Notas iniciais
"É por isso que as decisões que você e eu tomamos todos os dias têm uma enorme importância. Um pequeno ato de bondade feito hoje representa a conquista de um ponto estratégico. de onde você poderá, mais tarde,obter vitórias com que nunca sonhou.Já uma indulgência aparentemente trivial que satisfaça desejos ou raivas pode significar a perda de uma posição crucial, de onde o inimigo pode desfechar um ataque que de outra forma seria impossível." (C.S. Lewis) ♥

“EXTRA! EXTRA!GUERRA ÉPICA ENTRE LAMARTINE’S E D’ALBOQUERQUE’S GERA DUAS MORTES!!!

Segundo fontes seguras, o Barão Rui Vasquez D’alboquerque matou um dos filhos do Visconde Maurice Alcântara Lamartine, Pedro Lamartine, quando este estava prestes a fugir com a primogênita, Adelaide, que por sua vez, estava prometida ao Marquês Rubens de Canto e Melo.

A briga aconteceu na fazenda do Barão, na qual houve tiroteio, tirando a vida do casal de amantes e rendendo vários feridos."

O Semanário

“Quando, meus caros leitores, pensaríamos ler uma notícia dessas? Na qual, encontramos um Lamartine e uma D’alboquerque vivendo um romance estilo Romeu e Julieta? Infelizmente, no sentido literal da palavra! Já que os amantes não sobreviveram para quebrar o estigma das famílias rivais. Que Deus os tenha e, talvez assim, possam viver seu grande amor em outro plano."

Coluna de Évora

~~*~~

— Céus! Logo cedo e só leio besteiras! — reclamou o Visconde no desjejum.

Afonso e Frederico estavam com ele à mesa. Todos cansados e ainda tentando assimilar as tragédias do dia anterior. Henrique subiu ao seu quarto para tomar um banho e descansar um pouco. Por mais que a família sentisse certa culpa por dormir num momento tão difícil, precisavam repor as energias, afinal de contas.

Doutor Fontana ficara encarregado de conclamar os médicos ingleses o quanto antes. O tempo agora era o pior inimigo. Quanto às irmãs D’alboquerque, Joana se comprometeu a procurar documentos que comprovassem os crimes do pai. Ela ficaria no comando da casa e, se porventura o Barão retornasse, entraria em contato com o Visconde, conforme o combinado.

Inacreditavelmente, ele conseguia agora, entender um pouco sobre o que a esposa estava querendo dizer na ocasião do escritório. As mulheres realmente tinham um sentido aguçado para certas coisas.

Mas havia outro motivo que o fazia refletir sobre ajudar as moças: Amélia. A mulher que ele mais amou na vida e, ao que parecia, as moças tinham herdado os atributos da mãe e não a falta caráter do patife. Não obstante, o suposto romance dos filhos com as D’alboquerque’s, era uma coisa que ele ainda resistia. Por mais que estivesse inclinado a ajudar as moças, ele não queria que os netos tivessem o sangue do seu inimigo. Do homem que roubara a mulher de sua vida. Era algo maior do que ele, não podia evitar.

Saiu da mesa para ver a esposa. Preferiu não abordar o assunto da fuga com Frederico e Afonso. O momento era tenso demais.

— Querida — chamou abrindo a porta do quarto.

Eleonor estava acordada, conversando com seus pensamentos. Virou-se para vê-lo.

— Sim...

Ele se sentou na beira cama e alisou o braço da esposa. Ela era uma ótima mulher e mãe. Sempre dedicada. Às vezes, um pouco espalhafatosa, mas fora esse jeito alegre que o conquistou na mocidade. Raramente ela ficava triste. Sempre se preocupando com o bem estar da família e criara os filhos muito bem. Se eles tinham um lar e filhos de bom caráter, a responsável era ela.

