As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
34 Capítulo 33 - Casa D'albartine
Notas iniciais
Cecília D'alboquerque
“Cecília, sua esperteza e espontaneidade farão com que crie laços com pessoas inesperadas. Mas o seu maior objetivo será levar paz a um coração perturbado. Você é a única que poderá fazer isso.”
Carta da baronesa às suas filhas.
~~*~~
La Rochelle, outubro de 1817.
Minha pequena tagarela,
Sei que deves estar ansiosa devido a minha demora em dar noticias. Mas como eu mesmo havia te dito, precisava de um tempo e achar condições para escrever-te.
Creio que esse tempo chegou.
Como podes perceber, eu agora estou em La Rochelle, uma pequena cidade ao leste da França. Depois de perambular por vilas e condados da Inglaterra, achei aqui uma das razões para aplacar a minha dor. Ainda me lembro das suas palavras antes de partir, que eu deveria ajudar as pessoas, assim como Celeste fazia. Há aqui, muitos camponeses doentes, sobretudo, crianças. Apesar da difusão dos pensamentos iluministas, mesmo os nobres e filósofos defensores da igualdade, não olham para a classe rebaixada da sociedade.
E isso me fez pensar como eu poderia ajudá-los de alguma forma, então eu decidi ser médico.
Partirei para Montpellier em breve, onde está a Faculdade de Medicina, e lá começarei minha jornada rumo a esse propósito. Fui aprovado por ter sido um bom aluno da Universidade inglesa, e também por ser um Lamartine (certas coisas não há como esconder, mas pelo menos esse sobrenome me trouxe alguma valia).
Como está minha mãe? Diga a ela que estou bem e que a amo, mas ainda não posso voltar. A ferida ainda sangra e não seria cauteloso ao enfrentar o velho.
Dê-me notícias, pequena. Acredito que já houve muitos casamentos e fale-me de meu sobrinho.
E a senhorita? Já deves ter sido apresentada à sociedade, o que já lhe rendeu cortejos e presentes, mas não caia nos galanteios desses rufiões, pequena, você é mais esperta!
Diga a Elisa que desejo felicidades com o Carvalhal. Ela sempre amou aquele borra-botas. E transmita minhas saudações aos meus irmãos, assim como às minhas irmãs D’alboquerque.
O seu colar de pérola é o que me transmite paz e esperança todas as noites antes de repousar. Trago-o como um amuleto. Um dia lhe devolverei, prometo.
Escreva-me. Ansioso por saber as novidades através de ti. Tenho certeza de que me farão rir.
Com extremo carinho,
Afonso.
Nota: não se esqueças de endereçá-la à Faculdade de Medicina do Montpellier.
~~*~~
Cecília passeava com a pequena Celeste pelos jardins, conversando animadamente com a menina, quando o mensageiro chegou. Ela apenas observou um dos empregados receber a correspondência. Há muito não agia com sofreguidão esperando as cartas de Afonso. Já era quase natal de 1817, exatamente dois anos após a partida dele.
― Senhorita, essa correspondência é para ti. ― anunciou a governanta da casa.
Cecília, admirada, pegou a carta e olhou. Era de Afonso. Pulando de alegria, saiu correndo em direção às escadas, mas teve que voltar, pois havia esquecido a sobrinha para trás.
― Venha, Celeste, vamos ler a carta do tio Afonso. Ele vai adorar saber sobre você.
E com a criança no colo, subiu aos seus aposentos.
~~*~~
Évora, dezembro de 1817.
Querido irmão,
Ah, como eu ansiei por receber suas palavras! Há tanto que preciso lhe contar. E terás que ter paciência, pois demoraste tanto a dar notícias que duas folhas escritas não caberão tantos acontecimentos.
Certo, vamos aos fatos.
Primeiramente, fico deveras feliz que estejas bem. As dolências da sua alma, amigo, cessarão e se tornarão apenas lembranças. As boas sobressairão, tenha fé.
Nossa mãe está bem, assim como nossas irmãs. Devo acrescentar que as lágrimas foram inevitáveis, porém, todos estão muito orgulhosos com sua decisão em ser médico. Inclusive vosso pai, que não mencionastes, mas direi mesmo assim.
Quanto à Elisa, esta se casou e está muito feliz com Álvaro. Não discordo que ele seja um pouco inerte em ações, mas é um bom homem. A propósito, o duque Carvalhal foi exilado para o norte da Espanha e o título nobiliárquico dado a outro nobre, por traição ao rei. Várias audiências foram necessárias para que Álvaro pudesse provar que não compactuava com as malfeitorias de seu pai. Enfim, ele recebeu o perdão do imperador.
