As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
29 Capítulo 28 - O Resgate
Notas iniciais
Raul Casagrande
“Algumas marcas permanecerão para sempre, carregadas de culpa; ainda que vítimas do destino, nos flagelará.”
~~*~~
O cenário daquela tragédia era indescritível.
Toda a cidade fora atraída para o vilarejo e, entre curiosos e voluntários, estavam a Guarda e os agentes bombeiros tentando dissipar o fogo e conduzir os trabalhadores sem abrigo.
Joana estava inconsolável abraçada à Emília. Hora e outra corria desesperada rumo à fábrica dizendo que a irmã ainda estava viva e que precisava salvá-la, sendo impedida por algum militar ou pelos amigos.
Álvaro e Elisa ficaram por perto para tentar acalmá-la junto à sua irmã Emília, que também chorava desesperadamente.
Henrique e o pai tentavam reanimar Afonso que se encontrava em estado de choque, depois de pular nos escombros em chamas gritando pelos amigos, e sendo resgatado pelo irmão e os bombeiros.
— Tu também és culpado! — disse Afonso olhando para o pai, depois de horas sem mencionar uma palavra. Todos se surpreenderam com sua atitude.
— O que dizes? — perguntou Maurice entre o susto e a dúvida enquanto Henrique olhava atentamente o irmão. Ele não era assim, nunca fora. Sua personalidade pacata e semblante sereno pareciam ter desaparecido naquele momento.
— És tão culpado quanto o Barão! Se não tivesses expulsado Matias e sua família, não teriam vindo parar nesse vilarejo. Ninguém se importa! — gritou, se levantando e chamando a atenção das pessoas — Ele era pobre, mas tinha mais dignidade que muitos aqui. Essa corja imunda e hipócrita! — berrou num surto, fitando alguns nobres ali presentes.
— Acalme-se, irmão... — pediu Henrique — todos estão sofrendo.
— Nem todos! — gritou novamente — Amanhã, Matias será apenas um indigente enterrado que não dará mais despesas. Grande ironia! — E começou a gargalhar com sarcasmo — A burguesia tão honrada, sustentada à custa deles — e apontou os trabalhadores massacrados pelo acontecimento, esperando um lugar para irem.
— Quem dará lugar a eles agora, hã? Quem será o aristocrata imundo que lhe oferecerá abrigo? — continuava berrando olhando com ira para os homens. — O senhor... — apontou para o pai — não é melhor do que eles! Eu perdi dois amigos hoje, e eu preferia ter morrido com eles a viver com essa vergonha! Eu odeio todos vocês!
Maurice estava embasbacado com o filho, mas não disse nada. No fundo, sabia que ele tinha razão. Afonso saiu andando para longe sob olhos espantados.
O Magistrado apareceu para falar com Maurice:
— Senhor Visconde... sei que o momento é de grande lamento, porém, as tragédias não cessam por aqui.
— Valha-me Deus! O que dizes, homem?
— O lacaio do Duque de Carvalhal, convocado a buscar a senhorita D’alboquerque para realização de seu matrimônio, relatou-me a pouco que ela fora sequestrada horas antes e que um indivíduo o acertara na cabeça levando o carro com a moça.
— Céus! — exclamou Henrique passando a mão pelos cabelos. — O que resta acontecer ainda hoje? Meu pai, temos que ir atrás da moça. O senhor é seu tutor agora.
O Visconde nada pronunciou. Eram tantas ocorrências se desencadeando que poderia surtar a qualquer momento. A moça que fora levada estava sob sua responsabilidade. Sabia que devia tê-la acompanhando, mas acabou esquecendo.
— Senhor — disse Fernam, tirando-o de seus pensamentos —, estou indo à Fazenda D’alboquerque para decretar a prisão definitiva do Barão. A resposta real ainda não chegou, entretanto, o crime de hoje no vilarejo e a tentativa de atear fogo contra a vossa casa, já caiu sobre ele. O senhor me acompanha?
