As Páginas Acinzentadas de A.G

4 Efêmeras alegrias, tristes dores.


“Março, 2013.

O mês começou, e minha esperança não tem fim. Preciso sair daqui o quanto antes, ouvi notícias sobre possíveis enchentes. As chuvas estão vindo a cada minuto em toneladas cada vez maiores. Preocupo-me com ela. Onde ela está? Ela está bem?”

Perdendo seu resto de sanidade e sono, ele vagava como uma alma penada pelas ruas da cidade. As paredes pichadas, os muros gélidos e a vida noturna se tornaram sua realidade. Ele que nunca se desafiou a grandes coisas, nunca se imaginou em aventuras e, com certeza, nunca foi o príncipe em busca de donzelas nessas histórias de romance juvenil por aí. Alex, porque não volta pra casa? Ainda se lembra do caminho, Alex?

Eram seis e meia da tarde e ele não sabia disso. O Sol desapareceu por completo desde muitos dias atrás, e estes pareceram ficar mais longos. Em meio à noite tétrica de uma parte bem barra pesada da cidade, Alex ajeitou-se em um canto de uma esquina próxima a um ponto de táxi. Era o lugar mais confortável para se estar naquele momento. A infraestrutura e organização péssimas daquele lugar eram gritantes. Havia uma única luz, a mais ou menos quatro metros de distância dele que ora piscava ora apagava por completo e acendia cinco ou dez minutos depois. Haviam todos tipos de odores infernais naquele lugar, mas ele estava com “sorte” –não sei bem se esta é a palavra certa-: seu nariz estava tampado e escorrendo, sua garganta com um início de inflamação e sua cabeça girando. Resultado da busca intermitente do rapaz por entre chuvas e ventos. Suspirou profundamente e encolheu-se no casaco que servia de coberta. Antes de cair em sono profundo ouviu vozes exaltadas e passos acelerados aumentando por detrás dele, aumentando, aumentando...BOOM!

Seu coração disparou e seus olhos quase saltaram das órbitas. A luz da rua decide apagar-se bem na hora em que um homem, pelo menos um metro mais alto que ele o levantou pela camiseta e o segurou, enquanto outros dois moleques que pareciam ter menos de dezessete anos passavam a mão por todo seu corpo, revistando-o e gritando com ele, como se tivessem certeza de que Alex carregava ouro consigo.

–“Bora, bora, bora”- Dizia um deles, seguido de diversas gírias nas quais não podia se entender uma mensagem. O outro apenas repetia.

O fato de não acharem nada os deixaram mais nervosos, começando a gritar, chutar e socar o pobre rapaz. Como Alex nada tinha para que pudesse ser roubado, os garotos, revoltados ao extremo, o espancaram até quase morte. Davam-lhe pontapés, faziam força nas solas dos sapatos que pisavam brutamente contra a cabeça dele e pior: rasgavam seu diário.

Quando o desenhista viu aquilo, subitamente se levantou como se nada tivesse acontecido, como se estivesse totalmente renovado e revigorado. Entoou a nota grave mais alta que pode e soltou um grito horripilante de frustração, medo, angústia, raiva e dor. Foi quase como um dos mais poderosos rugidos de um dos leões mais selvagens da Terra. Os três assaltantes nada fizeram além de assistir, assustados, a cena do homem-leão que gritava para os quatro ventos seu remorso há tanto tempo guardado no peito, que se liberava descontroladamente pelas cordas vocais deste. Caiu de joelhos no chão, chorando, com boca e nariz sangrando, sentindo seus ossos se retorcerem, se rasparem e se entrelaçarem, quebradiços. Soltou mais um poderoso grito, agora de dor e desesperança. Este grito foi por demais aparente o seu último, visto que os ossos de sua canela haviam sido quase dobrados de tão castigados.

De cabeça baixa, olhando para o sangue que escorria em seus braços, ouviu passos vindos do meio da rua. Levantou seu olhar para a figura que invadira sua audição e, mais uma vez, seu coração disparou. Era ela. Com as mesmas madeixas loiras, com a mesma pele pálida. Era ela. Era ela. Era ela!