Vendo-a naquele estado, seu coração apertou-se. Não queria que ela sofresse. Deitou-se ao lado dela e acariciou seus cabelos enquanto ela chorava baixinho no peito dele.

— Shh! Tudo isso vai passar, minha querida. Pedro ficará bem e espero que a moça também.

Eleonor o olhou de repente com ar indagador.

Bolas! Esquecera por um momento que ela não sabia de toda a situação. Não queria que se agitasse mais ainda.

— Que moça? Não me digas que a coitadinha também está...

— Não a moça de Pedro... digo, não a que ele pretendia fugir. Mas uma das irmãs está em estado grave e, querida, é uma longa história — disse cansado —, não quero que se aborreças com mais nada. Quero que descanse.

— Pois, não quero descansar mais! — indignou-se — Estou nesta cama desde ontem, à base de calmantes. Sinto-me uma inútil! Quero ver meu filho, saber o que está acontecendo!?

— Está bem, vou lhe contar tudo. — Se deu por vencido.

Relatou todo o ocorrido desde a tentativa de fuga do filho com a moça, mais alguns detalhes que ele soubera por parte de Joana, quando conversaram no hospital; outros, através de Henrique.

— Meu Deus, Maurice. Eu sabia que tinha algo errado assim que as vi, mas a este nível? Que tipo de monstro esse homem é?

— Eu sei querida... a única coisa que eu não entendo é o porquê de a jovem levar um tiro por Henrique?

— Vocês homens são uns tolos mesmo, não é? — falou e o marido arregalou os olhos — Não vê que ela fez isso porque o ama?

— Como assim, ama? Eles mal se conhecem — irritou-se.

— Oras! E o que nós sabemos? Pensávamos que nada estivesse acontecendo com Pedro, e olha o resultado... — suspirou —, enfim, só quero dizer que a moça fez isso por estar apaixonada por Henrique, e ele também está.

— Bobagens! Henrique não está apaixonado. Ele não é dado a disparates sentimentais — retrucou.

— Está sim apaixonado! Só não admite porque é um teimoso feito você que deixa o ódio falar mais alto — objetou e o marido se limitou a resmungar.

— Pense um pouco, querido, observe como Henrique está diferente desde o acidente. Os delírios dele enquanto estava febril e, além disso, ele confessou a Fred que a moça não lhe saía da cabeça.

O Visconde pensou um pouco e respondeu:

— Bem... eu estranhei um pouco a reação dele diante da moça desfalecida. Ficou desesperado, desnorteado, talvez... mas qualquer um ficaria na situação dele! — E olhou para a esposa que o encarava com uma das sobrancelhas levantadas.

— Você e seu filho estão querendo enganar quem?

— Tudo bem, tudo bem, ele pode estar um pouco apegado a tal senhorita, mas, nós dois sabemos que ele nunca dará o braço a torcer. Eu mesmo não incentivarei a nenhum deles a se casar com essas moças! — reiterou.

A esposa o olhou com ternura e tocou a face dele:

— Posso lhe dizer algo? Deixe que eles façam suas próprias escolhas. É muito cruel impedi-los de viver algo tão bonito como o amor! Você bem sabe como é doloroso amar alguém que não pode ter.

O Visconde olhou rápido para a esposa, mas ela já havia desviado o olhar. O que ela quis dizer? O que ela sabia? Não teve coragem de perguntar. Apenas a vislumbrou enquanto se levantava da cama ao passo que dizia:

— Chega de não fazer nada! Meus filhos precisam de mim e eu pretendo fazer uma visita ainda hoje. Se o senhor me der licença, vou pedir que me preparem um banho.

E entrou no quarto de vestir deixando o marido com a dúvida.

~~*~~

A notícia da tragédia entre as famílias espalhou-se como rastro de pólvora. Alguns diziam que acontecera um massacre completo das famílias rivais, outros comentavam que fora os noivos das moças que mataram os cavalheiros Lamartine. Até mesmo histórias de que havia dois casais tentando fugir, também era muito comum naquela manhã.

