As Memórias da Noite
1 A Decisão
Me levantei lentamente, a ressaca estava me matando, afinal, passei a noite bebendo o whisky escocês do papai. Descobri recentemente que era a única forma de fazer com que os pesadelos parassem. E olha, funciona maravilhosamente bem, mas dá uma ressaca de satã.
Fui ao banheiro e tomei um belo banho, precisava me livrar daquele cheiro. Vesti um roupão e enquanto finalizava meu cabelo em frente à pia, ouvi meu pai me gritar, de lá do escritório dele. Voltei para o quarto tão rápido quanto a resseca me permitia, e escondi a garrafa de whisky embaixo da cama, joguei umas roupas em cima e coloquei o travesseiro do lado. Não reclama, não, o resto do quarto era bem pior.
Ainda enrolada no roupão, fui até as escadas para ver o que papai queria. Ele estava na porta de seu escritório me encarando, mas apenas disse:
— Se vista, vamos dar uma volta.
Voltei para o quarto e peguei a roupa mais bosta possível. Um tênis de corrida velho, uma calça moletom desbotada e uma blusa moletom do Nirvana, presente do meu ex namorado, uma bela bosta, o namorado, não a banda. Prendi meu cabelo em um coque bagunçado, coloquei minhas argolas, peguei meus fones, o celular e desci. Meu pai era um home carinhoso, um pai dedicado, mas como o homem de negócios que era, presava pela boa aparência e eu adorava contraria-lo.
— Você parece uma maluca vestida assim. Vá se trocar. Nós vamos ao consultório da Dra. Suzanna, ela merece um pouco mais de respeito e decência. – E ele, por sua vez, estava impecável em seu terno Armani.
— Ah pai, eu já usei coisa pior para ir às consultas. Ela nem vai reparar.
Mesmo a contragosto, papai aceitou minha decisão e simplesmente rumou ao carro. Nosso trajeto foi rápido e tranquilo. Papai colocou uma de suas músicas favoritas para tocar e eu coloquei meus fones. Veja bem, nós temos quase o mesmo gosto para músicas, mas diferente dele, minha playlist vai de acordo com o meu humor e agora eu não queria ouvir Hey Jude! Então coloquei Panic! At The Disco e mergulhei na linda voz do Brendon enquanto o mundo passava ao meu redor sem nenhum apelo artístico, ou real.
Paramos próximo à entrada do escritório da minha queridíssima (uma pitadinha de sarcasmo aqui) psicóloga. Sua recepcionista me odiava, portanto, ela costumava me ignorar sempre que eu aparecia para uma consulta, mas o Sr. Harrison Anthony Williams estava me acompanhando dessa vez, e a ele, ela daria todo o respeito do mundo e a até suas calças, se ele assim quisesse. Em outras palavras, fomos muito bem atendidos, e pela primeira vez em meses de tratamento, ela me ofereceu algo para beber enquanto esperava ser atendida.
Levou cerca de 15 minutos para a Dra. Suzanna terminar sua última seção antes de nos receber, coisa que ela fez de braços abertos. Literalmente, ela deu um super abraço no meu pai. De onde vem essa intimidade toda, queridinha? Mas por educação, mantive a boca fechada e a abracei também. Entramos em sua sala, um lugar confortável, decorada em tons pastéis, com um divã de um lado e uma poltrona do outro, entre eles havia uma mesinha de centro com uma caixinha de lenços de papel. Meu pai e eu sentamos no divã, enquanto Suzanna se sentava em sua poltrona, retornando ao semblante sério de uma psicóloga profissional.
— Obrigada por ter vindo, Sr. Williams. Chamei-o aqui porque tenho um assunto sério para tratar com o senhor e sua filha. – Meu pai assentiu lentamente, com o rosto sério e preocupado. – Quanto a você, Katherine, vejo que se arrumou para me ver, hoje uh? – Aquela informação vez meu pai fumaçar, ele odiava me ver ”malvestida”, por conta da forma como se repercutia negativamente em sua imagem. Eu levaria uma bela bronca mais tarde.
— Sobre o que a senhora gostaria de falar, dra. Suzanna? – Perguntou meu pai, querendo chegar logo no assunto.
