As Profecias de Kyoudan

3 - O fim está chegando -


Notas iniciais
Oiii geenteee!!!! ^--^ Tá aí mais um capítulo!! ^--^ Espero que gostem tanto quanto eu gostei!! Boa leitura, nos vemos de novo lá em baixo! ^--^

Me vejo num corpo de um bebê, engatinhando em direção a uma porta. Reconheço o lugar. É a casinha onde Mouri e eu moramos, mas tinha algo de diferente nela. Parecia mais nova e até mais viva. Sua estrutura estava intacta e não parecia cair aos pedaços. Os móveis da casa estavam completamente limpos. Então a porta se abre. Um homem me pega no colo e começa a correr as pressas em direção a outra porta que parecia ser a saída da casa. Após abrí-la, vejo pessoas gritando em pânico e correndo a todas as direções. Eu estava em uma aldeia, pois haviam outras casinhas de madeira parecidas com a que eu acabei de sair. Então esse homem me entrega a um velho, dizendo-o que deveria me proteger a todas as custas, e que o futuro da Terra dependia disso. O homem então beija a minha testa, dizendo que me amava e que foi uma pena ele não ter de conviver comigo por mais tempo, e que o destino quis que fosse assim. Então o velho começa a correr, me distanciando cada vez mais daquele homem desconhecido. Não sei por que , mas no sonho eu tinha um sentimento forte por ele, pois conforme eu me afastava dele, eu ficava gritando pai toda hora. Aquele homem era meu pai?

Uma saraivada de flechas incendiárias começam a surgir do céu escuro e a cair sobre toda a aldeia, queimando casas, plantações e matando muitas pessoas, inclusive aquele que parecia ser meu pai. Uma flecha atingiu seu pescoço em cheio, fazendo com que eu chorasse e olhasse para outra direção. Então surgiram três guerreiros a nossa frente. Pareciam mortos vivos, tinham a pele acinzentada e olhos verdejantes que brilhavam intensamente assim como o verde de suas vestimentas, mescladas de preto. Atrás deles estava começando a vir um cavaleiro que parecia ser o comandante deles. A medida que se aproximava, começava a tomar forma. Sua veste era uma espécie de manto, cuja cor era um preto mais escuro que sua sombra. Seu rosto tinha um formato fantasmagórico: sua pele era transparente, permitindo ver o interior de seu esqueleto e seus olhos projetavam chamas verdejantes assim como o verde dos seus soldados. Então o comandante disparou um raio em nossa direção e me vejo caindo ao chão. Sinto uma mão me puxando com força, então me segurando melhor. Me deparo com o rosto assustador do comandante, que logo começa a soprar uma fumaça verde sobre meu rosto. Então me acordo.

Me vejo deitado em um quarto, encarando o teto envolto por barro e raízes, sem conseguir mexer um músculo sequer. Ao menos minha cama estava próxima da janela, permitindo a entrada de uma leve brisa com aroma de hortelã que corria sobre minha cabeça. Então vejo um braço em cima de meus olhos e sinto uma leve gota de água cair sobre minha testa. Num instante me sinto acordado, e suando muito. Então percebo que havia alguma coisa de errado. Me levanto rapidamente e vejo atrás de mim um senhor vestindo uma kimono vermelha com enfeites dourados me asoprando uma espécie de fumaça que fedia a menta. E não havia janela nenhuma atrás de mim. O aroma de hortelã vinha da fumaceira verde que começava a tomar conta do quarto. Logo sinto um toque de mão delicado e quente sobre minhas costas, e não era o velho senhor que estava me tocando.

– Tenha calma, viajante, tenha calma. Você está bem agora. Poderia nos dizer o seu nome? — dirijo meu olhar na direção da voz e me deparo com uma linda moça, de pele clara, cabelos dourados e olhos cor azul celeste. Sua beleza fez com que eu me distraísse até a cara do velho homem aparecer na minha frente e me fazer voltar ao que era importante.

– Quem são vocês? — Ouso perguntar – E como vim parar aqui? Não era para eu estar morto?

– É melhor ir mais devagar, meu jovem – diz o velho, dirigindo-se a uma mesinha de escrever e abrindo uma de usa gavetas – Ou então irá acabar virando comida para os lobos.

