Notas iniciais
"Todos podem ver as táticas de minhas conquistas, mas ninguém consegue discernir a estratégia que gerou as vitórias." (Sun Tzu) ♥ Mil desculpas pela demora, Jenny! Sei que você me entende apesar de tudo rs Está aqui mais um cap pra vc ♥ Vou postar os restantes aos sábados! Beijos e boa leitura!

Joana D'alboquerque


— Onde estavas, seu imprestável? Esperei-te na casa do Barão para acordarmos o casamento e tu desapareces? — quis saber o Duque, assim que o filho passou pela porta.

— Não desposarei a senhorita D’alboquerque, meu pai — respondeu Álvaro, decidido.

— O que dizes? Estás desafiando-me?

— Não. Só estou cansado de ser seu adulão.

Luis Coutinho soltou uma gargalhada diante da declaração do filho. O outro não alterou sua postura.

— Oras, mas se não é o borra-botas achando ser homem! Tu não passas de um moleque e quem toma as decisões sou eu. Se casará dentro de dois dias.

— Não podes me obrigar. Tenho interesse em outra moça.

— Deixe de tolices! Isso são negócios! Você me envergonha quando penso que herdará tudo. Além do mais, a senhorita Castel em breve será uma Lamartine.

Álvaro sabia que o casamento de Pedro e Liana aconteceria no dia seguinte, em secreto, na Casa Lamartine. O Duque continuou seu discurso:

— Suba e fale com seu primo, que pelo visto, não é um palerma com paixonites adolescentes, como você. Ele está a par de todos os detalhes.

Álvaro ia saindo sem dar atenção ao que o pai dizia, mas se não falasse o que estava pensando, talvez não teria coragem depois:

— Sabe pai... houve um tempo em que a palavra e o caráter eram coisas sagradas entre os homens, até trocarem-nas pela ganância e poder, apunhalando até mesmo os amigos pelas costas. O senhor diz ter vergonha de mim, mas sou eu quem me envergonho de ser teu filho. Um homem manipulador e cruel, tal qual seus aliados. E não penses que podes fazer-me igual a ti, pois morrerás de desgosto.

O pai estava estupefato com tamanha insolência.

— A propósito — completou —, eu soube que o Conselho Imperial emitiu pedidos de prisões a traidores da Coroa. Espero que o senhor esteja com a sua conta limpa.

Ironizou sabendo que o pai, provavelmente, era um dos traidores.

~~*~~


— Já se faz tarde. Didila e as meninas devem estar preocupadas — disse Joana enquanto voltava com a irmã do vilarejo. Celeste queria ter ficado para cuidar de Matias, mas uma jovem solteira passando a noite na casa de um rapaz, sofreria grandes retaliações.

Joana, por fim, conseguiu convencê-la. A menina estava tão desolada que fazia seu trajeto de volta em completo silêncio.

— Matias ficará bem, minha irmã. Amanhã retornaremos para ver como se passa — Joana tentando animá-la. — Aliás, ele está proibido de morrer, temos muito o que conversar depois de hoje.

Celeste deu um sorriso frouxo e a irmã a acompanhou. Joana era a pessoa ideal para descontrair ante situações difíceis.

Após o seu discurso no vilarejo, algumas pessoas a procuraram para saber se estaria mesmo disposta a se juntar a eles em uma agitação dos trabalhadores e enfrentar o Barão. Matias, apesar de muito machucado, conseguiu participar da discussão aprovando a ideia do motim.

Celeste comprometeu-se a falar com Elisa, Afonso e Álvaro, a fim de informá-los do plano. A ideia era juntar o máximo de pessoas e instigá-las a lutarem por melhorias de vida. Parecia uma ótima oportunidade, sobretudo com apoio dos jovens aristocratas.

Apesar do ocorrido com Matias, a tarde no vilarejo fora bem proveitosa. A ação cruel de Diogo e o jeito pretensioso de Joana serviram de fagulha para despertar algo que, há muito, estava adormecido ou sem perspectivas. Joana também estava decidida a falar com o Marquês de Canto e Melo.

— Joana... achas que é o momento de levantarmos questões tão sérias diante de tudo o que estamos vivendo? Não seria melhor esperarmos mais um pouco?

— Não temas, minha irmã, esse é o momento certo. Devemos aproveitar o calor dos acontecimentos. Sei que Adelaide ainda não se recuperou, mas temos aliados agora e não podemos perder a oportunidade.

Celeste concordou com a cabeça e continuou com seus pensamentos. Desde que conhecera o povo do vilarejo, seu senso de justiça se aguçou. Gostaria que não houvesse tantos preconceitos e disparidades sociais. Por que as pessoas não podiam se ajudar? Por que os interesses estavam acima de tudo? Por que ninguém enxergava a miséria? Eram tantos porquês em sua cabeça e, ultimamente, havia mais um: Por que ela não podia se casar com Matias...?

Ela sabia a resposta, claro, mas não aceitava.

— Estás certa, Joana. Se podemos fazer isso, faremos! — disse decidida.

— Quem está vindo ali? — Joana perguntou baixo, observando uma figura ao longe.

Elas estavam sozinhas pelas trilhas que davam à fazenda e a noite já apontava.

— Joana, vamos nos esconder! — sussurrou Celeste.

