KAL-EL HAVIA ME DEIXADO NAQUELE Estado já se fazia dez anos. O que também significava que eu não o via durante dez anos. Não estou reclamando. Estar com Owen e Christina era ótimo, eles eram os humanos mais responsáveis, bondosos, carinhosos, cuidadosos e etc., que eu já vi. Mas eu não me sentia bem morando com eles, sabendo que meu local não era naquele planeta.

Meu planeta, Krypton, havia sido destruído por uma explosão e meu verdadeiro pai, Jor-El, havia lançado Kal-El para a Terra e Jor-El com Lara, minha verdadeira mãe, explodiram, junto com o restante dos habitantes de nosso planeta.

Como eu surgi? Eu não sei exatamente. No dia em que encontrei Kal-El nas ruas de sua cidade terráquea, o levei até minha espaçonave e, logo depois, ele me levou para a Fortaleza da Solidão e, por algum milagre, consegui ouvi a voz de meu verdadeiro pai, Jor-El. Mas não entendi porque ele não falava em idioma kryptoniano. Depois de conversados, Kal-El só me disse, em idioma kryptoniano, que eu era parte da essência de nossos pais que se misturaram no espaço e eu nasci, e vim para a Terra em uma espaçonave. Eu não entendi direito como eu poderia surgir daquela maneia anos depois da explosão, mas também não tinha questionado. Depois disso, ele me deixou em um orfanato e foi embora; e eu nunca mais o vi desde então.

Eu deixei de gostar de Jor-El naquele mesmo dia. Kal-El não tinha mencionado que Jor-El sentia minha falta ou ao menos tinha me dito que ele tinha me chamado de filho. Eu já me sentia estranho por saber que era fruto da essência de meu verdadeiro pai e minha verdadeira mãe, mas não ser reconhecido por ele quando eu estava perto do filho gerado da maneira correta? Isso eu não gostei. Desde o dia em que Kal-El me deixou no orfanato longe de sua cidade, eu também não tive mais afeto por ele; nem por Kal-El e nem por Jor-El, meu próprio irmão e meu próprio pai.

Porém, eu tinha Owen e Christina, meus pais adotivos, agora. Eram as duas pessoas mais incríveis que eu já conheci. Eles não podiam ter filhos, por isso me adotaram. Vivemos em uma grande casa na Carolina do Norte, Estados Unidos, e somos felizes — apesar de eu não me sentir bem morando com eles. Eu estava começando a me acostumar, mas a diferença entre nós era grande e isso me incomodava. Eles eram ruivos e eu tinha cabelos pretos. Os olhos deles eram azuis e o meu eram pretos. Eles eram terráqueos e eu kryptoniano. Eles eram frágeis e eu era incrivelmente quase indestrutível — só tinha uma fraqueza: kryptonita. Eles eram fracos comparados a minha incrível força. Muita diferença, mas eu me esforçava o máximo para me acostumar, pois já se fazia dez anos que eu morava com eles. Por eles me darem carinho e amor para um ser como eu (eles sabiam quem eu realmente era), eu me esforçava ao máximo para correspondê-los. E essa era uma dívida que eu nunca poderia pagar; eles eram os meus pais.

De qualquer forma, era muito bom morar na Carolina do Norte. Morávamos em um vilarejozinho chamado Chester Fall. Não tinha prédios e mais prédios, shoppings e mais shoppings, casas e mais casas como na cidade vizinha. Chester Fall era totalmente calmo, pacífico e civilizado. Era bom de morar ali. Não precisávamos ir para a cidade a não ser estudar e fazer compras para casa.

Owen e Christina eram médicos e trabalhavam na cidade vizinha. Sempre nos víamos mais à noite, por conta de seus plantões e essas coisas que os médicos terráqueos fazem. Mas eu não reclamava, pois eu via o quanto eles gostavam do trabalho e eu já era bem grandinho para poder ficar em casa inteiramente sozinho. Principalmente alguém com dezessete anos terráqueos como eu — eu não sabia a minha verdadeira idade kryptoniana e preferia não saber.

De qualquer maneira, eu estava sentado à arquibancada da escola do ensino médio da cidade vizinha de Chester Fall assistindo ao treino de futebol americano, quando meu melhor amigo sentou-se ao meu lado.

