As Múltiplas Faces do Amor
7 Você tem que sentir com o coração?
Notas iniciais
"O verdadeiro nome do amor é cativeiro."– William Shakespeare
– Como vocês sabem, os Herbívoros comem plantas. – explicava o Sr. Hunter, um dos meus professores de Biologia. – Os Carnívoros comem os Herbívoros e, quando morrem, os mesmos são comidos por bactérias, e assim o ciclo continua...
Eu tentava anotar o máximo de informações quando o sinal finalmente tocou nos liberando da última aula do dia. Comecei a organizar meus materiais quando o professor Hunter chamou nossa atenção.
– Antes de saírem, eu gostaria de entregar o resultado do teste que vocês fizeram na semana passada.
Teste? , questionei minha memória. Não me recordava de teste algum. Ao ritmo que os alunos passavam em sua mesa, ele entregava suas notas. Peguei minhas coisas e segui em direção a ele.
– Desculpe Sr. Hunter, mas não me lembro do seu teste.
– E não há o que lembrar senhorita Adams, já que a senhorita faltou a ele.
– O que? – perguntei, mais a mim mesma que a ele. Tentei me lembrar da semana anterior. E, depois de minutos, consegui alcançar a segunda-feira passada. – Ah, eu fui dispensada da aula de Física por que estava com a respiração acelerada demais, não conseguia me manter atenta. – tentei explicar – Como posso conseguir uma segunda chamada?
– Infelizmente, não pode. A senhorita não passou na enfermaria, por isso não tem provas de que seja verdade.
– Mas a professora de Física, ela pode...
– Desculpe, mas regras são regras. Procure não faltar mais aulas e tente recuperar a nota que perdeu.
Abri a boca para tentar argumentar, mas era inútil. Ele não me daria uma segunda chamada. Fuzilei-o com o olhar e saí, exasperada.
Bati a porta do quarto e joguei meus materiais na cama com toda a raiva que consegui acumular. Eu não podia vacilar quanto as minhas notas, senão perderia a moto de novo, e dessa vez de verdade. Fiquei perambulando pelo quarto, inquieta com essa possibilidade, quando a porta do banheiro se abriu.
– Ai, que susto Giu! – praguejou Charlotte, puxando a toalha envolta dela para mais junto de si. – Há quanto tempo que você está ai? Não a ouvi entrar.
Não respondi. Continuei dando voltas, tentando me acalmar.
Já não bastava a ligação do Bill mais cedo para me deixar mais confusa do que já estava, ainda tinha essa história com o teste. Realmente, eu não deveria nem ter saído da cama hoje, pensei, respirando fundo.
– Está tudo bem? – Charlotte questionou-me, notando minha irritação.
Fitei-a e pensei "Não, claro que não. O universo resolveu tirar o dia para me sacanear." Mas, ao invés de responder, fechei os olhos e respirei fundo mais uma vez. Eu sabia exatamente do que eu estava precisando.
– Vou sair. – Falei, indo em direção ao meu criado-mudo, onde estava a minha identidade falsa. Revirei alguns papeis, perguntando onde diabos ela havia se metido.
– Aonde você vai?
– Para onde você acha? Preciso esvair minha raiva em algum bar por aí.
Lembrei-me da última vez que a usei, a vez que o James me trouxe de volta ao campus. Fui em direção ao armário, onde se encontrava a bolsa que eu usei naquele dia.
– Mas você não tem idade para beber. Tem?
– Não, e é por esse mesmo motivo que eu tenho isso. – respondi, mostrando-a minha identidade falsa. – Vai querer me fazer companhia?
– Não dá, não tenho uma dessas.
Claro que não...
– Deixe-me só tomar um banho e resolverei esse problema para você.
***
Cerca de minutos depois, estávamos esperando que o Will abrisse a porta do quarto. Assim que o fez, dei-lhe meu sorriso mais inocente.
– Princesa G! – ele me cumprimentou. – Em que posso lhe servir?
– Minha amiga Charlotte está precisando de um passe livre para bebidas.
Ele arqueou as sobrancelhas, deu um sorrisinho e fez sinal para que nós entrássemos. Não demorou muito para que a identidade ficasse pronta, mas quando Charlotte pegou-a, ficou com uma mistura de encantamento e insegurança.
