Notas iniciais
Espero que gostem.

Vamos ser sinceros, Caio; nós nunca fomos bons em declarações de amor.

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A primeira vez que eu me apaixonei por você não foi quando eu te conheci. As histórias de amor gostam de dizer que quando você encontra o amor da sua vida os planetas se alinham, o tempo para e seu coração bate acelerado, mas então acho que você não é meu “ele”, querido, por que tudo o que eu senti foi... Bem, nada. Você só estava lá, existindo do outro lado da sala, e eu nem senti vontade de dizer oi, na verdade. Talvez não seja legal dizer isso no dia do nosso casamento, mas você sabe que eu sempre tive esse problema de falar demais. Pois é.

Mas eu me lembro, ah, sim, eu sei exatamente quando aconteceu. Eu estava na festa de aniversário da melhor amiga da minha mãe, conversando com você por SMS, por que, desculpe aqui dizer, eu estava entediada demais com a perspectiva da festa, e eu não sei de onde saiu o assunto, mas de repente estávamos conversando sobre nosso casamento em Vegas (que nunca chegou a acontecer), e eu nem gostava tanto assim de você na época. Eu disse que sabia fazer massagem tântrica, e na verdade eu não sabia, mas você nunca ligou para isso. Estava perto do meu aniversário, e a gente combinou que ia se pegar nos fundos da escola na terça-feira, mas não aconteceu, por que eu realmente não queria ficar com você. Nossas mentiras sempre me agradaram; essa foi a primeira vez que eu senti borboletas no estômago ao seu lado.

A segunda vez que eu me apaixonei por você foi quando você começou a namorar Sophie. Eu não sentia ciúmes dos seus beijos, na verdade, mas a ideia de saber que eu não era mais o monopólio feminino da sua vida foi bem difícil de aceitar. Você era minha comadre, e ela era uma garota que tinha vindo de lugar nenhum, e de repente você não era mais meu, você era de nós duas, e eu nunca gostei disso porque eu sou filha única e, você sabe, eu nunca aprendi a dividir. Você omitiu isso de mim por um mês antes de realmente me contar, e nessa época você já falava que gostava de mim, e acho que foi por isso e por um pouco de egoísmo que eu te perguntei: “Se eu te falasse hoje que ficaria com você se você largasse ela, você largava?” e a sua resposta foi não. Doeu um pouquinho, porque eu queria que fosse sim, mas eu aceitei, porque era isso que melhores amigas faziam. Elas aceitavam. Naquele fim de ano, nós brigamos todo santo dia, e foi um inferno. Na noite de Natal, enquanto eu estava comendo um sanduiche de pernil com vinagrete, o suor frio começou, por que você disse que me amava.

A terceira vez que eu me apaixonei foi quando Sophie terminou com você. Você disse que tinha chorado debaixo do chuveiro de água fria, e eu falei que ela era uma puta, e que não te merecia, e depois acrescentei que você parasse de chorar, por que estávamos em crise hídrica e gastar água à toa era errado. Você riu, e falou que já não podia viver sem mim. Eu corei. No restante das férias, você não parou de reclamar por um instante, e sua depressão me irritava profundamente, mas nós fizemos uma promessa: a partir daí, você não namorava sem a minha permissão.

A quarta vez foi numa noite de tédio absoluto. Eu estava vendo qualquer série na Netflix, e de repente você me mandou SMS pedindo para que eu te falasse números aleatórios. Eu o fiz e mais tarde você me contou que eles simbolizavam notas. Eu tinha feito uma música. Quando pediu que eu a nomeasse e eu disse “Guava”, você riu, e perguntou o porquê. Eu disse que guava era uma boa palavra. Algumas horas depois você me mandou um áudio com a melodia gravada no piano. Enquanto eu quase dormia ao som daquela criação que era só nossa, eu imaginei que outro casal de amigos era tão bom.

A quinta cena aconteceu numa tarde ensolarada. Eu tinha acabado de chegar em casa, e você me perguntou se podia me ligar, por que estava com preguiça de digitar. Eu deixei, por que estava sozinha em casa, e nós falamos sobre a virgindade dos conhecidos e a nossa história de amor. Eu fantasiei sobre a Alemanha, ruivas gostosas, Paolo, dinheiro, filhos gays e viagens ao redor do mundo. Você só queria uma vida a dois simples. Quando desligamos, ficamos abismados com a quantia de horas que tínhamos conversado, e aquela tarde foi meio que uma declaração implícita. Nós ainda não namorávamos, mas eu nunca me senti tão companheira de alguém na vida.