— Ei, cara! — disse ele, animado.

Virei minha cabeça para o lado e vi aquela figura baixinha de cabelos louros e olhos verdes.

— Oi, Bobby — disse eu.

E voltei a olhar o campo.

Os jogadores estavam reunidos perto do treinador, onde o mesmo apontava para vários lugares do campo e os jogadores assentiam. Provavelmente ele estava falando algumas táticas de jogo. Eu podia ouvir, mas preferi não ouvir. Olhei para o céu e ele estava começando a ter uma cor arroxeada, o que indicava que a neve estava próxima.

— Então, eu estava pensando... — disse ele, o que me fez virar a cabeça para olhá-lo, e ele prosseguiu: — já que vamos voltar para Chester Fall juntos, a gente podia ir logo agora, não é? Vai começar a nevar daqui a pouco e estamos sem casaco. E o ponto de ônibus é muito longe daqui. Sem contar que tínhamos que passar na biblioteca da escola para pegar alguns liv...

— Bobby... — o interrompi e ele se calou no mesmo instante.

Bobby era assim. Ele sempre começava a falar demais e rápido quando estava nervoso com alguma coisa. Desde que eu o tinha ajudado contra alguns valentões que implicava com ele — eu não usei minha força para derrotá-los, apenas desviei dos golpes e lhes dei alguns socos com força humana —, ele é assim. Ele era um moleque legal. Tinha apenas quinze anos, baixo, magrelo, cabelos louros e olhos verdes, totalmente nerd e incrivelmente companheiro. Porém, eu não tinha contado a ele realmente minha origem. E eu nem podia. Ordens de Owen e Christina E eu iria obedecer, é claro.

Meu melhor amigo não tinha irmãos e, desde o dia em que eu o “salvei” de seus agressores, ele e eu somos melhores amigos. Eu o considerava como um irmão menor que eu nunca tive e poderia ter e ele me considerava como o seu irmão mais velho que ele nunca poderia ter; é bacana a gente essa consideração um pelo outro. Isso já tinha dois anos.

— Desculpe — disse ele. — Eu não percebo quando faço essas coisas. Talvez seja porque eu não estou tão acostumado com amizades, ou porque eu nunca fui realmente de ter amizades. Bem, eu tive um amigo na sexta série, mas ele se mudou quando seu pai recebeu...

— Bobby! — o interrompi novamente o olhando com um sorriso de lado.

— Desculpe — disse ele novamente e abaixou a cabeça.

Sorri, baguncei seu cabelo e o puxei mais para perto de mim.

— Relaxa — disse eu.

Ele corou. Sorri de lado. Ele também era um tanto vergonhoso.

Ele respirou fundo e juntou as mãos, e começou a mexer as mãos em um movimento frenético. Era o tique-nervoso dele. Segurei suas mãos e elas pararam de mexer. Ele me olhou.

— Eu disse para relaxar — falei rindo.

Ele sorriu sem graça.

— Desculpe — disse ele.

Revirei os olhos.

— O.K., agora pare de se desculpar por tudo — disse eu.

Ele assentiu timidamente.

— Desculpe — disse ele.

— Robert! — o chamei pelo nome certo seriamente e ele me olhou espantado.

Eu realmente o olhei com um olhar severo, mas ele voltou a juntar as mãos e a mexer os dedos em movimento frenético. Eu não aguentei e sorri para a sua cara de espanto.

— Venha, vamos embora — disse eu o puxando para sairmos da arquibancada do campo.

Bobby e eu fomos para a biblioteca, primeiro, pegar alguns livros para estudarmos para umas provas que estavam por vir — só que eu não entendi direito o porquê de tantos livros, sendo que a neve estava próxima e iriam suspender as aulas, mas eu não disse nada. E o espero não carregou nenhum dos sete grossos livros que ele pegou, eu tive que carregar tudo.

Depois de ter pegado os livros, nós dois fomos para o ponto de ônibus, que ficava a duas quadras de distância da escola em que estudávamos. E, por sorte, o ônibus tinha chegado alguns segundos depois que sentamos no banco para esperá-lo. Bem, para ele, dentro do ônibus, foi totalmente confortável, mas, para mim, apesar de eu não sentir aqueles livros tão pesados assim, não foi legal ficar sentado em um assento de ônibus com sete livros na mão.