Ia responder quando Elisa veio correndo lhe falar:
— Meu pai, Joana fugiu a cavalo para a fazenda para matar o Barão!
— Cristo! Não há fim para tantos episódios? Vamos! Henrique, vá ter com o Álvaro e peça-o para levar Afonso e Elisa para casa. Fique e tome as providências necessárias para o enterro dos mortos.
— Irei, mas leve Fred com o senhor — sugeriu o filho.
Maurice colocou os novos acontecimentos à par de todos e então partiram para a fazenda.
~~*~~
— Onde você está, seu monstro! — gritou Joana entrando em todos os aposentos — Apareça! Temos contas a acertar!
O Barão surgiu na sala mancando com sua bengala. Quando ela o viu, avançou contra o pai, dando-lhe socos e tapas.
— Como pôde? Como pôde? Ela era só uma menina! — dizia chorando enquanto tentava acertar o pai com socos. Ele a segurava, mas sua fúria era imensa contra ele. O mordomo veio intervir.
— Senhorita, acalme-se! — E a tirou de cima do pai.
— Deixe-me! — Gritava – Esse assunto é entre esse verme e eu; eu vou matá-lo, assim como ele fez com minha irmã!
— O que diz? Estás louca?
— O único louco aqui é você! Sempre foi! Mas as suas maldades ultrapassaram todos os limites. Não posso deixar que viva para continuar com isso.
Joana entrou no gabinete do pai e pegou a arma que sempre ficava na última gaveta. O mordomo engoliu seco quando ela voltou à sala com a arma apontada para o patrão. Não sabia o que fazer.
— Guarde essa arma, senhorita Joana, não sabe o que estás fazendo.
O Barão permaneceu impassível.
— Estou muito certa. Tu não matarás mais ninguém. Fico imaginando como mamãe ficaria se estivesse aqui. Que desgosto seria. Mas de certa forma foi melhor assim, para não viver na angústia a que fomos submetidas todos esses anos. O senhor nunca nos deu amor, ao menos uma palavra de afeto. Mas podíamos viver com isso se não fosse tão carrasco a ponto de matar sua própria filha — falava com amargura e raiva.
— Adelaide morreu? — indagou, alarmado.
Joana riu de forma tão ferina que o assustou. Seus olhos eram assustadores.
— O senhor me dá nojo! Não percas seu tempo atuando. Tu mandaste atear fogo no vilarejo sabendo que Celeste defenderia aquele povo até a morte... e foi o que ela fez... — e soluçou alto — Como pôde fazer isso? Ela era só uma criança... — sussurrou em meio ao choro agoniado.
O velho arregalou os olhos.
— C-como? Celeste... estava lá?
Joana projetou a arma para frente, para atirar, enquanto lágrimas rolavam sem parar em sua face. Estava cega de ódio.
Emília entrou na sala nessa hora e disse:
— Eu sei que ele merece Joana, mas deixemos a justiça condená-lo. Antes socorramos nossa irmã Beatrice, que estás nas mãos de Diogo. Ele a levou. Precisamos encontrá-la.
Joana olhou para a irmã ainda com a arma direcionada para o pai.
— Por favor, Jô... — e abriu os braços acolhedores para ela. Sabia entender seu tormento; aprenderam há muito tempo a lerem umas às outras.
Joana deixou o revólver cair.
— Por que não morremos todas, Mila? Por que mamãe não nos levou com ela? É melhor morrer do que viver assim...
Emília correu e abraçou-se com ela, deixando, mais uma vez, lágrimas doloridas se derramarem.
O Barão estava pálido como se tivesse visto um fantasma. Lembrou-se dos pesadelos constantes que tivera com a falecida esposa. E agora vinha tudo à tona como se despertasse para a realidade. As pérolas em suas mãos. O rosto de tristeza e mágoa. As lágrimas. O fogo.
O Magistrado, o Visconde e Frederico entraram na sala.
— O senhor está preso, Barão D’alboquerque! Sob as acusações de tentativa de assassinato à família Lamartine e as mortes que ocorreram no vilarejo e em uma de suas fábricas, a mando do senhor, inclusive de sua filha Celeste D’alboquerque.