— Bom, já fazem quatro meses desde que começamos o tratamento, como o senhor sabe. Acontece, Sr. Graham, que sua filha teve, o que nós chamamos de amnesia pós-traumática, isso vai durar por tempo indeterminado. Suponho que os pesadelos continuam, não é? – A pergunta foi dirigida a mim.
— Sim, com mais frequência e mais nítidos. Vejo rostos, sangue, vejo o Vinicius caído e pessoas sobre ele. – Relatei de forma indiferente, com aquela dor de cabeça, não poderia fazer mais do que isso.
— Entendo, acho que terei que trocar sua medicação. – Me entregou uma receita nova, e bem completa, aparentemente.
— Era só isso doutora? – Meu pai queria mesmo ir embora dali, logo.
— Não. Sua filha tem começo de depressão, crises de ansiedade e ataques de pânico. Tentei reduzir ao máximo a medicação, mas isso só fez com que o efeito fosse mais curto. É por isso que lhes dei essa nova receita. Alguns dos casos, os remédios são mais fortes, em outros, diminui o tempo entre uma dose e outra.
— Olá, estou bem aqui – levantei os braços como que para chamar a atenção deles – não falem de mim como se eu não ouvisse vocês. – Mas tudo o que eu ganhei foi um olhar assassino vindo do meu pai.
— Então o que você sugere, doutora?
— Ela possui recordações demais do Vinicius em casa. Precisa se distanciar disso. Minha sugestão é: Mande ela para um internato.
— NÃO. – Eu gritei mesmo.
— Fica quieta, Katherine Ava Mackenzie Williams.
— Eu consultei vários profissionais antes de decidir compartilhar essa opção com vocês. Esse internato é um lugar grande. Eu conheço a diretora, é uma amiga de infância. Nós montamos uma grade curricular para a Katherine, que cobre todas as aulas avançadas que ela faz em sua escola, adicionamos outras e ela ainda teria acompanhamento psicológico lá dentro. Pessoal e profissionalmente falando, o que bloqueia a memória dela e não permite que ela viva, de fato, o luto pela morte do irmão é a sua proximidade com as coisas dele, em seu subconsciente, o fato de ela não se lembrar dele morrendo, a faz acreditar, que existe uma chance de ele estar vivo. E enquanto ela estiver cercada por coisas dele como se ele ainda estivesse vivo, mais ela vai sofrer.
— A senhora realmente acredita que essa seja a melhor opção? – Meu pai parecia ter envelhecido uns vinte anos em minutos.
— Sim, senhor Williams, é o único método que ainda não tentamos.
— Tudo bem, ela irá – e antes mesmo que eu pudesse protestar, meu pai me lançou um olhar que faria até o melhor soldado se mijar de tanto medo. – Este é meu cartão, tem meu número e e-mail pessoal. Me passe os dados dessa diretora e o nome do colégio quanto antes. – Dito isso, meu pai se levantou, e, sem se despedir e sem olhar para trás, nem mesmo para se certificar que eu o estava acompanhando, ele seguiu para o carro.
Quando entrei no carro, segundos depois de meu pai fazer o mesmo, ele já estava ao telefone com sua assistente.
— Eu vou te encaminhar um e-mail com o nome de um colégio e informações de contato. Quero que você fale com eles. Você vai pedir a grade curricular que a Katherine terá. Preciso que você especifique no e-mail, que quero um relatório semanal do progresso dela, tanto escolar quanto psicológico, quero acesso direto ao telefone pessoal da diretora, quero poder entrar em contato sempre que precisar. Quero acompanhar tudo o que minha filha faz lá dentro. Entendido? – Ouvi a voz madura e séria, da assistente dele, responder do outro lado algo que pareceu agrada-lo, já que ele suspirou aliviado. Mas assim que desligou, discou outro número de cabeça e voltou a falar:
— Gideon, é o Harry. Ouça, eu preciso de um favor... – ouve uma espécie de grunhido de concordância do outro lado antes que meu pai voltasse a falar – Eu vou te encaminhar um e-mail com o nome de um colégio interno. Quero que você me diga tudo o que descobrir sobre a diretora. Quero tudo, quero as referências, quero os históricos, quero relatos, quero um relatório completo. Quero saber quem fundou e porque, quem são os profissionais que trabalham lá, quero saber as avaliações de pais e de ex-alunos. Quero uma opção de monitoramento, não vou largar minha filha em um lugar que não seja 100% confiável. – Ele ouviu um pouco, assentindo com a cabeça como se o outro o visse, fez alguns grunhidos de concordância – Apenas me mande sua conta junto com os dados coletados.
