality sobre eu e o surfe — sorriu orgulhoso.

– Você tem autorização pra isso? Os outros competidores podem se sentirem menos adorados pelo povo — William sorriu de lado, concordando.

– Sim, eu tenho permissão da Association of Surfing Professionals*, na verdade, eu queria poder competir sem esse agito todo de câmeras, mas eu preciso desse dinheiro, se eu não conseguir ganhando o circuito, pelo menos já vai ajudar — era notório o tom de insatisfação na voz de William, quis perguntar o porquê dele precisar daquele dinheiro, todavia, me coloquei no meu lugar. Não éramos amigos, só colegas de trabalho e mais ainda, havia o conhecido hoje de manhã, então deixei a pergunta presa na minha garganta.

– Você não precisa treinar? — lembrei-o.
Se William fosse me ensinar a surfar, ele não teria tempo para se preparar para a próxima fase.

– Eu me garanto — piscou, sorrindo maroto para mim.
Aquilo, definitivamente, não iria dar certo, ou, iria dar certo até demais.


*Network Televison, é a emissora fictícia a qual o pai da protagonista é dono.
*Hurley Pro Trestles, como o principal explicou, é uma das etapas do WCT (World Championship Tour), "Trestles" é o nome dado a área onde acontece essa fase na Praia Estadual San Onofre, no condado de San Diego, Califórnia.
*Association of Surfing Professionals (Associação do Surfe Profissional), é uma organização de surfe, é como a FIFA (Federação Internacional de Futebol) do surfe.
*Doping, do inglês traduzido para o português, significa dopagem. É o uso de droga ou métodos que têm como objetivo aumentar o desempenho do atleta em uma competição. Exame de doping é um teste feito com a urina de determinado esportista onde analisam as moléculas do excremento para verificar se foi ou não usado alguma droga. Vale lembrar que no surfe o uso de maconha e drogas sociais não são considerados doping.



Continua...

Notas finais
Olá, amadinhos do meu core! Como vão vocês? Então... Como começar isso? É estranho escrever agora sendo que ninguém está lendo, mas enfim! Essa fanfic tem um assunto pouco popular entre nós brasileiros e eu tô me dividindo em milhões pra conseguir entender um pouco sobre o surfe e passar esse tiquinho que sei pra vocês. Então, por favor, se vocês não entenderem algo, perguntem (no fim da nota vou deixar meus contatos). Os protagonistas parecem bem superficiais, principalmente a PP que tem uma vida regada de luxo, mas não nos deixemos ser levados pelas aparências, espero que todos continuem lendo para descobrirem os segredos dos personagens e mais ainda, espero que gostem! A fanfic já é uó e a autora resolve escrever a bíblia na nota, pois é, sou assim. Parabéns à você que leu aqui (*plac plac plac*), sinto lhe dizer que você não irá ganhar absolutamente nada com isso, mas tem a honra de saber onde pode me encontrar: Twitter (https://www.twitter.com/1tsleam) Ask.fm (ask.fm/srtamantovani)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.