Como quase sempre, o dia havia chegado trazendo consigo uma forte dor de cabeça. O cheiro de fritura enchia o ar do quarto de Molly, fazendo-a acordar ás 07h AM, como todos os dias. Porém, aquele dia em especial era diferente de qualquer outro. Após 18 anos em uma cidade portuária, Sally e Tom Harper, seus pais, haviam perdido o domínio sobre o fast food disfarçado de restaurante italiano que tinham construído no centro, na parte de baixo de um duplex azul, onde moraram toda sua vida. Tom trabalhava no porto, descarregando os navios de mercadorias durante a manhã e a tarde, só cuidando do restaurante pela noite, enquanto Sally passava seus dias fritando hamburgueres e pizzas oleósas com a ajuda de Molly. Desde criança, nunca havia tido facilidade para socializar, ou se comportar bem em grupo, Molly se diferenciava das outras crianças por seus cabelos tão ruivos que chegavam ao laranja, e seus olhos azuis. Isso não era ruim, ela era uma bela garota. Mas tudo se complicara quando um determinado grupo de seu colégio havia visto-a trabalhando no restaurante. Todo seu colegial foi gasto ouvindo "Olha lá, a garçonete."

Depois de um bocejo longo e uma boa espreguiçada, a garota se levantou com preguiça da cama de madeira pintada de branco, com desenhos de planetas e símbolos antigos feitos com canetinhas nas laterais. Calçando um par de sandálias que repousava ao lado de sua cama, Molly seguiu até a porta de seu quarto, pequeno e pintado de azul, cambaleando escada a baixo. Ela puxou com cuidado um elastico que pendia em seu pulso, usando-o para prender o cabelo conforme se sentava na mesa da cozinha. Sua mãe não estava lá, como sempre, era seu turno no restaurante, e isso explicava o cheiro de fritura irritante pairando no ar: Sally era uma péssima cozinheira. Dos fundos da cozinha ladrilhada em verde, veio uma das ajudantes do restaurante, Zoe. Ela trazia consigo uma bandeja com ovos fritos e bacon, expressando uma careta que deixava claro que também estava odiando aquele cheiro de hamburguer queimado.

Zoe era uma amiga da família, com seus 29 anos trabalhava para os Harper há 4 anos, nunca cometendo um erro sequer. Poderia se dizer que aquela era a única pessoa com quem Molly se entendia, se ambas não tivessem alguns conflitos vez ou outra. A moça deixou a bandeja sobre a mesa em que Molly se encontrava, com um sorriso gentil, murmurando:

— Sorria, Molly Tangerine. Hoje vocês saiem daqui, e nunca mais terão de sentir esse odor de... ugh... — Dizia Zoe sem conseguir terminar sua frase, fingindo uma tosse. "Molly Tangerine" era um apelido carinhoso que o pai de Molly havia criado para a mesma, quando ela tinha 7 anos, pois em sua inocencia juvenil, a garota se comparava bem humoradamente a uma tangerina pela cor de seus cabelos. Aquela piada arrancou um sorriso aliviado de Molly, antes de ela atacar o bacon e os ovos. Zoe sorriu, e se retirou do lugar em silêncio, voltando ao trabalho no andar inferior. Naquela sexta feira de janeiro, Molly e seus pais iriam enfim se mudar dali.Seu pai havia perdido o emprego no porto, e o restaurante já não dava lucro, então aproveitando-se da cituação, o dono do terreno exigiu que os Harper devolvessem o imóvel, já que nenhum pagamento estava sendo feito de acordo com o combinado.

Depois de digerir seu café da manhã, Molly desceu para o restaurante, pegando no caminho as malas que estavam na escada; o pouco que faltava colocar no carro para a mudança. Ela já vestia uma blusa xadrez de cor vermelha, e um jeans claro e gasto, para evitar atrasos. Ao descer, a cena era a mais comum de todas, Sally tentando fritar um hamburguer sem deixar que um dos lados queimasse. Mas, naquele dia não havia ninguém no restaurante, aquela infelizmente seria a comida que levariam para a viagem. Molly resmungou em pensamentos, só de imaginar no gosto de queimado passando por sua garganta.

De qualquer modo, o sorriso de alegria esboçado por sua mãe afastou qualquer pensamento negativo, quando a viu. Sally era uma mulher alta, de cabelos ruivos e olhos castanhos, com o rosto coberto por sardas discretas. Ela lembrava uma boneca, para Molly, quando não estava tentando cozinhar. Sem pensar duas vezes, Molly deixou as malas no chão e foi ajudar sua mãe, enquanto aguardavam a chegada de seu pai. Ambas permanesceram em silêncio, até que Sally murmurou:

— Sabe... Nunca pensei que iríamos embora. — Disse ela, em um tom calmo e melodioso — Mas, acho que isso vai ser bom pra nós. E principalmente, pra você, Molly. — Ela olhou para a garota, enquanto driblava o fogo com a frigideira, para colocar a carne no pão — Acho que, teremos uma nova chance de recomeçar. E eu quero que aproveite isso.Sally sorria de modo sincero, como sempre. Era uma mulher além de forte, muito amável e caseira, sempre lá quando a filha mais precisava dela. Molly respirou fundo, colocando as mãos nos bolsos traseiros do jeans, calculando bem suas palavras.

