As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
28 Capítulo 27 - Celeste D'alboquerque
Notas iniciais

Celeste, o altruísmo em você desperta admirações. Gosta de ajudar e seu coração disposto não mede esforços. Nasceste para um grande propósito e o saberá no momento de sua escolha. Será a decisão da sua vida e um legado.
Carta da baronesa às suas filhas
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— Isso é tão triste e emocionante ao mesmo tempo, Emília... — dizia Beatrice chorando junto a Cecília e Celeste, após a irmã ter lido a carta que sua mãe deixara a elas.
— Ela deixou uma mensagem para cada uma de nós e pelo que podemos ver, algumas coisas já aconteceram... — observou Cecília.
— Como assim? — indagou Celeste.
— Bem, ela avisou sobre Liana se precipitar e sofrer com certas atitudes. Acho que ela estava querendo dizer sobre a fuga e o que aconteceu com Pedro. Para Adelaide, mamãe disse que ela viveria um grande amor, mas as coisas seriam difíceis no início, como está sendo agora...
— Sim, faz sentido, Ceci — concordou Emília. — E a mim ela disse que segredos me seriam confiados, mas que seriam revelados na hora certa.
— Que segredos, Mila? — quis saber Beatrice.
Emília suspirou e respondeu:
— Há muitos, mas o que posso dizer nesse momento é que mamãe e o Visconde se amaram no passado, porém, não puderam ficar juntos...
— Isso não é possível! — se espantaram.
Então a irmã discorreu toda a história desde que D. Hilda lhe entregara o diário, exceto a parte sobre Diogo e a mãe dele. Seu coração dizia que ainda não era o momento certo.
Beatrice estava às portas de seu casamento e isso poderia trazer consequências. Entendeu quando a mãe disse na carta que alguém poderia se aproximar dela e que não seria algo bom; a angústia a tomaria. Era Diogo, seu irmão. E ela, com certeza, se sentiria culpada por ter se deixado levar. Isso era pecado. Era contra a natureza.
— Meu Deus! — exclamou Cecília — Nunca imaginávamos algo assim! Pobrezinha de mamãe... não foi feliz... — lamentou.
— De certa forma, sim, Ceci. Ela sempre mencionava no diário, e também nas cartas, que éramos sua maior felicidade. Ela pode ter sofrido, mas nunca deixou de nos amar – respondeu Emília.
— Ela disse que eu terei que tomar uma decisão. O que será? — Celeste se perguntou.
— Não sei, minha irmã, mas saberás na hora certa.
As quatro ficaram um tempo pensando na história do passado. Celeste rompeu o silêncio ao se lembrar de algo:
— Hoje haverá uma reunião na casa do Marquês para tratarmos sobre o início dos levantes. Os trabalhadores das fábricas estão incitados por causa das maldades do Barão e de seus capatazes, principalmente pelo o que Diogo fez a Matias.
Beatrice balançou a cabeça e disse:
— Fico pensando o porquê de Diogo ter ficado assim, tão maldoso. Lembro-me de que era um bom menino...
— Influências, minha irmã — disse Emília —, mas também escolhas. Ele traçou o próprio destino quando quis ser igual ao... — ia dizer “pai”, mas consertou — Barão.
— Celeste, mas se você for a tal reunião, não poderás assistir a minha cerimônia — questionou Beatrice.
— Chegarei a tempo minha irmã, prometo. Aliás, eu tenho sido a única privilegiada por assistir os casamentos de minhas duas irmãs — sorriu fraco.
— Eu queria tanto ter ido à cerimônia de Liana... — lamentou Emília.
— Eu também — responderam as outras duas. — Mas sei que estás bem e que foi o correto a se fazer. Fico feliz por ela ter se casado com o amor de sua vida. Espero que eu tenha a mesma sorte — completou Beatrice.
— Que bom que aceitara o senhor Raul. Serás feliz e ele será um marido excelente! — disse Celeste pegando na mão da irmã. — Tenho algo para avisá-las: o Visconde virá hoje com Frederico e Henrique para nos buscar, após o casamento de Beatrice. Estejamos preparadas, não será algo fácil.
— Nos buscar? — inquiriu Cecília — E para onde iremos? Papai não permitirá e ele… ficará só?