E as duas desceram dos cavalos, levando-os para o meio das árvores até que o sujeito passasse. Entretanto, quando este se aproximou, perceberam que era Amadeo.

— Amadeo! — bradou Joana saindo de seu esconderijo — Quer nos matar de susto?

O lacaio que estava tranquilamente passando pelo caminho, quase caiu de seu cavalo ao escutar o grito de Joana. Celeste não queria rir, mas a situação fora engraçada.

— Senhoritas! Graças a Deus! – respondeu ele, se recompondo do susto – Eu estava indo ao vosso encontro.

— Ah Amadeo, sempre prestativo e preocupado conosco! Obrigada — Celeste agradeceu docemente.

— Eu fico feliz em servir, senhorita. Mas há algo a mais que me trouxe aqui...

— Sem rodeios, Amadeo! — pediu Joana.

O lacaio suspirou e respondeu:

— Vosso pai está de volta e já andou tomando providências — fez uma pausa. — Acordara, novamente, os casamentos das senhoritas Beatrice e Liana, para daqui a dois dias, e o de Emília também será marcado. Quanto à Cecília e Celeste, serão levadas para o convento de Santa Clara para serem internadas. Mas... — hesitou

— Mas...?

— Quanto a ti, senhorita Joana, assim como Dona Hilda, o Barão ordenou que saiam da fazenda o mais rápido possível — respondeu com pesar na voz.

— Meu Deus! O pesadelo recomeça. Eu não tenho forças para suportar mais isso! — lamentou Celeste.

Joana ficou em silêncio, com o rosto sério e pensando em algo. Depois, disse:

— Eu o enfrentarei. Não posso deixá-lo me intimidar. Tens raiva de mim porque não obedeço mais as suas ordens. Eu sairei, mas antes preciso ter certeza de que minhas irmãs e Didila estarão bem. Já sei onde pedir ajuda.

— Mas Joana, para onde irás? Eu irei com você!

— Acalme-se Celeste. Vejamos o que podemos fazer. Vamos para a fazenda, falarei com todas.

— A senhorita Liana não se encontra na fazenda — informou o lacaio. — O senhor Pedro Lamartine acordou e o Visconde os levou para casa. Mas o Barão já andou perguntando.

— Está certo. Vamos indo. Temos muito a resolver — disse Joana e saíram galopando rumo à fazenda.

~~*~~


— Tudo isso aconteceu enquanto eu estava desacordado? — perguntou Pedro já em sua cama.

— Sim, meu irmão... desde o dia da fuga as coisas não são mais as mesmas — falou Afonso.

— Na verdade, desde o dia em que nos conhecemos — Liana lamentou.

— Não somos culpados por coisa alguma, Liana.

Pedro já estava em seu quarto, apoiado sobre vários travesseiros sobre a cama. Todos da família, exceto Frederico, estavam reunidos para deixá-lo informado de todos os acontecimentos.

— Sei que fomos precipitados e consideramos a única saída para nós. Peço perdão por isso, meu pai e minha mãe, no entanto, eu faria novamente.

— Sim, vocês agiram sem pensar — A Viscondessa concordou. — Mas apesar de tudo, isso nos fez enxergar muitas coisas — bateu sua mão sobre a de Liana como um gesto de compreensão.

— Só não contava ser avô tão cedo — Maurice rabujou.

— E será o vovô mais charmoso de todo o Alentejo — Elisa comentou sorrindo. — E Pedro, pare de olhar desconfiado para Álvaro, as coisas mudaram agora.

— Sim, é verdade — Eleonor retomou a palavra. — O senhor Carvalhal está cortejando Elisa, pois és um bom cavalheiro — falou em um tom mais alto olhando para o marido.

— Bem, o que posso dizer? Desejo toda a felicidade a vocês e espero que cuide bem de minha irmã, senão eu mesmo acabo com você — Pedro falou sem rodeios.

— Entre na fila — Maurice não se conteve.

— O padre Oswald virá amanhã. Já está tudo acertado, não é mesmo Henrique? — a Viscondessa perguntou para mudar o rumo do assunto e porque o filho estava calado demais.

Ele estava feliz com a volta do irmão, mas o fato de Adelaide ainda estar em coma, incomodava-o. Por mais que não quisesse demonstrar, ele não queria ficar longe dela. Queria estar lá para ela quando voltasse a si. Contudo, antes o pretexto era, também, o irmão internado, agora não mais. Se ele voltasse para o hospital, estaria confessando a todos as suas reais intenções, algo que ele não gostava de expor.

Ele olhou para a mãe e todos estavam analisando-o. Ficou constrangido, mas tentou não transparecer. Todos pareciam saber do seu drama e não estava gostando daquilo. Limitou-se a responder:

— Sim, já está tudo acertado.

— Senhor Visconde — disse Liana —, estou preocupada com o que pode acontecer com minhas irmãs. Meu pai voltou para a fazenda e sei do que é capaz. Não seria correto eu ficar aqui, mesmo não querendo ir — e olhou para Pedro —, mas creio que devo voltar para casa...

— Não Liana, se fizer isso, nossos planos vão por água abaixo — contrapôs, Pedro.

