Notas iniciais
Desculpem-nos pela demora, tentamos portar o mais rápido possível, mas devido a alguns imprevistos demoramos. Esperamos que gostem de mais esse capítulo, então, boa leitura.

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito. (Machado de Assis)

– Você sabe que isso não vai resolver nem metade dos nossos problemas não é?

Rebate minha mãe, já furiosa de tanto ouvir as ideias estúpidas do meu pai. Eu abro mais a porta e coloco a cabeça para fora do quarto, para ouvir melhor.

– Pensa bem, não é garantia que dê certo, mas pode demorar pra arranjarmos o dinheiro suficiente que estamos devendo...

– Pare de ser sonhador, Oscar! Isso não vai dar certo, não vamos conseguir dinheiro a tempo... – pude vê-la colocar a mão na testa e respirar fundo – No fim da semana eu vou mandar a Giulietta para a casa da minha mãe, não quero que ela esteja aqui quando tomarem a casa.

– Desculpe querida. – meu pai lamentou aproximando-se da minha mãe e abraçando-a. – Eu te amo, vai dar tudo certo.

Acordei, num suspiro. Percebi que meus olhos estavam molhados. Enxuguei-os. Pare de ser idiota, Giulietta. Repeti para mim mesma, batendo diversas vezes na minha própria testa. Peguei meu celular embaixo do travesseiro e olhei as horas. 05h23min. Saí do quarto e comecei a andar pelos corredores, sem nenhum rumo em mente. Para de pensar nisso. Para de pensar nisso. Para de pensar nisso.

Andei mais e mais rápido. Passei por uma janela e parei para observar o céu em pleno amanhecer. Para de pensar nisso. Continuei andando e avistei uma escada. Atirei-me dela.

Quando acordei, meus olhos doíam por causa da claridade. Estava deitada em uma maca, em frente à janela. Quando me sentei, percebi que minha cabeça também doía. Uma enfermeira preenchia uma tabela em sua mesa e, quando percebeu que eu havia acordado, veio em minha direção.

– Como você se sente? – perguntou, colocando as costas da mão em minha testa.

– Minha cabeça dói. O que aconteceu?

– Você tropeçou e rolou a escada. Bateu a cabeça, mas não foi nada grave. Felizmente, foram poucos degraus. Eu estava a caminho daqui quando te vi. O que você estava fazendo fora da cama?

– Eu... Estava sem sono e resolvi andar um pouco.

Ela assentiu e me deu uma bolsa de gelo.

– Coloque isso no local onde dói. Vou te acompanhar até o seu quarto.

Fiz o que ela mandou e levantei. Quando chegamos ao meu quarto, ela me sentou em minha cama. Percebi que Charlotte não estava no quarto.

– Que horas são?

– Oito e vinte da manhã. – ela respondeu olhando seu relógio de pulso.

– Eu deveria estar na aula.

– Você não pode ir à aula, não hoje. Fique aqui e tente melhorar. Se a dor de cabeça não passar, volte à enfermaria.

Assim que ela saiu do quarto, eu deitei e fechei os olhos, porém não dormi.

***

Algumas horas se passaram e então Charlotte apareceu me bombardeando de perguntas.

– O que aconteceu? – ela ajoelhou-se ao lado da minha cama e pôs a mão no galo que se encontrava na minha cabeça, eu gemi de dor. – Ai, me desculpa. Mas o que aconteceu?

– Tropecei e cai de uma escada. – Respondi rápido.

– Como isso?

– Não é da sua conta, – respondi apressadamente – agora se você me der licença eu vou dar uma volta. Não nasci pra ficar parada em canto algum.

Dizendo isso deixei o quarto, antes mesmo de ouvir os protestos de Charlotte sobre como eu deviria descansar. Essa é mesmo uma pedra no meu sapato.

Minha barriga roncou, olhei o visor do celular e percebi que faltava pouco para o almoço, logo tratei de me dirigir ao refeitório. No caminho recebi um panfleto sobre uma festa na casa de Elizabeth Williams, e só então me dei conta que já era sexta-feira e meu castigo estava prestes a acabar, ou eu achava que sim. A festa seria no dia seguinte, sábado, e eu teria que arranjar um modo de tapear minha mãe. Giu, está na hora de você tentar fazer um milagre.

Quando cheguei ao refeitório este ainda estava vazio, exceto por uma mesa com um pequeno grupo de amigos e um rapaz sentado no fundo do recinto. Apertei os olhos para enxergar melhor o rapaz e sorri ao constatar que era James. Talvez o meu dia não estivesse tão ruim quanto eu pensasse.

– Como vai o melhor, e mais gato, professor de Estatísticas dessa faculdade? – Disse ao me sentar ao seu lado.

– Bajulação a essa hora do dia? – Ele perguntou olhando o relógio, depois me encarou e deu um sorrisinho – Se sua intenção é ganhar uma nota extra, sinto muito, mas não deu muito certo.

– Ah, você sabe que eu não preciso. – empurrei o ombro dele de leve – Estou atrapalhando? – Perguntei ao perceber que ele corrigia algumas provas.