— Ceci, escute-me, papai não está em suas faculdades mentais. Ele não mede as consequências em maldades a qualquer pessoa que não obedeça às suas ordens. Isso tem que cessar! — a irmã caçula concordou com a cabeça — Iremos para a Casa Lamartine. O Marquês propôs levar as questões acusatórias contra o Barão e o Duque, ao Conselho Real. Pedirá uma audiência; se tudo der certo, logo serão presos e exilados.
Uma das criadas bateu à porta do quarto para informar que o Barão havia chegado e solicitava a presença das filhas. A preocupação no rosto da serviçal era evidente.
O casamento aconteceria na Casa Gomes Carvalhal já que Raul era sobrinho do Duque Luis Coutinho. O lacaio levaria Beatrice e as irmãs no horário combinado. Os noivos partiriam logo após a cerimônia, mesmo contra a vontade da noiva. Ela não queria viajar tão cedo por causa de suas irmãs. O momento era tenso, mas Emília conseguiu convencê-la de que tudo ficaria bem e que merecia ser feliz.
— Diga a ele que estamos todas aqui, Lucy. Pensaremos em algo até a hora da cerimônia — disse Emília.
— Sim senhorita, mas… e se ele quiser ver a senhorita Liana também? — a criada perguntou.
— Então diremos que ela está indisposta.
Lucy acenou e saiu do quarto.
— Tomara que o Visconde venha logo, estamos ficando sem tempo e argumentos — disse Celeste. — Vou me preparar para a reunião, Amadeo me dará cobertura para sair; voltarei logo.
~~*~~
— Tens certeza do que estás me dizendo, Diogo?
— Sim, senhor.
— Isso é absurdo! Eu mato cada um desses ingratos — vociferou Rui após saber da intenção do povo do vilarejo.
— Mas o problema maior não é esse, senhor — incitou Diogo. — Suas filhas, mais precisamente as senhoritas Celeste e Joana, estão por trás disso. Soube de fonte segura que Celeste faz visitas ao vilarejo já há algum tempo e tudo indica que estás afeiçoada por um dos trabalhadores.
— O quê? Essas ingratas só me dão desgostos desde que nasceram! Por isso ficarão trancafiadas naquele convento para o resto da vida! — deu um soco na mesa.
— Os Lamartine também estão ajudando, assim como o filho do Duque.
— Só pode ser maldição! Já está tudo preparado para levá-las, Diogo?
— Sim, senhor. Logo após o… casamento de Bea... da senhorita Beatrice — engoliu em seco —, as outras serão levadas sem aviso.
— Ótimo! Não deixarei que participem do casamento da irmã. Nem que se despeçam dela, como punição. Liana ficará presa em seu quarto até o casamento. O Duque terás que cumprir a sua palavra e conter seu filho de uma vez por todas. Esse casamento tem que sair!
— Mas a senhorita Liana não se encontra nesta casa, senhor. Está na casa dos Lamartine.
— Não pode ser! Ela está em seus aposentos!? — berrou.
— Seria bom verificar, pois desde que o filho do Visconde saiu do hospital, vossa filha o acompanha.
— Maldição! Maldição! Não tenho mais controle da minha própria casa? Elas me pagam!
Saiu mancando apoiado na bengala, gritando palavrões. Mas de repente, virou-se e olhou para Diogo. O rapaz se assustou, em seguida o velho ordenou:
— Você vai fazer o seguinte, filho. Junte seus homens e...
E deu todas as coordenadas enquanto os olhos de Diogo brilhavam de satisfação. Ele faria sim, o que o seu tutor pedia, aliás, com grande prazer, entretanto, ele também tinha seus próprios planos e aproveitaria o momento para colocá-los em prática.
~~*~~
— Estamos aqui para falar com o Barão, anuncie nossa chegada — disse o Magistrado Fernam ao mordomo da Casa D’alboquerque. Este arregalou os olhos, pois, junto com ele estavam também o Visconde e seus filhos Frederico e Henrique.
— S-sim senhor — e saiu para chamar o patrão.
Rui não pôde acreditar no que via quando entrou mancando pela sala.
— Mas é muita audácia! Como ousa aparecer na minha casa? — gritou o velho ao rival — Põe-te daqui para fora ou eu mato você e toda a sua raça!
— Alto lá, senhor Barão! — disse o Magistrado — Eu sou a lei aqui e diante das circunstâncias, não seria bom ameaçar ninguém. Tens uma enorme lista de crimes envolvendo o seu nome.