— Seu medo tem fundamento, senhorita, mas já estamos resolvendo este assunto. Fred deve chegar a qualquer momento com a resposta do Magistrado. Com o laudo do Dr. Fontana e a assinatura do magistrado, aquele crápula não terá mais nenhuma autoridade sobre vocês — esclareceu Maurice.

A moça balançou a cabeça em concordância e, em seguida, Frederico entrou no quarto.

— Consegui a assinatura do senhor Fernam — disse o rapaz mostrando os papéis — Amanhã estaremos na fazenda para tirar suas irmãs das mãos daquele insano.

Liana suspirou um pouco aliviada, mas ainda assim, seria uma noite longa. Não teria paz pensando em como elas estariam. Sentia-se culpada por não estar lá nesse momento, mas Pedro tinha razão: precisava estar casada o quanto antes. Sabe se lá o que ele faria se soubesse que teria um neto de sangue Lamartine.

~~*~~


— Didila... — chamou Emília batendo levemente na porta do aposento da tutora.

Com a resposta positiva, ela entrou e encontrou D. Hilda sentada em sua cama com um terço na mão. Sempre fora muito religiosa. Rezava para que enxergassem uma luz diante de toda aquela situação. Suas malas estavam organizadas, próximas à porta, esperando o momento de partir.

Viu que a moça havia chorado, levantou-se e foi abraçá-la. Ficaram assim por um tempo. A senhora beijou a cabeça da menina e a puxou para se sentarem na cama.

— Há de ter uma solução, Mila. Tenho fé.

— Didila... eu preciso lhe perguntar algo. Tenho lido o diário de minha mãe desde o dia em que me entregaste. São tantas coisas, tantos segredos... a senhora sabe de tudo, não sabe?

Dona Hilda, suspirou, olhando para as mãos e disse:

— Sei sobre muitas coisas. Algumas que eu presenciei, outras que me confiaram. Fiz um juramento à sua mãe às portas de sua morte. Eu não falaria nada sobre o passado, nem dos amores ou dos segredos, mas quando chegasse a hora eu entregaria o diário àquela que eu considerasse a mais apta para conduzir tantas informações — explicou olhando para uma vela tremeluzente. — Sua mãe e eu sempre fomos muito amigas e eu já era sua dama de companhia quando ela conheceu o Visconde. Estava com ela quando soube que se casaria com seu pai e caiu em desgosto profundo. E estive com ela a cada um de seus dias como Baronesa, esposa e mãe. E mesmo assim... — titubeou chorando as lembranças — mesmo assim eu não pude fazer nada para que sua alegria voltasse. Ela sorria para todos, e fazia de tudo para demonstrar que estava tudo bem.

Eu a via caminhando pelos campos com o Barão, e ele, embora rude, sempre sorria quando estava com ela. Contudo, apesar dos esforços de Amélia em transparecer-se feliz, sua essência era triste. E quando tomava tempo, cuidando das rosas ou pintando ao ar livre, seu olhar se perdia, como se não estivesse ali. Rui sabia o que o seu coração desejava, e por mais que, nunca tivesse alterado a voz para ela ou demonstrado reprovação, aquilo o consumia, pois, ela nunca o amaria como havia amado o seu rival.

Os dias foram passando e o Barão se tornava cada vez mais obsessivo. Sua eterna corrida para vencer o Visconde em poder e mérito, foram o deixando cada vez mais louco. Amélia tentava a todo custo acalmá-lo com demonstrações de carinho, mas as coisas ficaram ainda mais difíceis quando Adelaide nasceu. Ele tinha certeza de que seria um menino e seu desgosto foi visível quando a parteira anunciou o contrário.

Lembro-me que ele entrou para ver sua mãe e a beijou na testa, porém, não olhou para o bebê. Saiu da mansão e não voltou naquele dia. E assim, cada vez que nascia uma menina, ele se afastava mais. Sua mãe tentava desesperadamente aproximá-lo de vocês, mas tudo foi em vão.

— Foi por isso que ele trouxe Diogo para casa? — Emília perguntou e D. Hilda a olhou surpresa — Eu já sei sobre ele, Didila...

A senhora fez uma pequena pausa e continuou sua narrativa:

— Sua mãe, apesar de ter amado muito o Visconde, soube amar seu pai também. Ela sabia que ele era um homem perturbado por suas obsessões e que precisava de alguém para acalmá-lo. Ela era a única pessoa que conseguia. No entanto, sua guerra particular era algo além de suas forças. Por mais que conseguira desposar Amélia, isso não fora o suficiente para ele, mesmo que o Visconde sequer soubesse dessa disputa por poder. Era como se ele quisesse provar para a sua mãe que a merecia.

— Que loucura! — exclamou Emília.

— Mas quando o Barão trouxe Diogo, a confiança entre ele e Amélia se quebrou. Ela foi se fechando em seu mundo cada vez mais e aquilo o descompassou. No fundo, sabia que ela tinha conhecimento do filho bastardo. Mas nunca conversaram sobre isso. O Barão não dava espaço e ela também nunca fez menção sobre o assunto. Amélia sempre tratou bem o menino e eu fui tutora dele por um tempo, até ele levar o menino para um internato a fim de ser educado e, logo depois, ir para a Universidade. Somente seu pai tinha contato com ele.

— Sabes o que ocorrera com a mãe dele?