— Eu vou tentar.... Eu juro. — A garota sorriu, repensando bem sua frase. Seria uma tarefa árdua recomeçar, e Molly mal sabia se realmente queria se "adaptar" ao novo lar. Já tinha 18 anos, e fazer uma faculdade longe de casa estava em seus planos. Porém seu pai já tinha 40 anos, e não estava totalmente bem de saúde, seria certo deixar sua mãe e ele sozinhos? — Mas... Por favor, mãe. Chega de hambúrguer. — Ela brincou, fazendo com que Sally gargalhasse, enquanto guardava a comida.

Alguns segundos depois, uma batida na porta foi ouvida. Tom adentrou o restaurante, cantarolando uma música em um italiano muito improvisado, com um sorriso empolgado no rosto. O pai de Molly era fascinado pela Itália, tanto que toda a decoração do fast food era baseada na mesma. Toalhas de mesa nas cores da bandeira italiana, a própria bandeira na parede, e etc. Tom abraçou a mulher e a filha, enquanto admirava por uma última vez o lugar. Pelo jeito Zoe já havia ido embora, ela na maioria das vezes só servia as refeições, e como o lugar iria fechar... Após comentários sobre saudades da velha casa, os três entraram no carro e partiram.

O dia do lado de fora das janelas parecia um globo de neve natalino. Era uma manhã de janeiro, mas a neve ainda jazia lá fora. Logo o verão chegaria, e o sol iria trucidar todo o gelo das ruas e árvores. Tom e Sally aproveitaram muito bem a viagem, nos bancos da frente, ouvindo músicas country durante todo o caminho. Por outro lado, Molly dormia no banco traseiro, com a cabeça apoiada na janela. Era uma floresta, escura, e com árvores tão altas que mal podia-se ver o topo das mesmas. Era esse o lugar no qual Molly se encontrava em seu sonho. Ela se viu correndo por uma trilha, seguindo alguém mais à frente. Uma sensação de exaustão e de medo tomou conta da menina quando ela deu-se conta de que algo corria atrás dela, deixando que um calafrio percorresse sua espinha tão rápido quanto um raio. De repente, uma claridade, e com um grito Molly acordou.

— Filha... Molly! — Sally murmurava ao balançar a filha de um lado para o outro, na intenção de acordá-la. Molly respirou fundo para recuperar o ar perdido. Que diabos havia sido aquilo? Ela estava pálida, e suas mãos tremiam, mas nada parecia ter acontecido. Tom esperava do lado de fora, analisando a vista. O carro estava parado, pelo visto, a viagem havia terminado. — Chegamos, querida. — Disse sua mãe, ajudando-a a se levantar e sair pela porta do carro.

A vista era... Inacreditável. Para uma cidade ás margens de um rio, Blackwood Ville era linda, e apesar de pequena, as casas e as construções pareciam saída de um filme. Uma sensação de familiaridade tomou conta de Molly, conforme ela voltava a respirar normalmente. O carro estava estacionado ao lado da casa que seria deles, uma casa branca com uma varanda grande e janelas de madeira. Parecia bom demais para ser verdade, como Tom e Sally teriam arranjado dinheiro para aquilo tudo?

Os pais de Molly pareciam felizes com a mudança, enquanto entravam na casa nova, comentando a cada segundo algo sobre as paredes, o espaço, ou o piso. Sabendo que teriam de esperar o caminhão com os móveis chegar, a garota decidiu dar uma volta pela cidade, e conhecer um pouco do lugar. As ruas eram limpas, e apesar do frio não tinha tanta neve acumulada pelos cantos da cidade, como onde a garota morava. Tudo dava a impressão de ser cuidado milimetricamente, parecia ser feito sob medida. Molly caminhava prestando atenção na paisagem, quando esbarrou em alguém. Seu ombro bateu contra o do desconhecido, fazendo-a tropeçar para a frente, quase indo de encontro ao chão quando uma mão segurou-a pelo braço.

— Olha por onde anda, guria, ou vai acabar esbarrando em alguém bem menos gentil do que eu. — Disse o rapaz, ajudando-a a se pôr de pé, com uma expressão sarcástica. Ele era tão branco quanto a própria neve, e seu cabelo preto sobre os ombros acentuava os olhos azuis. Molly se preparava para soltar uma boa retrucada, quando correu os olhos pela roupa do rapaz e viu um distintivo em sua jaqueta. — O que foi, o "quase beijo no chão" arrancou sua língua? — Ele disse soltando o braço da garota, e cruzando os braços, com um sorriso de canto, que tirou ainda mais as palavras da garota.... Continua.