— E com que provas, hã? O senhor não passa de um traidor! Se eu cair, o senhor também cai. Não ousa me ameaçar! — gritou o D’alboquerque.
— Cale essa boca maldita! — retrucou o Visconde — Viemos aqui buscar suas filhas. O senhor acaba de perder a autoridade sobre elas.
O velho começou a rir incontrolavelmente.
— Não podes fazer isso, seu traste! Queres vingar-me pelo passado, levando-as? Pois digo que chegou tarde. Elas não estão mais aqui!
— Estamos sim — disse Emília entrando na sala com Cecília e Beatrice. Celeste já havia saído às escondidas.
— Como ousa sua... — rosnou o pai e Emília o interrompeu.
— Chega, Barão! Chega de tanta maldade! Nós iremos com o senhor Visconde — disse decidida.
— E com que autoridade?
— Com a minha! — respondeu o Magistrado — Esse documento me dá pleno poder de tirar suas filhas de sua tutela. Há um laudo médico que prova sua insanidade mental. A guarda de suas filhas passará ao senhor Visconde, já que ele a solicitou, até o casamento de cada uma delas.
— NUNCA!!! — seu grito ecoou pela casa — Eu sou o Barão de Évora. Sou poderoso! Não podes contra mim!
— E eu sou a lei. Já está decidido! O senhor ficará preso e vigiado em domicílio até a decisão real sobre seu destino. És uma ameaça para todos nós.
Rui estava desnorteado. Sentou-se com dificuldade em uma das poltronas. Isso não podia estar acontecendo. “Eu sou o poderoso!” murmurava.
Cecília observava o pai como o coração apertado. Apesar de tudo, ainda tinha esperanças que ele se arrependesse e se tornasse um bom homem, algum dia.
~~*~~
— Eu não posso ir, Mila — disse Beatrice —, casar-me-ei dentro de poucas horas. O que direi a Raul se eu não aparecer?
— Sei que prometemos vir após seu casamento, senhorita, mas não podíamos mais esperar. Temíamos a vida de vocês nas mãos dele — disse Frederico, indicando o pai delas.
— Sei bem, senhor Lamartine, e agiste corretamente. Agradecemos de coração. Porém, meu noivo me espera e logo estaremos de partida. Ficarei mais tranquila ao saber que minhas irmãs estarão bem — respondeu Beatrice.
— Beatrice, tem certeza? — indagou Emília — Ele pode tentar puni-la. Diogo pode…
— Não o fará. Ele precisa desse acordo com a família Carvalhal, não me farás mal. Não se preocupem, breve estarei indo para a Casa do Duque. Peço Lucy para me acompanhar.
Se abraçaram.
— Tão logo estaremos juntas de novo — disse Cecília em soluços.
— Sim, estaremos, minha irmã. Fiquem bem, eu também estarei.
Foram saindo e o mordomo levou as malas para a carruagem. O Barão olhava tudo, raivoso.
— Isso não ficará assim! — esbravejou — Sofrerão as consequências dessa traição!
Todos deram as costas rumo às carruagens e o Visconde o provocou antes de partir:
— Talvez quisesse saber que pelo menos três de suas filhas se tornarão senhoras Lamartine. Aliás, uma já se tornou e carrega o sangue Lamartine no ventre.
O outro o olhou com tanto ódio, que tinha certeza que sofreria um ataque ali mesmo. Suas mãos tremiam. Tentou levantar-se. Queria muito pegar sua arma e matá-los ali mesmo. Todos eles.
— Me ajude, seu imprestável! — gritou ao mordomo que correu para ajudá-lo.
O Visconde sorriu vitorioso ao ver seu rival começar a pagar por todas as suas maldades. A melhor vingança não era alimentar a eterna rivalidade entre as famílias, mas sim, se aliançarem. Isso era o maior pesadelo do Barão. Agora ele sabia.
~~*~~
— Fred demora — disse Elisa abanando seu leque.
Todos já estavam presentes na sala do marquês, esperando o rapaz para a reunião.
— Será que dera algo errado? — afligiu-se, Celeste.
— Não penses nisso. Logo chegarás e teremos boas notícias.
Joana andava de um lado a outro, nervosa. Não com a reunião, mas pelo que pudesse estar se passando na fazenda.
Frederico foi anunciado.
— Graças a Deus! Como foi tudo? Conte-nos!
