As Melhores Coisas do Mundo
2 Primroses
Notas iniciais
~Katniss~
Quem sou eu? Eu me faço essa pergunta a cada segundo do dia, mas juro que não sei mais. Tudo o que sei sobre mim são as opiniões das outras pessoas e, se for verdade o que eles dizem, eusou uma louca. Não que eu saiba exatamente o que é loucura, e duvido que os outros saibam com certeza. Mas eu queria descobrir quem sou eu para que tudo isso fizesse sentido.
Hoje pela manhã eu acordei cedo, como em todos os dias. Tive um pesadelo terrível, mas não como os outros. Geralmente eu tenho sonhos com criaturas esquisitas, como pássaros que reproduzem gritos humanos e vespas cujo veneno causa uma dor insuportável, mas dessa vez não foi assim. Pela primeira vez eu revivi o pior dia da minha vida. O dia em tudo deixou de fazer sentido.
Não havia sons, mas eu sabia que estava gritando à plenos pulmões enquanto corria desesperada pela floresta nos arredores de Godric's Hollow. Eu tinha doze anos, as trancinhas em meus cabelos estavam desgranhadas e meus braços e pernas estavam tão sujos e arranhados que poderiam pensar que eu lutei contra uma alcateia inteira.
Eu cheguei na casinha de madeira, e além do carro do Impala do meu pai havia outro carro ali, bem mais novo e provavelmente mais potente. Entrei desesperada, chutando a porta, mas não me perceberam ali por que uma bala havia sido disparada na direção do meu pai. Minha irmãzinha Primrose se lançou na frente dele, que estava amarrado numa cadeira. Eu vi a dor nos seus olhos. Eu abri a boca, mas não saiu som algum. O corpo inerte do meu anjinho caiu no chão, os olhinhos azuis vidrados, uma mancha vermelha e um buraco no vestido branco, bem no lugar do coração.
Eu cai, meus joelhos machucados latejando ao tocarem o chão. A dor não importava. Um segundo tiro foi disparado e acertou meu pai. Seu sangue espirrou para todo lado, manchando as paredes próximas. Minha mãe estava desacordada no canto. Olhei para os assassinos na minha frente, que brigavam. Um mandava o outro cara atirar, mas ele argumentava que eu era só uma criança. O outro tomou a arma da mão dele e atirou, apressado, no meu ombro, e me deixaram ali para morrer.
Meus olhos se fecharam no sonho, e eu acordei olhando para as paredes brancas, desesperada. Eu estava suando frio. Meu tio Haymitch dormia numa poltrona, uma faca numa mão e uma garrafa vazia na outra. Ele sempre dormia no meu quarto, com medo que os assassinos voltem para completar o serviço. Segundo ele, os caras não ligariam muito para minha mãe, que era inofensiva, mas poderiam ter medo que eu me vingasse algum dia. Privacidade não é necessária num caso desses, e eu não me importo nem um pouco.
Segundo o relógio na minha cabeceira, ainda eram cinco e meia da manhã, trinta minutos antes do meu horário normal de acordar. Eu tomei uma ducha demorada, a água gelada me fazendo tremer, mas eu demorei um tempo para perceber isso. Sentei no box, tentando entender o porquê de ter tido esse sonho logo hoje, depois de tanto tempo. Eu fiquei tantos anos tentando esquecer aquele dia, tentando voltar ao normal, e agora isso vem me assombrar de novo. As imagens passavam pela minha cabeça, deixando-me atordoada, e as lágrimas que a tanto tempo estavam guardadas começaram a escorrer pelo meu rosto. Droga, droga, droga...
Fiz alguns sanduíches e pus na bolsa, deixando dois num prato junto com uma xícara de café. Fui até o quarto e gastei algum tempo tentando acordar meu tio e mandei-o para o banho. Mamãe ainda dormia no quarto dela, e não acordaria tão cedo. Ela ainda está muito, muito afetada, mesmo depois de quatro anos.