— Não! — caiu prostrado no chão e lamentou — Não! Eu não... Celeste…
Dois militares seguraram-no pelos braços.
— Me perdoe Amélia...me perdoe... — murmurava.
— Devemos o quanto antes ir ao resgaste de Beatrice, não sabemos o que Diogo é capaz de fazer — disse Frederico.
— Como sabem ser ele o mentor disso? — indagou o Barão a eles.
— O lacaio do Duque e a criada da casa confirmaram ao vê-lo subir na carruagem. Não sabemos onde a levou. Talvez o senhor possa nos ajudar. Uma boa ação antes de vossa condenação não faria mal — informou Fernam.
— Ele pode fazer mal a ela. Está fora de si. Amadeo disse-me que ele já a observava há tempos — disse Frederico.
— Isso não pode — agitou-se o Barão. — Ele não pode... eles...
— São irmãos. — Completou Emília e todos olharam para ela, incrédulos, inclusive o seu pai.
— O que estás dizendo? — Joana perguntou — Que tipo de cogitações são essas?
— Diogo é filho do Barão. Tenho provas suficientes para confirmar isso, porém, não temos tempo. Diogo não sabe, por isso sempre teve paixão por Beatrice.
— Santo Deus!, exclamou Maurice pela primeira vez. — Diga onde eles podem estar, canalha!
— Talvez... numa propriedade que lhe cedi para além das terras de Beja . Não sei, não sei! Podem estar em qualquer lugar! — respondeu o velho.
— Mas isso é quase meio dia de viagem?!
— Então vamos o quanto antes! — disse Frederico — Já pedi para avisar Raul. Certamente quererás ir conosco, já que é o noivo.
— Levem-no para o carro! — ordenou Fernam aos militares que seguravam o D’alboquerque — Acompanharei os senhores, pois, Diogo será preso também. Estás envolvido em muitos crimes.
— Filho de canalha, canalha é. — comentou o Visconde, nervoso e se retirou.
Emília foi até seu quarto e pegou a caixinha com as cartas e a correntinha de ouro com o crucifixo. Elas valiam tudo naquele momento.
~~*~~
— Diogo... que lugar é este? — perguntou Beatrice, com medo, enquanto ele a levava para dentro de uma casa no meio de um campo vasto e deserto.
Ele nada respondeu. Apenas verificava se cada janela e porta estavam trancadas.
— Diogo... — Beatrice insistia num choro suplicante — eu preciso voltar... preciso...
— Se disseres que precisas voltar para se casares com aquele idiota, me pagarás! — gritou — Eu te avisei, Beatrice, e não me deste crédito. Tu és minha e não dele!
Ela sentou-se numa cama que havia no ambiente e escondeu o rosto entre as mãos em desespero. Sabia que ele era capaz de detê-la com violência se quisesse.
— Não chores! — ordenou — Devias me agradecer por eu tê-la salvado de um casamento infeliz! Eu serei o marido perfeito para você.
Aproximou-se dela e ajoelhou-se à sua frente.
— Olhe para mim... — e tirou as mãos que encobriam o rosto molhado — Não quero lhe fazer mal. Eu nunca a machucaria. Só quero que me ames como eu a amo.
Ela olhou para ele. Não conseguia sentir ódio ou coisa assim. Gostava dele, mas agora tinha sentimentos por Raul. Na verdade, teve pena de Diogo ao ver nos seus olhos a carência de amor. Ela o entendia. Eram carentes de um sentimento que nunca ninguém lhes dera. Sua mãe as amara, tinha certeza disso, mas se fora há tanto tempo... Diogo não tinha família.
— Diogo — sussurrou ela —, sabe que tenho apreço por ti, no entanto, não podemos ficar juntos. Estou prometida a outro e...
Ele levantou-se em súbito e gritou:
— Não! Não podes amá-lo! Foste minha primeiro. Tivemos intimidades que não tiveste com ele, ou tiveste?