— Vossas irmãs já estão acomodadas na Casa Lamartine com exceção de Beatrice — esclareceu.
— Oh céus! Por quê? — Celeste quis saber.
— Serás desposada dentro de poucas horas. Ela não quis adiar, o Barão não iria desfazer um negócio desses.
— Isso é verdade. Só espero que tudo ocorra bem...
— Pedi a Amadeo para nos deixar informados.
— Não vejo a hora disso tudo acabar... — Joana disse suspirando.
— Faço votos de que acabe logo, senhorita D’alboquerque — disse o Marquês a ela —, ajudarei no que for preciso. Ao findar dessa reunião, estarei em viagem para o Brasil para tratar os assuntos diretamente com o imperador. A resposta quanto à minha solicitação de audiência não tardará e que Deus nos ajude!
— Obrigada, senhor Marquês — sorriu a moça —, e Ele ajudará pela sua coragem e senso de justiça. Mas vamos ao que interessa! — E bateu as mãos — Estamos aqui para revolucionar e não deixemos para amanhã!
O Marquês de Canto e Melo olhava para ela, admirando sua disposição e petulância. Pôde conhecer um pouco mais de sua personalidade e pensamentos após a hospedagem em sua casa. Estava apreciando tê-la por perto e queria que isso permanecesse. Era alguém como ela que precisava ao seu lado.
— Ouvi falar de um possível movimento liberalista aqui em Portugal. Isso é fidedigno, senhor Marquês? — perguntou Frederico.
— Sim... o assunto que compartilharei aqui deverá permaneça aqui. São assuntos gravíssimos que podem se voltar contra nós — explicou. — Penso que posso confiar em todos.
— Evidentemente, senhor — disseram alguns.
— Pois bem. Estamos prestes a viver uma grande revolução política em nosso país. Com o fim da ocupação das tropas francesas aqui e a partida da família real para o Brasil, foi criado o Supremo Conselho Regenerador de Portugal e do Algarve, com alguns integrantes do exército e liderado pelo General Gomes Freire de Andrade. O intuito é sairmos das mãos britânicas e estabelecer o liberalismo.
— Mas como derrubarão o absolutismo sem a presença do rei? — perguntou Celeste.
— Ele não consentirá. O Conselho é clandestino. É uma conspiração contra ele e o General regente — esclareceu Afonso.
— Oh...
— Por isso peço sigilo total. Podemos ser executados por traição à coroa se soubermos que somos adeptos ao liberalismo e à criação de uma Constituição — reforçou o Marquês.
— Eu acho justo. Estamos em uma grande crise comercial por causa dos tratados com a Inglaterra — disse Frederico.
— De fato. Principalmente Porto e Lisboa. — Álvaro reiterou.
— Eis, meus caros, a revolução bate à nossa porta. Esperamos por essa independência há tempos. Mas temos que ser ponderados nas atitudes, para que não venhamos ser enforcados com a própria corda — reiterou, Rúben.
— Certamente. Teremos nossa participação obviamente. Por isso, hoje estamos aqui para liderar nossa própria revolução. É assim que tudo começa. Uma fagulha aqui, outra ali. Os trabalhadores precisam dessa motivação e nós a daremos — completou Joana.
E começaram a traçar os planos para os motins.
~~*~~
Na Casa Lamartine, a Viscondessa acolheu as moças com grande simpatia para que se sentissem bem. Sabia que os filhos estariam felizes com a presença delas. Tudo se ajeitaria agora.
— Cecília, estou deveras feliz por você e suas irmãs estarem aqui. Quero que se sintam em casa e podem contar comigo para o que precisarem.
— Gratidão, senhora Viscondessa, por nos acolher mesmo sem ter nenhuma obrigação.
— Oras, o que é isso? Como eu não poderia acolhê-las nesse momento?
— Acredito que somente uma mãe de verdade pode entender o que se passa. Quando a senhora foi à nossa casa logo após a tragédia, eu a observei. Eu admiro o amor que tem pelos seus filhos. Minha mãe nos amou muito, eu sei. Mila nos mostrou uma carta que ela deixara antes de partir. Eu não me lembro dela, mas sei que nos amava. Eu sinto isso, sabe...
Eleonor, com lágrimas nos olhos, balançou a cabeça. Ela compreendia. Eram apenas meninas desamparadas de afeto e isso era tão injusto!
