As Múltiplas Faces do Amor
1 Um amor platônico dependente de álcool e cigarros.
Notas iniciais
“Ela tinha um nojo da dualidade de intenções dos seres humanos que ora amam, ora usam, e preferia a clareza da sacanagem e a certeza do vazio.”
Tati Bernardi
– Mais uma dose.
O barman fez o que eu pedi. Virei o copo numa só vez e deixei que o liquido queimasse a minha garganta.
Era uma típica e sádica noite de sexta-feira, em que eu estava fugindo da minha realidade. Como sempre.
– Oi. Está sozinha? – Um cara sentou ao meu lado. Seu braço esquerdo era tomado de tatuagens, das quais não pude identificar, pois seus olhos me atraíram. Eles sempre perguntam a mesma coisa.
– Estou.
– Sou Robert. E você, qual é o seu nome?
Voltei meus olhos para o copo em minhas mãos.
– Monalisa.
– Monalisa. – repetiu – A mulher do sorriso misterioso. – Essa é a piada mais ridícula que eu já ouvi.
– Por que você não chega logo onde quer chegar? – perguntei.
– Como assim? Não entendi.
– Ah, qual é? Nós dois sabemos no que isso vai dar: sexo. Que tal poupar palavras e cantadas ridículas e ir logo ao que interessa?
Ele ficou surpreso, talvez pela minha franqueza. Quando tive certeza que ele não tinha nada mais para falar, levantei.
– Você topa?
– Ta. – ele respondeu, ainda pasmo.
***
Acordei com o tatuado seminu ao meu lado. Sentei-me na cama para tentar me lembrar do que de fato havia acontecido na noite anterior.
“– Meu colega de apartamento não está em casa. – Robert disse enquanto dirigia.”
Av. Oeste-Live, N° 102.
Levantei da cama e catei minhas roupas espalhadas pelo quarto. Tinha que voltar ao bar para pegar minha moto. Fui até a janela e avistei um ponto de ônibus. Fui em silêncio até o banheiro, tomei um banho rápido, me vesti e saí, tomando cuidado para que ele não acordasse.
Não demorou muito para que um ônibus aparecesse. Assim que peguei-o, meu celular vibrou.
Era a minha mãe; rejeitei a ligação.
– Pelo amor de Deus Giulietta! Onde você meteu dessa vez? – Minha mãe exclamou preocupada assim que eu entrei em casa. Será que ela não vai se acostumar nunca? – Você andou usando a tal identidade falsa novamente? Eu não te disse para se livrar dela? Será possível? Você nunca me escuta!
Claire é, para mim, a mãe mais dramática da face da terra. Não é a primeira vez que eu saio da faculdade na sexta à noite e vou para farra, e nem vai ser a última.
– Olhe só! Você está sujando toda a casa com esses sapatos imundos! – Ela disse enquanto corria para buscar uma vassoura – É a terceira vez que eu limpo isso hoje!
– Mãe! – Gritei e ela parou imediatamente o que estava fazendo. – Será que você pode, uma vez na vida, parar de me tratar como uma criança? – Ela suspirou – E me dá aqui essa vassoura. Já disse para você parar com essas maluquices de limpeza. – Disse mais autoritária do que deveria soar. Me dirigi até ela e tomei a vassoura de suas mãos, ela lutou no começo, mas acabou cedendo.
– Você pode ter lá seus dezenove anos, mas para mim vai sempre ser um bebê. – Se aproximou e apertou minhas bochechas. Eu fiz uma careta. – Você pode pelo menos me dizer onde passou a noite?
– Av. Oeste-Live, N° 102.
– Ah, claro! Muito esclarecedor. – Ela disse irônica, aposto que estava se mordendo de vontade de me bombardear com mais perguntas, porém deixou o assunto de lado. Por hora.
Fui até a cozinha tomar uma xicara de café. Era o que eu mais precisava. Aproveitei e procurei meu caderninho em minha bolsa.
Av. Oeste-Live, N° 102 – Robert. Anotei.
O telefone tocou me tirando a atenção das minhas anotações.
– Alô? – Atendi.
– Alô? Giu? É o Bill, sua mãe está? – A voz do outro lado da linha falou. Eu não podia acreditar que minha mãe voltara a sair com ele.
– Senhora Claire Gateway, eu não posso acreditar nisso! – Gritei ainda com o telefone no ouvido, deixando, talvez, Bill confuso do outro lado da linha. – Ela está ocupada agora. – Desliguei.
– Foi o Bill que ligou? – Eu assenti com uma cara não muito boa. – Eu ia te contar.