A viagem não durou muito tempo. E menos de quinze minutos, Bobby e eu já estávamos nas ruas do pequeno vilarejo de Chester Fall. As ruas de Chester Fall eram cobertas de pessoas sorridentes e felizes. À nossa esquerda, de onde estávamos, dava para ver a única barbearia com alguns homens dentro, assim como dava para ver o único bar que tínhamos com alguns fregueses. O mercadinho também tinha gente saindo e entrando. À nossa direita, algumas crianças estavam brincando no pequeno parque que o vilarejo tinha, juntamente com algumas famílias fazendo piquenique no gramado do parque. Bem, parecia que eles não se importavam com a neve que estava prestes a chegar, mas eu duvidava que eles ficassem ali mais tempo quando notassem os flocos de neve cair do céu mais tarde.

— Ei, grandão? — chamou-me a voz de Bobby.

Chacoalhei a cabeça e o olhei. Ele estava olhando para cima — eu era maior que ele — e com a testa franzida.

— No que estava pensando? — perguntou ele.

— Nada de mais — disse eu. — As pessoas não estão notando que a neve está para chegar.

Ele deu de ombros.

— Que seja — disse ele, por fim. — Vamos?

— Vamos — falei assentindo.

Bobby e eu andamos em sentido à esquerda. Mas foi só começar a caminhar que o primeiro floco de neve caiu em cima do último livro da pilha que eu carregava. Parei de andar no mesmo instante, olhei para o céu e um floco de neve caiu bem no meio de minha testa. Bobby me olhou espantado, riu e correu em direção a nossa casa. Ri dele e comecei a correr, o seguindo.

Eu podia ganhar de Bobby na corrida facilmente, pois eu tinha supervelocidade. Mas eu não podia (como Owen e Christina tinha decretado) revelar meus poderes, então eu comecei a correr em velocidade em que um humano da minha idade poderia correr. Mas Bobby era incrivelmente rápido e ele estava bem à minha frente.

Ele olhava para trás e ria de mim e eu não consegui fazer nada a não ser rir com ele. Os flocos de neve começaram a cair com mais frequência e logo tinha virado uma pequena nevasca. A rua, agora estava começando a ficar completamente branco por conta da neve e algumas árvores estavam começando a ficar com a mesma tonalidade branca que a rua. Alguns carros e casas estavam começando a ficar cobertos de neve. Era realmente bonito de se ver.

Corremos bastante, pois as nossas casas, as únicas duas casas ficavam no fim de nosso vilarejo, onde mais se pareciam duas fazendas. Duas casas enormes, uma do lado da outra e longe do povo do centro de nosso vilarejo. Ao menos ali tinha realmente paz e sossego.

Bobby parou de correr e ficou em frente à entrada de sua casa, e me olhava com reprovação e com as mãos na cintura. Assim que cheguei perto dele, ele balançou a cabeça negativamente para mim.

— Não tem vergonha de perder uma corrida para alguém mais baixo que você? — perguntou ele.

Levantei as sobrancelhas incredulamente para ele.

— Tente segurar sete livros e vamos ver quem vence — falei com certa raiva e ele riu.

— Venha e me ajude com os livros — disse ele se virando e adentrando em sua casa.

— Como o senhor quiser — disse eu para aquele ser folgado e adentrei em sua casa.

O hall de entrada era um corredor longo e com alguns porta-retratos de Bobby com sua mãe e seu pai — um casal louro de olhos verdes e uma criança que aparentava ter cinco anos, loura e de olhos verdes como os pais — em cima de uma mesa.

Seguindo o pequeno hall de entrada, à minha esquerda tinha uma ampla sala de estar com uma tevê de 42 polegadas, uma estante de livros, dois sofás (um de dois lugares e um de três) e uma mesinha de centro. À minha direita estava a cozinha de Bobby e a sala de jantar. Uma mesa de madeira com vidro no meio para seis pessoas e uma cozinha incrivelmente bonita e espaçosa, onde o fogão era em uma bancada e a pia era perto de uma janela, e tinha uma porta que ligava aos fundos da casa.