– Tem certeza de que é segura?
– Você está duvidando do meu trabalho? – Will perguntou fingindo estar ofendido.
– Não se preocupe. Eu uso a minha faz tempo e nunca tive problemas... Bom, só fui parar na delegacia uma vez ou outra, mas nunca deu em nada. Agora vamos lá.
Charlotte agradeceu ao Will enquanto eu puxava-a para fora do quarto.
***
–Você sempre anda rápido assim? – ela perguntou enquanto descia cambaleando da moto.
Revirei os olhos e assegurei que estava dentro do limite de velocidade. Desliguei o motor, passei o meu capacete pelo meu braço e fui em direção à porta do bar, cujo mesmo tinha uma aparência antiga, mas, ao mesmo tempo, muito bem cuidada. Olhei de relance para o rosto de Charlotte e percebi que ela transpirava desespero. Achei graça de sua expressão.
– Relaxa... Apenas siga meus passos.
Fomos direto ao balcão pedir nossas bebidas. Coloquei minha identidade sobre a madeira e observei a Charlotte fazer o mesmo. "Sua bebida mais forte, por favor.", pedi assim que o barman finalmente se convenceu de nossas idades. Pegamos as bebidas e fomos a uma mesa de madeira no canto ao fundo do bar, tendo visão parcial de todo o local – como eu sempre faço.
– Ufa... – Charlotte deixou escapar junto a um suspiro. Gargalhei e levantei meu copo, que se chocou ao dela antes de eu virá-lo de uma só vez. Fechei os olhos, sentindo o liquido queimar dentro de mim. Experimentava essa sensação há tempos, e ela me causava uma sensação inexplicável. Inexplicável, mas nunca suficiente. Assim que abri os olhos, percebi que o copo de Charlotte continuava cheio.
– Ei, o que foi?
– Eu não bebo.
Primeiro pensei que ela estava brincando, mas quando sua expressão não mudou, fiquei confusa.
– Então... Por que veio comigo?
Ela precisou de um tempo para formular uma frase inteira, acho que escolhendo as palavras certas. E, quando finalmente abriu a boca, sua resposta saiu como uma confissão;
– Sabe, eu admiro você. Sei que nos conhecemos há pouco tempo, mas... Você parece ser uma garota independente e determinada. O tipo de garota que não se preocupa com opiniões alheias, daquelas que fazem o que quer, sem preocupar-se com as consequências.
– Eu apenas faço mais aquilo que me faz sentir viva. – comentei, querendo saber onde aquilo ia dar.
– Mas eu não sou assim. Eu estou sempre querendo agradar as pessoas e esqueço-me de mim mesma.
Ri, mesmo sem a mínima graça, e recostei-me no banco. Lembrei-me de anos atrás, e percebi que uma cópia minha do passado estava na minha frente, talvez querendo me fazer voltar a ser garotinha vulnerável do ensino médio. Não posso. Peguei seu copo e virei tudo de uma vez só. Levantei, sem dizer uma palavra, e fui ao balcão. Se não fosse uma decepção, eu ainda seria como a Charlotte.
– Certo, pra começar, beba isso. – coloquei seu copo, novamente cheio, em sua frente. Ela hesitou por um instante, mas depois cedeu.
Pedi mais uma dose ao barman e, quando voltei à mesa, um pensamento invadiu minha mente; E se...?
– Eu era assim Charlotte, acredite. Mas eu posso te dar umas dicas para largar essa fachada de perfeitinha.
Charlotte me encarou e arqueou as sobrancelhas, mas depois balançou a cabeça.
– Primeiro: vira. – apontei para o copo transbordando em cima da mesa. Ela hesitou por alguns instantes, mas depois pegou o copo e bebeu tudo de uma vez só.
– Ótimo. Comecemos pelas regras básicas; para de se vestir como quem trabalha em um escritório. – apontei para sua blusa de botão e calça jeans de quase sempre – Não precisa andar só assim para as pessoas te respeitarem. Coloca umas roupas mais largadas, mais a sua cara.