Escolheram morar numa casa de campo, em Santarém. Elisa está esperando seu segundo filho. O primeiro chama-se Charlie e tem cinco meses de vida. (Sim, concordo, eles foram rápidos).
Entretanto, os acontecimentos seguem. Ele não é seu único sobrinho.Liana deu à luz a uma menina e a ela deu o nome Celeste. Muito linda e muito esperta, e tem os olhos mais estranhos já vistos. São azuis-acinzentados (ou seria, cinzas-azulados?)Bom, ninguém sabe ao certo, mas já encantou a todos, sobretudo ao sisudo visconde, que não pôde esconder seu contentamento quando a pequena disse “vovô” pela primeira vez. Foi uma algazarra na família.
Tem um ano e meio e já faz muitas estripulias. Joana aprova. Disse ao pegar sua sobrinha no colo com alguns dias de vida: “nos daremos muito bem!”, e isso é fato, pois quando Joana vem para visitas, elas não se desgrudam.
E por falar em Joana, essa se tornou a Marquesa de Canto e Melo, e partiu para o Brasil, porém, o propósito deles é viajar pelo mundo unindo-se aos pensadores revolucionários. Ainda não tem filhos.
Mas não fiques triste! Sobrinhos não irão te faltar.
Henrique e Adelaide nos deram Rodolfo. É um bebê muito irritado, tal qual o pai. Eles estão vivendo na Casa nº5, Conhecida como a Casa D’albartine, e pasme! Ele contraiu o baronato por indicação e é o novo Barão de Évora! O título seria extinto(não por falta de candidatos, mas por falta de candidatos confiáveis já que houve muitas mortes e extradições por traição à coroa) e claro, a sociedade mexeriqueira não perde a oportunidade de alfinetar sobre um barão Lamartine suceder a um D’alboquerque, mas as influências sociais sempre prevalecem. Ele não aceita muito seu novo status, mas Adelaide sabe amansar a fera que tem em casa.
Raul e Beatrice estão vivendo em Lisboa e ela espera o primeiro filho para breve.
Fred e Emília também estão lambendo suas crias Anelisa e Augusto. Sim, são gêmeos, e os bebês mais doces do mundo. Eu os apelidei de Família Doce, pois nunca vi um casal tão açucarado assim. Mas é lindo de se ver!
Eles estão morando aqui mesmo na Casa Lamartine, tal como Pedro e Liana, a pedido de papai e mamãe. Eles praticamente imploraram para não deixá-los sem alguns netos por perto. Então decidiram ficar para não se sentirem abandonados. Se bem que, eu estou aqui e ficarei por bastante tempo.
Doutra maneira, meu caríssimo, não tenho paciência para cortejos. Antes utilizo meu tempo para escrever minhas crônicas, contos e estou motivada a escrever um romance em breve.
E para finalizar, pedi a Henrique para não vender a Fazenda D’alboquerque. Apesar de muitos sofrimentos, ainda quero transformá-la em uma casa com outros ares. Desmistificar as marcas que lá ficaram. Se eu me casar um dia, viverei lá. Joana não concorda, mas Adelaide me entende. Há empregados lá que viveram uma vida inteira, não é justo desampará-los assim. Didila se ofereceu para cuidar da Fazenda e fazermos aos poucos as mudanças necessárias. Vou visitá-la quase todos os dias.
Os operários das fábricas ganharam novas moradias. Outro vilarejo foi construído. Nosso pai e o marquês foram os responsáveis por isso.Quanto à Dália, Joana a levou para morar com ela e ser sua dama de companhia. São muito amigas agora.
Acredito que não me esqueci de mencionar nada. Estejas certo de que cada carta que receber, ganharás mais alguns sobrinhos.
Fico por aqui, irmão, e nunca se esqueças da esperança. Seu novo ofício lhe trará novas perspectivas, certamente.
Despeço com sinceras saudações. Conte-me como é o lugar em que estás.
A família se reunirá para o Natal. Joana e o marido virão apenas para o Novo Ano, devido a distância.
Envio-te como presente, um diário. Anote suas mazelas, suas conquistas, os lugares, as donzelas (afinal, és ainda muito jovem. Faço votos de que encontres uma boa moça).
Que a paz inunde seu coração e que esse novo ano seja luz para sua vida.Todos te enviam felicitações. Nossa mãe te ama muito!
Aguardo ansiosa sua réplica.
De sua amiga,Cecília.
~~*~~
― Não canso de admirar minha linda esposa! ― disse Frederico apoiado na soleira da porta do quarto de vestir. Olhava apaixonado para Emília no toucador escovando os cabelos antes de se deitar.
