As Páginas Acinzentadas de A.G
7 A escuridão paira
“Devo admitir que aquilo me causou um profundo medo. Os olhos dela rondavam o cômodo, como se procurasse as palavras nas quinas das mesas, das paredes e das cadeiras. Ela mexia sem parar em seu colar e mordia o lábio, nervosa. Batia o pé ao chão. Aquilo só me deixava mais ansioso o nervoso, todos os tipos de pensamentos corriam pela minha mente. Eu comecei a suar e estava quase gritando pra ela desembuchar de uma vez. Quando enfim tomei coragem para dar meu surto, ela se levantou de forma súbita e sua voz trêmula tentando se manter calma proferiu as seguintes palavras “Venha comigo, não me pergunte nada”.
Segui de forma desesperada seus passos firmes e rápidos por toda extensão daquele corredor imenso do primeiro andar do hospital. E de repente senti como se não devesse ir. Como se meu lugar não fosse aquele. Como se eu tivesse a missão de fugir daquele lugar o mais rápido possível. A sensação amarga tomou conta de todo meu corpo, exceto da parte mais importante: meus pés. Eu não os controlava mais, eles guiavam-se por conta própria e eu, mero ambulante. Foi quando saímos por uma porta de emergência que deu para o estacionamento. Entrei em um carro elegante preto, no qual eu era uma formiga próximo dele. Parecia um avião, tanto na estética quanto na velocidade. Eu não sabia se ela estava acelerando demais ou se aquilo era natural da tecnologia sem limites. Enfim, chegamos a outro prédio um pouco menor que ficava próximo do hospital. Não pude ler o letreiro pois estávamos quase correndo em direção a uma sala. Foi então que percebi... Aquele lugar era muito branco, extremamente frio e todas as pessoas andavam com casacos especiais, máscaras e luvas plásticas azuis, toucas e óculos de proteção. Eu não sabia o que estava fazendo naquele necrotério. Não sabia o porquê eu estava tão ansioso e triste, porque meu coração desacelerou por completo quando a doutora abriu uma porta daquele lugar e entrou. Simplesmente não sabia. Mas soube naquele instante algo que eu nunca mais haveria de esquecer...”
Nunca sabemos quando é nosso fim. Mas devemos ter em mente que todo dia é um novo começo para um fim. Seja qual for o pensamento do dia, a previsão do tempo, as notícias... Ninguém pode prever certamente o que irá acontecer com você hoje. Ninguém é dono de si mesmo, ninguém controla nada. E, infelizmente, nada é infinito e imortal. E a vida é como um bebê recém-nascido. Delicado, maleável, perfeito. Até você deixá-lo cair de cabeça no chão.
Sem dúvidas Alex sentiu essa queda de cabeça quando entrou na sala e ficou parado na porta. Olhou automaticamente para a doutora que chorava, com a mão na boca, observando o corpo deitado sobre a maca. Ele correu os olhos para outra moça que estava na sala, com uma roupa típica de cirurgião, coberta por óculos, máscara, jaleco, luvas e touca. Esta, diferente de outros que encontrou pelo caminho, segurava instrumentos de ferro e aço cirúrgico, alguns manchados de sangue. Quando, finalmente, teve tempo de analisar quem estava na maca, perdeu o fôlego. Era ela.
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