Meu pai desligou o telefone, apertou o volante e deitou sua cabeça, ficou assim por alguns instantes até que o ouvi suspirar. E então ele levantou a cabeça, com os olhos vermelhos e uma expressão triste em seu rosto.
— Pai, eu não quero ir. O senhor precisa entender que tudo o que eu tenho dele, são as lembranças que as coisas dele me despertam. Não posso ir.
— Você ouviu a dra. Essa abordagem foi a única que não tentamos. Precisamos fazer isso, e enquanto você estiver fora, eu vou dar um jeito nas coisas dele. Acredito eu, que a doação talvez seja a coisa mais nobre a se fazer. Você pode pegar algumas coisas dele se quiser, pode escolher algumas para levar para o internato, deixar algumas no seu quarto, para quando voltar.
— Pai, por favor, me deixe ficar. – Implorei chorando.
— Eu sou seu pai e estou te mandando ir. – Ele me olhava seriamente – E agora, talvez seja uma boa passar em uma padaria. Estou morto de fome.
***
No dia seguinte, arrumei meu quarto. Me livrei das garrafas de bebidas da forma mais discreta que pude, o que não chegou a ser difícil, já que meu pai não estava em casa e ainda não era dia da dona Mary, a faxineira, aparecer. Confesso que não foi aquela faxina, mas tirei tudo de comprometedor de dentro de lá, então estava ótimo.
Separei algumas roupas para o tal internato, ainda não sabia onde era, nem ao menos sabia o nome do lugar! No fim do dia, eu tinha duas malas grandes feitas, duas médias para terminar e uma de mão com os meus pouquíssimos produtos de higiene e cuidados para pele. As malas para terminar, eram aquelas que eu deixei espaço para colocar as coisas que iria pegar do quarto do Vinicius.
Entrar em seu quarto, sem poder vê-lo ali, parado em frente ao computador era muito estranho. Mas segui adiante mesmo assim. Sua cama estava arrumada e o quarto estava limpo, o que raramente acontecia enquanto ele ainda era vivo. Sua decoração ainda era a mesma, dos Vingadores. Vinicius era viciado em histórias em quadrinhos, e adorava jogos. Era o estereótipo perfeito de nerd, apesar de ter um físico e tanto, era o que eu ouvia das minhas amigas, junto com um “pena que só sabe olhar para esse computador”, eca.
Estar em seu quarto era realmente perturbador, mas ao mesmo tempo revigorante. Decidi que deveria começar pelo guarda-roupa, peguei algumas de suas camisetas e como eu disse, Vinicius tinha um bom físico, ou seja, ele era grande, e era forte, como nosso pai, o que significa que suas camisas eram como vestidos para mim, o que me fez escolher várias delas, quase todas, no real, para usar como pijamas e uma ou duas davam para usar no dia a dia.
Suas camisetas, em maioria, tinham alguma estampa nerd, ou uma referência, ou o nome/logo de alguma banda, e maioria era preta, algumas tão desbotadas que só deus na causa, mas tinham também algumas cinzas e até umas brancas, Vinicius não era uma pessoa muito colorida, (eu muito menos), e eu amava todas elas. Peguei alguns de seus moletons, um do Bon Jovi, um do AC/DC, e o meu favorito, o do Queen. Isso definitivamente fez de mim uma criança feliz, e essa felicidade durou cerca de 12 segundos, até que eu me lembrasse que o motivo de essa blusa ser finalmente minha era o fato de que ele estava morto.