– Basta Shirem! Agora acha que pode tratar todo mundo da maneira que pode? Muatzlam disse para cuidarmos bem dele.

– Eu sei o que estou fazendo. Agora se me permite – Ele tirou um cachimbo de dentro de sua kimono e cuspiu no buraco o que parecia ser uma saliva verde. — Toma. Uma baforada e é o fim da febre – logo, o velho senhor me entrega o cachimbo. Me recuso a aceitar, sendo logo forçado a segurar o cachimbo em mãos. Percebi que eu estava coberto de panos frios e sacos transparentes com ervas medicinais.

– Quem é Muatzlam? E como vocês me salvaram daquela enorme alcateia? — eu estava começando a ficar confuso. Não era para eu ter realmente virado comida aos lobos? Como foi possível eu escapar dos milhares de lobos que me acercavam? — E eu vou ter de baforar essa sua saliva? — Perguntei a ponto de me sentir nauseado.

– Esses garotos de hoje não sabem o que é medicina de verdade – Resmungou Shirem enfiando o cachimbo diretamente na minha boca à força e acendendo-o com um pozinho cinza. — E nunca irão saber. É melhor que continuem não sabendo... — Gargalhadas tomam o espaço da fumaceira, que começa a se dispersar com um estalo de dedos do velho. Eu estava começando a ficar roxo devido ao cachimbo que estava na minha boca, fazendo Shirem rir ainda mais. Ele começa a tossir, e após dois minutos ele tira o cachimbo de minha boca. Permitindo-me respirar o ar puro.

– Argh! Isso é horrível! Quer me deixar mais doente? — Logo percebi que não estava mais com febre. Instintivamente resolvi agradecer — Obrigado.

– Muito bem, muito bem... — Diz o velho como se agradecido — Por que você não se apresenta para o jovem viajante? — Perguntou Shirem olhando para a atraente moça.

– Ah, mas é claro. Shiren, você se esqueceu que tinha de caçar hoje?

– É verdade. Pois bem, deixarei vocês dois a sós. Comporte-se menino – Shiren sai do quarto, descendo então pelas escadas do corredor – Além do mais, eu já trouxe a caça – Murmura, então dando risadas como se aquilo fosse engraçado.

Solara se dirige a um armário cheio de frascos, ramos de ervas e outras coisas das quais eu não sabia identificar. Haviam frutas, raízes e até animais conservados em recipientes de diferentes tamanhos. Portanto, desprovia de conhecimentos em relação aos animais. Decido me posicionar manhosamente na cama para examinar melhor, de uma forma que Solara não percebesse. Não conhecia nenhum daqueles animais. Em um pequeno pote havia uma espécie de cão-castor, com pelos que mais pareciam espinhos enrijecidos e dentes maiores que sua cabeça, e tinham a mesma cor do líquido em que estava conservado. Em outro recipiente, do tamanho de meu polegar, havia um pisca-pisca se movimentando, que logo depois descobri que era um pequeno peixe. O que mais me deslumbrou foi um feto de um humanoide conservado em um pote do tamanho de um jarro. O crânio assustadoramente ovalado era maior que todo o corpo. Haviam ao todo seis mãos em suas costas e no lugar onde eram para estar as mãos e os pés estavam o que pareciam patas, ou tentáculos, não ousei nem descobrir, de tão horrendo que era aquele ser. Quando Solara fecha as portas do armário, retorno a me deitar, tentando manter uma expressão de alguém cansado e mais confuso.

– Passou a tomar mais licor depois de perder sua esposa... Mas ainda continua sendo um bom guardião... — Murmurara a moça enquanto retirava os panos e os sacos de ervas de meu cobertor.

– Me desculpe, mas estava falando comigo? — Perguntei.

– Oh, sinto muito. Eu apenas... Bem, meu nome é Solara. E o seu?

– Meu nome é Caos, prazer em conhecê-la. — Após dizer meu nome, Solara pôs se a rir, como se tivesse acabado de escutar uma piada. — Caos? Você é o primeiro que vejo com este nome. Você ao menos sabe por que é chamado assim?

– Gostaria de saber... E vem cá, o que são aquelas coisas esquisitas em conserva?