– Quando? Assim que ele te colocasse outro par de chifres? Ou melhor, quando ele te abandonasse como o meu pai fez?
– Eu não te devo explicações, sou sua mãe. Depois falamos disso. – Eu detestava essa mania da minha mãe de se afastar quando eu queria ajuda-la. Certo, eu era péssima nisso, mas ela é minha mãe, e mais, minha única melhor amiga.
***
– Ah, por favor né Giu! Sábado à noite e você não quer sair? – Ray, minha prima, tentava me convencer a levantar da cama.
– Eu preciso terminar esse trabalho, é pra segunda-feira, não posso sair – respondi fingindo estar interessada no meu livro de estatísticas.
– Você deixando de sair pra fazer trabalho de faculdade? Conta outra.
Ela cruzou os braços e ficou me observando com uma sobrancelha arqueada. Não iria me deixar em paz tão cedo.
– Tudo bem, tudo bem, me pegou. Não estou nem um pouco interessada nisso.
Me rendi, jogando o livro de lado e vestindo minha jaqueta.
– Vamos lá Ray-Ray.
Ela levantou empolgada e saiu saltitando do quarto. Revirei os olhos e a segui.
O barman apoiou as duas mãos no balcão e encarou a mim, depois a Ray.
– 22 e 21.
Falei levantando a mão e em seguida apontando para ela.
– Identidades.
Revirei os olhos, coloquei a mão na bolsa e puxei a minha. Em seguida virei-me para Ray e peguei a dela. Ambas falsas.
O barman, cujo nome o crachá dizia "Joey Silguer", leu nossas identidades duas vezes cada. Não pareceu nem um pouco convencido, mas mesmo assim colocou dois copos no balcão e encheu-os. Sorri vitoriosa, agarrei meu copo e levantei-o sugerindo um brinde. Ray fez o mesmo e trincou os copos.
– E então, como vai o ensino médio? Ainda está com aquele do time de basquete?
– Não, ele só queria tirar minha virgindade, e disse isso bem na minha cara! Agora eu meio que estou com o Ryan.
– Ryan? Aquele do teatro?
Perguntei, em uma tentativa fracassada de segurar o riso.
– Ah, para Giu! Ele é legal, e pelo que a gente conversou, parece que ele gosta mesmo de mim.
– Hey – larguei o copo no balcão e apontei pra ela – Não se apaixone. Isso é apenas uma desculpa esfarrapada das pessoas para agirem sem pensar, para fazerem burrices, não caia nessa.
– Que triste. Pelo jeito que você fala, parece que nunca amou alguém.
– Isso não é verdade! – me virei para o barman – pode encher o copo, por favor?
Voltei minha atenção para Ray e continuei.
– Quando eu tinha 7 anos, eu amava o gato que a vizinha havia me dado. Mas aí ele morreu e me deixou sozinha. Partiu o meu coração. – minha voz saiu dramática na última frase, o que fez a Ray rir e empurrar meu ombro.
– Eu estou falando sério! – protestou.
– Mas isso foi sério.
– Não é disso que eu... Opa!
Franzi a testa e a vi virar para trás, onde havia um homem que eu não tinha visto até aquele momento.
– Pode fazer o favor de tirar a mão daí?
– Por que? A bonitinha não gosta?
Levantei, e por sorte, ele não era muito alto, nem muito forte. Me aproximei dele.
– Se afasta dela.
Falei ameaçadora. Ele olhou pra mim e deu uma risada irônica.
– O que você vai fazer?
Não gostei nada do que ouvi e, quando percebi, meu punho estava socando a cara dele. Ele levantou o rosto, rosnou e começou a andar na minha direção, quando, inesperadamente, a Ray pulou em suas costas.
– Se afasta dela!
O cara jogou-a para frente. Se eu não a tivesse segurado, ela teria despencado no chão. Eu estava pronta para manda-la ficar quieta quando ela começou a dar tapas no homem, que levantou a mão e acertou em cheio o rosto dela.
Eu estava pronta para revidar quando alguém segurou meus braços. Tentei me soltar, mas ele era muito forte. Me virei e percebi que era um policial.
Já me meti em milhares de brigas de bar, mas nunca fui parar em uma delegacia. Pelo menos por um momento, acho que fiquei nervosa.
– Ora, ora, senhoritas... – o policial que nos segurou no bar parou em nossa frente – Vocês são um pouco novas para frequentar um bar, não?
