As Novas Aventuras da Liga da Justiça
3 O Convite
OS QUE ME CERCAVAM FIZERAM cara de espanto na mesma hora em que Kal-El tinha me chamado de irmão. Eu soube disso porque minha visão periférica deu para ver parte deles e o gritinho de espanto saiu da boca de todos. Exceto por aquele cara verde. Mas minha vontade era de dar um grande soco na cara de Kal-El.
Como ele se atrevia a me chamar de irmão?! Ele não tinha esse direito há dez anos. Ele não me chamaria disso novamente.
— Quanto tempo, meu irmão... — ele veio me abraçar, mas eu tirei suas mãos do meu caminho a partir do momento em que ele tentou me tocar.
Minhas mãos tremiam de raiva. Eu queria socá-lo, mas mesmo eu tendo todas aquelas habilidades kryptonianas, eu não iria me dar bem em uma luta contra os outros seis. Talvez eu pudesse abater as duas mulheres, o morcegão e o vermelhinho, mas eu não podia arriscar tanto assim.
— Não me chame de irmão — disse eu rispidamente.
Ele pareceu triste e também pareceu não gostar pelo o que eu tinha dito. Mas eu não estava nem aí para ele. Ele queria ter sentimentos agora? Dez anos depois? Não comigo!
— Mas o quê que...
— Superman... — disse a linda mulher de cabelos pretos, interrompendo o vermelhinho. — Você pode explicar o que está havendo? — ela deu um passo à frente e tirou a corda amarela de onde estava e a segurou nas mãos. A corda começou a brilhar.
As chances dela de me intimidar com uma simples corda eram inúteis. Tão inúteis que eu não consegui prender o riso que se formou em minha garganta. Ela deu um passo à frente, toda determinada para me dar um soco, mas Kal-El estendeu a mão para ela e ela parou no segundo seguinte.
— Precisamos de respostas aqui, Superman — disse o morcegão.
O tal Superman (Kal-El) abaixou a cabeça e respirou fundo. Semicerrei os olhos para ele novamente e disse:
— Não tenho tempo para isso — e levantei voo.
— Não, espera... — ele parou em minha frente no ar, me impedindo de prosseguir.
Nós não estávamos longe do chão, então os amiguinhos de Kal-El poderiam nos ouvir. Mas pouco me importava se eles ouviam ou não.
— Saia da minha frente, Kal-El... — disse eu com raiva.
— Precisamos conversar...
— Adeus — foi só o que eu disse.
Contornei Kal-El e segui em frente, mas ele pegou em meu braço, mas eu lhe dei um baita empurrão e ele me largou. Ele e eu ficamos nos olhando por alguns segundos. Ele com cara triste e eu com cara de raiva. Eu não queria falar com Kal-El e tampouco queria ver seu rosto. Nosso reencontro não tinha sido agradável para mim.
Assim que virei às costas para ele, pus o capuz na cabeça e segui voando em direção aos meus pais e Bobby, e Kal-El não me seguiu.
Foi completamente fácil encontrar meus pais e meu melhor amigo.
Eles estavam lá, onde eu os tinha deixado. Bobby ainda tinha a perna quebrada e estava sentado em um cantinho perto dos meus pais. Parecia que minha mãe estava um pouco melhor, meio pálida e com um sangramento horrível estancado, mas me parecia bem e ajudava alguns feridos. Meu pai estava cuidado de alguns feridos também.
Eu não aterrissei ali, aterrissei um pouco longe, joguei meu casaco — mesmo eu, no fundo do meu coração, não querer fazer aquilo com o meu casaco favorito — no chão e segui até eles correndo em velocidade humana.
Bobby era o mais próximo de mim e, assim que eu cheguei perto dele, ele começou a falar um monte de coisas referente a eu o salvando, mas quando eu disse “Depois, Bobby” e o olhei com cara feia, ele não falou mais nada. O examinei com minha visão de raio-x e sua perna tinha quebrado em três lugares e o pé em um. Era feio de se ver e eu não sabia como ele aguentava a dor, mas Bobby, se ele sentia alguma dor, ele não iria demonstrar para mim.
