As Peças do Jogo: A Coroa de Prata
3 Devaneios?
15hPM, Klaus acordava de sua noite pertubada, enfim. Algo possuía um cheiro forte em suas mãos, e não era perfume. Descendo lentamente as escadas da mansão Blackwood, os empregados limpavam o vermelho dos degraus e coletavam o lixo da noite anterior. Klaus Blackwood era um homem alto, com uma palidez incomparável. Os cabelos escorriam de suas costas até a cintura, negros e lisos. Em seus 47 anos de vida em Blackwood, era o tipo de homem que passava seus dias acompanhado de vinho e meretrizes, sem perder a pose.
Já se faziam dois anos desde que Klaus não falava com seu filho, mas sequer sentia sua falta. Ele o culpava pela morte precoce de sua esposa, pois sequer pudera salvá-la a seu modo. As portas da prefeitura se abriram, e coberto por uma capa negra milimétricamente detalhada em dourado, Klaus saiu rumo á cidade.
— Ah... — Murmurou Molly. As palavras do garoto, assim como a energia que o mesmo exalava deixaram-na com uma sensação inédita, como se aquilo se tratasse de um reencontro de velhos amigos. — ...Obrigada. — Ela conseguiu dizer após alguns segundos, fazendo com que o rapaz exibisse um sorriso sarcástico.
— Não foi nada. — Ele disse, apenas arrumando a gola da jaqueta que vestia e seguindo seu caminho. Naquele mesmo isntante, Molly sentia algo diferente acontecendo. Ela o observou virar a esquina, olhando uma última vez para trás, antes de seguir em frente com seu passeio. Se perguntando quem seria, ela desligou-se do mundo, caminhando sem rumo pela cidade. O distintivo que o rapaz usava se parecia com o dos antigos xerifes dos filmes de faroeste, aquilo só aumentava sua curiosidade.
E então, o inverno ainda relutante com sua partida, resolveu exibir-se. Uma forte chuva torrencial atingiu Blackwood, acordando Molly de seu transe. Só então ela deu-se conta, estava perdida. Juntamente com a chuva, uma garoa tomou conta de seu campo de visão, a deixando totalmente sem noção do caminho que estava seguindo. Molly sentiu pedras e grama sob seus pés, e ela abriu seus braços procurando algo para segurar, porém tudo que encontrou foram galhos. "Mas que droga está acontecendo?!" Ela se perguntou, quando de repente, a garota se viu em uma minuscula clareira floresta á dentro. Suas pernas doíam como se tivesse corrido toda uma maratona, e suas mãos estavam tão geladas quanto o chão coberto de neve e pedras esguias.
Molly entrou em desespero, rondando o lugar freneticamente em busca de uma saída, mas algo a impedia de passar pelas árvores, como um grande e forte escudo. A noite chegava cada vez mais rápido, e ela já se encontrava sem forças para lutar contra aquela prisão invisível. E então, tudo escureceu. Com um estrondo abafado, ela caiu, sentindo a chuva caindo sobre sua face.
— Não vá... Molly... — Em um sussurro, dizia uma voz desconhecida ao seu ouvido, cada vez mais baixo, fazendo-a cair no sono, gradativamente. De repente um barulho agudo e abafado, vindo de perto. Molly saltou do chão gélido, reconhecendo a vibração em seu bolso como o toque de seu celular. No calor do momento, havia esquecido totalmente de que ele estava ali. A noite havia caído tão rápido, que mal podia enxergar bem ao seu redor. Ela tirou o aparelho do bolso, afim de checar as chamadas e ligar para seus pais, ou para a polícia, mas não tinha sinal, apenas centenas de chamadas perdidas de seus pais. Ela olhou em volta, e lembrou-se de como havia se desgastado na tentativa de fugir dali. Então apenas se focou na árvore mais próxima, tirando lá do fundo coragem para subir na mesma, e talvez ter uma idéia de onde estava.
Ela escalou a árvore com o máximo de cuidado que podia, chegando no galho mais alto que pode. A subida não havia sido tão difícil, mas a vista não era nada como Molly havia pensado. Uma vastidão de árvores grandes e altas, nem mesmo lhe permitia ver a cidade. Desistir, era tudo que ela queria fazer. Molly se sentou no galho em que se encontrava, fechando seus olhos. A chuva tinha parado, mas o frio cortava como uma lâmina afiada. Sem esperanças, ela não conseguiu conter as lagrimas.
— Não vá... Molly... Seu lugar é aqui... — Novamente, ela ouviu alguem clamando por seu nome. Molly abriu os olhos rapidamente, sentindo um calafrio na espinha. Um arrepio intenso passou por seu corpo, interrompido por uma forte luz vinda de cima. Ela pôs as mãos nos olhos, tentando ver através dos dedos ficando atordoada com o barulho. Tratava-se de um helicóptero. "Finalmente..." Ela pensou, abrindo um sorriso fraco, então esticando seus braços para chamar a atenção do helicóptero, porém, sua exaltação fora demais. Um estalo alto, e agora o vento batia contra seu rosto enquanto ela caía. Molly mal podia acreditar, porque aquilo estava acontecendo? Naquele momento nada mais importava, o frio, o cansaço, ela gritava como nunca. Até que, algo impediu sua colisão.
Molly sentiu algo segurando-a firme, passando um calor que espantou seu medo. Seus olhos fortemente fechados, e aterrorizados, se abriram lentamente, se deparando com algo que nunca poderia imaginar. Lá estava o desconhecido que a salvara mais cedo, com o rosto esboçando confiança, um pouco ferido. Ele mantinha os olhos fincados nos dela, enquanto tentava levá-la para fora da floresta. — Tenho a leve impressão de que você tem um fetiche por ser salva, garota. — Ele disse, sorrindo francamente. Continua...
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