E nesse momento, eu abracei seu moletom, que ainda tinha seu cheiro, deitei-me em sua cama e chorei com um desespero que eu ainda não tinha me permitido sentir. Adormeci em sua cama e acorde-me com meu pai me chamando lá de baixo. Levantei e com o rosto corado e inchado, vesti o moletom e desci as escadas e o encontrei na cozinha, com uma caixa de pizza.
Papai me olhou assustado quando viu minha cara, e logo que percebeu o que eu usava, seus olhos brilharam de compreensão e pena. Papai nunca teve muito tato, mas optou por não comentar nada, apenas me abraçou e serviu-me a pizza antes que começasse a falar.
— Recebi a resposta do Gideon. – Fez uma pausa e olhou-me para saber se eu estava prestando atenção, assenti e ele continuou — ele deu uma boa investigada no Internato, melhor do que eu esperava, levando em consideração o tempo que teve. Bom, o nome do lugar é Fairy Folk, foi fundado por um escocês, – nesse momento ele tinha um sorriso irônico, isso porque mamãe era escocesa – em 1893. O cara era viciado em contos de fada, mas isso não influenciou muito em todo o resto. Ele teve uma boa vida, e trabalhou bastante para fazer o Internato funcionar, uma vez que o mesmo não fazia diferença entre raças e classes sócias, se você fosse inteligente o bastante, teria uma vaga lá, e isso era um absurdo para aquela época. O internato cresceu, mas continua na mesma família. É um ambiente equipado, e muito bom em seu ensino, pelo o que foi recolhido por Gideon. Tive a oportunidade de conversar com a Diretora, seu nome é Brianna e ela me pareceu uma mulher muito firme e dedicada ao trabalho. – Enquanto ele falava, eu comia e o observava – Você vai viajar no sábado, terá o domingo para conhecer as instalações e se adaptar um pouco, suas aulas começam na segunda.
— Então é isso? – Perguntei-lhe seriamente – O senhor vai me mandar embora sem mais nem menos?
— É para seu bem. Por favor, não torne as coisas mais difíceis do que são. Preciso que termine de arrumar suas coisas o quanto antes. – Ele fez uma pausa, e entregou-me o cartão — O internato Fairy Folk fica ao sul de Washington, uma cidade litorânea chamada New Skye, por isso sugiro que faça algumas mudanças em seu guarda roupa. Compre tudo o que achar necessário. Quero que você fique bem lá. – Ele simplesmente levantou e saiu. Deixou seu pedaço de pizza intacto, enquanto o meu ficava pela metade.
E este foi meu último jantar com meu pai. Amanheci o dia de Sexta feira cansada, com olhos inchados e profundas olheiras roxas; culpa da noite mal dormida e recheada de pesadelos. Fiz o meu melhor na maquiagem (o que não era muito) para esconder as olheiras, até fiz um delineado de gatinho, e me arrumei levemente. Coloquei uma camiseta preta do homem de ferro, uma das que era do Vinicius, prendi um cintinho de spike, vesti um shortinho jeans curto e escuro e finalizei o look com um coturno de aparência pesada e minhas inseparáveis argolas. Estava pronta para fazer o que bem entendesse, o que significava gastar horrores no cartão corporativo do papai. Ninguém mandou ele soltar o cartão na minha mão.
Agatha estava mais do que feliz em me acompanhar pelas compras no shopping. Agatha era minha melhor amiga, uma típica garota californiana. Loira, de olhos verdes, bronzeado impecável e alta. Assustadoramente alta, e ela insistia em usar saltos ainda por cima! Eu ficava no chão perto dela, literalmente. Mas o importante aqui não é a minha altura, ou melhor, a falta dela, e sim, nossas compras.
Foi meio difícil encontrar um lugar que vendesse roupas verdadeiramente quentes, mas nós achamos, então eu comprei algumas jaquetas, dois cachecóis, mais botas (eu amo comprar botas) e algumas meias. Decidi que precisa urgentemente de lingeries novas, por isso comprei 12 pares de uma vez. Cartão executivo, neném. Passamos em uma Tiffany’s, e para simbolizar nossa amizade, Agatha e eu, compramos duas pulseiras iguais. Ela disse que era para nunca nos esquecermos uma da outra. Minha pulseira tinha uma pedra de jade em forma de gota, em uma fina linha de prata, enquanto a pedra dela era uma pedra âmbar. Essa parte foi decisão minha, queria que minha pedra lembrasse os olhos dela, e a dela, fosse parecida com os meus.