Contudo, a notícia real, ninguém sabia.

Frederico acompanhara Joana e Emília até a fazenda. Era o momento de unir forças para lidar com tudo o que estava acontecendo e o que estava por vir.

Dona Hilda e as outras irmãs D’alboquerque esperavam ansiosas na sala, quando Joana surgiu em um estado deplorável. A senhora correu para auxiliá-la. Cabelos desgrenhados, rosto cansado e completamente suja de terra e sangue da irmã.

— Oh minha menina! — a beijou no rosto —Venha, vou lhe preparar um banho.

— Mas Didila, eu preciso contar tudo às meninas...

— Tenho certeza de que Emília e o senhor Lamartine podem fazer isso. Vamos, você precisa descansar.

— Mila, como está Adelaide? — Celeste pediu aflita.

— Ela está em estado grave — seus olhos marejaram. — Passou por uma cirurgia e Dr. Fontana irá solicitar médicos estrangeiros a pedido do Visconde. Mas não nos deu garantia de melhora.

Inevitavelmente, choraram a notícia. As quatro se abraçaram. Era um gesto de carinho que sempre perpetravam como se isso transferisse força umas às outras e reforçasse a união entre elas.

— E Liana? — Emília quis saber.

— Ainda em estado de choque. Não fala, não come ou se move. Teremos que chamar o Dr. Fontana para vê-la — respondeu Beatrice.

A irmã concordou com a cabeça e todos se acomodaram para conversar. Falaram sobre Pedro, sobre o revezamento no hospital, sobre possibilidades de melhora, tanto dos moribundos quanto da vida deles, cogitaram como o Barão soube da fuga...

— Eu sei que não deveria perguntar, mas... vocês sabem de papai? — perguntou Cecília, hesitante.

— Pra falar a verdade Ceci, eu não sei, pois, o tempo em que estive no hospital, foi para saber de Pedro e Adelaide — explicou Emília. — Não quero parecer fria, mas nada ao que diz respeito àquele homem me interessa.

A caçula apenas concordou em silêncio. Sempre tivera esperanças da redenção do pai, porém, depois de tudo isso, estava perdendo a fé.

O desjejum foi anunciado, no entanto, ninguém tinha ânimo para comer. As últimas horas foram muito estarrecedoras e ainda tinham que pensar como seria dali para frente.

~~*~~

— O que você tem a me dizer sobre isso tudo, Álvaro? — gritou o Duque Luís Coutinho jogando o jornal para o filho, antes de este se sentar à mesa.

— O que o senhor quer dizer? — quis saber olhando para o monte de papel em suas mãos.

— Oras, não venhas com essa, seu incompetente! Veja então!

E Álvaro pôs-se a ler não acreditando naquelas palavras. Aquilo não podia ser verdade.

— Então eles... não conseguiram... — pensou alto.

— Ah, então o senhor sabia! Eu tenho vergonha de tê-lo como filho! Como permites que sua noiva fuja com outro? Você jogou nosso nome na lama! Se não fosse a senhorita Castel a me alertar, eles teriam conseguido. Agora, preciso contornar toda essa situação.

— Demétria? Como ela soube? — perguntou desconfiado.

— Isso não vem ao caso — berrou. — Terei que fazer outro arranjo para te casares com outra D’alboquerque, já que essa bateu com as botas.

Álvaro não podia acreditar no que ouvia.

— Tragédias acontecendo e o senhor pensando em arrumar-me outra noiva? Como pode ser tão frio, meu pai?

O Duque avançou sobre o filho e o pegou pelas golas do casaco.

— Não me venhas com sentimentalismo, seu idiota. O mundo está caindo e precisamos estar garantidos. Agora vá — empurrou o filho — e procure saber o que se passa e se aproxime de outra moça, se for o caso, para consolá-la.