— Você precisa me dizer se está doendo... — falei indicando a perna com a cabeça.
Ele olhou para a perna.
— Ah, isso? — ele apontou para a coxa inchada. — Isso não é nada. Cara, você que deveria estar me contando tudo com foi que...
— Bobby, não! — o olhei mais sério do que antes e ele realmente não falou mais nada.
Depois de ter levado meus pais e Bobby (eu consegui carregar os três) até um local que ninguém poderia me ver, os levei em meus braços até nossa casa voando. Porém, ao chegar a nossas casas, minha mãe disse que não se sentia bem e Owen também se sentia mal. Eles pareciam que precisavam ser examinados imediatamente.
Entrei em casa rapidamente e peguei qualquer casaco com capuz. Pus Bobby em minhas costas, segurei Owen e Christina, um em cada braço, e voei, misturando a velocidade inumana que eu tinha em meu voo, para outra cidade qualquer que não estava em caos e os deixei na porta do hospital. Alguns curiosos começaram a gravar vídeos e tirarem fotos de seus celulares, mas eu levantei voo e voltei para casa no segundo seguinte.
Eu estava farto, para ser honesto. Assim que passei pela porta de entrada de casa, fui direto para a máquina de lavar, deixei minhas roupas sujas e cobertas de neve e fui direto tomar um bom banho em meu quarto. Eu realmente estava exausto e precisava de um descanso.
No chuveiro, eu não consegui parar de pensar em Kal-El e em seus amiguinhos. Por que Kal-El tinha aparecido logo agora? Por que ter seus amiguinhos por perto? Por que me chamar de irmão na frente deles, sendo que ele não pensou em mim quando tinha me deixado naquela droga de orfanato? Eu queria respostas, mas depois que realmente pensei se eu realmente as queria de Kal-El, eu percebi que não queria resposta alguma.
Estar com Christina e Owen tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido na minha vida e eu não deixaria Kal-El ferir meus sentimentos voltando para a minha vida. Eu tinha deixado de ter a esperança de encontrá-lo novamente há dez anos atrás. Agora, a única coisa que eu queria dele era distância. E a máxima possível.
Saí do banho e me troquei rapidamente. Pus uma calça jeans e uma blusa verde de manga. Os aquecedores da casa estavam ligados, então eu não precisava me importar com o frio — mesmo eu não sentindo tanto — que a neve causava. A temperatura estava agradável.
Desci as escadas para ver o noticiário e, quando eu liguei a tevê, a jornalista dizia que cinco pessoas tinham sido mortas, e aquilo me deixou completamente destruído. Mas o que me deixou realmente em cacos foi saber que os pais de Bobby, Mason e Lisa Rivers, estavam mortos por conta de um escombro que tinha caído em cima deles. A câmera mostrou as mãos cinza dos pais dele de fora da sacola preta.
O que eu diria ao Bobby? Como eu contaria? Bobby era filho único e eu tinha certeza que o seu tio Kelly não iria querer a presença de Bobby em sua casa. Kelly não ira aturar um sobrinho na mansão em que ele vivia na Califórnia — Bobby tinha me contado que seu tio era arrogante e não ligava para a família e nem para nada a não serem garotas, praia e dinheiro. Bobby não podia morar com ele e eu não deixaria meu melhor amigo ir para um orfanato e ser abandonado como eu fui. Eu não deixaria isso acontecer!
Porém, quando chegou às sete da noite, o telefone tocou e era Owen, dizendo que Christina tinha tido uma pequena hemorragia interna e que ele precisava de transfusão de sangue ou coisa do tipo. Bem, era de se esperar de duas pessoas que tinham perdido bastante sangue como eles. E quando ele me disse que Bobby teria que se submeter a uma cirurgia, mas que ficaria bem, eu fiquei completamente preocupado. Owen me disse que eles ficariam ali durante alguns dias e só sairiam quando Bobby tivesse realizado sua cirurgia e eu prometi que os visitaria no dia seguinte assim que ele me disse em que hospital eles estavam — eu os tinha colocado em um hospital, mas não tinha reparado no nome.
