As Páginas Acinzentadas de A.G
2 A Chuva
“Fevereiro, 2013.
Decidido: eu não volto para casa. Não volto antes de conseguir um beijo dela. Este meu caderno medíocre de desenho se tornou um laço de carrasco que, a cada palavra, vai me enforcar com lembranças nas quais não consegui realizar. Pode parecer loucura, mas já se passaram semanas desde aquele dia do café e, sinceramente, não me sinto mal em passar manhãs, tardes e noites procurando pelo meu amor. Apaixonei-me de tal maneira... Como pode acontecer?! Confusão, obsessão, medo. São as palavras que definem meu estado nesse momento. Já são oito e meia da noite e eu estou aqui sentado em uma praça qualquer, com nada além de minha jaqueta, meu lápis, meu caderno e meu pensamento. Minha alma, assim como meu corpo e meu coração já não me pertencem mais. Não consigo mais me reconhecer. A desordem é meu sobrenome.”
Começara a chover de forma anormalmente bonita. A praça estava vazia, não havia carros nem pessoas, apenas um rapaz solitário, sentado, de cabeça baixa. As lâmpadas que faziam um péssimo trabalho de iluminar a rua deixavam os chuviscos brilhantes como diamantes caindo suavemente do céu negro. Era como se as estrelas descessem dos céus, uma do lado da outra, dançando e consolando o homem que permanecia na mesma posição. Ele ergueu a cabeça e deixou que os pingos lavassem seu rosto, juntamente com as lágrimas que furtivamente correram de seus olhos. Fechou-os e, mais uma vez, a garotinha loira lhe roubava o consciente e inconsciente. Deitou sobre o banco e lá ficou. Apesar da situação desagradável, afinal, bancos de praça não são confortáveis nem para sentar, ele dormiu como nunca havia dormido. Era como se aqueles chuviscos que lhe tocaram a tez tão gentilmente fossem os milhares de beijos que queria daquela garota. Descansou. Sonhou. Com ela, claro.
Depois daquela noite não parou mais de chover. Onde quer que ele fosse, nuvens negras carregadas de fortes tempestades o seguiam. Parecia um mau presságio. “Mas nem mesmo os céus me farão desistir da minha busca” ele escreveu. Enquanto tentava entender aquela paixão tão repentina, seu estômago lhe rogou horrorosamente por comida. Riu, pensou ter um monstro dentro de si. Ironicamente, foi isso que o fez perceber que ainda estava vivo. Passou as mãos nos bolsos, desolado. Havia um clips, um cigarro, um apontador e um ingresso amassado para ir á um parque de diversões pequeno e independente, não muito conhecido. Lembra-se de ter ganhado isso enquanto jogava poker, apostando tudo o que os jogadores tinham. No bolso da jaqueta tinha apenas cinco centavos. Lembrou-se então que naquele dia do café nem viu as notas de dinheiro que jogou sobre a mesa antes de correr desesperado. É, ele era um azarado. Suspirou fundo, com as mãos na cintura olhou para o céu como se esperasse uma ajuda de Deus lhe jogando míseros três reais, quem sabe.
Negava-se a implorar por dinheiro para alguém. Não, seu orgulho era muito grande e seu ego ainda maior. Iria usar algum de seus talentos para conseguir dinheiro. Sabia, desde a hora que decidiu voltar para casa apenas quando a encontrasse, que seria difícil. Uma ventania tomou forma, vindo do leste, e fez uma folha de seu caderno de desenho se soltar. Pensou rápido e se jogou para frente, erguendo o braço e pegando novamente a folha. Ficou olhando para ela, que ainda se debatia por conta da brisa um pouco mais agressiva. Pequenos círculos de água se formavam sobre ela. Olhou pra cima. É, estava começando a chover de novo. Malditas nuvens que o seguiam. Foi quando uma gota caiu bem no meio de sua testa e lhe deu uma grande ideia. “Pode parecer loucura, mas realmente achei que tinha sido a gota que fez com que eu pensasse naquilo. O que está acontecendo?”