— Não! Claro que não. Mas o que fizemos foi errado... fomos insensatos!
— Não digas isso. Fomos movidos pela paixão, pelo amor que sentimos um pelo outro. Diga-me, tu me amaste ao menos um pouco?
— Diogo... sempre fomos amigos, mas depois que partiu, voltaste diferente. Não eras mais aquele menino doce que conheci. O que aconteceu contigo?
Ele olhou para um ponto específico do quarto e colocou as mãos no bolso. Por um momento pareceu se lembrar de algo, mas logo se dissipou e suas feições se fizeram duras novamente.
— Não tentes distrair-me. Não respondeu minha pergunta! Você o ama? Queres voltar para ele, Beatrice? Responda-me!
— S-sim — gaguejou. — Por favor.
A ira tomou conta dele e a atacou. Segurou-a na cama com seu corpo por cima do dela.
— Pare de chorar! Se casarás comigo, serás minha. Olhe para mim, olhe! — e ela a fitou com seus olhos verdes — Não vês que não quero nada dessa vida a não ser tê-la comigo pelo resto dos nossos dias? O que sinto por você, Beatrice, pode parecer loucura, mas nada mais é que meu medo de perdê-la. Eu... pedi ao Barão para dar-me sua mão, mas, ele recusou-me — seus olhos estavam úmidos e transparecia tristeza. — Eu nunca pedi nada, a única coisa que desejei foi seu amor e, por um momento, achei que o tivesse. Sei que me desprezas, por tentar tomá-la à força num momento de desespero, mas se eu deixá-la partir, estou certo de que a vida não valerá mais a pena. Darei cabo dela.
— Não, Diogo, não digas isso! — e o abraçou — Não o desprezo. Apenas sei que o tempo te mostrará que esse sentimento nada mais é que o desejo de posse. E então estaremos condenados para sempre a viver o arrependimento.
— Engana-se — apertou-a mais contra si acariciando seus cabelos —, tal sentimento eu o tenho há muito e é a única coisa que acalenta esse ódio. Eu esqueço de tudo quando estou com você. Salva-me, Beatrice! — suplicou com olhos lacrimejantes que a moça não suportou e o beijou, carinhosamente.
Ele ainda era bom, em algum lugar dentro dele. Mas estava dividida por causa de Raul. Seu coração estava em conflito, mas precisava mostrar a Diogo, naquele momento, que ele podia ser amado.
O beijo era diferente dos que compartilharam antes. Esse era terno e cheio de carinho, sem malícias. Diogo a beijava com doçura e ela retribuía sem pensar no que poderia ocorrer. Deveria escolher entre ele e o noivo, e essa decisão parecia ser a coisa mais difícil a se fazer.
Ele deitou-se ao lado dela, na cama, e a puxou para mais perto. Ficaram se olhando e se acariciando.
Após muitos minutos assim, o sono e o cansaço os tomou e, antes de adormecerem, ele sussurrou para ela:
— Não me deixe...
~~*~~
O trabalho no vilarejo estivera árduo nas últimas horas. Henrique conduzia tudo e ajudava na retirada dos escombros a fim de achar vestígios de corpos. Alguns foram retirados do vilarejo e depositados em um local específico. A Guarda já havia conduzido muitos moradores a um galpão, onde deveriam ficar até a decisão de suas vidas. No entanto, foi necessário deter alguns por causa da revolta da morte de tantos consortes, principalmente Matias e Celeste. Certamente esse ocorrido suscitaria um levante daquele povo, a Guarda precisava ficar atenta.
Mas o trabalho mais difícil era identificar os corpos retirados da fábrica. Bem verdade que eram pessoas que não teriam o luxo de ter um nome em suas lápides. No entanto, havia Celeste, e esta sim, deveria ser identificada. Não apenas por ser a filha do Barão D’alboquerque, mas porque era considerada, agora, uma mártir, que deveria ser lembrada por seus atos de coragem e desejos de justiça.