Eu não conseguia tirar o sentimento de culpa de mim. Bobby teria ido para Morgan Hill sozinho se eu não insistisse mais. Ele poderia estar com a perna completamente boa e não teria que se submeter à cirurgia alguma. E talvez, se eu estivesse lá com ele, poderia livrar meus pais do hospital e, quem sabe, da morte dos pais de Bobby. Resumindo: era culpa minha.
Mas, por mais que eu quisesse ter alguma privacidade para poder descansar de tudo que tinha acontecido naquele dia, não aconteceu. Quando tinha dado oito da noite, a campainha de minha casa tocou. O que me fez pensar bastante, porque, quem iria tocar a minha campainha numa hora daquelas? Ainda mais um pouco longe da civilização de Chester Fall e com esse tempo? Era inacreditável tocarem minha campainha.
De qualquer modo, eu levantei do sofá, fui rapidamente até a porta da frente e deparei-me com uma visita inusitada.
Deparei-me com Kal-El ali parado. Ele não estava vestindo o seu “uniforme de combate”. Ele vestia um casaco preto e por baixo uma camisa social branca com um blazer cinza por cima da camisa, gravata preta, usava calça social cinza e sapatos pretos, e óculos redondos de grau no rosto. E ele vestia um chapéu marrom redondo na cabeça, estava esquisito. Ele não se parecia nada com o tal Superman em combate, ele parecia mais um terráqueo comum — talvez aquela seja sua “identidade secreta”. Aquilo me surpreendeu tanto que eu não consegui segurar a risada irônica que se formou em minha garganta, mas ela durou apenas um segundo.
Girei a maçaneta, abri a porta e cruzei os braços.
— O que quer? — perguntei de má vontade.
Ele sorriu timidamente por um instante.
— Queria falar com você — disse ele. — Será que eu posso... — ele fez um sinal para poder entrar.
— Não. — Falei balançando a cabeça em negativa.
— Ah... — disse ele e balançou a cabeça.
A neve caia intensamente lá fora. As árvores pareciam ser feitas de algodão por conta da cama de neve que as cobriam, assim como o gramado da entrada de minha casa, a calçada e a rua que deveria ser preta por conta do asfalto. Alguns galhos eram movimentados violentamente por conta de uma rajada fria e forte que vinha à minha esquerda, o que fazia a neve cair toda em Kal-El; e Kal-El trazia alguns flocos de neve em seu casaco e em seu chapéu.
Um pequeno silêncio se passou por nós. Eu não iria dizer nada, se era isso o que ele pensava. Ele quem tinha vindo à minha casa sem ser convidado, ele quem deveria falar alguma coisa. Não eu.
— Olhe — começou ele —, Kol-El, eu...
— Não me chame assim! — o repreendi interrompendo-o completamente irritado. — Meu nome é Brian.
Ele ficou rígido, como se a maneira que eu tinha repreendido-o o tinha deixado completamente sem saber o que fazer.
— O que você quer? — perguntei irritado e encarando-o.
Ele me olhou com a expressão triste.
— Eu... — ele tomou fôlego — eu queria falar com você. Ter uma chance de conversar com você...
— Para quê? — o interrompi novamente e semicerrados para ele. — Se você realmente quisesse conversar comigo, teria me procurado...
— Mas eu não consegui te achar — desta vez, ele quem me interrompeu. — Eu fui atrás de você naquele orfanato e você não estava mais lá.
— No qual você me aprisionou? — rebati e ele ficou todo sem graça, constrangido. — Eu saí de lá seis meses depois que você me deixou naquele lugar.
— Você conseguiu aprender a língua daqui em seis meses? — ele pareceu incrédulo e feliz, mas bastou ver minha cara fechada e ele logo ficou com a expressão constrangida de antes. — De qualquer maneira, eu tentei te procurar, mas o orfanato não quis me informar onde você estava e eu não consegui te achar.
— Hmmm... — foi só o que eu disse não olhando para ele.
— O que eu quero dizer — ele deu um passo para frente e me obrigando a voltar a olhá-lo — é que eu estou muito feliz de ter te reencontrado e que está bem — ele sorriu de lado timidamente para mim.