— Na verdade não. Sei o que sua mãe me contou sobre o seu desaparecimento antes de Diogo vir para a fazenda. O menino perguntava pela mãe e isso dava um aperto no coração. Amélia várias vezes saiu de perto para não chorar na frente do menino, mas ela conversava com ele e dizia que ela precisara ir para outro lugar, que ele ficaria bem e ela cuidaria dele. Ele era bem pequeno, não sei se entendia. Com o passar do tempo, ele se apegou muito à sua mãe, mas nesse tempo, o Barão o levou.

— Tudo indica nas cartas que meu pai e o Duque mandaram matá-la.

Dona Hilda nada disse. Ela também sabia disso.

— Minha mãe deixou uma carta para nós — contou.

A senhora olhou para ela com o semblante tristonho.

— Eu não sabia. Ela não me disse sobre uma carta de despedidas...

— O que achei mais curioso é que ela deixou uma mensagem para cada uma de nós como se soubesse o que iria acontecer. E mais, mencionou sobre achar a carta no momento certo.

— Como a achou?

— Foi estranho... havia um candelabro aceso dentro da estufa, no mesmo local que seu quadro fora pintado ... descobri um alçapão debaixo dos vasos com uma caixa de madeira dentro. As cartas estavam lá, como se ela quisesse que eu as encontrasse... — disse pensativa.

— Amélia sempre foi muito sensitiva e tinha sonhos estranhos. Não sou de acreditar em coisas sobrenaturais. Tenho minha fé, mas depois que Amélia partiu, várias vezes eu pude sentir a presença dela nessa casa — passou as mãos pelos braços.

As duas ficaram sem dizer nada até ouvirem o som de galopes se aproximando. Eram Joana e Celeste voltando do vilarejo. Saíram do quarto para recebê-las, antes que o Barão o fizesse.

~~*~~

— Não Amélia! — gritou Rui acordando de mais um pesadelo com a falecida esposa. Há tempos esses pesadelos o atormentavam e estavam se intensificando. Sempre via a esposa em um campo brincando com as pérolas nas mãos e virando-se para ele com o semblante triste. Mas ultimamente seu semblante era raivoso ou de sofrimento.

No sonho a Baronesa falava a ele:

“Se você não as quer, não tem porque ficar com elas... sofrerás uma perda e será tarde demais para reparar...”

Outra coisa que estava atormentando-o era o pedido de Diogo. Nunca imaginara uma coisa dessas. Por que essas coisas estavam acontecendo a ele? Tudo estava dando errado! Seu filho estava apaixonado pela própria irmã!

— Maldição! Maldição! — rosnou levantando-se da cama. Precisava casar a filha o mais rápido possível e ainda manter Diogo ocupado. Ele não podia estragar seus planos — Como isso foi acontecer? Só podia ser maldição!

Ouviu uma movimentação externa. Sons de cavalos se aproximando. Recompôs-se para verificar.

Ao chegar à sala, viu Joana, Celeste, Emília, Beatrice e Cecília; junto delas, a governanta.

— Ora veja! A reunião das traidoras! — disse o ele entrando na sala — Ainda aqui D. Hilda? E você, senhorita Joana? Não recebeu o meu recado?

— Recebi — respondeu prontamente. — E digo que sairei e levarei Didila comigo, mas antes vou deixar claro que farei de tudo para que sejas preso e exilado. Pagará por todos os seus crimes!

— É mesmo? E com quais provas? — zombou o velho. — Sou um homem poderoso, senhorita, não será uma fedelha como você que irá me derrubar.

Joana sorriu desafiadoramente e disse:

— Não se pode vencer sempre, Barão. Num jogo sujo, qualquer um pode ser derrubado quando menos se espera. O senhor tem muitos inimigos e há pessoas que fazem qualquer coisa pela sua cabeça e pode ter certeza que vou negociá-la.

— Sua ingrata! Como ousa me desafiar? Deve-me respeito!

— Retribuirei respeito ao senhor da mesma forma com que nos amou! — retrucou fria, olhando-o nos olhos. — Vamos Didila!

O lacaio pegou as malas da senhora, e esta chorando, abraçou cada uma das meninas. O Barão perguntou de repente disse:

— Onde está Liana?

— No hospital, acompanhando Adelaide — respondeu uma delas.

— Não tem permissão para pernoitar. Mandarei buscá-la. Precisa se preparar para a cerimônia e vocês a ajudem com os preparativos. Não quero contratempos — ordenou e recolheu-se novamente.

Alguns minutos depois, uma carruagem chegava a uma mansão conhecida. A moça pediu ao serviçal:

— Anuncia Joana D’alboquerque. Preciso falar urgente com o Marquês.

~~*~~


O dia rompeu prometendo grandes acontecimentos. O casamento de Liana e Pedro aconteceria pela tarde. Fred preparava-se para ir com o pai e o magistrado à Casa D’alboquerque. Henrique pedira a Afonso o para resolver alguns acordos pendentes e foi para o hospital. As irmãs ainda revezavam, mas ele queria estar junto dela. Ainda se sentia culpado por tudo o que lhe acontecera.

— Bom dia, doutor Fontana! Alguma novidade? Ela deu algum sinal? — indagou Henrique ansioso, ao chegar.

— Bom dia, senhor Lamartine! Sei que não é da família, no entanto, tem demonstrado grande apreço pela moça, de modo que posso lhe falar.