– Nem me pergunte. Estas coisas já estavam ali antes de eu conhecer este lugar. Estou proibida de tocar em qualquer coisa que esteja naqueles recipientes. São de Shirem.

– E por quê ele coleciona animais esquisitos como aqueles?

– Uma vez ele me dissera que estes seres estavam quase em extinção, e que se estiverem completamente extintos, ele possuí lembranças destes animais.

–Entendo... Acho eu – Certo, tudo bem com relação às frutas e raízes em conserva mas, animais em extinção? Não sabia de certo se ela estava me contando uma mentira ou se Shirem mentiu para ela. Para mim eles estão mais com cara de remédios proibidos usados em antigas seitas ou coisas parecidas – Bem, seja o que for, isso é coisa dele.

– O que faz você andar sozinho por entre a floresta dos Lobos?

– Estou em uma jornada a fim de descobrir quem sou eu... Mas acho que não irei obter respostas passeando de floresta em floresta...

– Você não é a única pessoa que esteve curiosa em saber o por quê de não se sentir feliz em ser diferente dos demais. Eu também tive o mesmo problema...

– Como você sabe disso? — Tive uma estranha sensação naquele momento. A forma com que ela adivinhou meu problema me lembrou Luna. O seu sexto sentido sempre desperto e sua facilidade de dedução, sempre se direcionando aos atalhos para o x da questão. Ainda assim o que ela disse me pareceu estranho (por vir dela talvez). Quando estava para responder, passos rápidos e precisos avisavam que alguém estava para subir. Devido a velocidade, me perguntei se fosse o próprio Shirem subindo com o vigor de uma pessoa jovem.

– Solara, as estações... Ah, viajante – Intervém um homem que adentrou o quarto com tamanha pressa como se algo trágico estivesse acontecendo. Aparentava ser jovem. Porém, tinha um corpo robusto, braços fortes e olhos de Lobo assustadores, exatamente idênticos aos de um lobo de verdade. Havia uma cicatriz em seu lado direito do rosto, atravessando seu olho esquerdo. No lugar de seus caninos estavam presas no formato de dentes de sabre, de uma forma que conseguia se manter dentro de seus lábios fechados – Bom que esteja acordado, elas estão para desaparecer...

– Não pode ser. — Indagou Solara — Isso significa...

– Que o Eclipse do Destino está para se formar.

– O Eclipse... — Mouri havia me dito algo sobre esse Eclipse do Destino. Disse que seria o dia em que toda a vida da Terra estaria sobre a ameaça de Exocerdos, o escolhido dos Necromantes. Esse escolhido iria invocar um eclipse solar que drenaria a essência de nosso mundo durante uma semana. Após cumprir esse período de tempo, o sol se transformaria em um portal que permitiria uma passagem entre nossa dimensão e a dimensão deles. — Achei que essa história fosse um mito.

– Então você tem muito a saber – Me respondeu o homem-lobo.

– Muatzlam, o que estamos esperando? Devemos impedir que...

– Como a história diz: Não há nada que possa o Eclipse impedir, senão a aparição de uma profecia – Muatzlam e eu falamos em perfeito uníssono. Então nos entreolhamos por um instante, e logo desisto de fitar seus olhos. Temendo que ele ainda estivesse me encarando.

– Então você conhece a história.

– Parte dela. Apenas o que meu mentor me contou.

– Isso é bom. Ao menos acho que seja o suficiente...

– Ele também me disse algo sobre as profecias...

– Sim, as únicas pessoas capazes de acabar com a catástrofe eclíptica.

– Em conjunto sim, mas se for o caso de uma profecia decidir acabar com a catástrofe sozinha, teria então de se sacrificar... — interveio Solara.

– Nem pense nisso, Solara. Você sabe o que seria de mim e de Shirem se você não estivesse mais aqui Se ao menos os lobos estiverem certos, este rapaz pode ser capaz de salvar nosso planeta sem termos de perder nossas vidas.

O pesadelo estava apenas começando...

– O que? — Me sobrepus na cama – Não estou entendendo! Os lobos estão envolvidos nessa história? De que forma eu ''sozinho'' poderia destruir esta tal catástrofe? Sou eu quem devo trocar minha vida pela de todos vocês?