Contudo, a situação dos corpos, dificultava o trabalho dos agentes. Não havia sequer algo que identificasse a tal moça.
— Senhor Lamartine — chamou um dos bombeiros —, precisa ver isso. — E apontou para um volume em meios aos destroços.
Pareciam dois corpos abraçados, apesar de carbonizados. Henrique aproximou-se e olhou de perto. Não era algo bom de se ver, mas indispensável. Em uma análise mais minuciosa dos cadáveres, ele reparou algo reluzindo na parte superior de um dos corpos. Sugeria uma joia envolvida no que parecia ser o pescoço da vítima. Agachou-se e ao olhar na parte debaixo onde a gargantilha pendia, pode ver uma pérola encaixada nela. Então soube, era Celeste, e que morrera abraçada a Matias.
— É ela – suspirou Henrique ao constatar o fato ao agente. — Retire-os e tome as devidas providências, mas não desconsidere o cadáver junto a ela. Este também deverá ser lembrado.
— Sim, senhor.
Cansado, subiu em seu cavalo e galopou até o hospital. Dona Hilda, a ex-governanta, ainda não sabia do ocorrido. Precisava avisá-la e também ao Dr. Fontana que, além de ser grande conhecido da família, era o médico que deveria estar preparado para quaisquer causalidades.
— Senhor Lamartine! — o médico saudou-o, afobado — Diga-me que as notícias ocorrentes não são verdadeiras! A senhorita Celeste... o vilarejo...
— Sim, doutor. Infelizmente é verdade! Olhe meu estado — e mostrou a roupa — estava lá até agora. O cenário nada mais é do que tristeza e miséria.
— Não pode ser... isso é terrível! Eu sempre soube que essas moças eram sofridas, mas morrer assim? Não, não. Isso é abominável! — O médico andava de um lado a outro desolado.
— Vim avisar Dona Hilda. Acredito que ainda não saiba.
— Estou certo que não. Não saiu do quarto, a pobrezinha! Estavas tão feliz com o retorno de uma e agora se desolará com a partida da outra...
Henrique virou-se para ele no mesmo instante.
— O que o senhor disse?
— Doutor Fontana... — interrompeu D. Hilda entrando no recinto — Senhor Lamartine, que bom que estás aqui!
— Dona Hilda. — fez o gesto tradicional.
— Senhor, acredito que devas ir até o quarto da senhorita Adelaide enquanto eu darei as últimas notícias a senhora Hilda... — pediu o médico.
Henrique apenas balançou a cabeça e precipitou-se ao quarto da moça. A conversa não seria nada fácil.
Chegando próximo à porta, ouviu uma voz conhecida. Era a assistente que sempre conversava com Adelaide, mas ouviu também um murmúrio baixo e seu coração acelerou. Seria verdade?
Adentrou devagar e a viu. A assistente incentivava-a a beber algo em uma xícara. Ela estava de volta. Adelaide.
A assistente o avistou e sorriu. Adelaide virou-se na mesma direção.
— Adelaide?! — chamou, como se quisesse acreditar no que via.
Ela nada disse, apenas olhou-o, admirada. Não esperava vê-lo ali.
— Vou deixá-los — disse a outra moça e saiu.
Adelaide tentou dizer algo, mas a voz falhava.
— Não se esforce — se aproximou e beijou-lhe a mão. — Preciso lhe dizer tantas coisas... mas, não sei como começar...
Estavam muito próximos. Ele sorriu para ela e ela retribuiu.
— Eu fui tolo... — recomeçou ele, mas foi interrompido por ela, quando esta colocou suavemente uma das mãos em seu rosto.
— Eu a amo... — confessou — desde o dia em que eu a vi pela primeira vez, eu a amo Adelaide; eu não queria admitir. Fui tolo! Se... ainda me quiseres, se me amas, peço-te, case-se comigo. — declarou com medo da reação dela.
Ela estava assustada tentando assimilar aquelas palavras que tanto quisera ouvir. Então respondeu:
— Sim… claro que sim.