Ainda seguindo pelo corredor, tinha um cômodo que era o escritório do pai de Bobby — eu já tinha entrado ali com Bobby para saber —, um lavabo grande e tinha a escada. Dois lances de escada para chegar ao segundo andar e com total e absoluta certeza que Bobby me faria subir àquelas escadas para levar os livros para ele.

Subindo as escadas, cheguei ao segundo andar. Era um corredor e à minha direita ficava o quarto de Bobby, o banheiro e outra escada para o sótão. À minha esquerda ficava o quarto de seus pais e a minha frente tinha outra mesa com porta-retratos, porém com fotos de Bobby já grande e fotos de alguns prêmios estudantis.

Segui para o quarto de Bobby e lá estava ele, deitado na cama de casal que tinha só para ele. Seu quarto era grande e de vista para a rua. Tinha duas prateleiras enormes com livros e mais livros. Tinha uma mesa com seu notebook e um abajur. Tinha um criado-mudo ao lado da cama, também com um abajur e, de frente para a cama, tinha uma tevê de 42 polegadas. Ele tinha um sofá à sua janela e um telescópio no canto do quarto, e um guarda-roupa imenso ao canto esquerdo do quarto, e um aquecedor.

Deixei os livros em cima da mesa de seu notebook.

— De nada — falei.

Ele me olhou.

— Ah, obrigado, grandão — e voltou a descansar a cabeça nos travesseiros.

Ele suspirou.

— O que foi? — perguntei franzindo a testa.

Ele suspirou novamente. Ele se sentou.

— Cara, eu esqueci a mochila na escola — ele pôs as mãos no rosto.

Levantei uma sobrancelha para ele.

— Sério? — perguntei.

Como não tínhamos reparado antes? Eu estava tão perdido pensando no que Kal-El tinha feito para mim no passado que acabei não reparando nesse detalhe ridículo e que tinha que ser tão óbvio. Eu tinha visto Bobby de costas e não o tinha reparado tão bem a ponto de não perceber que ele estava sem sua mochila.

Ele se levantou da cama, pegou um casaco que aparentava ser bem quente e aconchegante, e o vestiu.

— Sério — ele fechou a porta do guarda-roupa que tinha tirado o casaco. — Vou voltar para a escola e pegá-lo. Eu o deixei no armário.

Assenti para ele e nós dois saímos de seu quarto, descemos as escadas e fomos para frente da sua casa.

Lá fora a nevasca estava começando a ficar mais forte. A rua estava completamente coberta de neve e o frio era rigoroso. O vendo soprou a nosso favor e senti a brisa congeladora me pegar. Esfreguei as mãos nos braços para ter minha temperatura um pouco normal, apesar de eu saber que não ficaria doente.

— Deixe só pegar um casaco que eu vou com você...

— Não, não precisa — interrompeu-me ele quando eu comecei a seguir para a casa ao lado da dele, a minha casa.

Bobby e eu éramos vizinhos.

Virei-me para ele.

— E deixar você sair nessa neve toda, sozinho? — perguntei.

— E qual é o problema? — questionou ele.

— Eu vou com você — falei e virei-me para minha casa novamente.

— Grandão, não precisa — disse ele. Virei-me para ele novamente. — Eu vou sozinho. É só uma mochila.

Franzi a testa para ele.

— Tá, certo — murmurei. — Mas me ligue se precisar de ajuda para voltar, O.K.?

Ele assentiu para mim.

— O.K. — foi só o que ele disse, se virou e foi para a direção do ponto de ônibus.

Suspirei e virei-me para a enorme casa ao lado da casa de Bobby e adentrei nela.

Logo assim que entrei, avistei uma ampla sala que chamávamos de escritório à minha direita, com uma poltrona de coro, uma lareira, um sofá de dois lugares, outra poltrona de coro, uma mesinha de centro e uma estante com diversos livros. Ali era o local em que meus pais, Owen e Christina, e eu íamos para ler, conversar ou apenas para relaxar. A sala se fechava com duas portas de madeira com vidros retangulares e cortinas por dentro. Era bastante bonita, aquela sala.

À minha esquerda ficava a cozinha, onde era igual à cozinha de Bobby. A única coisa que mudava era que não tinha divisória de cômodo para a sala de tevê com a cozinha. A única coisa que separava a cozinha da sala de estar era a mesa de seis lugares e a decida de dois degraus. E no canto direito da sala de estar, tinha a porta que levava aos fundos.