– Você não trocaria sua vida por nada.

– Alguma coisa me diz que isso não é verdade. — Disse eu enquanto ficava de pé, com a intenção de sair daquele lugar.

– Durante cinco anos eu e meu bando de lobos estávamos a procura do viajante escolhido. Após várias e várias procuras, não achávamos nenhum que realmente fosse a reencarnação do inverno. Até você aparecer.

– Como é que é? Quer dizer então que os lobos são seus? E o que você quer dizer com isso? — Tive de firmar meus pés no chão para não sair do lugar, haviam algumas coisas importantes a serem esclarecidas.

– Os lobos sentiram o poder do inverno em você. Você por caso sabe o que você é?

– Como é?

– Você realmente não sabe, não é mesmo?

– Não, não sei. E acho que também não quero saber. — me vejo dizendo, quando na verdade não o queria.

– Chega de falatório! — disse Solara – Se não impedirmos a formação do eclipse, será o nosso fim!

– Ao menos poderia saber seu nome, viajante?

– Caos. — E nesse momento, achei que estivesse livre para continuar minha jornada, mas...

– C-Caos? — Muatzlam pareceu aterrorizado após ouvir meu nome – Caos? É mesmo você! Não é? Sua pele pálida, sua paixão pelo inverno... Estou me lembrando de você. Por onde você estava? Eu percorri quase todo o reinado de kyoudan procurando por você. Sei que você parece estar confuso com tudo isso e também sei que nada está fazendo nenhum sentido para você nesse exato momento, mas olhe só para você! Como você cresceu! Achei que estivesse morto!

– Espera, o que está acontecendo por aqui? E como você me conhece?

– Eu também não estou entendendo mais nada, Muatzlam! — Exclamou Solara – Pode me dizer o que está havendo?

Ao que me parece, o pesadelo está para começar...

– Caos! — Gritou Shirem, escancarando a porta do quarto, também se envolvendo na discussão – Eu conheço você de algum lugar! — Percebo que Shirem dançava uma garrafa sobre uma das mãos – Você está aqui afim de nos espionar, não é mesmo? Ora seu lacaio necromante!

– Você também me conhece? — Arrisquei perguntar. Shirem não estava com cara de pessoa amigável.

– Shirem? — Alertou-se Muatzlam.

– Prepare-se para conhecer seu pior pesadelo! — Bradou Shirem, me arremessando a garrafa de licor, que passara zunido perto de minha testa – Você é um dos discipulos de Exocerdos! Um seguidor da Extinção! Um assassino de inocentes! Você nunca irá tomar Solara de mim! Nunca!

– Shirem, o que deu em você? — Pergunta Solara, assustada.

– Controle-se, Shirem! — Muatzlam tenta segurar Shirem pelos braços, mas o velho tinha uma força impressionante, soltando se de Muatzlam e empurrando-o contra um armário. O impacto da queda aparentou ser doloroso, mas Muatzlam pareceu não se importar, como se tivesse acostumado com os delírios de Shirem, levantando-se rapidamente afim de impedi-lo de me esmurrar, mas era tarde demais. Shirem pulou para cima de mim, me jogando contra o chão, com a mão sobre meu pescoço.

– O que você está fazendo, velho? Agora você está querendo me matar? — Minha resposta pareceu afetar Shirem, deixando-o muito mais irritado. Seu rosto começou a ficar vermelho e sua mão parecia afundar minha traquéia pra trás. Pensei que realmente fosse morrer naquele momento mas Muatzlam apareceu na hora certa, golpeando as costas de Shirem com um movimento simples. Logo Shirem começou a se arquejar de dor, largando sua mão de meu pescoço rapidamente e pondo-a diretamente em seu ponto atingido. Volto a respirar, aliviado por não ter morrido naquele instante.

– Me desculpe, Shirem, mas você não me deixou escolha.Você enlouqueceu de vez!

– Você está de que lado, Muatzlam? — Diz Shirem se recuperando da dor – Você foi enfeitiçado, não foi? Prepare-se para perecer! — Shirem partiu em direção a Muatzlam, então Solara se pôs a frente. Suas lágrimas rasgavam seu rosto com grande intensidade.