— Fale, doutor.

— A senhorita D’alboquerque não tem progredido em seu quadro e... conversando com os outros médicos, chegamos à conclusão de que se ela não responder aos tratamentos tão logo, teremos que liberá-la para os cuidados em casa e aguardar alguma reação.

— O que dizes? Não há esperança para ela, é isso?

— Não sabemos por quanto tempo ela ficará nesse estado. Poderá ficar meses ou anos, não se pode prever.

— Isso não pode ser... — murmurou — Ela não vai demorar, Pedro voltou?! — disse ele mais para si do que para o médico. — Ela não pode ficar à mercê daquele homem, não sobreviverá... — passava a mão pelos cabelos, nervoso.

O médico vendo o tormento do rapaz, compadeceu-se. Mas nada mais podia ser feito. Apenas aguardar.

— Vou deixá-lo só. Com licença, senhor.

Henrique ficou pensativo por um tempo e caminhou até o quarto de Adelaide. Viu sua assistente pessoal ajeitando seus travesseiros enquanto conversava com ela. Ela era a responsável por limpá-la, trocá-la e alimentá-la. Às vezes lia também e dialogava como se a moça a escutasse. A assistente não o viu e por isso pode escutar:

— Lembras daquele conto que li para ti? Você é linda como a Bela Adormecida! E digo que tens sorte, pois, seu príncipe já está à sua espera para dar-te um beijo e despertá-la tal qual na história — tagarelou —; e ele é tão lindo... — suspirou romanticamente e Henrique não pôde deixar de rir com aquela cena. Mulheres e seus romances! Como se a vida fosse simples assim.

Adentrou ao quarto e cumprimentou a moça que levou um susto. Envergonhada, pediu licença e saiu apressada.

Aproximou-se da cama de Adelaide e fitou-a demoradamente como costumava fazer quando ninguém estava olhando. Sim, ela era linda! Sentiu uma angústia profunda por pensar que nunca mais ela acordaria.

Sentou-se próximo, pegou sua mão e começou:

— Hoje sou eu quem irá lhe contar uma história. Era uma vez... um idiota que achou que nunca se apaixonaria e que as mulheres jamais tinham esse poder sobre ele. Até que um dia... um acidente aconteceu e um anjo o salvou. Salvou-o de todas as formas. Seus lindos olhos azuis fascinaram-no de tal modo que ele não conseguia esquecê-los. Ele tentou resistir, mas não conseguiu. No fundo, ele sabia que era diferente, e a certeza veio quando ela o salvou novamente e teve medo de perdê-la, pois, enfim, entendeu que a vida dele não era completa sem ela.

Seus olhos estavam marejados. Nunca, nunca mesmo havia chorado por nada, muito menos por uma mulher. Sua natureza era assim. Mas Adelaide conseguia extrair dele coisas jamais sentidas. Ele ainda estava confuso. Oras! Não queria ser um homem sentimental!

— Adelaide... — recomeçou — eu não sei ser gentil ou romântico, mas preciso dizer-te que eu preciso de você — respirou fundo, tentando conter o choro. — Volta, peço-te, para que a nossa história se complete... Volta... e me salva mais uma vez.

E não pôde mais se conter. O homem bruto que nunca chorara por nada, deixou as lágrimas rolarem sem medo, com a cabeça encostada sobre ela.

Ele não viu, mas uma lágrima também escorreu dos olhos de Adelaide.

~~*~~


— O que estás fazendo aqui? — questionou Elisa à Demétria quando esta apareceu à entrada da Casa Lamartine.

— Vim ver Pedro — disse. — Não podes me impedir! Sou sua amiga de infância.

— Não és mais bem-vinda! Fizestes muitas maldades, Demétria. Como teve coragem?

— Fiz tudo por amor. Mas arrependo-me, Elisa, sei que agi mal... — fez uma tentativa.

— Basta, Demétria! Essa pose de boa moça não convence mais.

— Acalme-se... — disse a Viscondessa aproximando-se das moças. — Deixe Demétria ver Pedro, não mudará o rumo das coisas.

Falava sobre o casamento de Pedro e Liana que aconteceria em uma reunião secreta dentro de poucas horas. Démeria apenas virou as costas e saiu andando. Caminhou em direção ao quarto do rapaz acompanhada pela Viscondessa. Ao passar pelo salão, observou que estava sendo preparado. Ficou curiosa, mas não perguntou.

Quando viu Pedro, correu e beijou seu rosto dizendo o quanto estava feliz em vê-lo e outras coisas amorosas. Ele continuou impassível, pois já sabia de todas as armações da moça. Ela percebendo sua frieza, perguntou:

— Pedro... não me trate assim, pois amo-te, por isso fiz tudo o que fiz — dissimulou.

— Isso não é amor, Demétria. Quem ama não desejas mal a ninguém. Por sua causa aconteceram tragédias.

— Por culpa de Liana! — irritou-se — Se não tivesse atravessado nosso caminho nada disso teria acontecido.

Nessa hora Liana entrou no quarto e interrompeu a conversa:

— Pelo que sei, nunca houve um caminho com vocês dois juntos. Apenas na sua cabeça.

— O que fazes aqui? — Olhou-a com raiva.