Ele se atreveu a por as mãos em meus ombros, mas eu afastei suas mãos quando elas se aproximaram de mim.
— Poupe-me, Kal-El — disse eu de má vontade e revirando os olhos.
— Ah, se não se incomoda, poderia me chamar de Clark?— perguntou ele timidamente.
Levantei uma sobrancelha para ele.
— Clark? — repeti.
Ele assentiu.
— Sim, Clark. Clark Kent — disse ele. — Ninguém neste planeta me chama de Kal-El e eu não atendo mais por ele. Todos me conhecem como Clark. Ou Superman, para meus amigos.
— Você diz os seus amiguinhos da sua Liga de Super-Heróis? — desdenhei revirando os olhos.
— Nos classificamos com Liga da Justiça — disse ele em tom de irritação.
Ele pareceu não gostar do meu comentário. Que seja! Eu não ligava para ele mesmo. Dei de ombros para ele.
Passou-se outro longo minuto de silêncio entre a gente. Kal-El... quero dizer, Clark. Clark me olhava curiosamente, como se estivesse me estudando para ver o que tinha mudado em mim. Mas ele veria que nada tinha mudado a não ser a altura e o tamanho de meus braços e peitoral se não me trancasse em um orfanato e sumido de minha vida. Mas parecia que para ele, me ver novamente era uma alegria, pois ele sorria quando me olhava e tirava o sorriso do rosto quando eu voltava a olhá-lo.
Ele estava tomando todo o meu tempo e o noticiário iria acabar. Com minha superaudição, consegui ouvir a moça do jornal dizer que tinha subido para quinze, o número de mortos. Suspirei.
— O que você quer exatamente aqui, Kal... Clark? — disse eu impaciente.
Ele me olhou tristonho.
— Queria poder conversar melhor com você — disse-me ele. — Tem como a gente se encontrar em algum dia?
— Não — minha resposta foi imediata.
— Kol... Brian — corrigiu-se ele —, por favor?
Eu sabia que se eu negasse ele insistiria até eu dizer sim.
Suspirei novamente.
— Quando e onde?
Ele sorriu de pura felicidade, mas bastou eu semicerrar os olhos para ele novamente que seu sorriso sumiu.
— Eu te busco aqui amanhã para almoçarmos juntos — disse ele. — Pode ser?
Assenti para ele.
— Ótimo — disse a ele. — Até mais. Tchau.
E fechei a porta na cara dele.
Na manhã seguinte, eu acordei bem cedo e eu fui até o hospital em que eu tinha deixado meus pais e meu amigo. Não foi nada agradável ficar naquele ambiente, principalmente ver minha mãe desacordada em um quarto, não poder ver Bobby, porque ele estava em plena cirurgia e ver meu pai completamente fraco na cama do quarto em que estava. Mas, como minha mãe estava desacordada (descansando) e Bobby estava fazendo sua cirurgia na perna, eu sentei-me ao lado da cama do quando onde meu pai estava.
Owen estava deitado na cama com a aparência acabada. Seus cabelos laranja não estavam penteados no topete que ele sempre usava, seus cabelos curtos estavam bagunçados. Seu lado esquerdo do rosto tinha alguns arranhões feios e o seu braço esquerdo estava totalmente machucado. A perna direita de Owen estava engessada e seu braço direito tinha alguns arranhões de ele. Ele estava acordado, mas sua aparência era de cansaço, como se ele não tivesse tido uma boa noite de sono — e eu duvidava muito que tivesse tido.
Eu lutei muito para não chorar e consegui não chorar. Eu me sentia fraco chorando e eu também não choraria na frente de Owen. Meu pai não precisava ver a mim chorando e eu tinha que parecer durão na frente dele. Mas bastou olhar para ele novamente que meu coração começou a bater mais forte e meus olhos começaram a lacrimejar. Tampei o rosto com as mãos e respirei bem fundo.
— Ei... — o ouvi dizer — não precisa chorar, filho. Eu estou bem.
Já com as lágrimas cessadas, levantei a cabeça e olhei para ele. Ele sorria com seu sorriso perfeito para mim como se nada tivesse acontecido com ele. Levantei-me da cadeira em que eu estava e fiquei em pé ao lado direito dele.