– Shirem? O que você está fazendo? Pare já com toda essa sua paranóia. Não percebe o que acabou de fazer?

– Solara, minha querida. Até mesmo você? Seu Necromante do mal! Necromante do Inferno! — Shirem então começa a correr em minha direção. Então faço uma coisa que eu não queria fazer, mas eu tinha de me defender. Ponho minhas mãos sobre o chão, fazendo surgir uma espécie de prisão de gelo ao redor de Shirem. Então me levanto, e arrumo coragem para dizer:

– Escute aqui, velho...

– SHIREM! O nome é shirem! Lacaio!

– Então escute, Shirem! Primeiro de tudo, eu não sou nenhum tipo de Lacaio necromante. Não sei o que eles são e muito menos sabia que eles existissem! Achei que essa maldita história de Eclipse do Destino fosse mentira! E você não me conhece, velho! Muito menos você! — Desvio meu olhar para Muatzlam.

– Caos, por favor se acalme e Shirem, controle-se! Ele não é nenhum tipo de seguidor necromante! Você não está o reconhecendo?

– Não reconheço nenhum Caos que seja... — Por um longo momento,Shirem parecia refletir sobre suas palavras, atos e pensamentos, fazendo gestos estranhos com as mãos e praguejando sozinho, dizendo coisas como ele ter se enganado em relação a mim, me chamando de Lacaio e que eu era irmão de alguém que ele não se lembrava. Então Shirem parecia ter chegado a uma conclusão. Olhou para mim, como se estivesse surpreso – Oh, por Izanagi, é você! Muatzlam, Solara, espero que me perdoem. Por tudo que causei. Espero que me perdõe também, Caos.

– Fazer o que? Desculpas aceitas, eu acho – Ponderei, pensando se ele fosse voltar a agir daquela forma novamente. Então, desfiz a prisão de gelo que o cercava gesticulando com as mãos para baixo.

– Agora vocês poderiam explicar o que está acontecendo aqui? — Perguntou Solara, afim de escutar uma explicação que justificasse toda aquela confusão que tinha acontecido. — E o que Caos tem de tão especial?

– Caos, pode parecer loucura, mas você é meu irmão. — Disse Muatzlam.

– E também a profecia perdida – Diz Shirem – Acabo de me lembrar de você quando pequeno. Eu e seu irmão ficamos encarregados de protegê-lo depois da tragédia na aldeia Shinú.

– O Que? Isso só pode ser um pesadelo... — Meu coração parecia querer sair de mim. Eu me acordo me deparando com um bocado de acontecimentos inesperados ocorrendo a minha volta. O velho fazendo sua fumaceira se dispersar em um simples estalo de dedos, querendo me matar e depois vir dizer que fora meu guardião; a história do Eclipse do Destino ser real, eu ser irmão de um homem-lobo. Desmaiar naquele instante teria sido a melhor opção – exijo boas explicações! Nada disso pode ser verdade.