O sorriso dela através do espelho o fez retribuir e aproximar-se, beijando levemente seus lábios.
― Minha pérola ― sussurrou ―, ainda demorarás muito? Não que eu reclame de vê-la escovando os cabelos, mas estou ansioso para que se junte a mim em nossa cama.
― Ansioso? Não imagino o por quê... ― provocou.
― Não mesmo? ― e descobriu lhe o ombro, beijando-o. Afastou seus cabelos e beijou sua nuca ― Quem sabe não podemos ficar nos beijando até noite adentro.
Emília suspirou.
― É uma proposta tentadora.
― Sei que é ― e continuava depositando beijos pelo pescoço da amada. ― Você está arrepiada... está com frio, amor?
― Um pouco... acha que devemos aquecer mais a lareira?
― Eu acho que a lareira não vai conseguir te aquecer como precisa ― e acariciava o corpo da esposa ―, mas eu posso.
― Hum... eu aceito, mas antes preciso conferir os bebês.
― Já os conferi. Estão dormindo em tranquilidade e a ama está lá.
Emília o olhou e sorriu, beijando seus lábios em seguida.
― Não tenho palavras para expressar meu amor por ti. És um pai dedicado, um marido perfeito. Um bom filho e um homem respeitado. Deus deu-me além do que eu podia querer ou merecer. Sou completamente feliz.
― E eu sou um homem de sorte. Tenho a mulher da minha vida. A única que amei e que sempre irei amar. Eu agradeço a Deus pela mulher maravilhosa e virtuosa que me deu e minha linda família. Eu amo-te, minha pérola.
~~*~~
― Diga “vo-vô” ― o visconde ensinava a neta segurando-a no colo. ― Vamos, garota, você consegue.
A menina só queria puxar aquele estranho formato de cabelos acima da boca dele. Pedro e Liana se divertiam com a cena.
Eleonor e Emília estavam com os gêmeos próximos à lareira. A manhã estava muito fria e aproveitavam os momentos com os homens em casa para se reunirem. Eram momentos raros com tanto trabalho e com os irmãos morando distantes. Apenas Fred havia saído para resolver negócios das fábricas junto com Henrique.
― Onde está Ceci? ― perguntou Liana.
― Provavelmente escrevendo mais uma carta para Afonso ― respondeu Pedro e o visconde mudou seu semblante. Por mais que não quisesse transparecer, a rejeição do filho era algo que lhe doía bastante.
Eleonor conversava frequentemente com ele. Isso trazia calma ao seu coração. Ela sabia como fazer isso.
Uma criada entrou na sala, interrompendo a conversa da família:
― Com licença, essas flores são para a senhorita Cecília. ― anunciou.
― Ah, claro, pode coloque-as em um vaso ― pediu a viscondessa. ― Dê-me o cartão, entregarei a ela.
Analisou o pequeno envelope, não havia nada escrito.
― Certamente é do jovem O’bourne ― cogitou e o velho resmungou.
― Esses idiotas não conseguem conter-se diante de um “não”?
― Oras, senhor meu marido, homens sabem ser insistentes quando querem. E o jovem O’bourne é um bom rapaz.
― Para você todo mundo é bom, Eleonor!─ retrucou Maurice.
― E para o senhor nenhum cavalheiro está apto para desposar Cecília.
― Pelo que vejo, Cecília não se casará tão cedo. Meu pai espantará todos os pretendentes ― brincou Pedro.
A moça entrou na sala.
― Falam de mim?
Liana avisou:
― Acabas de receber flores de Donald O’bourne. O que achas?
― Acho absurdamente deselegante, já que deixei claro por duas vezes que não há chances de cortejar-me ― respondeu.
― Estás vendo, Celeste? ― disse o visconde à menina em seu colo ― Aprenda com sua tia Cecília. Esses homens são uns calhordas!
― Maurice! Não digas isso à menina! E Cecília vai achar que se depender de nós ficarás para titia.
Cecília riu e disse:
― Não se preocupe, mamãe, sei que papai é um autêntico protetor. ― E deu um beijo no rosto dela e do visconde. ― Eu amo vocês e se depender de mim, ficarei mesmo para titia, pois estou adorando esse ofício. Não é Celeste?
― Bo.bô! ― balbuciou a pequena Celeste e todos riram com a cara de orgulho do visconde.
― Vem comigo, amor. ― disse Liana a Pedro, puxando-o pela mão.
Os dois foram para a varanda e ela apoiou-se na balaustrada enquanto ele encaixava seu corpo no dela.