— Ela amava sim, Cecília, tenhas certeza. Eu não tive muito contato com sua mãe, tivemos... algumas divergências no passado — a menina lembrou-se do que Emília contara —, mas ela era uma boa mulher, admirada por todos. Foi uma excelente mãe até onde pôde.
— A senhora tem um bom coração. Espero que sejamos boas amigas.
Eleonor sorriu e pegou a mão da menina dando leves tapinhas.
— Sim, seremos. E posso ser muito mais do que isso se quiseres. Posso ser uma mãe pra você também...
Cecília abriu um sorriso radiante. Sabia que se dariam bem desde o dia que conversaram no Baile de Outono.
— Eu aceito, Viscondessa. Que bom que a senhora chegou neste momento em nossas vidas... estamos tão cansadas de lutar sozinhas... de sentir que não somos dignas de amor...
Eleonor não suportou aquelas palavras. As duas se abraçaram e choraram. Depois, fez Cecília deitar-se com a cabeça em seu colo, passando a mão pelos cabelos, cantarolando, como que para uma criancinha.
Apesar de jovens, já sofreram demais. Tinham o direito a um recomeço feliz, pensou Eleonor.
~~*~~
— Graças a Deus estás de volta, Pedro — disse Emília.
— Obrigado. Faço votos de que vossa irmã volte logo, também. Com certeza teremos mais dois casamentos nesta família.
— Peço a Deus todos os dias para que esse milagre aconteça. Não gosto de pensar que ela jamais...
— Não Mila, não pense assim — interviu Liana. — Vou à tarde visitá-la. Quer me acompanhar? Didila está lá com ela.
— Sim, irei contigo.
— Adelaide estará conosco em breve. Teremos tempos de paz...
Emília ficou a pensar. Ela não queria, mas sentia que ainda tinham coisas por vir. Algumas angústias antes de a paz reinar de fato.
Noutra parte da mansão, Henrique saía com seu pai do gabinete quando o mordomo anunciou Amadeo, o lacaio.
— Eu o receberei — disse o Visconde. — O vigarista deve estar aprontando alguma.
— Senhor Visconde, não trago boas noticias — disse o rapaz ofegante. — O Barão mandou colocar fogo no vilarejo dos trabalhadores. Trancaram mulheres e crianças na fábrica. Vossos filhos estão a caminho para lá, senhor, juntamente com as senhoritas Joana e Celeste.
— Céus! Isso não tem mais fim? Eu vou pra lá agora!.
— Vou com o senhor — falou Henrique. — Aquele maldito...
— O que se passa? — indagou Eleonor entrando com Cecília e logo atrás veio Emília.
— O vilarejo está em chamas! — informou Henrique caminhando para fora — Aquele cão sarnento mandou atear fogo em tudo.
— Oh Meu Deus!
— Celeste e Joana já sabem? Elas podem querer ir para lá, porém, é perigoso demais! — Emília se desesperou.
— Elas já estão lá, senhorita, e meus irmãos.
— Oh, Não!
— Oh meu Deus! Elisa está lá, Maurice! — Eleonor se apavorou também — meus filhos... as meninas...
— Estou indo pra lá, querida, não se preocupe. — disse o marido saindo para pegar um cavalo e Henrique o acompanhou.
— Preciso de um cavalo também! — falou Emília.
— Senhorita, é melhor ficar aqui — disse Henrique.
— Desculpe, mas não ficarei — e pegou a rédea de um dos cavalos. Maurice resmungou qualquer coisa, no entanto, não se opôs. E os três rumaram para o vilarejo.
~~*~~
— Matias! Matias! — chamou Celeste correndo pelo vilarejo.
— Celeste! — Dália a avistou — Matias está na fábrica. Foi ajudar algumas pessoas que estavam lá, mas os capatazes prenderam todo mundo — disse, chorando.
— Acalme-se, Dália. Vou para lá.
— Também vou — falou Joana.
Álvaro, Afonso, Elisa e Frederico correram pelo vilarejo retirando as pessoas de suas casas. Estava um alvoroço. Algumas pessoas correndo para todos os lados, outras sem reação pelo choque. Eles foram direcionando-as para fora como podiam.
Celeste se lembrou de que Matias ainda estava muito ferido e, correndo, ela e Joana chegaram à fábrica.