O rapaz ajeitou a roupa e questionou antes de sair:

— Foi o senhor quem avisou o Barão sobre a fuga não foi?

— Não tenho que te dar satisfações. Não entendeu ainda? Estamos num jogo, não há tempo para romances e nem de chorar as tragédias. O mundo não para e temos que permanecer entre os mais fortes — dizia com olhos acesos. — Eu fiz um favor a todos.

— Há pessoas mortas e o senhor falando de poder? — indignou-se.

— Não me faças tomar providências mais drásticas ao seu respeito, seu imprestável! — ameaçou — Agora vai e faça o que te ordeno. E diga ao Barão que precisamos conversar o quanto antes.

~~*~~

— Querido, Elisa e eu iremos até o hospital — informou Eleonor.

— Está bem — compreendeu o marido —, mas leve Afonso junto. Não é bom saírem sozinhas neste estado.

— Acredito que Henrique também queira ir — afirmou Elisa.

— Ele saiu bem cedo. Já está lá — respondeu seu pai e a Viscondessa deu um sorrisinho para ele. Sabia o que queria dizer.

Após tomar um banho e descansar um pouco, Henrique partira para o hospital. O pai sugeriu que ele fosse somente à tarde, mas foi enfático ao dizer que espreitaria o Barão e cuidaria para que saísse de lá direto para a cadeia.

A verdade é que não queria se afastar do irmão e, também, de Adelaide. Sentia raiva, dor, culpa, impotência. Mas era fechado demais para compartilhar isso com alguém.

Maurice beijou a testa da esposa e da filha.

— Vai ficar tudo bem, querida — disse ele segurando a mão da esposa. — Vamos vencer mais essa, juntos.

As palavras do marido a confortou. Sim, foram muitas lutas nesses anos todos. E em sua maioria, travadas em seus próprios íntimos, transmutadas na dor, nas superações e até nas divergências. Resiliência era a palavra que definia tudo.

O Visconde, mais uma vez, contemplou a esposa enquanto ela subia na carruagem. Ultimamente estava fazendo muito isso. Mas como não notar a mulher extraordinária que Eleonor era. Decidida, amável.

Ele que achava que não amaria mais ninguém nessa vida, estava enganado. Ainda que, depois de casado, e por muitos anos, amara a Baronesa, descobriu com o tempo, que aprendera amar sua esposa.

~~*~~

— Henrique... — chamou o filho em voz baixa.

Ao passar pela entrada do hospital, o viu sentado, com os cotovelos apoiados nas coxas e as duas mãos entre os cabelos. Os olhos estavam fixos nos pés. Ergueu-os.

— Mãe — respondeu como se tivesse oito anos e estivesse com medo. — Não há nenhuma mudança no quadro de Pedro ainda.

Eleonor apenas balançou a cabeça, desolada.

— Vamos ter fé. Deus há de ter compaixão. E a moça?

Moveu a cabeça, negativamente, e a mãe sentiu compaixão ao perceber a tristeza em seu semblante.

— Ah filho — passou a mão pelos cabelos dele. — Vou ver seu irmão e depois conversamos, está bem?

Ele concordou.

Um coração de mãe nunca se enganava. Era a primeira vez que via seu filho naquele estado conflituoso. Precisava de conselhos.

Ela adentrou o quarto de Pedro com Elisa em seu encalço. Levou a mão à boca para tapar um grito de desespero ao ver o filho. Lágrimas grossas rolaram na mesma hora. Elisa abraçou a mãe pela cintura.

— Senhora... — Dr. Fontana a chamou — gostaria de informá-la que os médicos chegarão logo. Tenho certeza de que com a experiência e técnicas deles, seu filho se recuperará depressa.

— Que assim seja, doutor, que assim seja! — respondeu ainda chorando e alisando a cabeça do filho. — Doutor Fontana... eu gostaria de ver a moça.

