— Liesel, sabe o que eu acho?

- Não Oliver, não sei — os dois estavam sentados na grama folheando um livro velho com muitas gravuras estranhas, Liesel o achara no fundo na biblioteca de casa. Na gravura, duas sereias nadavam em água borbulhante.

- Acho que está um dia lindo e quente — e Oliver suspirou com vontade.

- Não seja tolo Oliver! Mal sabemos o que é calor — parou um pouco para pensar e deitou na grama, Oliver deitou ao seu lado — mas até que para um lugar frio, o dia está bem quente.

- Quente? Está fervendo, ou derretemos ou evaporamos! — disse com um exagero engraçado que fez com que Liesel risse. O menino se levantou como quem teve uma ideia genial e disse — Vamos nadar.

- Oliver, isso é loucura! Não trouxemos trajes de banho!

- Trajes de banho? Nem eu e nem o Fritz jamais ligamos pra isso, na verdade os nossos estão novinhos!

- Fritz? Aquele menino bêbado de onde você mora?

- Você quer dizer meu irmão? — Me desculpe — disse Liesel realmente culpada — não queria ofender.

- Se você realmente acredita que ele bebe mais do que meu pai permite e não como motivo para paquerar todas as meninas da vizinhança, deve pedir desculpas mesmo.- Ambos se entreolharam e deram uma longa gargalhada.

- Então chega de maledicência, a orelha do seu irmão deve estar fervendo.

- Não só as orelhas, o corpo todo. Olha quem está ai para nadar — e apontou para um menino que pulava uma cerca ao longe, desceu e caminhou na direção deles.

- Oliver, você não tem jeito mesmo! É um judeuzinho tão desgraçado que para paquerar uma menina tem que fugir e se esconder. Quem é a esquisita?

- Não é minha namorada e não é esquisita nada seu porco! — gritou Oliver enfurecido. Fritz não gostou do tom que seu irmão usou e já estava de punhos bem fechados para ensinar uma lição ao menino, até que a menina disse:

- Liesel. Sou Liesel Meminger.- Fritz desmanchou na mesma hora a cara carrancuda e olhou para a menina.

- Fritz Kempt, mocinha — e beijou-lhe a mão.

- Vamos todos parar com essa palhaçada! — Fritz olhou feio para o irmão mais novo, esse se intimidou e abaixou o tom da voz, sugerindo calmamente que fossem nadar sem mais delongas pois o pouco de sol que tinham já iria começar a descer e logo sumir no horizonte.


— Vira de costas, Oliver! — disse Liesel — só vire de costas.

— Tudo isso para nadar de roupa de baixo? — perguntou incrédulo. O menino tirou o uniforme que vestia ficando só com a roupa de baixo como se fosse a coisa mais normal do mundo, Liesel gritou e cobriu os olhos. Os irmãos riram.

O céu estava laranja, e a tarde já se escondia por debaixo da terra, mas as crianças continuavam nadando e jogando água umas nas outras. Vez ou outra, Oliver mergulhava para ver se enxergava Liesel por baixo d'água só de roupa de baixo, por mais reta que a menina fosse, ele olhava. Não se aguentando de alegria quando via a menina, ele soltava um riso furtivo, bem escondido, como se aquela ideia fosse genial.

Já estavam vestidos quando a noite caiu, os irmãos levaram Liesel até em casa. A menina tinha se esquecido de como estava tarde, mas Ilsa não a deixaria esquecer nunca mais. O prefeito e Ilsa já estavam sentados no sofá quando a menina abriu a porta, carrancuda e severa Ilsa perguntou:

— Mas onde raios a mocinha estava?

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