A sexta foi uma das coisas mais desesperadoras que eu já passei na vida. Era um churrasco familiar, e eu estava tão entediada que passei o endereço da casa da minha avó brincando para que você fosse lá. E quer saber? Você disse para mim que estava indo de verdade. Eu beirei a loucura naquela tarde. Como é que eu ia contar para minha gigante família italiana e evangélica que um rapaz que eles nunca tinham ouvido falar ia lá?! O negócio é: eu falei, Caio. Vermelha da cabeça aos pés eu fui falar com a minha avó, e, quando os meus tios já estavam praticamente rosnando, eu recebi uma mensagem sua avisando que era brincadeira. Eu tive de ouvir três sermões por causa disso, e, naquela noite, quando meu priminho já tinha me enchido o saco de todos os jeitos possíveis dizendo que você era meu namorado, eu deixei ele falar com você por whatsapp e ele se apaixonou perdidamente pelo seu jeito mongo de ser. Eu fiquei um misto de raiva e vergonha, mas eu te perdoei, porque, sabe, aquele sorriso bobo não conseguia sair da minha cara. Nem o Gabriel da minha orelha, falando que você me beijava na boca.

A sétima foi depois da sua apresentação de cello. Nós tínhamos combinado de ir comer num restaurante italiano próximo dali com um grupo de amigos, e eu queria comer lasanha. Eu, como a boa garota doce, recatada e do lar que sou, te obriguei a pedir, enquanto rachava uma pizza com as minhas amigas, e no final acabei comendo metade do seu prato. Você não reclamou e ainda mandou que eu me sentasse junto a você para dividir. Até foi atrás do garçom quando eu disse que preferia molho à bolonhesa. Quem faz isso nos dias de hoje? Mais tarde naquela noite, nós também dividimos um petit gateau, e eu te chamei de vadia por ter pego o bolo. Depois da nossa guerra de garfos, você me falou que nem namorados faziam o que nós fizemos. Talvez não mesmo. Mas aquela foi a sétima vez que meus pés saíram do chão.

Na oitava, você estava tão branco que parecia transparente. Nós finalmente tínhamos assumido compromisso, e você foi conhecer a minha pequena família de 18 pessoas. Eu já tinha te passado as regras: nada de palavrão, Renato Russo ou satanismo. Sem debates sobre homofobia e machismo. Ninguém podia saber sobre o fato de você ser espírita. Acho que você estava meio nervoso, e eu fiquei com muita pena de você quando minhas tias te atacaram, mas nada eu poderia fazer para evitar. Você foi forte, na minha opinião. Quase não gaguejou. Depois de a tortura ter acabado, você me beijou como nunca tinha beijado e ficou agarrado comigo por minutos, até sua respiração voltar ao normal. Depois começou a gargalhar. Algumas semanas mais tarde, voltou ao inferno que eu conhecia como casa da minha avó.

A nona foi quando você me pediu em casamento. Foi, por incrível que pareça, na Alemanha. Você estava segurando um panda gigante, sem anel porque foi uma ideia momentânea, e não falou mais nada além de “Quer casar comigo?”. Como eu disse, nós realmente nunca fomos muito bons com palavras. Eu apenas assenti, e de repente estávamos sem roupa no meio da cama. Devo dizer uma coisa: sexo de pedido de casamento é maravilhoso. Na madrugada, nós fizemos lasanha de frango, e assistimos filmes de comédia tomando coca cola. Pois é. Quando eu olhei para o Thomas, meu mais novo urso, eu descobri mais um sintoma: formigamento. E, céus, eu nunca amei tanto uma pelúcia.

A décima é agora, enquanto estou escrevendo esses votos. Olhando para a nossa história, eu devo dizer, meu amor, meu Caio, meu tudo, que se essa história não foi uma prova de que almas gêmeas existem, eu não sei mais o que é. Estou pensando seriamente em tatuar seu nome. Se terminarmos, eu posso completar com “mas levanto”. O que acha?

A última e décima primeira é no futuro, enquanto eu estiver lendo isso para você. Te olhando de terno no meio da praia, com todos os nossos entes queridos assistindo e ouvindo tudo o que eu estou a escrever, é impossível que eu não me apaixone. Vou terminar com o poema mais clichê do mundo, mas que é nosso poema clichê: “Eu possa me dizer do amor que tive Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure”.

Com amor,

Anna.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!