O médico estranhou o pedido, mas nada disse, apenas a levou. Eleonor pediu à filha que ficasse junto com seus irmãos e ela obedeceu sem questionar.

Adelaide estava muito pálida e, em seu rosto deformado, havias várias manchas esverdeadas. Os olhos e a boca estavam extremamente protuberantes e os lábios feridos.

— Meu Deus! O que aconteceu com essa menina, doutor?

— Bem senhora... horas antes de levar o tiro, ela fora espancada pelo pai num ato de defesa à sua irmã.

Eleonor emudeceu diante da chocante história.

— A Guarda foi notificada?

— Sim, senhora. Entretanto... o Barão também está hospitalizado, então...

Dera-se o trabalho de apenas suspirar fundo. Falar já não adiantava nada, já havia muita gente fazendo isso. O que ela precisava era prestar apoio àquelas jovens sozinhas e maltratadas, durante tantos anos, por um louco algoz.

— Permita-me ficar um pouco a sós com ela? Prometo que serei breve — pediu.

O médico assentiu e saiu.

Ela ficou olhando algum tempo para a moça. Uma ternura de mãe lhe invadiu. Nunca havia parado para pensar nelas. Aliás, porque pensaria? Até então, elas eram D’alboquerque’s, apenas o inimigo. Mas depois do baile e com a breve conversa com a caçula delas, começou a pensar e a observar.

Aproximou-se do leito, pegou a mão de Adelaide e disse:

— Obrigada por salvar a vida de meu filho por duas vezes. Eu não as conhecia bem e, muitas vezes, as julguei. Mas, agora eu sei que são meninas amáveis e sobreviventes — fungou o nariz. — Eu sei que o que fizeste por meu filho, fora por amor, e por isso eu prometo que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que sejam felizes. Ele também a ama, sabia? — sorriu entre as lágrimas — Será um prazer tê-la na família e ser avó dos filhos que virão a ter.

Beijou a mão da moça e concluiu:

— Por favor, viva por esse amor.

Antes de a Viscondessa deixar o quarto, Henrique saiu de trás da porta e voltou ao seu lugar. Ouvira tudo o que a mãe dissera.

— Olha quem acaba de chegar — cochichou Afonso à Elisa, apontando para a entrada do hospital.

— Senhor Carvalhal? — Elisa o abordou já que ele parecia perdido.

— Senhorita Lamartine! — fez-lhe uma reverência.

— Eu sinto muito por tudo isso... como estás se sentindo? — perguntou sem saber ao certo o que falar.

— Não estou nos meus melhores dias. Enfrentar os burburinhos e olhares dessa gente não é nada fácil. Mas diga-me, senhorita, é mesmo verdade? A senhorita D’alboquerque está...

— Liana está viva, se é o que queres saber.

— Está? Graças a Deus!

— Mas sua irmã, Adelaide, e meu irmão Pedro, estão à beira da morte.

— Céus! Conte-me como aconteceu?

E Elisa relatou-lhe os fatos.

— Isso é inacreditável — disse ele passando uma das mãos pelos cabelos — Se eu soubesse que acabaria assim...

— Então o senhor os ajudou.

Álvaro bufou, colocando as mãos no bolso e confessou:

— Ajudei, com a melhor das intenções, eu juro. Estava tudo dando certo. Eu a levei até o chalé...

— Não precisa se justificar. Eu o admiro por isso. Não se sinta culpado. Na verdade, eu tenho mais culpa do que o senhor.

— Por que diz isso?

— Bem... — olhou para o lenço nas mãos — seu pai chegou a lhe falar algo sobre casar-se com Demétria?

Álvaro franziu o cenho.

— Não estou entendendo... não houve qualquer cogitação. Explique melhor. — Já estava suspeitando do dedo de Demétria nessa história.