– Pode acreditar que é – Diz Muatzlam, então contando toda a sua versão da minha história, ou melhor, nossa. Eu e ele éramos habitantes da aldeia Shinú. Um vilarejo a três quilômetros de distância de Doudanoki. O lugar era conhecido pelo comércio de Bisontes negros durante o inverno e principalmente dos Zauriuses, espécies de lagartos cuja carne era muito suculenta, e também pela contratação de guias, pois onde morávamos haviam muitos aldeões sábios que pareciam conhecer Kyoudan na palma da mão. "Era de Shinú que saíam os melhores caçadores e guerreiros", ele dizia. Contou também que os grandes comandantes do império de Doudanoki eram habitantes de Shinú, e que começaram sendo simples recrutas. Então ele começou a contar toda a sua infância, e de como as coisas eram antes de eu nascer. Muatzlam costumava roubar mercadorias dos vendedores, e voltava para casa mentindo ter ganhado as coisas de graça em troca de favores. Os mercadores e vendedores suspeitavam que haviam coisas faltando em suas estantes, mas não sabiam quem era que as furtava. Ele disse também que na época desejava muito ter um irmão, para ter a quem ensinar a arte de roubar. Mas um dia seus atos foram descobertos. Uma bela manhã ele havia escutado um aldeão conversando com sua esposa sobre a nova e mais rara pesca que estava a venda na peixaria do vilarejo: o salmão dourado. Nosso pai costumava lhe contar várias vezes uma história em que ele havia pescado um peixe como esse, e que sua carne era mais suculenta do que qualquer outra comida que exista no mundo. Após saber do boato, Muatzlam retorna para casa e conta tudo o que sabia ao nosso pai, cujo nome era Mumbai. Inventou também a mentira de que o pescador iria lhe dar um salmão-dourado se cumprisse a um favor dele. Mais tarde, ele se dirige a peixaria e consegue ter acesso por dentro do lugar, sem ser percebido por ninguém, mas na vã tentativa de tentar roubar o peixe, uma criança o descobre, e logo é dedurado. Tal ato fez com que os anciões de Shinú o levassem a um exílio, da qual ele diz tê-lo feito mudar. Ele me contou que no lugar onde foi deixado sozinho ele conheceu Qulat, o Deus-lobo, que o ensinou a viver como eles e até a pensar como um. Após sete anos de convivência com os lobos, Qulat lhe concede parte dos seus poderes, dizendo-lhe também que ele fora o escolhido para receber tais ensinamentos, e que o destino fez com que se encotrassem. O Deus havia dito também que estava na hora de ele retornar a seu lugar, e que procurasse primeiro pelos anciões e explicasse tudo o que ele tinha vivido desde o dia em que foi exilado. Que havia se encontrado com o Deus-lobo e passado sete anos aprendendo seus preceitos. Muatzlam não precisou fazer nada disso, pois os anciões já sabiam de tudo pela sua aparência lupina, que ele não havia percebido. Foram necessários meses para ele e a muitos aldeões se acostumarem com o seu novo eu, e nesse tempo ele tinha dezenove anos. Então Muatzlam vai para a parte onde eu entro na história. Um ano depois eu nasci, e os próprios anciões tiveram a honra de assistir a meu parto, alegando que uma das estações iria se tornar mais rigorosa devido ao meu nascimento, e aconteceu. Os invernos passaram a ser mais catastróficos durante meus primeiros três anos de vida. "Não que chegasse ao ponto de ser caótico", ele diz, "mas os invernos dificultavam os períodos de caça, já que a pesca e a agricultura não eram praticados nesta estação, lógico, mas eram poucos os bisontes caçados." Contou também do quanto ele se tornara mais responsável, passou a trabalhar como caçador e cuidava de mim nas horas vagas, quando nossa mãe, Ayana, saía para comprar coisas para a casa, como vasos decorativos ou temperinhos especiais para o jantar. E de quando em quando ele fazia uma troca de favores com os vendedores da zona de comércio de Shinú. Até compensava pelos roubos que tinha cometido. Nosso pai era pescador e costumava ajudar Muatzlam na caça com armadilhas durante o inverno, quando estava de férias do seu trabalho. " O problema", ele dizia, " é que nosso pai nunca gostou de ficar sem fazer nada, a não ser descansar quando se sentia cansado, mas se não conseguia, ficava zanzando pela casa como se estivesse sonambulo. " Cinco anos depois de meu nascimento, em um dia de verão, um viajante chegou a nosso vilarejo, avisando-os de uma calamidade que estava prestes a reduzir Shinú a cinzas."Me lembro exatamente do que ele tinha dito naquele dia: Se eu fosse vocês, abandonaria este lugar o quanto antes" disse. Imaginavam que o viajante estivesse louco devido ao seu péssimo estado, com roupas sujas e esfarrapadas e o rosto expressando alguém que tivesse alucinações. Muatzlam disse que seus olhos estavam vidrados, praticamente sem vida. Como se apenas tivesse de olhar a uma única direção. Tudo aconteceu no dia seguinte. Em plena manhã, nossa mãe decide ir pegar água no poço do vilarejo, que se situava a uns vinte metros de distância de Shinú, e Muatzlam decide acompanhá-la, simplesmente para fazer companhia, e sempre carregando o punhal consigo, por prevenção. Conforme chegavam perto, notaram que uma nuvem espessa de cinza se aproximava da aldeia. Pensaram que a chuva estava a caminho, mas então notaram algo estranho: a nuvem ribombava trovões averdejados, logo então começava a se perfurar em buracos. Deles, espécies de meteoritos, também verdejantes, começam a cair. Absurdamente eles não fazem barulho algum quando tocam o chão. No lugar do barulho, surgem brilhos ofuscantes e destes saem gladiadores furiosos e horrendos. Guerreiros brutamontes com espadas, maças e machadinhas, alguns mais magricelas que carregavam um grande arco ou uma pesada lança por cima dos ombros. Cavaleiros com arco e flecha e alguns poucos que pareciam oficiais superiores com uma boleadeira em uma mão e um harpão em outra. E por último fantasmas horrendos cujo corpo era somente um esqueleto vazio e no lugar dos membros inferiores, um negrume fumacento. Todos estavam partindo violentamente na direção da aldeia. ''A intenção deles estava clara: Destruir Shinú por um motivo que muito tempo depois descobri: estavam atrás de você'' diz Muatzlam com ar de tristeza. Um dos fantasmas começa a se dirigir rumo ao poço, onde ele e nossa mãe estavam, parados e aflitos, sem saber o que estava acontecendo. Não sabiam o que eles eram, o que queriam e de como aquela nuvem sombria apareceu no céu. Tudo era praticamente inexplicável. Então o espectro esquelético começou a deslocar com tamanha velocidade, fazendo Muatzlam jogar Ayana para trás e lançar seu punhal em um ponto certeiro do esqueleto, atravessando sua mandíbula adentro. Mas nem o impacto do disparo fez com que o fantásma diminuísse sua velocidade, ele continuava a se aproximar deles de uma forma insistente. Inesperadamente, no momento em que o espectro estava próximo suficiente, Muatzlam decide saltar para cima do fantasma esquelético. Ambos começam a se trocar socos no ar. '' Eu estava vencendo o espectro na troca de socos, mas logo ele pendura seus braços em mim de uma forma que eu não conseguisse me mexer e começou a se inflar até não poder mais. Me vejo sendo jogado pelos ares por um impulso de uma explosão e ossos espatifados me acompanhando por todos os lados. A força com que a eclosão me afastou foi imensa. Comecei a girar cambalhotas pelos ares até meu corpo não aguentar mais. Comecei a me sentir como um boneco sendo arremessado ao longe. Conforme meu estômago e minha cabeça me castigavam, eu permanecia de olhos abertos, resistindo em desmaiar, até a neve amortecer minha queda. Então me rendo a dor'' discursa Muatzlam. Ele estava para prosseguir com a história até eu decidir interromper.