– Mas eu gosto dessas roupas. – protestou.
– Não, você não gosta. Você só... Usou tanto que acha que esse é seu estilo de verdade. E não é.
Ela fez menção de protestar novamente, mas apenas balançou a cabeça.
– Eu posso te ajudar, você seria mais como eu se você quisesse.
– Eu quero.
– Ótimo. – fiz sinal para o barman trazer outra dose e depois voltei-me para Charlotte novamente – E o tal de Brian
– Eu acho que ele gosta de mim.
– Pffff. Fala sério, Charlotte!
– Como assim?
– Não se apegue. Tipo, a ninguém. As pessoas não se importam de verdade, não gostam de verdade. Nos fazem se acostumar com a presença delas e depois somem. Não entre nessa, eu nunca entrei.
– Nunca? – olhou-me como se eu estivesse mentindo. Mantive minha expressão determinada. – Então quer dizer que você não entende. É uma espécie estranha de sentimento, não dá pra se explicar. Você tem que sentir com o coração.
– Que bobagem! A função do coração é bombear sangue para o resto do corpo. Amor é apenas uma desculpa para as pessoas agirem de forma estupida, uma justificativa para suas ações.
– Credo Giulietta! Por que você pensa dessa forma? – Ela me perguntou pasma e eu sorri.
– A vida me mostrou isso, minha cara. Eu já tive outras opiniões sobre o amor. Ninguém nasce com personalidades formadas ou pontos de vista formados, a vida forma-os por conveniência. Uma hora, depois de tanta amargura, você aprende a lidar com as coisas da forma mais drástica possível.
Nesse momento, o barman se aproximou e colocou dois copos em nossa mesa.
– Aqueles dois homens no balcão pagaram suas bebidas.
Olhei imediatamente em direção ao balcão e adorei o que vi. Dois homens altos, um com média de 23 anos, olhos escuros, pele pálida e cabelos negros, o outro, média de 25 anos, cabelos castanhos e olhos claros. Um olhava timidamente, o outro sorriu quando percebeu meu olhar sobre eles.
Olhei para Charlotte e pisquei.
– E então, topa?
***
Ríamos da piada do Adam, que eu descobrir ser o nome do dono dos olhos extremamente claros e hipnotizantes, quando eu resolvi puxar conversa com o seu amigo, o Carter. Algo nele havia chamado minha atenção.
– E então, Carter, você disse que fez Direito, não?
– Sim, sim. Eu fiz dois anos de Direito por causa dos meus pais. Mas depois tranquei e comecei a fazer Artes Plásticas, que era o que eu queria desde o início.
– E você é bom?
Ele inclinou a cabeça antes de responder.
– Não sei se...
– Sim, ele é muito bom. – Adam o interrompeu – Pare com essa modéstia.
Carter ficou meio sem graça, mas sorriu e, finalmente, me olhou. Durante toda a nossa conversa, ele não fez muito contato visual. Parecia triste, não sei.
– E você, Regina – foi o nome que dei para eles –, qual curso você faz?
– Eu faço Ciências Gerais.
– Por que escolheu esse curso? – Adam me perguntou.
– Porque... Eu gosto de entender a vida.
– Nossa, que profundo isso. – Carter respondeu sarcasticamente, o que resultou em risadas de todos.
– Eu vou ao banheiro, licença – falei e virei-me para Charlotte – Vem comigo.
Puxei-a e fui em direção à porta que indicava o banheiro feminino. Notei que lá havia um espelho que tomava boa parte da parede, então fui até ele.
– Veio ao banheiro para se olhar no espelho?
– O Adam gostou de você. – falei, ignorando totalmente sua pergunta.
– O que? Não mesmo.
– Claro que sim, ele não parou de olhar pra você.Você não percebeu, ou só está negando isso pra si mesma?
Ela não respondeu. Apenas voltou a atenção para seu reflexo no espelho e fingiu arrumar o cabelo.
– Ele é um gato. – quebrou o silêncio depois de uns instantes.
– Você também. – pisquei para ela. – Gostei do Carter. Ele é sério, isso é sexy.
Charlotte riu e balançou a cabeça, talvez pensando que isso fosse uma piada.