— Eu contei à Demétria sobre o plano de Pedro e ela se ofereceu para ajudar... ela me disse que pediria ao pai para falar com o Duque e propor uma aliança entre vossas famílias. Assim, ela se casaria com você e Pedro não precisaria mais fugir com Liana.

Que víbora! Xingou mentalmente. Sabia manipular muito bem as pessoas quando queria. Era a maior culpada de tudo.

— Sei... — Se limitou a dizer.

— Mas acredito que não tivera êxito, o pai e o Duque devem ter ficado furiosos com a proposta e tudo viera à tona. Deve estar transtornada, a coitadinha...

— Humpf!

— Algo errado, senhor?

— Não. Apenas me ocorreu que... Ouça, não tiveste culpa de alguma. Sei que agiu com instinto protetor. Agora, peço licença, preciso ir até a fazenda tratar de uns assuntos com o Barão.

— Perderá seu tempo, Carvalhal — bradou Henrique antes de a irmã dizer qualquer coisa.

— Perdão!? — interpelou.

— Aquele maldito também está aqui, e se tiver sorte, morrerá em breve. Mas vá em frente! — indicou com a mão — Aproveite e lhe dê meu recado: se sobreviver aos ferimentos, eu estarei aqui o esperando para matá-lo — respondeu enraivecido.

O rapaz apenas o olhou, espantado.

— Filho, não digas isso... — Era a mãe — por mais que ele mereça, você não é como ele. És um bom homem.

Henrique se lembrou das palavras de Adelaide quando estava prestes a matar o velho.

Álvaro interferiu:

— Ele não deixa de ter razão. Sei bem o que é conviver com a maldade e a ganância.

Foi uma declaração súbita que atraiu a atenção de todos. Então emendou:

— Bem, irei até a fazenda para me colocar à disposição das senhoritas D’alboquerque. Passar bem!

— Hã... senhor Carvalhal, gostaria de lhe acompanhar se não for incômodo. Já tinha eu planos para visitá-las também — disse a Viscondessa.

— Não será incômodo algum, senhora.

— Minha mãe, porque irás à fazenda? — Henrique indagou, intrigado.

— Sinto-me na obrigação de fazer algo por aquelas moças e não quero que ninguém me questione. Elisa e Afonso irão comigo.

Nunca vira a mãe tão forte e decidida, principalmente em situações relacionadas à família rival. Não questionou, como ela pediu, mas todos já sentiam as drásticas mudanças das últimas horas.

~~*~~

— Não sei o que está se passando e isso me deixa nervosa, mamãe! — Demétria andava de um lado ao outro. — Tenho certeza de que esse jornal está mentindo. A senhora sabe muito bem que essa gente é cheia de mexericos. Um bando de incompetentes!

— Calma filha! Porque você não envia uma mensagem a Álvaro?

— Já enviei, mas ainda não obtive resposta. Pedro não pode estar morto, não pode! — surtou.

— Demétria, você sabia muito bem onde isso poderia dar. Agora não adianta chorar o leite derramado. Quantas vezes falamos para você se contentar com o jovem Carvalhal... é um ótimo partido e é completamente apaixonado por você. Mas não! Tinha que encasquetar com os Lamartine, não é? Isso é culpa de seu pai — disparou a mãe.

— Mamãe, a senhora acha que Pedro pode estar morto? — choramingou.

— Para falar a verdade, querida, devido às circunstâncias, devemos esperar pelo pior. Aquelas famílias se odeiam há anos. Eu não ficaria surpresa se o pai da moça vingasse a honra dela e o nome.

— Honra! Que honra mamãe? Não se lembra de que ela foi pega com Pedro no jardim? Eu a odeio por tentar roubá-lo de mim!

— Enfim — disse Pilar —, só nos resta ir até Évora e confirmar toda essa história. Eleonor deve precisar de um ombro amigo — fez uma careta — e aproveitamos para dar o bote final e casar você nem que seja com Afonso.

~~*~~

— Pois, bem meninas — começou Joana reunida na sala com as suas irmãs e D. Hilda.