— Desculpe — disse eu. — Eu só... eu só... não sei se... não sei se aguentaria se vocês... — não consegui terminar a frase e virei o rosto para ele não ver meus olhos lacrimejarem novamente. — É tudo culpa minha — franzi a testa com certa raiva de mim mesmo, olhando o estado em que ele se encontrava. — Se ao menos eu tivesse ido à Morgan Hill com Bobby...
—Ei — senti sua mão segurar minha mão esquerda, o que me fez voltar para olhá-lo. — Não morremos. É isso o que importa. Nada disso é culpa sua.
Eu o olhei e ele sorriu de lado para mim. Aquilo me deixou mais calmo, mas não totalmente. Eu ainda sentia uma parcela de culpa por não ter ido com Bobby, sendo que eu podia fazer alguma coisa quando tudo acontecesse. Eu era quase indestrutível e fui completamente destrutível ao requisito de salvar os três de quem eu me importava. Do que adianta ter todos aqueles poderes se nem ao menos a segurança deles eu conseguia manter? Não valia de nada.
Assenti para ele respirando fundo para controlar o choro e, por sorte, realmente consegui.
— Como você está? — perguntei em uma maneira de trocar de assunto.
Ele levantou o braço direito para o ar.
— Bem, primeiramente, estou vivo — disse ele e sorriu. — Com dores, mas estou bem.
Balancei a cabeça em positivo para ele e abaixei a cabeça logo em seguida.
— E você? — perguntou ele.
O olhei.
— Eu? — apontei para mim mesmo e franzi a testa.
— Sim, você — disse meu pai me olhando mais sério.
— Mas eu estou bem.
— Não é o que seu rosto diz.
— Eu estou bem.
— Brian James McCarty — disse ele em tom mais sério —, não minta para mim.
Olhei em seus olhos azuis e eles pareciam que estavam me congelando, era como olhar para um oceano bem gelado e sentir toda aquela densidade gelada diretamente em mim, a ponto de me dar calafrios. Aquele olhar do meu pai era completamente intimidador.
— Tudo bem — disse eu. — Tenho duas notícias. Uma péssima e uma ruim.
Meu pai arregalou os olhos para mim e depois franziu a testa.
— Ahn... — disse ele. — a péssima, primeiro, eu acho.
Respirei fundo e tomei coragem.
— Os pais do Bobby morreram — disse eu a notícia péssima.
Meu pai arregalou os olhos novamente.
— Como? — perguntou ele incrédulo.
— Ontem — disse eu. — Aqueles monstros estavam destruindo prédios e alguns escombros caíram em cima de Mason e Lisa Rivers. Bobby... Bobby é órfão agora, pai — disse eu me esforçando para dizer aquilo.
Admitir aquilo me incomodava. Meu melhor amigo tinha pais verdadeiros e agora, por conta de um monstro miserável, tinham morrido. Não estou jogando meus pais fora. Muito pelo contrário, eu os amo. Mas eu não tinha o sangue deles — o que eu lamentava até os dias de hoje — como Bobby tinha o dos seus pais. E ele nunca foi órfão. E isso era uma coisa que eu não queria que meu amigo presenciasse, pois não era nada legal ser órfão. Falo por experiência própria.
— Meu Deus — disse meu pai. — E agora? Para onde aquele garoto irá?
Franzi a testa para ele.
— Pai — disse eu —, não está pensando em mandá-lo para um orfanato, está?
Meu pai me olhou incrédulo.
— Não, mas é claro que não! — disse ele. — Bobby tem o seu tio...
— Pai, não! — o cortei. — Kelly Rivers é o pior tio que o Bobby ou alguém poderia ter. Você se lembra do que ele fez na festa de aniversário do Bobby ano passado? — perguntei, mas antes que ele dissesse alguma coisa, eu continuei: — Pois é. Ele fez questão de espancar Bobby só porque ele tinha esbarrado no carro e a droga do carro ficou com um arranhãozinho de nada. Ele não pode ir para o tio e tampouco para um orfanato. Eu não vou deixar.
