As Páginas Acinzentadas de A.G
10 A coroa de reflexões
“You’ll never know, dear, how much I love you…”
Esta música de Johnny Cash ecoava em sua mente e ele cantarolava. Assim que saiu do necrotério, começou outra tempestade. Não se importou com isso, para falar a verdade até se sentiu bem ao tomar um banho de chuva. Como se aquilo limpasse sua alma quase morta. Não via motivos para viver mais. Começou a refletir sobre a morte. Chegou à conclusão de que o que temia não era a morte em si, mas o sofrimento de quem ficava por aqui e assistia a sua partida. Foi então que decidiu que o melhor a se fazer era prestar suas condolências à família.
Claro que nunca imaginaria que conheceria a família de sua amada no velório da mesma. Claro que nunca mais sentiria aquele frio na barriga, e aquele medo de apertar a mão do sogro. Claro que não saberia o que era fazer parte de uma nova família. Havia feito um pacto consigo, dizendo que não saberia como amar outra pessoa. Alex acreditava que amar era algo único que não se repetia. O que na verdade se repete são carinhos fugazes, sentimentos ainda não descritos pelos humanos que só quem sente ou sentiu sabe. Por isso não tinha vontade de passar por essas coisas novamente, seria como uma traição, uma forma de dizer que tudo foi em vão e banal. Pobre dele. Partilhamos de pensamentos bem diferentes, não?
E aquele foi o dia interminável e memorável de toda sua existência. Era como se Cronos estivesse ao lado dele. O tempo parou e ele, no meio de uma rua, também. Olhou para o céu como se quisesse que ele lhe desse uma resposta para toda aquela confusão. Exigia um único elemento, um único novo paradigma que pudesse fazê-lo voltar a como era antes; sem tristezas. Cantarolando, ele achava que perdia o rumo. Porém seus pés, oh sagrados pés que possuem controle próprio, apenas o fazia circundar o quarteirão do necrotério. Logo do dia surgiu a noite e da noite a insônia.
Boa noite, doce príncipe.
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