– Não, desde que o assunto que você queira tratar seja breve. – Ele respondeu sem tirar os olhos das atividades. – A propósito, por que faltou minha aula hoje?

– Cai de uma escada. – Respondi desinteressada.

– Ai meu Deus, Giulietta! – Ele exclamou e eu lhe lancei um olhar repreendedor por ele ter me chamado pelo nome. – Quer dizer, Giu. – Corrigiu-se – Você deveria estar descansando.

– Não, não se preocupe, não foi nada grave e eu já me sinto bem melhor. – Assegurei. – Eu só vim aqui almoçar e bater um papo, mas já que você está ocupado, deixamos pra outra hora. – Nesse momento tive uma ideia ótima. – No domingo você vai estar ocupado? Porque quem sabe não podemos sair e almoçar...

– Eu adoraria. Te pego as 13h00min? – Sorri e assenti. Escrevi o endereço da minha casa em um bloco de notas que estava na mesa e, em seguida, me despedi, indo pegar algo para comer.

Quando eu comecei a andar, notei que um rapaz do grupo de amigos da outra mesa acenava pra mim. Franzi o cenho e continuei andando. Senti uma mão em meu ombro me fazendo virar.

–Grace? – Demorei um tempo para reconhece-lo; quarto 312 –O que aconteceu?

–Como?

–Eu te procurei ontem, mas não te achei em lugar nenhum.

Olhei para a mesa onde ele estava e percebi que seus amigos nos olhavam ansiosos.

–Nós nos conhecemos? – Fingi-me confusa. Ouvi algumas risadas atrás dele.

–Ah, qual é, Grace?

–Acho que está me confundindo com outra pessoa. Meu nome é Laura. –estendi minha mão para ele, mas assim que percebi a raiva em seu rosto, encolhi-a –Sinto muito não ser quem você esperava, seria divertido, não?

E saí com meu cinismo, deixando-o com o deboche dos amigos.

***

No sábado de manhã eu já me sentia bem melhor, minha cabeça não doía mais, nem o meu corpo. Agora eu poderia ir para a festa sem problemas, ou não, pois ainda teria que arranjar um jeito de enrolar minha mãe.

Terminei de arrumar minha mochila e liguei para ela para avisar que estava pronta pra ir.

– Como assim você está viajando? – Perguntei indignada quando recebi a noticia – Não me avisou nada!

– Eu volto amanhã cedo, querida. – Ela fez uma pausa – Seu tio Carlos vai te buscar e te deixar em casa. Eu confio em você e espero que não faça nenhuma besteira.

– Mãe, com quem você está? – ela não respondeu. – Mãe, eu vou perguntar de novo. Com quem você está? – dessa vez eu deixei a impaciência emanar pela minha voz.

– Quero que você fique ciente que eu estou com a chave da sua moto. – Aquilo me deixou ainda com mais raiva.

– Você está com ele. Não é? – Ela não respondeu novamente – Mãe! Eu não acredito. Como você pode ser tão idiota?

– Não fale assim comigo! Eu sou sua mãe e exijo respeito! – Ela gritou do outro lado, mas eu percebi que sua voz estava embargada.

– Tudo bem, tudo bem... – Eu respirei fundo – A vida é sua afinal, faça dela o que você bem entender. Só não diga depois que eu não te avisei. Essa sua história com o Bill vai acabar igualzinha com a do papai. – Desliguei a ligação, para em seguida receber uma chamada do meu tio. – Já estou indo. – Falei pra ele.

***

–Pontinho querida, está entregue. – Tio Carlos falou, estacionando na porta da minha casa.

– Valeu tio, manda um abraço pra tia Miranda e para Ray. – Sai do carro, mas me lembrei de uma coisa – Eu gostaria de convidar a Ray para dormir aqui em casa hoje à noite, já que eu vou ficar sozinha. Ela me faria companhia. Mas isso se o senhor não se importar, claro.

– Claro. Eu falarei com ela e, se ela concordar, trarei ela depois do almoço.

– Valeu de novo, tio!

***

A Ray chegou lá para as 15h30min. Passamos a maior parte do tempo jogando conversa fora. Ela concordou em ir à festa comigo, mas me fez prometer que dessa vez não meteria ela em confusão nenhuma.

– Ai, para. Deixa de ser fresca. – Eu falei enquanto ela reclamava.

– Só estou dizendo que você deveria ser mais responsável. – Eu revirei os olhos e estava pronta para rebater quando ela mudou de assunto. – Então, quer dizer que você está pegando o seu professor gato?

– Não, eu ainda não estou pegando ele.

– Então quer dizer que vai? – Ela disse levantando as sobrancelhas repetidas vezes, eu gargalhei – Isso não vai contra as regras? Ele deve ser bem mais velho que você.

– Você sabe que ir contra as regras já é uma marca registrada minha. E quanto a idade, ele tem vinte e três anos, já peguei caras bem mais velhos.

– Ainda acho que você vai se dar mal.