Meu pai me olhou com espanto quando minha expressão passou de calmo para raivoso com bastante facilidade. A real história era que eu queria bater naquele idiota do Kelly. Ele merecia apanhar o dobro do que tinha feito a Bobby. Bobby era uma pessoa muito boa para ficar com um miserável como o tio, mesmo ele tendo o mesmo sangue que Bobby. Isso não era certo e eu não deixaria que meu melhor amigo ficasse nas mãos de um miserável como o tio.
— Ele não pode ir morar com o tio, pai — disse eu.
Minhas mãos tremiam de raiva.
— Brian, acalme-se — disse meu pai e eu tentei relaxar. — Mas Kelly é a única família que Bobby tem.
O olhei incrédulo.
— Lembra-se do que a mamãe disse quando vocês me adotaram? — perguntei.
Ele suspirou fechando os olhos, mas logo voltou a me olhar.
— Sim, Brian...
— Ela me disse que uma família de verdade não precisava ter o mesmo sangue — recitei as palavras de minha mãe. — Foi a partir daquele dia que eu comecei a chamar vocês de pai e mãe.
Ele ficou em silêncio.
— Olhe para mim, pai — disse eu abrindo os braços. — Sou um ser de outro planeta, sou totalmente o oposto de aparência entre você e minha mãe, eu nem realmente nasci e sou adotado. E nem por isso deixei de ser seu filho, deixei?
— Não, mas...
— Então você não pode deixar Bobby morar com o tio dele — o interrompi falando com firmeza. — Isso não seria certo.
Owen me encarou nos olhos. Ele me olhava fixamente, mas eu também o olhava no fundo dos olhos. Eu não iria desistir de Bobby assim tão facilmente. Meu amigo não podia ir embora; Bobby não podia morar com um agressor.
— Farei o que eu puder para manter ele conosco — disse meu pai.
Meu corpo relaxou e meu pai abriu um sorriso para mim. Sorri para ele.
— Você é realmente o pai mais incrível do mundo — disse eu ainda sorrindo.
— Ah, por favor — disse ele fazendo um gesto com a mão. — Pare de me paparicar.
E ele riu e ri com ele. Segurei o impulso de abraçá-lo e de pular de felicidade.
— E qual é a notícia ruim? — perguntou ele.
E meu sorriso se desfez no mesmo instante. Ele se assustou ao ver que meu semblante de risonho mudou para o raivoso novamente em uma velocidade incrível.
— Meu irmão apareceu — disse eu de má vontade.
— Como é que é? — perguntou ele. — Acho que não entendi direito.
Bufei com raiva.
— O senhor ouviu— disse eu de má vontade. — Meu irmão apareceu.
Ele franziu a testa para mim.
— Você quer dizer o... — ele apontou para o céu.
Por um segundo, aquilo me fez rir. Mas minha expressão de raiva voltou ao rosto.
— É, esse mesmo — disse eu. — Kal-El apareceu. E ele não se chama Kal-El. Agora ele se chama Clark Kent — bufei.
— Mas isso é ótimo, não? — perguntou meu pai inocentemente.
Franzi a testa para ele.
— Não, não é — disse eu. — Minha vontade era de ter lhe dado um grande soco. Quer saber de mais uma coisa?
— O que?
— Sabe aquela liga de super-heróis que tem o objetivo de proteger a Terra e coisa, e tal? — perguntei.
Owen assentiu.
— Sim, o que tem? — ele nem ao menos piscava.
— Pois é. Ele faz parte dela — disse eu. — E sabe quem é ele?
Ele pareceu ansioso.
— Ninguém mais, ninguém menos que o Superman — finalizei com a imagem horrenda de Kal-El/Clark com aquele uniforme azul com um enorme S no meio do peito.
— Você está brincando, não está? — perguntou meu pai.
— Pareço estar brincando? — rebati com certa raiva.
Ele negou com a cabeça e assenti para ele. Saí de seu lado e sentei-me de volta na cadeira em que eu estava. Meu pai mudou de posição para me olhar melhor.
— E ele me fez um convite para almoçar com ele — disse eu. — Mas eu acho que não vou...
— Ah, mas você vai, sim! — disse meu pai alterando a voz ao me interromper.