Baixei o olhar. Tinha certeza que ia me encrencar. Respirei fundo e tentei parecer mais despreocupada, isso acalmaria a Ray, que estava quase tendo um ataque de nervos.
O policial estava com nossas identidades nas mãos.
– Identidades falsas. Qual a idade verdadeira de vocês?
– Dezenove.
– Dezessete. – Ray respondeu
O policial balançou a cabeça.
– Me acompanhem.
Levantamos e o seguimos até uma mesa. Ele sentou do lado oposto ao nosso e começou a digitar no computador.
– Bom, se esses forem os seus verdadeiros nomes...
– E são. – o interrompi
– ...Vocês não têm nenhuma ocorrência, até agora.
– N-nós... Vamos ser presas? – Ray gaguejou, nervosa.
– Vou ser legal com vocês; vocês ficarão com esse ocorrido em suas fichas, como uma advertência. Eu ligarei para os pais de vocês e eles poderão leva-las para casa.
– Minha mãe vai me matar! – Ray escondeu o rosto nas mãos e apoiou a cabeça em meu ombro.
– Olha, não precisa ligar para os pais dela. – o policial me encarou, esperando meus argumentos – Ela é minha prima, ia dormir na minha casa esta noite, então ela está totalmente sob responsabilidade da minha mãe.
O policial me olhou por um tempo, depois assentiu com a cabeça e pegou minha identidade.
– Tudo bem então Srta. Giulietta. Esse nome é francês? É bem bonito.
Revirei os olhos.
– Italiano, e eu não gosto dele.
– É uma pena. Qual o número da sua mãe?
***
–Giulietta Adams! Eu, realmente, não acredito que você se meteu em uma briga de bar e ainda envolveu sua prima mais nova nisso. Quantas vezes eu preciso repetir que você tem que ser mais responsável? – Minha mãe dava-nos um sermão, que por sinal soava bem comum, enquanto saiamos da delegacia.
– E quantas vezes eu preciso repetir que não é para me chamar de Adams. – Era minha vez de soar comum. Minha mãe sabia o quanto eu detestava ser chamada pelo sobrenome do meu pai, mas ela só o fazia quando estava muito irritada. No fundo eu não podia tirar a razão dela.
– Tia Claire, por favor, não conta nada para minha mãe, a senhora sabe como ela vai ficar irritada. E meu pai então, nem se fala, você conhece seu irmão. – Ray falou esbaforida. Ela estava tão nervosa que não conseguia ficar parada, suas mãos pareciam estar em tic. Era um mal de família.
– Não querida, não se preocupe, eu entendo, seus pais não ficarão sabendo... – Ela me encarou – ... Até porque aposto que quem lhe induziu a fazer isso foi a Giu.
– O que?! – Eu exclamei – Agora eu sou a vilã? – Fiz menção para subir na minha moto, mas minha mãe me segurou.
– Na-na-ni-na-não. Você vai de carro comigo e com Ray. Já conversei com o Oficial Reynolds, sua moto ficará aqui e amanhã eu mandarei alguém buscar. Você está de castigo.
Ri. Uma risada mais irônica do que eu gostaria.
– Você não pode. Como eu vou à faculdade na segunda? Voando?
– Ah, como você é engraçada querida. – Ela disse e apertou minhas bochechas – A mamãe te levara de carro, assim como na primeira série. – Ela devolveu a risada irônica.
Eu revirei os olhos e entrei no carro batendo a porta do carona tão forte quase a derrubando. Ray continuava com seu tic nas mãos, ela suava mais que os jogadores de futebol americano da faculdade. Não pude deixar de rir.
– Qual é a graça? – ela perguntou num tom furioso.
– Nenhuma. Só acho que você deveria relaxar, seus pais não ficarão sabendo.
– Eu manterei minha palavra querida, não contarei para eles. Mas com uma condição. – Suspirei pesadamente e minha mãe me encarou, e depois continuou – Você terá que andar na linha a partir de agora.
Ray assentiu freneticamente, e, assim seguimos para casa em silêncio.
***
–Então, está entregue. – Minha mãe disse estacionando o carro em frente ao campus. Peguei a mochila no banco traseiro e fiz menção para sair, mas ela interrompeu. – Só mais umas recomendaçõezinhas.
– Mais? – Respirei fundo. – Não basta ter me enchido o saco o fim de semana inteiro? – E por incrível que pareça ela sorriu.
– Como eu ia dizendo, mais algumas recomendaçõezinhas. Nada de festas durante a semana; nada de sair da faculdade sexta à noite, espere eu vim te buscar; se você se comportar durante a semana e o fim de semana eu penso se irei devolver sua moto; e se eu descobrir que você arranjou outra identidade falsa eu te mato. – Eu ri e ela me acompanhou, depois beijou o topo da minha cabeça – Eu te amo querida.