— Meu Deus! — gritou ao ver fogo na fábrica — Tem crianças presas lá com alguns trabalhadores. Matias também está lá e impossibilitado!
Escutaram gritos de socorro e choro de crianças. Havia muita fumaça.
— As portas estão trancadas com correntes! Como vamos tirá-los de lá?
— Vou buscar ajuda! — Joana respondeu.
Voltou correndo ao vilarejo para chamar homens que pudessem derrubar as portas.
Celeste viu uma janela quebrada e pelos cálculos mentais, conseguiria passar por ela. Era miúda e daria para retirar crianças pela abertura também. Procurou ao redor algo que pudesse servir de apoio e encontrou um tronco de madeira. Colocou-o embaixo da janela e subiu. Seu vestido era grande demais. Atrapalhava seus movimentos. Rasgou boa parte de sua saia e subiu na janela.
— Celeste, o que está fazendo aqui? Saia! É muito perigoso! — pediu Matias ao vê-la.
— Não, Matias! Ajude-me a entrar, podemos retirar as crianças. Joana foi buscar ajuda.
Ela se apoiou em seus ombros e conseguiu pular. Abraçou-o forte e olhou para dentro da fábrica, a situação estava crítica. A fumaça já tomava conta e uma parte da fábrica já estava em chamas por causa da cortiça. Pessoas tossindo, crianças chorando, olhares desesperados.
— Celeste! — Era Joana chamando-a do lado de fora. Frederico e Afonso tentavam derrubar as portas.
— Joana, vou retirar as crianças, pegue-as!
Ela e Matias começaram a içar as crianças enquanto Elisa e Joana as retiravam por fora. O fogo se alastrava e uma das estruturas do teto desprendeu-se, ameaçando desabar.
— Mais força! Um, dois, três! — os homens tentavam derrubar as portas e outros trabalhadores vieram ajudar.
Uma delas se quebrou na parte inferior possibilitando a retirada de pessoas por ali.
— Esta é a última criança! — avisou Celeste — Vou ajudar as mulheres agora!
Matias foi direcionando algumas mulheres para a abertura que Álvaro e Afonso haviam feito na porta. Uma a uma foram saindo, mas uma viga desabou acertando algumas pessoas e separando outras pelo fogo, fechando a saída.
— Não!!! — gritou Matias e correu para ajudá-los.
Celeste tentava visualizar Matias através do fogo e fumaça. Viu-o voltando para tirar mais pessoas impedidas pelo fogo.
— Matias! Matias!
— Saia Celeste! Logo sairei também! Vá!
E ela foi para a janela quebrada onde sua irmã a esperava, mas antes de sair, olhou para trás, hesitante.
— Eu vou entrar! — disse Afonso do lado de fora tentando passar pelo buraco da outra porta.
— Afonso, o teto vai desabar! — gritou Fred.
Algumas pessoas ainda gritavam lá dentro.
Henrique chegou com o pai e Emília.
— Pai! Henrique! Tem pessoas lá dentro! Matias e Celeste estão lá! — Afonso informou, desesperado.
O Visconde e Henrique correram para a porta em que Frederico tentava empurrar, mas no momento em que conseguiram quebrá-la, o fogo avançou contra eles. Tentaram achar outra porta ou janela não comprometida pelo fogo, mas já não havia.
Afonso e Joana gritavam desesperadamente por Celeste e Matias. Elisa e Emília amparavam as mulheres e crianças que haviam sido retiradas.
— Joana! — gritou Celeste próxima a janela — Vou buscar Matias!
— Não! Não há mais tempo, Celeste! Saia, por favor! — Joana já chorava.
A irmã olhou para trás e o fogo já havia tomado conta de quase tudo. Mas ainda havia esperança de salvá-lo.
Henrique segurava Afonso que estava totalmente descontrolado querendo atravessar uma porta em chamas.
— Não! Não! Eu preciso tirá-los de lá!
— Irmão, se entrares lá, morrerá — Henrique tentava fazê-lo entender.
— Celeste, por favor... — Joana estendeu a mão pela janela para retirá-la — Não há mais tempo... por favor! — suplicou.
Mas ao ver os olhos da irmã, soube.
— Celeste, não... — sussurrou Emília chorando, olhando a irmã, pressentindo o que estava para acontecer.