Foi realmente brilhante. Correu pelo lugar que desconhecia cercado por árvores e asfalto trincado. Sentou-se em outra praça, bem mais movimentada que a anterior. Colocou sua jaqueta grossa e quadriculada sobre a cabeça e, com uma caneta, começou a desenhar perfeitamente a moça por quem procurava. Ficou perfeito, parecia real. Assim que terminou, após algumas horas, parou uma jovem senhora de vestes elegantes que passava bem á sua frente de mãos dadas á uma garotinha vestida toda de rosa, segurando uma Barbie princesa.
–Com licença, — Interpelou o rapaz- poderia me dizer se já viu essa moça em algum lugar por aqui?- E lhe apontou o desenho.
A mulher ficou incrédula com tal talento desperdiçado nas ruas frias daquela cidade. Pode-se ver pelos olhos dela que uma história horrível sobre o garoto passava por sua mente. Ele sorriu, pensando que ela mal sabia que só estava na rua por causa da garota do desenho.
–Hm, nunca a vi. Ela se perdeu?
–Ela é tão bonita!- Exclamou a garotinha que segurava, agora, nas pernas da mãe.
–Ohh, sim. Você a viu, senhorita? –Ele se agachou- Ela é uma princesa, sabia? –Falava inocente como criança- Precisa retornar para seu reino, pois seu pai, o Rei Dorius, quer guardá-la em uma torre.
–Por que ele a quer numa torre?- A menina arregalou os olhos.
–Porque Jurius, seu tio por parte de pai, deseja matá-la. –A menina abriu os olhos mais ainda- E se ela não retornar, sabe-se lá o que vai acontecer com ela. Sou um mensageiro humilde que veio informar as pessoas deste reino sobre tal fato.
–Se eu a ver, como faço para te avisar?
–Olhe para o céu, a estrela mais brilhante passeando pelo céu serei eu. Pode fechar os olhos e me chamar por pensamento.
–Mamãe!- Ela gritou- Temos que achar a princesa!
A mãe apenas riu.
–Querida, acho que devemos deixar isso com o mensageiro. -Respondeu.
–Pois bem –O rapaz continuou- Façamos da seguinte maneira: você fica com o desenho e compare-o com todas as moças que encontrar, certo? Se você não achar daqui dois dias, foi por que eu já a achei. Tudo bem?- E então, ele entregou o lindo desenho á menina, que o pegou rapidamente e começou a olhar em volta, procurando a bela princesa da foto.
A mãe, lisonjeada e simpática, lhe deu outro belo sorriso e cerca de cinco reais. Pôs-se a andar, dizendo por último que aquele era um belo talento. As duas sumiram na multidão e ele, apesar de não ter conseguido informação alguma, se sentiu feliz com a situação. Desenhou mais sete imagens da sua paixão, e parava mais e mais pessoas na rua perguntando dela. Para ganhar a simpatia –e dinheiro, claro- inventava histórias como as da princesa e entregava ás pessoas os desenhos.
–Ela é uma guerreira que tem como guardião um gnomo velho e rabugento. Porém, ela sumiu e os duendes a procuram. Eu sou um pobre duende disfarçado de humano que a procura por estas terras...
–Ela? Ela é uma bruxa que deve ser condenada á fogueira, mas como eu, Mago Vincurt, estou apaixonado por ela, devo protegê-la até o fim de nossa eternidade. Mas, infelizmente, ela sumiu de minhas vistas enquanto eu preparava o jantar preferido dela, coelho com salsicha...
–Ela é um anjo que caiu aqui na Terra depois de escorregar numa escada lá do céu...
Não podia esperar muito além de risadas, olhos penosos e dinheiro para ele. Com essas histórias arrecadou cerca de trinta reais. Já dava para almoçar. Além dos desenhos da loira, ele também desenhava o que as pessoas pediam, como paisagens e entes queridos. Isso o fazia faturar mais e mais. Só que seu estômago já não aguentava mais esperar. Almoçou, ouvindo o barulho da chuva que ainda o seguia.
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