— Ela é minha noiva, tem o direito de estar aqui — respondeu Pedro.

— Noiva? Não pode se casar com ela, Pedro.

— Posso e vou — respondeu secamente. — E peço-te, Démetria, não volte mais aqui. Você não é digna de amizades sinceras como as que tivera nesta família.

Ficou pasma com a declaração. Não podia perder. Não para aquela caipira!

— Você, Liana, não passas de uma sonsa mesmo, não é? Já contou a Pedro sobre as visitas regulares que Álvaro lhe fazia? — e virou-se para Pedro — Não achas estranho, Pedro, que uma moça solteira receba um homem, frequentemente em sua casa, enquanto seu pai está ausente?

Pedro olhou para Liana com curiosidade.

— Não tentes tramar contra nós, Demétria. Você não se cansa, não é? O senhor Carvalhal se tornou um amigo e sempre foi prestativo.

— Certamente... — respondeu Demétria com um risinho sarcástico sabendo que já tinha plantado a dúvida em Pedro. — Bem, já vou indo, mas penses bem, Pedro, Liana não é tão inocente quanto pensas.

E saiu deixando para trás os rastros da discórdia.

~~*~~

Celeste chegou à Casa Lamartine e conversava com Frederico, Afonso e Elisa.

— Céus! Como Matias está? — perguntou Afonso — Maldito Diogo!

— Ele está muito ferido — disse a moça tristemente —, mas você o conhece, és muito orgulhoso.

— De fato — concordou Afonso tentando não olhar nos olhos de Celeste.

— E como estão as coisas na fazenda? — indagou Elisa.

— E Emília? — apressou-se em perguntar, Frederico — Não aguento mais não poder vê-la...

— O Barão expulsou Joana e Didila da casa. Emília e Beatrice aguardam seu destino. Cecília e eu seremos levadas para o convento de Santa Clara, em Coimbra.

— Oh meu Deus! — exclamou Elisa horrorizada.

— Temos que agilizar nossa ida à fazenda. — disse Fred. — E Joana? Para onde foi?

— Ela está bem. Estás hospedada na casa do Marquês De Canto e Melo com Didila. Emília está ajudando Beatrice para seu casamento amanhã. Nunca pensei que os casamentos das D’alboquerque aconteceriam dessa forma, às pressas... as pessoas vão cogitar coisas, vocês sabem...

— Bem... no caso de sua irmã Liana... — comentou Fred e Elisa o repreendeu com o olhar. — Desculpe — pediu em seguida.

— De todo modo, estou feliz pelas minhas irmãs. Estão casando-se por amor. Beatrice, será por acordo, é verdade, mas ao que parece, tem se afeiçoado ao senhor Casagrande.

— Ficarás para a cerimônia, não é? — Elisa quis saber.

— Sim, mas não posso me demorar para não levantar suspeitas. A propósito, tenho outro motivo para estar aqui. Joana mandou um mensageiro para nos avisar sobre uma reunião secreta que acontecerá na casa do Marquês, amanhã, antes do casamento de Beatrice. Iremos tratar sobre o levante dos trabalhadores. Ontem, apesar dos acontecimentos, o povo do vilarejo se incitou com o discurso de Joana e ela considera ser o momento certo, porém, muitos têm medo das consequências.

— Ótimo! Quanto mais pessoas apoiando, mais ânimo terão os trabalhadores. Aguardei tanto por isso. Fazer algo por Matias e por aquele povo.

— Obrigada Afonso. Fico deveras contente com a sua inciativa. Tens um bom coração. — Celeste o elogiou deixando-o sem jeito.

— Falei com meu pai — Frederico interrompeu — Estaremos na fazenda logo após a cerimônia de vossa irmã. Já temos a autorização para buscá-las.

— Espero que dê tempo... e para onde iremos? Qualquer propriedade da família o Barão terá acesso.

— Ficarás conosco — Afonso se apressou em falar. — Não deixaremos que fiquem expostas e à mercê de seu pai.

Celeste detectou carinho em sua voz.

— Obrigada, senhor Lamartine — respondeu gentilmente. — És um bom amigo. Obrigada a todos vocês pelo que tens feito por nós.


~~*~~



[...]Sim, mas não posso me demorar para não levantar suspeitas. A propósito, tenho outro motivo para estar aqui. Joana mandou um mensageiro para nos avisar sobre uma reunião que acontecerá na casa do marquês, amanhã, antes do casamento de Beatrice [...].

Demétria estava saindo da Casa Lamartine quando ouviu uma conversação. Escondeu-se atrás da porta de acesso a sala de onde estavam e logo identificou as vozes. Havia uma D’alboquerque também.

“Então, estão armando um levante contra o Barão...? bom saber...” pensou.

Continuou a ouvir e soube também que os Lamartine iriam à fazenda para buscar as outras moças. Mas como?

— Estão todos perdendo o juízo por causa dessas idiotas! — murmurou.

A raiva apoderou-se dela e pensou o que mais poderia fazer para tirar Liana do caminho de Pedro. Precisava acertar as contas com alguém.

Terminou de ouvir a conversa e foi se encontrar com Diogo.

~~*~~


— Você é um idiota, Diogo! Não sabe fazer nada direito! Por que não deu cabo de Liana como combinamos? — gritava Demétria.