― O que há? Está muito misteriosa.
― Quero te beijar ― e beijou o marido apaixonadamente.
― Nossa! Pode fazer isso sempre ― brincou. ― Surpresas assim na volta do dia fazem muito bem para a alma e para o coração.
― E não é a única surpresa para você ― Fez mistério.
― Hum... estou curioso.
― Você será papai novamente. ― sussurrou em seu ouvido.
Pedro paralisou.
― Tem certeza?
― Bem, as minhas regras estão atrasadas e minha cintura está um pouco mais larga... não percebeu?
― O quê? A falta das regras ou a cintura?
― Seu bobo! ― e riu.
― Eu estou muito feliz por termos mais um filho. Vou ensiná-lo a jogar tiro ao alvo e o Jogo do Desafio ― se empolgou.
― Amor, você é péssimo com jogos.
― Como me desmoraliza na frente do nosso filho? ― e tocou a barriga dela.
Ela colocou a mão por cima da dele e o fitou:
― Sendo ele ou ela, terás muito orgulho do pai, como eu tenho.
― Se hoje somos uma família, devemos a você, Liana, por nunca desistir de nós. Eu me orgulho de você.
E com outro beijo, selaram mais um momento especial.
~~*~~
Évora, maio de 1818.
Querido Afonso,
Obrigada pela magnífica descrição dos lugares em que passaste e da própria Montpellier. Parece ser muito bonita. Se papai me permitisse, visitá-lo-ia. Porém...
Estás anotando tudo em seu caderno? Não esqueças, faça um pouco todos os dias antes de se deitar. Ajuda a acalmar e distrai-te.
Tenho notícias boas e ruins.
Os negócios de nosso pai não andam bem. Perdeu algumas plantações de algodão, seu novo investimento, por causa da constante geada, contudo, conseguiu fechar contratos na venda de sementes para produção de óleo. Henrique considerou essa alternativa como forma de não perder todo o investimento, já que as fibras não deram rendimentos.
São tempos difíceis em casa. Belinda, filha de Beatrice, nasceu prematura. Está bem assistida, mas a tristeza do casal é de cortar o coração. Beatrice está se recuperando bem. Mamãe foi para sua casa lhe prestar auxílio. Todos rezando para que tudo dê certo. Belinda já é muito querida entre nós.
Emília teve um aborto. Outra lástima. Joana está passando uma temporada conosco. Diante de tantas circunstâncias, ela tem sido um sustentáculo para nós. E não, ela ainda não é mãe.
Liana e Elisa estão para dar à luz. Céus! Tenhamos fé. Tudo ocorrerá bem.
Celeste está a cada dia mais linda e esperta. Já demonstra personalidade forte, tal qual suas tias Celeste e Joana.
Rodolfo, Augusto e Anelisa não se desgrudam quando estão juntos. São pequenos peraltas. Conseguem deixar-nos de cabelos em pé.
Por enquanto é isso, amigo.
Ah, Álvaro está na direção de O Semanário, e convidou-me para escrever crônicas. Uma de minhas colunas se chamará “A Voz da Mulher”. Ele disse que será bastante polêmico, mas arriscará.
Vou mandar-lhe uma de minhas crônicas para tu avaliares. Sejas sincero.
Não demores a escrever-me. Fale-me de seus estudos.
Sinceras saudações, Cecília.
~~*~~
Montpellier, novembro 1818.
Minha pequena tagarela,
Sinto pela demora das cartas, mas sabemos que nosso sistema postal ainda é bem lento. Três meses por navio ou dois meses por trem. De qualquer forma, fiz o mais rápido que pude.
Eu lamento por tantas indulgências. Sinto por Beatrice e Emília. Desejo, ardentemente, que Belinda esteja bem, assim como os novos integrantes da família.
Joana é sempre um porto seguro para todos. Espero que ela consiga êxito em seus ideais. É uma guerreira nata.
A pequena Celeste é a prova viva de que sua tia não morreu em vão. Já a tenho com muito apreço.Fico imaginando as peraltices de meus sobrinhos e confesso que, muitas vezes, rio sozinho. Certamente dão alegrias mesmo nos momentos de caos.
Sim, tenho anotado todos os dias em meu diário, senhorita Ceci! E meu coração enche de alegria e orgulho por saber que terei uma irmã escritora. Suas crônicas são empolgantes, instigantes, intrépidas. Com certeza Álvaro terá grandes problemas, mas nunca se emudeça diante dessa sociedade hostil com as mulheres.
E me dizes: continuas inupta? Fará mesmo jus ao seu título de titia?