– Bom, vamos voltar. – saí e ela me seguiu.
Na mesa, Adam e Carter conversavam sobre algo, mas levantaram quando nos viu se aproximar.
– Tá rolando uma festa na casa de uma colega. – Adam falou mostrando-nos uma mensagem de texto em seu celular – Vocês topam ir com a gente?
Olhei para a Charlotte e arqueei as sobrancelhas. Ela percebeu que só havia uma resposta para aquilo.
– Claro.
– Tem certeza de que é seguro seguir dois caras que acabamos de conhecer?
Charlotte havia me perguntado isso pela quinta vez. Estávamos na moto, seguindo o carro de Carter até a casa da tal festa que estávamos indo.
– Relaxa Charlotte, eu tenho um canivete na minha bolsa. Estamos seguras, não se preocupe.
O carro parou em frente a uma casa larga de dois andares, com um grande gramado. Pessoas estavam sentadas, e algumas até deitadas, em frente à casa. A música estava alta o bastante para conseguirmos ouvi-la do lado de fora. Descemos da moto e fomos em direção aos meninos, que nos esperavam já fora do carro.
– Vou mostrar a casa a vocês. – Adam colocou a mão nas costas de Charlotte e conduziu-a até a entrada da casa. Eu andei atrás com o Carter.
Passamos pela cozinha, que se achava cheia de latas e garrafas de bebidas. Conhecemos alguns amigos de Adam e Carter, incluindo a dona da festa, uma baixinha que já estava meio bêbada. Paramos na sala de estar, onde estava lotada de pessoas dançando ao som de um DJ. Perdi Charlotte e Adam de vista, mas não me preocupei muito com aquilo. Carter me ofereceu uma garrafa de cerveja e ficamos recostados na parede por um tempo, observando as outras pessoas. O semblante de Carter denunciava que ele não estava animado com a festa.
– Você não está muito a vontade, não é? – gritei devido ao som alto.
Ele demorou uns segundos para responder. Seu olhar estava meio distante.
– Você quer andar um pouco?
Assenti com a cabeça. Andamos até o lado de fora da casa.
– E então, quer me contar o aconteceu?
– Não sei se vai pegar bem eu falar assim, mas... Eu terminei com minha namorada.
Pronunciei um "aaaah" e ele encarou os próprios pés.
– Quero dizer, faz umas duas semanas, mas é que eu ainda não estou muito bem com isso. Namoramos por um ano. Eu estava meio pra baixo, e hoje à noite o Adam me puxou pra fora de casa, pra tentar me animar, sabe?
– E aposto que ele que te convenceu a vir pra essa festa também.
Ele balançou a cabeça, assentindo, ainda com o olhar para o chão. Eu sabia que devia falar algo para conforta-lo, mas não fazia a menor ideia de como começar.
– Sabe, é... Tem coisas que não são pra dar certo, entende? Não adianta o quanto nós insistimos, apenas não é para ser. É por isso que eu evito me apegar às pessoas, por que elas acabam nos decepcionando de algum jeito.
As palavras ficaram no ar. Andávamos pelo quarteirão, que estava vazio e silencioso, exceto pela musica alta que deixávamos para trás.
– Você deveria cursar filosofia.
Gargalhei, aliviada por ele quebrar a tensão que pairava entre nós.
– E você é bom em mudar de assunto.
Ele parou de andar, e eu parei ao seu lado. Ele levantou a cabeça e finalmente me olhou nos olhos. Tentou falar algo, mas hesitou por um instante. Encarei-o.
– Seus olhos são pretos. – observei. Nunca havia encontrado alguém com olhos totalmente pretos. – Um dos mais raros do mundo, sabia?
Ele concordou, rindo. Finalmente conseguiu falar algo.
– Eu... – hesitou novamente, ficando mais próximo de mim – Você parece uma pessoa animada. Será que conseguiria me fazer esquecer que eu estou deprimido?
Quando entendi o que ele queria dizer, eu ri.
– Se você quiser... – inclinei e o beijei. Depois o puxei de volta para festa. – Vou te deixar bêbado e você nem lembrará o que aconteceu.
Ele gargalhou.
– Espero que sim.
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