— São muitos os acontecimentos nas últimas horas e sabemos que é chegado o momento de tomar as rédeas de nossa vida. Adelaide e Pedro estão em estado grave e não precisamos dizer de quem é a culpa de tudo isso.

“Ele é o responsável pelas tragédias em nossa vida. Por nosso isolamento e sofrimento desde que mamãe se foi. Não vou mais permitir que ele nos use para suas manobras. Ele nunca nos tratou como filhas, mas como objetos de troca. Quando nos prendeu nesta fazenda, o fez com o único propósito de nos usar como prêmio para seu bel prazer — respirou fundo. — Ao ver nossa irmã naquela cama de hospital, com o rosto deformado e à beira da morte, meu ódio por ele cresceu mais ainda. Adelaide sempre nos defendeu, ela não merecia isso.

Não vamos visitá-lo. Não vamos mover um dedo sequer para ajudá-lo. Mas eis o que vamos fazer, procuraremos documentos comprometedores e levaremos ao Conselho de Estado, por intermédio do Visconde. Pediremos o seu exílio e esqueceremos de uma vez por todas que esse opressor foi, algum dia, nosso pai.”

Ao terminar, as irmãs estavam abismadas. Nunca a viram falar daquela maneira. Joana sempre fora a mais determinada entre elas, mas agora, era diferente.

— Eu gostaria que vocês me dessem uma posição sobre o que pensam a respeito de tudo que falei — instou.

— Eu concordo com você, Joana — disse Celeste imediatamente.

— Eu também. — Emília e Beatrice reiteraram.

— Ceci? — perguntou Joana e ela apenas assentiu.

— Então está decidido. Eu estarei à frente da casa até que Adelaide volte e Didila me ajudará — olhou para a senhora e ela concordou. — Mila, Trice... não sei se poderei desfazer o noivado de vocês, mas prometo que tentarei.

— Joana... — Beatrice quis falar — eu não quero desfazer o meu noivado com o senhor Casagrande.

As meninas se surpreenderam, mas Joana respeitou a decisão da irmã.

— Estás certa disso?

— Sim.

— Estamos entendidas então. Irei ao hospital e seguiremos com o revezamento que combinamos. Liana também precisa de cuidados e o Dr. Fontana virá vê-la ainda hoje.

— Jô, eu também quero ir ao hospital — disse Liana descendo as escadas e as irmãs se animaram. — Preciso ver Adelaide e Pedro, senão não terei paz.

A irmã sentiu tanta pena. Sua angústia era visível. Mesmo que não mencionasse sua culpa, isso estava estampado em seu rosto.

— Liana... você ainda está muito abalada. Não seria melhor esperar mais um pouco? — orientou.

— Não, Joana. Não posso mais...eu preciso vê-los. Por favor...

— Está bem, mas não estará no rodízio do hospital, você precisa se restabelecer por esses dias.

— Senhorita Joana — chamou o mordomo —, a Viscondessa está aqui e gostaria de lhe falar.

A Viscondessa? Pensou. Era de fato, inesperado, mas a essa altura dos acontecimentos ela já não se abalava com mais nada.

— Eu a receberei

~~*~~

— Irei com Frederico ao magistrado. Certas coisas não se podem adiar. — O Visconde informou a Henrique. — Conseguimos algumas testemunhas contra aquele cretino. Além disso, recebi uma carta do representante dos ruralistas dizendo que permanecerão nos montados. Pelo menos uma notícia boa em meio a tudo isso. Valha-me Deus! — levantou as mãos num gesto de cansaço.

— Se o senhor quiser eu posso ir. — Frederico se ofereceu.

— Não, não. Vou enviar um mensageiro de confiança. Ele saberá lidar com a situação. Precisamos estar juntos nesse momento. Vossa mãe está muito abalada, ela não suportaria ficar longe de filho algum nessa hora.