– Sinto muito lhe dizer isso, mas não consigo vê-lo como irmão, assim como está difícil de acreditar nesta história.

– É melhor que acredite – diz Shirem – Por que ele mentiria para você?

– Por muitas razões! — Gritei — Primeira: vocês estarem me manipulando afim de me enlouquecer. Segunda: eu estar em um pesadelo da qual eu não consigo sair. Terceira: eu já ter morrido e ter sido mandado a uma espécie de... Inferno? Purgatório? AH! — Pela primeira vez na vida, tive um ataque de paranóia — Como eu queria que nada disso estivesse acontecendo. Queria estar em Doudanoki agora nesse exato momento com Mouri! A única pessoa que realmente me conhece!

– Mouri? Ahá! — exclamou Shirem – Meus parabéns, Caos! Você acaba de comprovar que a história que Muatzlam acabou de contar é verdade! Nós o conhecíamos...

– Então foi ele quem cuidou de você durante todo este tempo? Sem ter nos dito? — Diz Muatzlam, não muito contente com a notícia – Por que ele faria isso? Conte-nos mais sobre o tempo que você passou com ele, irmão.

– Não me chame de irmão! Pelo menos não até eu acreditar nessa absurda história!

– Acho que já chega — interrompeu Solara – Já perdemos muito tempo. Temos de preparar nossas coisas e partir para o templo das Profecias do tempo antes do ciclo se fechar! Conversamos sobre tudo isso no caminho.

– Você tem razão. Já perdemos tempo demais. Vamos fazer os preparativos para partirmos em direção ao templo. E você irá me contar melhor sua história com Mou...

