As Peripécias Purpurinadas De 110 Estudantes
2 A fabulosidade e a falta dela
Notas iniciais
A poucos quilómetros da Academia Dulcinea localizava-se a Escola Paladia, um vasto estabelecimento rodeado de jardins deslumbrantes e portador da maior biblioteca da região, onde ocorriam as reuniões do clube de leitura conjunto das três escolas. As aulas haviam apenas começado e os estudantes estavam um tanto atarefados a arrumar os livros e documentos. Todos à exceção de Faban, um jovem de boa aparência e com... bastante consciência da mesma. Faban usava sempre uma coroa de flores na cabeça, símbolo da sua beleza exuberante (assim dizia ele), além de postar selfies no tumblr e no instagram e spammar tags não relacionadas com a cara dele. (Por favor Faban não faças isso.)
Faban estava a passear pelos corredores, exibindo a sua belíssima figura e olhando-se no espelho, quando notou algo fora do normal, no entanto estranhamente interessante no seu reflexo. Faban parou abruptamente causando a queda consecutiva de uma jovem de cabelos rosa magra e estranhamente cabeçuda que caminhava mesmo atrás dele.
— HEY, JÁ VISTE O QUE FIZESTE? DEVIAS TER MAIS CUIDADO!! HEY, HEY, ESTÁS A OUVIR?...
Mas Faban não estava a ouvir.
— COM LICENÇA, EEEU ESTOU FALANDO COM VOCÊ! FAZES IDEIA DE QUEM EU SOU? O MEU NOME É GLIMMER, SOU A MELHOR ESTUDANTE DESTA ESCOLA, OS MEUS PAIS SÃO RICOS E VÃO-TE COLOCAR UM PROCESSO EM CIMA. É BOM QUE PEÇAS DESCULPA IMEDIATAMENTE!
Faban ignorou e foi embora deixando a jovem falar sozinha. Ele foi em direção dos armários, onde se encontrava um jovem elegante de cabelos castanhos, concentrado na organização dos seus pertences, e exclamou indignadamente, porém num tom um tanto surpreendido:
— Ah… HEY TU! Eu vi-te no meu reflexo! Como te atreves a interferir com a maravilhosa visão que é o esplendor do meu rosto, seu... rapazinho bonito! E-e isso é um insulto, para que conste! Tu não és tão lindo como eu!
O jovem olhou-o com os seus olhos cinza claros de aspecto cristalino, e, calmamente e num tom de compaixão, que parecia ser uma característica normal do garoto, falou:
— Oh, peço desculpa... Eu não fazia ideia de que isso era um problema. Não foi minha intenção atrapalhar a sua beleza, sinto muitíssimo... eu estava ajudando um passarinho caído no corredor e acidentalmente acabei por aparecer no reflexo... Sabe, eu meio que consigo entendê-los… quer dizer, desculpe novamente, isso não era do seu interesse...
— Como ousa dizer que algo é ou não do meu interesse? — dizia Faban resmungando, ainda que estranhamente contrariado — De qualquer forma, que isso não volte a acontecer!
— Eu terei cuidado na próxima vez — informou o garoto com uma expressão serena.
— Além do mais, apenas membros do meu clube estão autorizados a olhar o meu reflexo.
E assim, Faban se foi lindamente, com os seus cabelos ao vento (de origem desconhecida).
No outro extremo do corredor, encontravam-se alguns estudantes a cochichar entre si.
— Tu conheces aquele rapaz, certo? O que é que achas que se estava a passar ali? — perguntou Rosella, uma moça loira de pele morena e aspeto atlético.
— Eu não sei, acho que terei que lhe perguntar mais tarde — respondeu Elina, uma linda jovem de cabelos loiros e olhos verdes profundos (nos quais, alguns poderiam jurar, se podia ver refletido o arco-íris). Levava uma indumentária simples onde predominavam tons de rosa, mas a sua característica mais chamativa eram as próteses multicoloridas e reluzentes que usava para se deslocar.
Aí aproximou-se um jovem feio e triste chamado Antonio. Antonio parecia estar sempre onde Rosella estava por algum motivo, e nunca dizia nada de bom.
— EI TU AÍ. TU ÉS METADE ROBÔ. QUE ESTRANHO!!! LOL!!! — disse ele para Elina, que o olhou de forma desapontada.
— Antonio está calado. — disse a linda e bela Rosella, e o Antonio foi embora a chorar.
— Peço desculpas por ele, é retardado o menino. Tem uma doença mental bem séria, e eu como boa pessoa que sou, aturo essa discórdia — Disse Rosella envergonhada.
— Deve ser bem difícil, tenho pena por ti — disse Elina com muita pureza e sinceridade, e aí o seu telefone tocou — Oh, é a Dandelion! Vemo-nos mais tarde Rosella.
— Tudo bem, ainda tenho que ir me inscrever no clube de desporto. Tenham uma boa conversa... — Rosella observava com uma expressão sapeca (sua saída). Elina corou ao perceber o tom com que Rosella falava, mandando-lhe aquela cara de “não é nada disso Rosella por favor”. Mal sabia a Ro que a Elina ainda tinha mais namoradas além daquela.
Entretanto, Faban estava no seu clube, constituído apenas por ele mesmo, a fazer as atividades habituais (olhar-se no espelho), quando alguém bateu suavemente na porta.
— Uuuugh, quem é que vem interromper a sessão?
A porta abriu revelando o mesmo jovem com quem Faban havia reclamado anteriormente.
— Er... sou eu. Gostaria de fazer uma inscrição no clube...? — disse o garoto com uma expressão adorável no rosto.
— COMO ASSIM, o que te faz achar que tens permissão para- oh, espera, então reconheces o valor da minha beleza suprema!! — respondeu Faban tentando manter a compostura.
— Bem, de facto... estaria a mentir se não dissesse que és a pessoa mais linda que já vi — disse ele com um ar muito inocente — Gostaria muito de fazer parte do teu clube e... fazer o que quer que seja que se faz aqui.
— AAUH- eeer.ahvfdm jds BEEEM para te juntares ao clube precisas de preencher esta ficha de inscrição. É tudo sobre mim. Exceto esse campo aí para o teu nome. Toma. E não te aproximes muito. Não tens permissão para tal. — disse Faban.
— Hmm, ok, deixa ver...
O jovem sentou-se numa cadeira a poucos metros de Faban. Faban sentiu o seu coração palpitar fortemente e as coisas em seu redor pareciam desvanecer lentamente.
Alguns minutos depois, o jovem terminara de preencher a ficha e Faban estava visivelmente nervoso por alguma razão incompreensível.
Com a ficha já assinada, o garoto levantou-se e pronunciou educadamente
— Preciso ir agora… foi ótimo estar na sua companhia. Ainda preciso de fazer a minha inscrição no clube de línguas. Eu sou muito bom com línguas. — Deu um sorriso delicado e saiu com extrema pureza do clube.
Faban ficou a olhar a porta por momentos, os seus pensamentos perdidos algures. Até que regressou à Terra e deitou a mão à ficha de inscrição do rapaz.
— Linden...
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