Doutor Fontana se fez presente entre eles.

— Alguma novidade, doutor? — perguntou Maurice.

— Enviei as cartas para os médicos e agora só nos resta rezar para que eles venham o mais rápido possível.

— Por que diz isso? — perguntou Henrique incontinenti.

— Apesar de Pedro sofrer agressões violentas, seus sinais vitais estão preservados. Devemos nos preocupar com o coma, obviamente, mas estou positivo em relação a ele. Onde estão as moças D’alboquerque? — perguntou olhando ao redor.

— Devem chegar a qualquer momento — respondeu Fred. — O que se passa, doutor?

— Bem... a respeito da senhorita D’alboquerque, acredito que não podemos alimentar falsas esperanças. Como eu havia dito, ela perdeu muito sangue e o ferimento em seu pulmão está bastante infeccionado, isso traz complicações. Pela minha experiência, não posso omitir a verdade, precisamos prepará-las para a despedida — concluiu o médico com tristeza.

Henrique estava terrificado. Não podia ser! Ela não podia morrer!

— M-mas... — gaguejou — não há mais nada a se fazer? Antes que os médicos ingleses cheguem?

O Visconde naquele momento percebeu que a esposa estava certa. Seu filho estava apegado à moça e desesperado.

— Meu Deus — Frederico exclamou. — Elas não suportarão saber que a irmã irá morrer...

— Quem deveria morrer era aquele velho desgraçado! — gritou Henrique — Eu o mato!

— Acalme-se, Henrique — pediu o pai — Não é o momento para mais uma tragédia. Aquele patife logo estará de viagem para o seu exílio.

— Eu quero vê-la... — pediu ao médico, oscilante, e todos olharam estranho para ele.

Doutor Fontana não objetou. Levou-o até o quarto.

Desde que Adelaide passara pela cirurgia, ele não mais a viu. Não queria aproximação, mesmo sabendo que ela estava naquele estado por salvar a sua vida. Ainda sentia raiva, mas também estava com medo. Vários medos. Medo de se afeiçoar a ela, como desconfiava que podia acontecer, e medo que ela morresse. Sua cabeça eram apenas conflitos ultimamente.

O médico deixou-o, a sós, com a enferma.

Ele a observou atentamente, parado na frente do leito, com as mãos no bolso. Seu rosto belo, porém, ainda desfigurado pelas surras do pai, transparecia aquela mesma serenidade da primeira vez que a vira.

Um homem com quase trinta anos e que nunca se apaixonara, se via agora diante da única mulher que poderia mudar isso. A filha do seu pior inimigo; e esta estava morrendo. O destino era cruel.

Respirou fundo, sem saber ao certo o porquê de estar ali. Mas ele precisava dizer o que estava tanto lhe incomodando. Ali ele podia, ninguém o ouviria. Nem mesmo ela. Mas precisava dizer, como em um confessionário.

— Eu... fui tolo... — começou. — Não consegui enxergar o que estava à minha frente. Uma mulher forte e generosa. Eu estava cego pelo ódio e pela vingança. Sabe... é muito difícil aceitar seu sangue. Eu nunca quis me apegar a nenhuma mulher. Sempre achei essa coisa de amor para os fracos.

“Mas, quando seus olhos suplicantes não mais saíam da minha cabeça, comecei a questionar o porquê disso e senti raiva de mim, e de você. — Respirou fundo mais uma vez. — E quando... quando levou um tiro por mim, eu soube que me amava mesmo sabendo quem eu era; mesmo eu sendo tão rude com você. Agora, eu só peço que me perdoe e que não morra... por favor, não morra...”

Achegou-se à beira do leito e pôs sua mão sobre a dela. Ficou assim por um instante, mas logo retirou a mão e saiu do quarto, apressado.


Notas finais
Comentem se acharem que a história vale a pena. *-* Até o próximo capítulo! ♥