– Bem, e eu também já tenho de ir. Agradeço pela hospitalidade, pelos cuidados que tiveram comigo e também pela loucura que me fizeram passar. A jornada me chama. — Após dito isso, caminhei as pressas em direção a porta de saída do quarto, até Muatzlam ser mais ágil e passar na minha frente, se pondo de frente a porta e olhando para mim, me obrigando a parar.

– A sua jornada está apenas começando e você não irá a lugar algum senão ir conosco em direção ao templo. Tudo o que acabo de contar a você é verdade. Por que eu mentiria? Você mesmo não disse que estava em uma jornada afim de descobrir quem você é? Pois acaba de descobrir.

– Podemos dizer que minha jornada chegou ao fim, se está querendo me fazer pensar assim.

– Chegaria, mas falta fazer você acreditar.

– Pense bem, Caos – Diz Solara – Já passei por tudo que você está passando agora. Também sou orfã e fui obrigada a fazer uma jornada que me levou até aqui. Eu vim da Cidade de Tridon. Bem, era uma cidade, depois que eu soube que os discípulos de Exocerdos deixaram-na em ruínas, fazendo com que eu perdesse todas as pessoas que eu amava... Meus pais nunca souberam me explicar a origem de meus poderes. Percorri a cidade inteira a procura de respostas. Não me restou escolha senão esperar receber a licença Nômade para poder fazer minha primeira jornada. Percorri quilômetros até... — Seu rosto começou a ser tomado por uma espécie de alegria esperançosa. — até eu chegar no Templo de Echizen. É isso! Lá você pode saber quem você é de verdade. É para lá que devemos ir primeiro!

– Echizen, a sacerdotisa da verdade. Bem pensado, Solara. — diz Muatzlam, também esperançoso.

– Bem pensado mesmo – Concordou Shirem – Pois bem, sorte nossa que Solara me mandou caçar. Estaremos levando carne de urso e sushis de salmão para a viagem!

– Irei buscar três lobos-leoninos para servir-nos como transporte! — diz Muatzlam.

– E eu fico responsável pela água e pelos medicamentos – diz Solara – Caos irá me ajudar nisso.

– O que? Mas eu não sei...

– Não se preocupe com os medicamentos. Que tal você ficar com a parte mais fácil?

– É. Por que você não vai buscar água no poço e depois colocá-las nos galões para garantir nossa viagem, querida viajante? — Gozou Shirem, entrando num ataque de gargalhadas irritantes – Ah é, acabei de me esquecer... que você está aprendendo a ser independente – mais gargalhadas se espalham pelo quarto.

– Pega leve comigo, velhote – Me senti irritado de vez com ele – não vem bancar o palhaço comigo não...

– Oh ceus! Que falta de cavalheirismo a minha! Será que pode me perdoar, madame? – Provocou Shirem. Comecei a ficar vermelho de raiva. Me segurei para não fazer iceberg daquele velhote irritante. Quem ele pensa que é para agir assim comigo? — Certo, eu estava apenas mexendo com você, Caos. Chega de enrolações e vamos logo para a cozinha. — de alguma forma consegui intimidar o velho.

– Vê se deixa de ser criança, Shirem. — Diz Muatzlam.

– Você se esqueceu que o velhote ainda usa fraldas? — Zombou Solara, rindo de sua piada. Como se de alguma forma quisesse me defender ou me consolar.

– Um dia você será engraçada Solara – defende-se Shirem – Quem sabe amanhã?

As paredes do corredor em espiral que descíamos era feita de madeira. Assim como as escadas eram feitas de Argila. Mas a madeira não parecia ser uma madeira qualquer. Estava com cara de madeira natural. Assim como a parede apresentava irregularidades uniformes a medida que íamos descendo.

– Que corredor estranho. — desabafo.

– Ah, me esqueci de avisar — Diz Solara — Moramos em uma árvore.

Notas finais
Oooiiii!! ^--^ E aí? Gostaram do capítulo? *----* Por favor, por favor, por favooor... deixem um comentáriozinho... ao menos falando se gostaram ou não... queremos saber a opinião de vocês!! Ficar sem comentários nos deixa tristes! TT-TT Bom.. até o próximo capítulo! (~*-*)~ Kissis de brigadeiro ~(*-*~)