Notas iniciais
Apesar do título do capítulo ainda não chegamos nem ao meio da história.
todas as memórias de Liesel estão em flashback.

Eu já tinha feito aquilo tantas vezes, tantos vezes por dia, por hora, por minuto. Naquela hora eu gelei, nem sabia que aquilo era possível. Eu meus braços estava ela de fios mel entre o cabelo que agora era quase todo branco, estava bem preso em um coque, mas tão bem preso que parecia a mãe, quase lhe disse rindo " Nunca esteve tão loira!", mas não tive coragem, ela respirava tão pesado que eu não tive como rir.

O que se faz em momentos como este? Bom, eu olhei para o céu e fui atrás de cores, primeiro veio um borrão branco, depois outro preto, como uma bomba tudo foi tingido de vermelho sangue que logo depois foi escurecendo como quando coagula. Depois disso as cores foram embora e eu me desesperei. "Eu tenho uma mulher em meus braços!" eu queria gritar, "Não uma simples mulher! Para onde foram vocês suas cores malditas?! Não me deixem sozinha com ela!" eu realmente não queria ficar lá sozinha com a agonizante, não merecia escutar seus suspiros.

A mulher com muito esforço abriu dois grandes olhos castanhos, eu não queria olhar para eles mas já era tarde, seu rosto ganhou uma expressão estranha e suas pupilas cairam para os lados, olhando para mim. Ela não falava uma única palavra, mas seus olhos me diziam " Eu conheço você" e eu tentava dizer a ela que era óbvio que ela me conhecia, ela me conhecia melhor do que muita gente, melhor do que ela só as cores, só elas sabiam pronunciar meu nome sem medo, sem choro de espanto, mas com muita calma, com normalidade.

Com a mão direita fui até seu rosto e fechei seus olhos de leve com o polegar e o indicador, eu não suportava mais " Eu quero que vá embora! Eu quero que descanse, mas não nos meus braços, por favor!" eu pensava muitas vezes. Acalmei minha mente e cantei para ela ainda tocando suas pálpebras fechadas alguns pedaços avulsos de canções de ninar alemãs que vez ou outra eu aprendia por ouvir mães chorosas cantando para seus filhos durantes bombardeios, as canções sempre acabavam em meus braços, talvez seja por isso que eu nunca soube como a maioria acabava.

Quando achei que ela já tinha adormecido — e que assim seria fácil, eu contaria até 10 e depois o céu ficava claro de novo me avisando que outra alma ja tinha partido — ela fez algo inusitado: colocou a mão nas própras costas, procurou nelas minha mão que sustentava seu peso e apertou-a.

- Eles estão dormindo bem lá em cima? Quero dizer, tranquilos? — perguntou em uma voz fraca.

- Como embalados em uma canção de ninar alemã.