Meus dias são bem ocupados. Dedico-me tempo integral à faculdade. Tenho me instruído bastante em aulas práticas.
Diga à minha mãe que a amo. E diga à Elisa para colocar o meu nome em seu segundo filho, em homenagem ao seu irmão favorito.
Saudações calorosas a todos, Afonso.
~~*~~
A carruagem adentrou naquele lugar onde tantas vidas já tinham ido. Muitas deixando saudades, outras nem tanto.
Ela apeou e caminhou decidida até a lápide sempre coberta com rosas brancas. Nunca era esquecida, porém, hoje compreendia melhor as coisas. Era a primeira vez que estava ali e sabia que precisava.
― Olá Amélia! ― disse a viscondessa olhando para o túmulo ― Há muito desejava vir. Meu coração despertava-me para isso.
Fez uma pausa.
― Vim em paz, baronesa. Sei que tivemos divergências no passado e, por vezes, eu retribuí de forma hostil. Entenda, eu era uma mulher afligida pelos ciúmes e pela dor. Não é fácil saber que seu marido passara grande parte da sua vida amando outra mulher ― deu um suspiro fitando o lenço em suas mãos. ― No entanto, Amélia, hoje eu sei que também fostes uma mulher atribulada com as circunstâncias da vida. Emília mostrou-me a carta que escreveu a Maurice, na esperança de que ele cuidasse das pérolas antes que partisse, e também, sobre o real motivo de não poderem ficar juntos no passado. Eu... ― lágrimas escorreram de seus olhos ― eu sinto muito, Amélia.
“Sabe, eu a admirei. Sua força, sua luta enquanto pôde, para deixar um legado de amor entre suas filhas, mesmo ficando tão pouco com elas. E é por isso que eu vim. Quero dizer-te que as tenho em meu coração como minhas. Peguei-as emprestado de você e prometo que cuidarei com imenso amor. Ceci agora me chama de mamãe, e Maurice, de papai, espero que não se importe. Você também já tem alguns netos e netas ― sorriu―, e vem mais por aí. Beatrice e Emília passaram por momentos difíceis, mas estão bem agora. Eu trouxe isto ―” e tirou um broche de dentro de uma caixinha.
Era uma rosa trabalhada no aço e ouro.
― Eu pensei em algo e quero antes comunicar-lhe. Mandei fazer esse pingente. É uma rosa, o símbolo que lembra você. Assim como fizestes gargantilhas de pérolas para as meninas D’alboquerque’s, eu mandei fazer broches para as nossas meninas D’albartine’s. Sim, agora somos chamados assim pela sociedade, e não é de todo mal. Afinal, são duas famílias que o destino resolveu unir e nos ensinar alguma coisa. Formamos agora uma só família, não é mesmo?
Considerei também fazer outro para os meninos com as iniciais “CD” lembrando a todos, aonde forem, que pertencem a essa Casa. E as rosas, são para lembrar que as mulheres dessa família sabem ser delicadas, mas também fortes, e que sabem usar os espinhos quando necessário... ― e sorriu entre lágrimas ― Bem, despeço-me aqui, Amélia. Quero agradecê-la por me confiar suas filhas, de alguma forma você sabia o que aconteceria. Adeus baronesa.”
E ela depositou a caixinha com os broches em sua lápide e deixou também uma rosa branca para Celeste e outra para Matias.
Quando se virou para sair, uma brisa agradável envolveu a viscondessa que durou apenas três segundos. Contudo, ela sabia que era a baronesa agradecendo-a e aprovando seus feitos. Agora podia seguir em paz.
~~*~~
Montpellier, fevereiro de 1820.
Olá minha Pequena,
Mais um ano se foi... às vezes parece que nada mudou, mas ao mesmo tempo olho para trás e vejo o quão eu mudei. Nunca mais serei o mesmo. Apesar de gostar de tratar as pessoas, não consigo me abrir facilmente.
Há algo que talvez queira saber: conheci uma moça, a senhorita Du Bois. Justine Du Bois, uma das raríssimas mulheres que exercem o ofício da Medicina. É alegre e muito inteligente. Somos amigos, não cogites coisas.
Dê-me notícias.Como está o nosso gracioso quarteto Celeste, Anelisa, Belinda e Amélia? Diga aos rapazes para cuidar muito bem das nossas mulheres. Não deixem nenhum cavalheiro chegar perto delas, sei que Rodolfo e Augusto cuidarão disso.
Fico feliz que tenha aceitado o convite do tal Senhor Noronha, para passeios. Estava mais do que na hora.
