As Páginas Acinzentadas de A.G
6 Ventania
“Não sei em que mês estamos, mas a chuva continua.
Acordei em uma cama macia cercada de aparelhos. Era assustador, eu tinha cabos enfiados em mim onde nada nunca entrou, apenas saiu. Sentia-me fraco, mole e com uma dor tremenda nos olhos e na cabeça. Parece uma ressaca de mil anos. Meu cérebro não me obedecia, estava com as pernas e os braços dormentes, a vista pesada e a mente confusa. Quando olhei para meu lado, um rosto familiar e gorducho me sorria, segurando uma Barbie na mão direita e um lápis de cor na outra. Reconheci na hora, era a garotinha daquele dia na praça. Mas o que ela faz aqui?”.
Levantando de um sofá branco no fundo do quarto, uma bela mulher alta de cabelos curtos, ruivos e ondulados, elegante, de jaleco e crachá se aproximava dele. Era a mãe bem vestida da garotinha. Alex sentiu um alívio quando olhou para ambas. Apesar da visão turva, pode ler com dificuldade o nome “Dra. PIERKOVIC, Elisa.” No crachá, seguido por diversos números. Ahh estava em ótimas mãos!
A doutora Elisa sentou-se ao lado dele na cama e o fez perguntas rotineiras, demonstrando uma capacidade profissional de dar inveja. Impecável na sua atuação, a médica deu as informações mais bem ditadas que o paciente já ouviu. Sua voz era suave, porém firme. Passava segurança e confiabilidade. A oralidade e a forma culta da língua eram deslumbrantes. Ela lhe disse que ele estava na rua e foi vítima de um assalto e que, quando tentou fugir dos três ladrões foi atropelado. A lista de traumas sofridos era interminável. Iam desde a ruptura da pele que envolve o crânio até dedos do pé quebrados, passando por costelas fraturadas, ossos da perna estraçalhados, bacia deslocada e muita perda de sangue.
–Quem me trouxe aqui? O que houve com o meu caderno? — Ele perguntou em gemido, com muita dor nas costas.
–Uma amiga minha que trabalha no necrotério da cidade. Ela te achou cerca de cinco minutos depois do acidente, desmaiado.
–E o meu caderno?!
Ela nada respondeu. Uma enfermeira chamou a doutora no alto-falante do hospital, alegando emergência no quarto 111. Exibindo um desconcertante olhar ela saiu, preocupada, porém ele não sabia se sua preocupação era voltada aos seus cadernos ou ao paciente. Provavelmente ao paciente.
Alex permaneceu naquele hospital, segundo suas contas, por mais três dias. Porém não sabia quantos dias ficou desacordado. Sua recuperação alarmou os especialistas mais reverentes, suas fraturas severas não lhe impediram de absolutamente nada. Nem mesmo de se levantar da cama do hospital e fechar as cortinas e janelas do seu quarto, que insistiam em abrir e permitir que uma correnteza incessante de ventos fortes adentrasse o ambiente a cada minuto. Elisa tornou a visitá-lo, a fim de lhe dar alta. Mas ele não queria apenas um papel, queria explicações.
–É, parece que vou poder te liberar. Foi a recuperação mais rápida que já vi –Comentou a doutora, olhando um amontoado de folhas- O seu colesterol está ótimo, seu exame de sangue não deu nada de tão grave, e em relação ao seu...
–Perdoe-me, doutora- Interrompeu Alex- fico muito feliz por estar tudo bem comigo e este quarto poder servir para alguém mais enfermo que eu. Mas preciso saber o paradeiro de meu caderno. Por favor, me responda.
A moça respirou fundo, como se estivesse pronta para tirar um fardo extremo das costas.
–De seu caderno nada sei.
–Ora! Como não? E a sua amiga que me achou, não viu nada?
–Lamento, nada posso fazer.
–Mas sabe de algo. Algo que tenta esconder de mim, mas não está tendo sucesso.
–Está insinuando que estou mentindo? –Ela perguntou, franzindo a testa.
–Você ouviu bem o que eu disse. O que hesita em me contar, doutora?
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