Celeste olhou para Emília, ao longe, para Afonso e para Elisa. Voltou os seus olhos para Joana que continuava chorando e suplicando, e disse:
— Me perdoa, minha irmã... — e as lágrimas desceram na face suada pelo calor — mas não posso deixá-lo sozinho — apertou a mão da irmã e correu ao encontro de Matias.
— Nãaao! Celeeeste! — Joana tentava pular a janela — Não! Por favor, não!
— Noaaah! Celeeeste! — Afonso chorava e gritava.
Um estrondo se fez e nessa hora Álvaro puxou Joana pela cintura e a retirou de perto da janela no mesmo instante em que todo o teto da fábrica desabava.
O fogo consumindo tudo.
Choro e desespero.
Fogo e fumaça.
Sonhos destruídos.
Dor e angústia.
Essas eram as palavras que compunham o cenário naquele momento.
~~*~~
— Senhorita D’alboquerque, a carruagem já está à espera — disse o lacaio.
— Obrigada, sairei já — respondeu Beatrice. — Lucy, vamos.
— Sim. Preciso dizer, a senhorita está belíssima — elogiou a dama de companhia.
— Fico grata, Lucy. Apesar de estar casando-me com alguém que tenho apreço, o momento não é de total alegria, não é mesmo?
— Sim, é verdade. Mas ainda serás muito feliz!
A moça sorriu tristemente.
— Vou buscar sua bagagem de mão — disse a criada e saiu.
Beatrice subiu na carruagem e logo o veículo começou a se movimentar.
— Senhor, a minha dama de companhia virá comigo. Por favor, espere só um momento.
Mas a carruagem não parou.
— Senhor! Espere! — insistiu.
E quando conseguiu se mover para enxergar o moço, a carruagem parou e alguém sentou ao seu lado. Era Diogo.
— Diogo?! O que fazes aqui?
— Não irás a lugar algum que não sejas comigo, Beatrice! — sorriu friamente — Vai! — ordenou ao cocheiro e minutos depois a carruagem tomava uma estrada desconhecida.
~~*~~
“Celeste... não entendo... onde estás indo?” — A moça olhou para o lado e a mãe delas estava sorrindo, esperando-a. Havia também um rapaz.
“Estou indo para ficar com mamãe, Adelaide, você ainda não... Eu cumpri minha missão, fiz minha escolha... não chores, minha irmã, eu estou feliz! Volte! As meninas precisarão de você. Henrique espera por você.”
“Mas... ainda há esperança?”
“Sempre há.” — As duas se abraçaram e ela partiu, sumindo num extenso campo limpo.
Dona Hilda estava velando Adelaide quando ouviu um murmúrio. Levantou seus olhos do bordado e fitou a moça. Chegou mais perto da cama:
— Adelaide?!
Estava inquieta. Observou-a mais um pouco e saiu para chamar o médico. Nesta hora, ela abriu os olhos e soltou um sussurro melancólico:
— Celeste!
~~*~~
“Nunca, em toda a minha carreira de colunista ou mesmo como cidadão eborense, vi algo assim. Um grupo de jovens aristocratas que se uniram para salvar pessoas simples.
Celeste D’alboquerque! Este nome será lembrado por todos e por tempos. Certamente pela coragem com que lutou. Não sei quanto a vós, caros leitores, mas a mim, tais atitudes fizeram-me repensar sobre padrões, conceitos e verdadeiros propósitos na vida”.
Coluna de O Semanário
~~*~~
“Houve um tempo em que os homens eram bons
Suas vozes eram doces
e suas palavras encorajadoras
Houve um tempo em que o amor era cego
E o mundo era uma canção
E essa canção era excitante.
Houve um tempo... e então tudo deu errado [...]
Então eu era jovem e destemido
Quando os sonhos eram feitos, usados e desperdiçados
Não havia preços a serem pagos
Nem canção não cantada, nem vinho não provado
Mas os tigres vêm à noite
Com sua voz suave como o trovão
Como se despedaçassem suas esperanças
Como se transformassem seus sonhos em vergonha[...]
E eu ainda sonhava com ele vindo a mim
E nós viveríamos os anos juntos
Mas há sonhos que não podem ser
E há tempestades que não podemos prever
Eu tive um sonho de como minha vida seria.
Tão diferente deste inferno que estou vivendo.
Tão diferente agora daquilo que parecia.
Agora a vida matou o sonho que eu sonhei”
(I Dreamed a Dream — Les Miserables)
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