Pegando a chave, retirei o Impala da garagem que eu e o tio construímos e fui até a escola meia hora mais cedo que o normal. Estacionei num bom lugar e sentei nas raízes de uma laranjeira, tomando meu café da manhã. Não tinha muita gente por ali, com o frio que estava fazendo qualquer um que tivesse chegado devia estar lá dentro. Eu queria entrar, mas se eu o fizesse teria que lidar com Johanna Masen, e prefiro morrer a ter que ser chamada de louca por ela. Guardei a vasilha dos sanduíches na bolsa e olhei em volta, vendo algumas primroses num canteiro. Não teria mal tirar uma ou duas para dar a minha mãe, certo? Por motivos óbvios, é a flor preferia dela, e a minha também. Caminhei uns dez metros até lá e me abaixei perto de um arbusto que meio que escondia o canteiro. Havia uma de pétalas amarelas, como a cor dos cabelos da minha irmãzinha. Prim, Prim, nossa princesinha...
Olhei por cima dos arbustos, um sorriso se formando nos meus lábios, quando vi uma cena horrível. Um grito apavorado escapou dos meus lábios ao ver o garoto estirado no chão, o seu sangue escorrendo de algum ponto escondido pelos seus cabelos negros. Ele se levantou, parecendo assustado. Nos encaramos por alguns segundos enquanto o sangue escorria pelo pescoço. Ele me olhava confuso, como se nem tivesse percebido que estava morrendo. Eu puxei seu braço, dizendo-lhe que o levaria para o hospital, e em poucos minutos lá estávamos. Eu nem ao menos sabia o nome dele, mas o médico o reconheceu e levaram ele para uma sala, e eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Eu me sentia como há quatro anos atrás, quando acordei no hospital após tirarem a bala que se alojou no meu ombro e quebrou minha clavícula. Mas a diferença é que eu estava morrendo de medo enquanto roía as unhas na sala de espera. Ver o garoto daquela forma, estirado no chão como Prim, eu... eu...
Prim! Eu nunca acreditei muito em clarevidência e tudo o mais, mas... por que depois de tanto tempo eu fui sonhar com a morte da Prim e do papai logo hoje, e apenas algumas horas depois encontro Nico daquela forma? Ok, isso é muito estranho. Mas, de qualquer maneira, foi o maldito sonho que o salvou. Se eu não tivesse lembrado disso, acho que as primroses no canteiro teriam passado despercebidas por mim. Mas, mesmo assim, não posso deixar de me perguntar: Por quê eu? De tantas pessoas naquela escola que poderiam ajudá-lo...
–Doutor! — praticamente pulei em cima do médico que deu a ordem para levá-lo. — Doutor!
–Srta. Everdeen, não é?
Concordei com a cabeça, reconhecendo um dos médicos que me atenderam, Dr. Apolo. Esses quatro anos não o afetaram nadinha, visto que ainda era lindo como um deus. Ele sorriu.
–Faz bastante tempo, não é mesmo? Você tem estado bem?
–Sim, sim. Mas...
–Ah, Nico está bem, não foi nada demais apesar de tudo. Ele tem sorte de ter uma amiga que se preocupe tanto — respondeu, abrindo um meio sorriso.
–Para falar a verdade, nós nem nos conhecemos...
–Ele tem muita sorte, mesmo assim — retrucou, como se dissesse "sei... me engana que eu gosto".
–Eu posso falar com ele? — ele balançou a cabeça afirmativamente, me dizendo o número do quarto.
Eu suspirei e fui ao quarto do Nico. NI-CO. Isso é espanhol? Italiano? Ah, quem sabe? Abri a porta, encontrando-o sentado na cama. Tinha uma bandagem enrolada em volta da cabeça, mas no geral parecia bem. Quando me viu ele tentou sorrir, mas só conseguiu produzir uma careta e eu não consegui não rir. Ele riu comigo até que uma enfermeira veio aqui pedir silêncio. Somos dois retardados.
–Oi. Sou a Katniss — disse quando a enfermeira saiu.
–Nico. Acho... acho que eu tenho que te agradecer, por salvar a minha vida e tudo o mais — ele tinha uma expressão um pouco melancólica, diferente das vítimas deslumbradas dos filmes.
–Então, sei que não é da minha conta mas... como foi que você conseguiu sangrar tanto?
Ele pareceu meio desconfortável, e eu me arrependi de ter perguntado. Quando eu iria dizer para ele esquecer, Nico disparou:
–Só digamos que eu tenho umas contas para acertar com um cara.
–Parece que você vai ter que esperar um pouco pra isso.
Ele riu e ficou sinistro quando o fez.
–Eu disse que o encontraria após a aula, e é isso que farei, machucado ou não. E você vai me ajudar, certo?
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