— Tenho coisas mais importantes a fazer do que ficar à sua disposição, Demétria — respondeu sem dar muita atenção —, e depois, não sou seu capacho! Cadê o Carvalhal? Dispensou-te? — perguntou com um sorriso zombeteiro.

— Aquele é outro inútil que se bandeou para o lado das caipiras. Mas já lancei a semente da dúvida no coração de Pedro. Mas enquanto Liana estiver em meu caminho... Tens que matá-la!

— E o que eu ganho com isso, senhorita Castel... — disse com malícia se aproximando dela. — Não tem cumprido suas promessas.

— Porque não fez seu trabalho com afinco. Além disso, não posso me arriscar mais. Cumprirei após me casar com Pedro.

— Não posso esperar tanto... — disse ele passando a mão pela cintura dela e a beijando no pescoço.

A moça se deixou levar para provocá-lo enquanto ele dispensava beijos por seu pescoço e colo.

— Então, faça o que peço. Aliás, tenho uma informação valiosa — disse se desvencilhando dele. — As D’alboquerque e os irmãos Lamartine estão preparando um motim juntamente com os trabalhadores da fábrica, para breve.

— Como sabes? — franziu o cenho.

— Ouvi uma conversa na Casa hoje, quando fui visitar Pedro. Agora vai e fazes alguma coisa útil com essa informação.

— Odeio aquela gente — reclamou Diogo referindo-se ao vilarejo.

— Então use essa arma para frustrar os planos deles e terás crédito com o Barão. Quem sabe ele não dê a mão da filha que tanto desejas. Não é o que almejas?

— Ele negou-me — disse com raiva. — Eu pedi e ele negou-me!

Demétria gargalhou.

— Porque és um idiota. E verdade seja dita, Diogo, achas mesmo que ela irá preferi-lo ao senhor Raul que é um nobre? Você é nada para ela, Diogo, nada! — zombou deixando-o furioso. — Não pensou duas vezes antes de trocar-te por ele — riu de novo.

— Cale a boca!!! — gritou — Nunca mais diga isso, entendeu? — pegou no braço dela com força.

Demétria se assustou com a reação dele, mas sabia que Diogo tinha estopim curto e era movido pela raiva. Achou por bem continuar provocando-o. Quanto mais ele se enfurecesse, mais chance de cumprir seus objetivos.

— Pense. Você só terá seu valor quando mostrares ao Barão que pode desafiá-lo. Ele sempre o viu como um capacho, nada mais que isso. Nunca dará a mão da filha a um “ninguém” como você. — Chegou mais perto dele e falou: — Faças o que tens que fazer ou sua amada será de outro para sempre. Se bem que, jamais chegarás aos pés do senhor Casagrande.

Nessa hora, Diogo a atacou, segurando-a pelos cabelos.

— Você vai aprender a nunca mais provocar um homem, Demétria. Você não vale nada, sua vagabunda! — E deu-lhe um tapa no rosto que a fez cair sobre a poltrona. Em seguida começou a agarrá-la, beijando-a com força e levantando a saia do vestido.

— Diogo, pare! Não! — tentava sair dos braços dele, mas ele era forte e estava com raiva.

— Cale-se! — tapou sua boca — Você vai me dar o que prometeu agora mesmo. Vai aprender a nunca mais me tratar como um moleque.

— Não... por favor, Diogo! — começou a chorar quando viu que ele estava decidido. — Prometo que não vou mais dizer essas coisas. Solte-me, por favor!

— Tu não vales nada. Valerá menos agora.

E não adiantou os gritos de socorro ou as súplicas da moça. Diogo a tomou violentamente. E Demétria, naquele momento, soube que estava perdida para sempre.

~~*~~

— Pedro, eu peço-te, não duvides de mim, não irei suportar — pediu Liana.

— Liana, não acredito em palavra alguma de Demétria. Não posso negar que eu sentia ciúmes ao vê-lo por perto, mas agora sei que estás cortejando minha irmã. Que Deus a proteja!

— Ah, graças a Deus! Fiquei com tanto medo! — disse, abraçando-o. — Logo estaremos casados, meu amor. Estaremos juntos para sempre.

Já estavam reunidos, exceto Henrique que ainda se encontrava no hospital. Das irmãs, apenas Joana e Celeste. Também estavam presentes D. Hilda, o Marquês Rúben Tomaz de Canto e Melo e o jovem Álvaro Gomes de Carvalhal.

Liana desejou que suas outras irmãs estivessem neste momento especial, principalmente Emília que sempre fora sua aliada, mas tinha consciência de que as coisas precisavam acontecer dessa maneira.

— O padre Osvaldo está aqui — anunciou o mordomo.

— Faça-o entrar — ordenou o Visconde.

O salão principal da Casa Lamartine estava todo decorado com rosas brancas e Alfazemas. Havia uma mesa posta com um bolo e doces de toda qualidade, e outra com iguarias finíssimas encomendadas por Eleonor. Havia também um púlpito preparado para o padre realizar a cerimônia.

O vestido de Liana era de um esplêndido cetim cor de rosa e rendas peroladas acompanhando a coroa de flores em sua cabeça, a grinalda, e as luvas de cetim brancas. Como a cerimônia era particular, ninguém questionaria o porquê de Liana não estar se casando com as tradicionais flores de laranjeira. Nem mesmo o padre Osvaldo que era um grande amigo da família.