Henrique não se conteve e selou os lábios da amada em um beijo suave; depois encostou sua testa na dela.
Adelaide lembrou-se do sonho que tivera com a irmã.
— Eu… preciso… saber...
Ele esperou.
— Minhas... irmãs...
Henrique não queria preocupá-la. Acabara de acordar. Não queria que ela sofresse mais, apesar de que não havia como esconder isso por muito tempo.
— Celeste... — sussurrou, se esforçando para pronunciar as palavras e ele se assustou. Como podia saber? — no sonho... ela partia...
Ele a ouviu, cabisbaixo.
— Ela... está bem... não está?
Ele não pôde encará-la, depois de alguns segundos, balançou a cabeça negativamente sem dizer nada.
Um choro dolorido dela e ele amaldiçoou o Barão internamente por toda a dor que lhe causara, desde que era apenas uma criança.
Então ele a abraçou e a aconchegou em seus braços, prometendo que faria o possível para fazê-la feliz a partir dali.
~~*~~
Na Casa Lamartine, não havia diferença de ânimos. Cecília e Elisa choravam sem cessar, no colo de Eleonor enquanto ela, sem sucesso, tentava tranquilizá-las.
Álvaro não conseguiu achar Afonso. O procurou pelos arredores do vilarejo, mas sem êxito. Preocupou-se. A atitude dele sobressaltara a todos, sobretudo ao pai.
Velas acesas e orações compunham a casa. Até mesmo os empregados rezavam para as almas dos que foram e para trazer de volta, e sem danos, os que ainda estavam fora.
— Minha senhora — entrou uma criada —, vossa nora não se sente bem.
— Oh céus, vou vê-la já. Todos esses acontecimentos não são bons para seu estado.
Antes de subir para vê-la, a porta se abriu e Afonso entrou, com um semblante transtornado. Ele passou pela sala sem nada dizer enquanto olhos espantados o seguiam. Sua mãe levou a mão à boca num susto. Não era o mesmo de antes.
— Filho...
Ele não a olhou. Subiu as escadas e desapareceu casa adentro.
— Minha mãe, Liana não está bem! — Pedro veio lhe avisar, aflito.
Liana estava sentada em uma poltrona, com dores. Recebera a notícia sobre as irmãs horas antes e desde então, sentia-se indisposta.
— Venha, filha, você precisa repousar. Já mandei chamar o doutor Fontana — acalentou Eleonor, ajudando-a a se levantar para deitar-se na cama e ao ficar de pé, Pedro observou uma mancha escura no lugar onde ela estava sentada. Era sangue.
~~*~~
Diogo acordou com um barulho de carruagens se aproximando e uma movimentação ao redor da casa.
— Diabos! Como nos encontraram?
Não podia perder Beatrice. Se eles o pegassem, iria preso e ela se casaria com outro. Não podia conformar com isso.
— Beatrice, acorde, precisamos partir — sussurrou, sacudindo-a um pouco.
— Beatrice! — Uma voz masculina a chamou do lado de fora — Você está aí?
— Raul… — reconheceu a voz dele
— Shhh, não grite! Sairemos pelos fundos e fugiremos.
— Diogo... eu preciso ir... me deixe ir — suplicou e ele irou-se.
— Não! Você prometeu. Não pode me deixar agora!
— Escute-me, por favor. Eu intercederei por você. Pedirei para que não sejas condenado.
— Senhor Avelar! Se não abrires a porta, a forçaremos. — Ouviu outra voz do lado de fora. — Sabemos que estás com a senhorita D’alboquerque, deixe-a sair.
Ele tomou-a pela mão e caminhou para a porta dos fundos, puxando-a.
— Não, Diogo, deixe-me!
Ele não a atendeu. A porta da frente foi arrombada e os militares adentraram. Diogo puxou Beatrice para si tapando a boca dela e se esconderam em outro cômodo.
Os gritos do Magistrado e do noivo ecoavam pela casa. Diogo fez sinal para que ela fizesse silêncio e foi até uma janela. Abriu-a e disse:
— Venha, vamos pular.