Depois de fazermos a festa, porque sim, Agatha também saiu com várias sacolas, nós fomos até a praça de alimentação. Peguei um grande lanche do Burger King, e Agatha escolheu apenas uma salada sem graça. Modelo chata.
— Agora que a euforia de pegar o cartão executivo do seu pai passou, me fala, você está bem? Bem mesmo? – Perguntou-me Agatha enquanto nos sentávamos.
— Sinceramente? – Ela assentiu enquanto mastigava – Estou devastada. Okay, não tenho mais tantos amigos aqui, e a única família que me resta é meu pai, o que não é grande coisa, não desde que ele perdeu seu menino de ouro. Mas ainda assim, é onde minha vida está. Qual é, Tata! É nosso último ano! Por que eu preciso ir embora agora?
— Olha o lado bom, amiga! Você vai poder se reinventar nesse novo lugar. Vai conhecer pessoas novas e... quem sabe assim, você não consiga encontrar um pouco de paz? Parar de se culpar por algo que não se lembra? Eu te conheço, Kat, você acha que está envolvida na morte do seu irmão; mas você não é esse tipo de pessoa.
— Será? Você não sabe o que venho sonhando! Todas as formas diferentes que eu poderia ter matado meu irmão- elevei a voz e me arrependi logo em seguida – você não entende, Tata. Eu sumi por quatro dias, e quando me acharam, eu estava desmemoriada, coberta de sangue e no mesmo lugar onde encontrara meu irmão morto. Tenho todo o direito do mundo de tirar esse tipo conclusão.
— A polícia te culpou?
— Não, mas...
— Sem mas, não existem provas de que você fez isso, portanto acho que não foi culpa sua. Para mim, você viu seu irmão morrer, de forma tão barbara que seu cérebro apagou. E agora uma parte sua tenta substituir essa falha na sua memória com sonhos e teorias do que pode ter acontecido.
— Eu não sei o que aconteceu e nem porque fiquei louca, mas, tem uma coisa que sei com certeza, não quero ir embora, nunca.
— Você não está nos deixando para sempre, ainda vai voltar para nós. E eu estarei te esperado de braços abertos.
Agatha e eu não conversamos muito depois disso. Fomos para casa e ela me ajudou a terminar minhas malas, me deu colo quando eu chorei de novo ao mexer nas coisas do Vinicius e decidiu ficar para fazermos uma festa do pijama. Pedimos comidas bem gordurosas pelo iFood, uma garrafa de vodca.
Foi uma noite longa, mas gostosa. Nós contamos fofocas, relembrando historias constrangedoras, como quando Agatha estava prestes a fazer seu primeiro ensaio fotográfico e queimou um pedaço do cabelo na festa da fogueira do Primero colegial, ela passou um ano usando Chanel e odiou cada segundo daquilo. Nós assistimos alguns filmes também, mas no fim de tudo, eu peguei no sono enquanto chorava deitada em seu colo.
Sábado amanheceu nublado, o que era raro mas combinava perfeitamente com o meu humor naquele momento. Pensei que minha saída de Los Angeles fosse ser discreta, estava enganada. Papai dispensou o motorista do fim de semana e me levou para o aeroporto ele mesmo, e quando chegamos, Agatha e alguns colegas e amigos da escola estavam lá para de despedirem de mim. Chorei mais do que pensei que seria possível dadas as circunstâncias.
O check in e o embarque foram como deveriam ser, tediosos. O voo foi tranquilo e eu dormi a maior parte dele. Quando sai do avião, notei que meus shorts e camiseta não foram as melhores escolhas para aquele clima. O céu era escuro e ar era úmido. Ali estava a minha casa agora. Juntei minhas malas do lado de fora do aeroporto e aguardei, teoricamente alguém deveria vir me buscar.
Enquanto olhava para o céu, percebi uma coisa, aquele ali, era meu novo lar.
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