O clérigoposicionou-se e Frederico ajudou Pedro a ficar de pé; sua condição ainda o forçava a estar preso numa cadeira. Os noivos, diante do altar, uniram-se as mãos.

As palavras do religioso ecoaram pelo salão falando sobre a importância da união e os deveres de cada um. As alianças estavam depositadas em um recipiente de ouro para serem abençoadas pelo padre. A emoção pairava sobre todos os presentes; Eleonor, Elisa e D. Hilda derretiam-se em lágrimas a cada palavra dita ali.

O casal de noivos não podia estar mais radiante de alegria. Era o começo de uma vida a dois e o amor era mútuo.

Então, o momento da fala:

Minha doce Liana, soube que era a mulher da minha vida assim que coloquei os olhos em ti e mesmo diante de tantas adversidades, estava certo que o nosso amor venceria. Tu és a minha pérola que cuidarei enquanto eu viver. Recebo-te como minha esposa, para amá-la e respeitá-la e estar contigo em todos os momentos, sejam tristes ou alegres, me esforçando todos os dias para ser um bom pai e marido e sermos felizes até que a morte nos separe.

— Pedro, eu não posso mensurar o amor que sinto por ti, tudo o que passamos serviu para nos unir mais ainda e intensificar ainda mais este sentimento. Eu também soube, no momento em que o vi, que eras o homem com quem eu queria viver o resto da minha vida. E agora estamos aqui, nos unindo em amor e eu não posso estar mais feliz. Recebo-te como meu esposo para amá-lo e respeitá-lo todos os dias da minha vida, aprendendo contigo em todos os momentos, sejam tristes ou alegres, e seremos muitos felizes até que a morte nos separe.

A troca de alianças aconteceu e o padre declarou:

— Pela autoridade que me é concedida por Deus diante dos homens, eu vos declaro marido e mulher!

Aplausos ecoaram pelo salão junto com o choro das mulheres. Todos vieram abraçar os recém-casados e a pequena recepção em família se iniciou.

— Não vejo a hora de desposar a minha D’alboquerque — disse Fred a Afonso.

— Será em breve, irmão, tenha fé — respondeu o outro. — Parece coisa de destino — riu de leve —, Lamartine’s e D’alboquerque’s se apaixonando. Infelizmente nem todos os interesses são recíprocos e poderão ser concretizados.

Frederico o olhou, agora conhecia o drama do irmão e era realmente algo muito difícil. Apenas respondeu:

— Desculpe, irmão, não sei o que lhe dizer...

— Está tudo bem, não se preocupe. Tudo ficará bem — disse reticente olhando Celeste do outro lado do salão conversando com Joana e o Marquês. Provavelmente sobre manifestos revolucionários. Acenou para os irmãos e estes foram ao encontro do pequeno grupo.

Em outra parte do salão, o Visconde olhava a filha e o filho do traidor conversando, e resmungava.

— Senhor, meu marido, pare de resmungar — disse Eleonor. — É um dia feliz, não se detenha com pormenores desnecessários. Sua filha estará bem.

— Olha como eles se olham... — reclamou.

— Como um casal apaixonado? — indagou e o outro soltou um grunhido de insatisfação. — Eles formam um belo casal e nos darão lindos netos.

— Ora veja! Não é hora de pensar nisso. Mal chegou um neto nessa família e a senhora pensando em mais. Sinto-me velho!

Eleonor o olhou e sorriu. Apesar de rabugento, o amava demais.

— Meu pai — chamou Fred afoito — o Marquês tem algo importante para tratar com o senhor. Ele se dispôs a levar os documentos que comprometem o Barão e o Duque, ao Conselho Real. Seu título é alto o suficiente para pedir uma audiência particular e apresentar as causas.

— Mas isso é estupendo! — animou-se Maurice e saiu para tratar o assunto com o homem.

Eleonor estava preocupada. Ações que precisavam solicitar o consentimento real eram extremamente sérias e se não houvesse provas suficientes a situação poderia se reverter contra eles.

Olhou em volta e todos sorrindo e conversando. Desejou que esses momentos perdurassem. Estava cansada de tantas dissensões envolvendo sua família. Era preciso vir os tempos de paz...

~~*~~


No hospital, Henrique conversava com os médicos sobre a situação de Adelaide e sequer podia imaginar o que se passava com ela.

“Adelaide, você precisa voltar... suas irmãs precisarão de você neste momento.”

“Não quero mamãe, por favor, quero ficar contigo.”

“Filha, ainda não completaste sua missão, ainda tens muito o que viver.”

“Até agora só houve sofrimento, não quero mais voltar.”

“Adelaide, olhe para mim. A decisão será sua, mas saiba que acontecerá algo que abalará as pessoas ao seu redor. Se escolheres ficar, o sofrimento será maior. Volte e complete a sua missão.”

~~*~~

“Sei que todos nós temos uma missão e isso ficou ainda mais claro ao ler a carta de mamãe. Nem sempre será bela, pode haver sacrifícios e decisões difíceis, mas às vezes, não há outra saída.”

Diário de Emília D’alboquerque. Évora, 1815.


Notas finais
Espero que tenha gostado :D Até sábado! ♥