A moça balançou a cabeça negativamente, então ele a puxou levando-a até a janela.
— Eu vou pular e logo em seguida você também. Amparar-te-ei lá embaixo, está bem? — inquiriu ele.
Ela nada respondeu. Não sabia como agir. Horas antes desejou ficar e cuidar dele, mas ao ouvir a voz do noivo, novamente o conflito a dominou.
Diogo subiu no parapeito da janela e pulou. Beatrice olhou para baixo e ele estendeu os braços para ela. Ficou em dúvida. Demorou-se, fitando-o nos olhos e os dele eram quase suplicantes.
— Vem, Beatrice. Você prometeu… não me deixe agora. Fiz tudo por você…
Começou a pensar que ele precisava de alguém que o amasse de verdade e cogitou se conseguiria amá-lo a ponto de abandonar tudo e arriscar. Não pensou mais. Subiu com dificuldades no parapeito da janela e pulou nos braços dele.
Agarraram-se as mãos e saíram correndo em direção a um bosque que ficava ao fundo da casa. Mas antes de chegarem lá, dois militares saíram do meio das árvores. Do outro lado estavam o Magistrado, Frederico, Raul e o Visconde.Estavam cercados.
— Deixe-a vir, Avelar! Acabou pra você — gritou o noivo da moça.
— Ela nunca será sua! Ela me escolheu — rebateu. — Deixe-nos ir e não farei mal a ela.
— Não estás em condições de negociar, senhor Avelar. Solte a moça! — disse o Magistrado.
E quando viu que os militares avançavam contra ele, tirou uma faca do bolso e atraiu Beatrice para si colocando-a em seu pescoço.
Joana soltou um grito e disse:
— Não, Diogo! Se verdadeiramente a ama, deixe-a ir!
— Não posso! — respondeu transtornado — Se eu não posso tê-la, não serás dele também.
Beatrice chorava.
Os militares apontaram as armas para ele e nessa hora Emília interveio:
— Esperem! Eu preciso falar com ele. — E olhou para Diogo — Diogo... não podes ficar com Beatrice, pois um infortúnio do destino os impede. Se continuares com isso, serás condenado para sempre pela justiça divina!
Ele riu com raiva e disse:
— Não tentes persuadir-me, senhorita Emília. Guarde seus artifícios, de nada servirão. Nada que disseres me farás desistir.
— Tu és também uma vítima desse dissabor. Não sabes toda a história do seu passado.
Ele titubeou e depois esbravejou:
— O que dizes? Não sabes nada de mim!
— Reconhece isto? — mostrou-lhe a corrente que fora de sua mãe, aproximando-se devagar. Ele a olhou e empalideceu quando um lampejo de reconhecimento brilhou em seus olhos.
— Era de sua mãe, não era? Você costumava brincar com isto quando estava no colo dela.
— Como sabes disso? Onde a conseguiu? — perguntou raivoso.
— Sua mãe, há muitos anos, escreveu para a minha, pedindo auxílio. Ela era uma trabalhadora das fábricas do Barão e não queria perder o filho para ele.
— Blasfêmia! Meus pais eram aristocratas. Meu pai morreu em uma emboscada e minha mãe, logo depois, de desgosto. O que falas não tem fundamento.
— Não, Diogo — rebateu calmamente. — Sua mãe chamava-se Odília e todos os relatos estão no diário de minha mãe e cartas que elas trocavam. Esse crucifixo foi dado como forma de gratidão, por minha mãe ter ajudado a sua a escapar das mãos do carrasco que também lhe deu a vida. Ela não queria te perder para ele, mas ao tentar fugir, foi pega e morta a mando de seu pai, o Barão.
Ele cambaleou e olhou para Beatrice, que também estava chocada com tal revelação.
— És filho do Barão, Diogo. És nosso irmão — completou Emília.
Ele soltou Beatrice, olhando para ela como se fosse uma assombração. A moça, por sua vez, assustada, agachou-se ao chão e deu um grito desesperado.