A minha frente tinha a escada — três lances de escada—, onde segui para ela e fui para o segundo andar.

Lá em cima, tinham, nas paredes do corredor, algumas fotos dos meus primeiros momentos com meus pais após a adoção. Eles e eu sorrindo em uma foto, outra de Christina comigo em meu primeiro aniversário após a adoção e outra de Owen comigo em meu aniversário do ano passado.

Seguindo o corredor à direita, tinha o meu quarto e o escritório de Owen. Mas fui para o meu quarto e ele era um pouco maior que o quarto de Bobby. Tinha um telescópio, também, ligado à janela e um sofá também à janela. Minha cama também era de casal, mas eu preferia uma de solteiro, porém Christina disse que a de casal seria melhor para mim por conta de meu tamanho. Bobagem. Meu guarda-roupa era grande e espaçoso, com bastante roupa dentro. Tinha uma mesa com meu computador — não era um notebook —, uma estante de livros ao lado e eu tinha meu próprio banheiro — que era enorme também e totalmente bonito. Tinha uma tevê de 42 polegadas em frente à cama e meu criado-mudo ficava bem ao lado direito da cama com um abajur em cima dele. E eu tinha um aquecedor também.

Joguei minha mochila em cima da cama e, indo para o banheiro, tomei um banho para poder relaxar um pouco.

Pensar em Kal-El não era nada legal e agradável para mim. Eu não gostava de pensar em meu irmão biológico que tinha me largado dez anos atrás em um orfanato, completamente sem saber como me comunicaria com o restante das pessoas que ali me cercavam. Era totalmente frustrante para mim. Não valia a pena pensar em meu irmão e me chatear com aquilo; eu tinha que pensar em meu irmão de consideração, o Bobby.

Ele estava indo para a cidade vizinha, Morgan Hill, em uma nevasca e completamente sozinho. Seu pai, Mason, se ele estivesse em casa, poderia levá-lo sem problema nenhum, mas Mason deveria estar em seu escritório de advocacia em Morgan Hill e sua mãe, Lisa, deveria estar em seu escritório de advocacia, também em Morgan Hill — sim, os pais de Bobby eram advogados.

Eu sabia que era errado deixá-lo ir, mas ele era teimoso demais a realmente aceitar a minha oferta para ir com ele. Tão baixinho, tão novo, mas já teimoso. Eu sabia que tinha que insistir mais para ir com ele, mas agora já era tarde. Ele já tinha ido e eu ficado.

Terminando no banho, me vesti de uma calça jeans e uma blusa preta de manga — eu não sentia tão frio assim como os humanos, sem contar que eu estava dentro de casa e tinha aquecedores ali. Desci as escadas e, para não levantar suspeitas dos curiosos alheios dessa cidade, liguei os aquecedores da casa e me sentei na sala de estar e liguei a tevê.

Mas foi horrível ter ligado à tevê.

Assim que a tela ligou, o noticiário estava dizendo que tinha um ser com poderes especiais estava atacando a cidade. A câmera deu um zoom no indivíduo de roupa verde e rosa, mas eu não consegui identificá-lo, pois eu nunca tinha o visto antes. Mas bastou a câmera mostrar a cidade em um caos e um hospital sendo destruído por algumas criaturas monstruosas, feias e deformadas, para me fazer levantar de incredulidade.

Aquele hospital poderia ser o que meus pais trabalhavam. Eu não podia ter certeza porque a câmera não mostrou o nome do hospital. Ao invés disso, fez questão de mostrar algumas escolas sendo destruídas por aquelas criaturas horrendas e aquilo foi demais para mim. Bobby estava na cidade e na escola. E se parar para pensar, qualquer uma daquelas escolas podia ser a que nós estudávamos.

Bobby, Christina e Owen. Eu não poderia deixá-los morrer. Eu tinha que salvá-los e eu iria salvá-los, nem que isso custasse mostrar quem eu realmente era; eu não deixaria as pessoas que eu amava morrer.

Ainda de pé, virei-me em direção a meu quarto, peguei um casaco, desci as escadas, fui em direção à porta de minha casa e corri como um borrão, usando minha hipervelocidade, em direção ao centro de Morgan Hill.