Estou enviando este livro, creio que irá apreciá-lo. Christine de Pizan foi uma escritora revolucionária no seu tempo, defendendo o papel social das mulheres. Tenho certeza de que lhe inspirará.
Diga à mamãe que a amo e penso nela todos os dias.
Deus abençoe a todos.
De seu irmão e amigo,Afonso.
~~*~~
Évora, abril de 1820.
Caro irmão,
Não sei como lhe agradecer por tão grande preciosidade que é este livro. Joana quis roubá-lo de mim, mas não deixei.
As minhas crônicas sociais não são vistas com bons olhos. Papai por várias vezes fora repreendido por amigos sobre a postura das mulheres da Casa D’albartine. Apesar de ranzinza, ele sabe como dar respostas nas horas certas. Ele também mudou muito, Afonso. Precisa entender que as pessoas erram, mas merecem uma segunda chance.
Diz-me que mudou, mas sei que o meu irmão, de coração nobre, permaneces aí.
Uma amiga? Essa informação causou-me certo desconforto. Daqui a pouco não precisarás mais de mim. Se bem que acredito que isso vai progredir. Quando retornares, estarás com sua família. Fico feliz ao saber disso.
Quanto ao senhor Noronha, é apenas um amigo que compartilho ideias. Estás mais para um ouvinte. Depois de ti, ele é o único que tolera minhas tagarelices.
O nosso quarteto favorito, virou quinteto: Suzana nasceu trazendo alegrias e pode apostar que o grupo de rapazes liderado por Rodolfo não deixará sequer um cavalheiro lançar olhares para as moças. Palavras do pequeno líder, cópia de Henrique.
Todos agradecem os presentes de Natal e Bom Ano.
Nossa mãe manda-lhe todos os beijos e também outra carta que segue com esta.
Deveras ansiosa para que regresses meu irmão. Se não vieres, juro-te que irei até você.
Aguardo notícias em breve, Cecília.
~~*~~
― Papai... o senhor e a mamãe se beijam? ― era Rodolfo ao redor de seu pai, com muitas dúvidas.
Henrique tirou o jornal da frente dos olhos, espantado. Ele tinha apenas cinco anos.
― De onde tirou essas ideias, Rodolfo? ― perguntou sério.
― Augusto disse-me que os pais e as mães se beijam. O senhor beija minha mãe?
Henrique ficou meio sem jeito e olhou para Adelaide que bordava tranquilamente no sofá, com um risinho que queria dizer: “quero ver você sair dessa”.
― Ainda são muito novos para entenderem certas coisas. ― e voltou para seu jornal.
O menino ficou por ali brincando no tapete da sala. Mas logo outra pergunta lhe surgiu:
― É por isso que o senhor e mamãe fazem uns barulhos estranhos quando estão trancados no quarto?
Henrique engasgou-se, pois puxou de uma vez a fumaça do cachimbo. Olhou para a esposa que também estava surpreendida e disse:
― Adelaide!
Ela levantou as mãos como se dissesse: “o que posso fazer?”
― Rodolfo, venha cá. ― chamou a mãe. ― Filho, tanto você quanto seus primos não entendem certas coisas, mas precisam crescer um pouco mais para podermos explicar, estás bem?
O menino balançou a cabeça um pouco duvidoso ainda.
Henrique ficou olhando para o filho e depois resmungou qualquer coisa. Não entendia como tantas perguntas precoces surgiam entre as crianças.
― Vou repousar um pouco. ― disse Adelaide se levantando com sua enorme barriga anunciando a quarta gravidez. Mas quando se inclinou para beijar o marido, se deteve, pois os olhos atentos de Rodolfo estavam sobre eles.
Subiu as escadas com dificuldades e ele observava a mãe. Quando ela se foi, ficou parado pensando e Henrique o achou estranho.
“Tomara que não invente mais perguntas”, pensou ele.
― Rodolfo, vá brincar lá fora. Suas irmãs estão no jardim. ― sugeriu.
O menino juntou seus brinquedos, e, antes de sair, voltou-se para o pai:
― Papai, de onde vêm os bebês?
~~*~~
― Boas tardes, Didila! ― cumprimentou Cecília, chegando à Fazenda.
― Oh, minha menina! Senti sua falta. ― falou a senhora.
― Didila, mas isso está uma beleza! Fiquei ausente por uma semana e já fizestes grandes mudanças!
Cecília falava do casarão. Toda a decoração fora trocada, inclusive a maioria da mobília. A sala principal estava mais alegre em tons pastéis, verde e pêssego. O salão de chá ficara com tons cor-de-rosa. As duas haviam planejado as primeiras ideias e a senhora as colocou em prática.