Diogo passava as mãos pelos cabelos atormentado:
— Não! Não pode ser... não é verdade!! Blasfêmiaa!! — gritou. — Estás mentindo pra me fazer desistir!
Joana já havia se aproximado de Beatrice, amparando-a. Seu noivo também foi ao seu encontro.
— Nunca mentiria algo tão grave, Diogo. Aqui está a carta que comprova. Leia — E estendeu o braço para entregá-la a ele, e junto dela, a corrente de ouro — pegue a corrente também, ela te pertence.
Ele a pegou, trêmulo, e pôs-se a ler a carta.
Estava totalmente encolerizado; não parava de tremer. Ao acabar de ler olhou, mais uma vez, para Beatrice, que choramingava no colo da irmã, enquanto seus cabelos eram acariciados pelo noivo.
Ela não podia ser dele. Eram irmãos. Ele beijara e tocara a própria irmã. E ainda a amava como um homem ama uma mulher. Por que a vida fora tão cruel com ele?
O Magistrado ordenou que os militares o prendessem num momento de descuido. Ele resistiu, mas por fim, conseguiram dominá-lo. Sua raiva era imensa. Rosnava como um cão.
— Ele a matou? — perguntou enfurecido à Emília. — Ele matou minha mãe?
— Tudo indica que sim. Mas somente o Barão pode confirmar.
Nesta hora, Beatrice detectou nos olhos dele toda a desesperança. A agonia e o ódio inexplicável que ele sentia todo esse tempo era algo que estava adormecido em seu ser. No fundo, ele sabia que havia algo estranho em seu passado, e temia.
Ao passar por ela, segurado por dois militares, deteve-se. E com voz angustiada, falou:
— Que terrível destino o meu! Não poder viver o único e verdadeiro amor que senti em toda a minha vida. Tu és minha irmã!? — saiu mais como uma pergunta dolorosa — Ainda assim, não conseguirei arrancar de mim o que sinto por você. Não quero! Se és pecado mortal, irei para o inferno com ele!
E foi levado, deixando-a com o coração dilacerado.
Certas marcas permanecem para sempre. A culpa de ter desejado o homem errado. De ter amado seu próprio sangue, com amor pecaminoso, mesmo que não fosse culpa de nenhum dos dois.
~~*~~
— Senhor, chegou esse comunicado para o senhor — informou o mordomo ao Duque Carvalhal. — O mensageiro disse que é de suma urgência.
Luiz Coutinho pegou a carta e a abriu.
Seus olhos foram se arregalando na medida em que passavam pelas palavras escritas.
Era uma convocação do Conselho para comparecer em uma assembleia real sob a acusação de crimes de traição à coroa.
~~*~~
Ao descer na porta da Guarda, Diogo se deparou com uma multidão que logo o reconheceu.
— Assassino! Assassino! — começaram a gritar e a investir contra os militares que o seguravam.
— Afastem-se! — gritou o Magistrado.
— Você matou Matias! Matou Celeste! Mereces morrer também! Justiça! — outras vozes ressoavam.
— O que esses idiotas estão dizendo?
O Magistrado o olhou sério e respondeu:
— Acredito que não apenas tenha conhecimento da tragédia no vilarejo, como também fora o mandante de tudo, senhor Avelar, não se faça desentendido.
— Mas a senhorita...
— A senhorita D’alboquerque também morreu.
Celeste morrera? Mais um crime no seu rol de entrada para o inferno, pensou.
Foi levado pelo corredor. E enquanto caminhava, sua raiva crescia.
A maioria das celas estavam vazias, mas notou, ao passar de frente a uma delas, um indivíduo sentado em seu interior. Era ele, o Barão. O homem que a vida inteira tivera devoção, e que agora, tudo o que sentia era ódio mortal.
O velho levantou o olhar cansado e o observou.
Diogo virou o rosto em sua direção, encarando-o, enquanto passava. Os olhos negros e gélidos do filho, o fizeram estremecer.
Fale com o autor