Ele começou a se sentar na cama.
— Pai.... — me pus de pé em um salto para lhe ajudar a se sentar. — Volte a deitar...
— Eu estou bem, Brian — disse ele. — Você vai almoçar com ele...
— Pai — o interrompi —, eu não quero. Kal-El... quero dizer, Clark. Argh! Esses nomes me confundem — disse eu chacoalhando a cabeça. — Clark está muito ocupado salvando o mundo em qualquer lugar agora. Ele provavelmente iria me esquecer na porta de casa como me esqueceu por dez anos — era duro admitir aquilo, até mesmo para mim. — E eu não quero falar com ele.
Meu pai me olhou com certa decepção nos olhos.
— Não foi essa maneira que eu e sua mãe te educamos, filho — disse ele. — Nenhum McCarty foge de assuntos inacabados. Você tem que ir e irá.
— Pai, eu não quero.
— Você vai e fim de discussão, Brian — disse ele sério. — Querendo ou não, ele é o seu irmão. E de sangue...
— Mas para mim é como se não fosse — o interrompi cuspindo as palavras.
— Mas continua sendo seu irmão — disse ele com firmeza. Ele semicerrou os olhos para mim. — A que horas ele irá passar em casa?
— Não sei e preferia não saber. Eu não quero ir, pai. Não me obrigue.
— Você vai, Brian. Vocês precisam conversar e me parece que ele quer conversar com você.
— Provavelmente é se lamentar por ter me deixado naquele orfanato, pai. Não é algo que eu me importe mais — menti.
É claro que eu me importava. Eu ainda o detestava por ter me deixado naquele orfanato e sempre o condenaria por ter me abandonado, eu acho. Que seja! Kal-El (ou Clark, que seja) não parecia inocente para mim e nunca iria ser. Eu quem fui abandonado em um orfanato e não ele.
— Continua sendo uma conversa, Brian. Vá e ouça o que ele tem a dizer e diga o que o seu coração tem a dizer para ele — ele me olhou nos olhos novamente. — Você vai e não precisa ir novamente, prometo.
— Verdade? — perguntei.
Ele assentiu para mim.
— Verdade — disse ele e sorriu de lado.
Eu realmente não conseguia dizer não para ele, Christina ou Bobby. Acho que nunca conseguiria.
— Tudo bem — disse eu. — Eu vou.
Owen sorriu para mim.
— Esse é o meu garoto — ele me deu uma piscadela.
— Mas com uma condição — disse eu e ele me olhou no segundo seguinte. — Promete mesmo que se eu for eu não precisarei mais saber dele?
Ele assentiu para mim e me olhou no fundo dos meus olhos.
— Eu prometo, filho — disse ele. — Tem a minha palavra.
Sorri de lado.
— O.K., então — disse eu.
Owen e eu conversamos por alguns minutos a mais, mas quando eu consultei meu relógio de pulso no pulso esquerdo, ele marcavam quando meio-dia e, se realmente o grandiosos Superman aparecesse em minha casa, seria dali a alguns minutos e eu nem estava totalmente arrumado para sair com ele.
— Pai, tenho que ir — disse eu batendo o dedo no relógio.
Owen entendeu o que eu tinha dito e assentiu para mim.
— Vá, filho — disse ele. — Não se preocupe comigo, sua mãe ou Bobby aqui. Leve o tempo que precisar.
Assenti para ele e, assim que beijei sua testa e lhe disse tchau, saí do quarto em que ele estava e segui para a entrada do hospital.
Do lado de fora, a neve continuava a cair intensamente, onde fazia o chão quase brilhar de tão branco. As árvores que deveriam ser verdes estavam todas brancas como algodão e a nevasca eu caia do céu estava mais fria do que no dia anterior. Acho que era a pior nevasca que eu já tinha presenciado em dez anos. Dei de ombros com aquele pensamento.
Andando mais um pouco, entrei em uma rua sem saída e pus o capuz na cabeça. Ajeitei-me para sair dali e, segundos depois, eu já estava correndo como um borrão rumo a minha casa que ficava a duas cidades dali.
Fale com o autor