A pintura do casarão fora renovada também, nas cores brancas e azuis. Como todos os empregados permaneciam na casa, os jardins e os aposentos estavam sempre limpos e bem apresentáveis.
Cecília gostava de estar na casa onde crescera, e o lugar onde seus pais moraram. Quando fosse a hora, mudaria de vez para lá e moraria com D. Hilda. Ainda não falara nada com a viscondessa, pois ela poderia se entristecer. Mas com tantos netos na família, a Casa D’alboquerque estaria sempre cheia e ela mesma não sabia se casaria um dia. Descobriu que não pensava nisso tanto quanto deveria, apesar de Eleonor e Adelaide sempre estarem lhe arrumando pretendentes.
As irmãs não queriam voltar à fazenda devido às tristes lembranças, mas sua ideia era transformá-la em uma casa de temporadas para a família e visitantes estrangeiros.
Hilda concordava com ela. Com as mudanças feitas, o lugar transmitia outra atmosfera.
O retrato da mãe, pintado por Beatrice, estava na entrada principal. Linda! Fora uma das mulheres mais lindas de sua época.
― Esse quadro ficou lindo, não é Didila? Beatrice está se superando a cada dia! ― elogiou.
― Sim, ela conseguiu reproduzir fidedignamente o antigo retrato que seu pai guardava.
Cecília suspirou olhando ainda a pintura.
― Adelaide se parece muito com ela.
― Muito mesmo. Venha, ela fez outro quadro. Chegou há poucos dias.
E as duas seguiram para o salão de chá onde as irmãs passavam boa parte conversando antes de tudo acontecer. Ora na própria sala ou ora na enorme varanda que dispunha esse aposento.
Ao adentrar, viu o retrato das sete irmãs, cada qual com seus pingentes de pérolas. No centro inferior estava escrito: As Pérolas Intocáveis de Évora.
― Beatrice disse que esse é o primeiro quadro de uma série da família ― informou.
― Celeste... ― murmurou olhando para o rosto pintado da irmã.
As duas fixaram-se ao quadro e as lágrimas foram inevitáveis. A saudade nunca passaria. Nem a dor. Mas muitas felicidades também compunham aquela história.
― Vem, menina! Fiz biscoitos de gengibre. Seus preferidos.
― Eu tenho tanto medo que a gente a esqueça...
― Isso não vai acontecer Ceci! Não esquecemos a quem amamos, mesmo que não esteja mais aqui. ― retrucou a senhora.
― É que... cada uma tem sua própria vida agora e seus planos. Não estaremos mais tão próximas para relembrarmos nossos momentos, de tudo o que passamos juntas... para lembrarmos dela.
― É por isso que estamos transformando esta casa. Ideia brilhante sua, menina. Logo, todos virão passar as temporadas aqui, todos unidos, para relembrar as boas coisas que ficou e celebrar a nova vida. Ninguém e nenhuma mudança poderão tomar de vocês aquilo que está aqui. É pra sempre ― e colocou a mão no peito dela.
― Você tem razão, Didila ― e sorriu ― a senhora falou alguma coisa sobre biscoitos?
E foram rindo tomar chá e planejar as temporadas futuras.
~~*~~
Évora, março de 1824.
Querido irmão,
Minha entrada na Universidade de Coimbra foi negada mais uma vez. Ainda hesitam em ter entre eles, uma mulher no curso de Filosofia e Ciências sociais (este último, uma faculdade nova na Europa).
Joana ficou indignada e disse que irá usar seu título de marquesa para interferir. Seu nome muito tem sido mencionado nos grupos elitistas de vários países. Mas não quero que ela se preocupe com isso. Seu tempo é bastante programado.
A propósito, ela está no Brasil, uma de nossas colônias que, recentemente, se tornou um país independente, e logo partirá para uma temporada em Paris. Eles foram convidados por alguns pensadores iluministas a defender ideias para compor o parlamento francês. Eu a admiro, pois, mesmo sendo mãe, nunca abandonou seus ideais.
Não obstante, acredito que não ganharás mais sobrinhos. Ficarás apenas com quinze.
Outra novidade: fui pedida em casamento pelo Senhor Souto Amarante e, mais uma vez, neguei o pedido. De que adianta tantos candidatos se nenhum deles aprova uma mulher que pensa e se expressa por si mesma? Ou seja, um bando de idiotas! Como papai mesmo diz.
É meu caro... acredito que seremos os únicos solteirões da Casa D’albartine.