– Ah, cala essa boca. – Olhei o relógio da parede. A hora tinha passado tão depressa que não tinhamos nem se dado conta, eram quase sete. – Acho melhor a gente se aprontar, daqui a pouco o Will passa aqui para nos buscar.

– Hum, quer dizer que o Will vem nos buscar. – Ela repetiu o gesto com as sobrancelhas.

– Você não tem jeito mesmo. E o Ryan?

– Ah, é uma longa história. Mas você vai ou não me arranjar com o Will?

– Ta bom. Depois eu que sou a assanhada.

***

Quando Will chegou para nos buscar, eu tratei logo de fazer as apresentações e depois ele e Ray começaram a se paquerar. Mereço. Não prestei muita atenção no que eles conversavam, e aposto que não me interessaria.

Quando chegamos à festa me saparei deles e tratei logo de ir para cozinha procurar as bebidas. A festa correu divertida; eu bebi, conheci pessoas novas, reencontrei, infelizmente, velhos conhecidos do colegial... Nem vi o tempo passar, como de costume.

– Por que eu não fico surpreso em te encontrar perto das bebidas? – Alguém falou comigo.

– Oi? – Perguntei me virando para a pessoa e uma onda crescente de raiva me subiu. Andrew.

– Sempre a mesma Giu.

– Você fala como se me conhecesse. Idiota. – Falei com a voz meio arrastada, foi então que me dei conta de que estava quase bêbada.

– Ei, calma ai, só vim aqui conversar. – Ele falou levantando as mãos como se estivesse se rendendo.

– Você nunca vem só pra conversar, Drew. – Falei, enfatizando o apelido dele.

– Que tal deixarmos o passado no passado e começar essa conversa novamente? – Ele fez uma pausa e estendeu a mão para que eu pudesse apertar. – Oi Giulietta, quanto tempo, prazer em reencontra-la.

– O prazer é todo seu. – Falei. Ele recolheu a mão já que eu não fiz a menor questão de aperta-la.

– Ah Giu, qual é! Nós passamos tantos momentos legais juntos, você não gostaria de relembra-los? – Dessa vez ele me virou e fez com que ficássemos cara a cara. – Se lembra daquela noite? – Ele chegou mais perto e colocou uma mecha do meu cabelo para trás, nossos rostos ficaram a poucos centímetros um do outro.

– Fica longe de mim seu nojento! – Exclamei e me afastei dele cambaleante, mas ele me segurou.

– Não seja assim, Giu, – ele falou se aproximando novamente e grudando nossos corpos – eu sinto falta de nós. – Dessa vez ele me beijou. Eu me rebati nos seus braços, mas ele era mais forte e estar bêbada não ajudava muito. Quando consegui me separar do beijo ele sorriu vitorioso. – Não foi tão ruim assim, não é mesmo? Agora a gente pode continuar num lugar mais reservado.

– Me solta seu crápula! Me solta! – gritei, o que acabou chamando a atenção das pessoas ao redor. Ele segurou meu braço mais forte para impedir que eu me soltasse.

– Louise? Está tudo bem aí? – O possível britânico, amigo de Charlotte e de Will, apareceu me chamando. Dessa vez me lembrei dele, talvez num ato desesperado, na esperança que ele pudesse me ajudar.

– Louise? O nome dela é Giulietta, camarada, acho que você está confundindo. Ninguém precisa de ajuda aqui. – Andrew falou.

– Seja o nome dela qual for ela não parece muito feliz em ser agarrada. Então acho melhor você deixa-la em paz. – Ele disse com um sotaque acentuado.

– Se não o que? Você marica vai me dar uma surra? – Andrew deu uma gargalhada. – O assunto aqui é entre a gente.

– Eu sou totalmente contra a violência. – O garoto disse chegando mais perto e se colocando entre eu e Andrew. – Mas se você não largar a moça, eu vou ter que tomar alguma providencia. – Andrew gargalhou novamente e, em um piscar de olhos, socou a cara do, talvez, britânico, que se apoiou no balcão para não cair.

– Você é mesmo um cretino! – Gritei e depois, como em um ato maquinai, soquei a cara de Andrew deixando a marca do meu punho no seu rosto e a raiva emanando dos olhos castanho-claro.

– Isso vai ter volta, Adams! – Ele exclamou e saiu.

–Está tudo bem? – perguntei ao garoto que levara o soco, e ele assentiu.

– O que ta rolando aqui? – Will perguntou. Ele e Ray seguiram a aglomeração de pessoas para saber o que estava acontecendo.

– Me leva pra casa, agora. – Falei pondo a mão na cabeça, essa que havia começado a doer.

– Você que manda. Vou buscar a chave do carro, vejo vocês lá fora. – Will voltou para buscar a chave e eu e Ray saímos para esperar no carro.

– Louise! Quer dizer, Giulietta, ou seja lá qual for o seu nome... Espera aí! – O garoto gritou com seu sotaque que começara a me irritar, eu apenas ignorei-o e segui até o carro.

Notas finais
Sua opinião nos deixa feliz, então, deixem seu comentário! Nos vemos no próximo o/