– Eu também te amo mãe. Agora chega de coisa melosa, tchau. – Disse saindo do carro.
Eu sabia que tudo que minha mãe estava fazendo era para me proteger, sabia mais do que queria admitir. Só eu sei o duro que ela deu para cuidar de mim depois que meu pai foi embora a doze anos atrás. Ela batalhou tanto que conseguiu montar seu próprio escritório de advocacia, que se tornou um dos mais conceituados da cidade, e agora mal precisa trabalhar, só quando aparecem casos muito grandes. Com todo o esforço que ela fez ela conseguiu pagar um bom colégio, agora uma boa faculdade e me dar tudo do bom e do melhor.
Às vezes eu me sinto uma mal agradecida por aprontar tanto. Queria não ser tão parecida com meu pai.
Coloquei os fones de ouvidos e uma seleção de músicas animadas para afastarem os pensamentos ruins. Enquanto me encontrava no meu mundinho, eu me esbarrei em alguém. Era um garoto alto, bronzeado, mas não ao ponto de ser artificial, talvez fosse até bonito, mas eu não poderia dizer já que ele estava com a cara enfiada em um dos panfletos da faculdade.
– Você não olha por onde anda menino? – Perguntei irritada, talvez pelo fato de que ele só me deu atenção quando eu gritei. Ele levantou os olhos do panfleto e sorriu, então eu pude concluir que ele era mesmo um gato. Ele tinha os olhos que deixariam qualquer menina louca, e o seu sorriso nem se fala... Sacudi minha cabeça voltando a realidade.
– Me desculpe. Bem, ahn... Acho que eu estou meio perdido e esse panfleto não está ajudando muito. – ele amassou o papel e jogou por cima do ombro. – Ah, me desculpe pela indelicadeza, sou Edward Turner, mas prefiro Ed. Sou novo aqui. É um prazer me esbarrar numa moça tão linda como você. – Ele disse e eu revirei os olhos. – A propósito, qual seu nome?
É igual a todos os outros...
– Louise Park.
– Então, Louise, poderia me dizer onde é a diretoria?
– Ta vendo aquele prédio azul ali? – Eu apontei para o local e ele acompanhou meu olhar. – É no primeiro andar, a primeira sala, com certeza a monitora Sra. Duchannes vai estar distribuindo panfletos, como esse que você acabou de jogar fora, por lá. Caso você se perca novamente ela vai saber te ajudar.
– Muito obrigado. A gente se esbarra, de novo, por aí. – Ele disse e sumiu no meio dos alunos que chegavam ao campus naquela trágica manhã de segunda-feira. Eu teria que me adiantar se não quisesse chegar atrasada na primeira aula.
– Ele tem sotaque. Deve ser britânico. – Pensei alto enquanto colocava meus fones de ouvidos e me dirigia ao meu quarto.
Quando cheguei ao meu quarto a porta estava aberta. Deveria ter sido a estabanada da Sarah, minha colega de quarto, que deixou aberta quando saiu para a biblioteca. Nós mal nos falávamos, na verdade, mal nos víamos. Ela vivia na biblioteca estudando, ou em algum dos inúmeros clubes da faculdade dos quais participava. E eu, bem, quando tinha que estudar estudava no quarto, mas na maior parte do tempo estava em festas ou andando de moto por ai.
– Sarah? – Chamei entrando.
– Não. Charlotte. – Uma garota baixinha dos cabelos enrolados saiu de dentro do banheiro. – Você deve ser a Giulietta, certo? – Assenti – Sou sua nova colega de quarto.
– O que aconteceu com a Sarah? – Perguntei. O incomodo por dividir o quarto com alguém que fosse invasivo, ou comunicativo demais tomou conta de mim. Eu e Sarah podíamos ter todas as diferenças possíveis e notáveis, mas eu não a incomodava e ela não me incomodava. Vivíamos felizes assim.
– Pelo o que me contaram ela decidiu trancar a faculdade. – Charlotte respondeu.
– O.k., você é nova aqui, então vou te passar as regras.
– Regras? – Ela me perguntou.
– Sim. Você não me incomoda e eu não te incomodo e nós viveremos felizes.
– Achei que poderíamos ser amigas.
– Talvez em um futuro muito distante. – Dizendo isso entrei no banheiro para tomar um banho, sem deixa para que ela respondesse alguma coisa.
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