Afonso, nosso pai está doente. Ele insiste em dizer que estás bem, mas sua debilitação é visível. Tu o conheces, é um teimoso. O médico diagnosticou como cólera. Houve uma epidemia na região do Alto Alentejo, sobretudo em Portalegre, e contraiu quando esteve por lá. Ele precisa ficar isolado e apenas mamãe o acompanha.
Afonso, pode ser fatal...
Se não quiseres perder nosso pai sem despedi-lo, sugiro que venhas o quanto antes. Já se foram sete anos. Deixe de uma vez as mazelas do passado e retome sua vida. Já tiveste tempo suficiente para decidires o que realmente quer. Já sabes o seu propósito.
Com apreço,Cecília.
~~*~~
― Tia Cecí, como era minha tia Celeste? ― quis saber a pequena de sete anos enquanto a ajudava na estufa.
― Ela era forte, decidida, assim como sua tia Joana. As duas eram muito parecidas em personalidade. Em aspectos físicos também. As únicas morenas entre as irmãs; ah, e sua mãe também.
― E eu também?
― Também. Mas seus cabelos são mais claros que os de sua mãe. E seus olhos são os mais peculiares que já existiu em Portugal.
― O que é ’peculares’, tia Ceci?
A tia riu. Elas eram muito apegadas. Aonde Cecília ia, ela estava também. Exceto quando Joana chegava, então perdia seu posto de preferida.
― Peculiar é algo diferente, único. Uma característica que te marca, entende? Só você tem.
A menina continuava depositando terra em um pequeno vaso, enquanto Cecília colocava uma muda de rosa branca.
― Essas rosas eram as preferidas de sua avó Amélia. Lembra-se do roseiral da fazenda? ― Celeste concordou com a cabeça ― Então, ele foi um presente de seu avô, o antigo barão D’alboquerque, a ela.
― Mamãe nunca fala dele, e tia Joana sempre muda de assunto, pois diz que há assuntos muito melhores. Porque, tia Ceci?
Cecília pensou. Suspirou. Era realmente um assunto difícil de discorrer.
― Seu avô era um homem atormentado e isso fez com que suas atitudes causassem dor e sofrimento às pessoas.
― Vovô disse que ele era mau. ― declarou a menina e a tia a olhou.
― Celeste, seu avô D’alboquerque fez sim muitas coisas ruins, mas não é isso que deves lembrar quando pensares na nossa família, está bem? Temos uma enorme e amorosa família e devemos agradecer a Deus todos os dias. Temos que ser unidos o quanto pudermos e quando houver coisas tristes, cuidarmos uns dos outros, entende?
― Sim, tia Ceci. Eu cuidarei do meu pai, da minha mãe, do meu irmão, do meu vovô e minha vovó, minha tia Joana...
A menina tagarelava e Cecília começou a rir. Uma voz atrás de si, a fez levantar num pulo:
― Tens a quem puxar toda essa tagarelice.
― Afonso! ― e pulou nos braços do irmão não importando com a terra nas mãos e no avental. ― Afonso! Graças a Deus! Não sabes o quanto rezei para que viesses. Já era tempo!
Ele beijou a testa dela e disse:
― Tinhas razão, como sempre, pequena. É hora de enfrentar os medos e retomar minha vida.
Eles sorriram e se abraçaram mais uma vez. E quando viu dois grandes olhos cinzas-azulados o observando, desprendeu-se da irmã e foi até a criança que tanto quisera conhecer. Agachou-se e tentou uma conversa:
― Oi, você é a Celeste, não é?
― Sim. E você é meu tio Afonso?
Ele sorriu e respondeu:
― Sim. Ou o que restou dele.
A menina analisou-o mais um pouco e disse:
― És bonito como o meu pai, mas se parece com meu tio Henrique e é divertido como o tio Fred.
O rapaz riu mais ainda.
― E você é a menina mais esperta que já conheci. Mas não conta pra sua tia Cecília. ― simulou segredo e ela riu. ― Mereço um abraço de boas vindas? ― e abriu os braços, esperando.
A menina o abraçou tão forte que o surpreendeu.
Era bom estar em casa. Era bom conhecer a nova família que se formou depois de tantas tragédias.
Um recomeço.
O resto, o tempo se encarregaria de apagar ou deixar o que fosse preciso lembrar.
~~*~~
"Pois bem, meus caríssimos leitores! Já não é mais surpresa para ninguém que as duas famílias poderosas — e também (antigas)rivais — de Évora, se tornaram uma só. Gostando eles ou não, acabamos de nomeá-la como A Casa D'albartine! Depois de tantas tragédias, desejamos a todos eles, os tempos de paz!"
Colunista de O Semanário
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