As Múltiplas Faces do Amor
6 Confusa na ação de existir
Notas iniciais
“Meus sentimentos são tão confusos que nem ouso mais dizer o que sinto com medo de errar, novamente.” – Beatriz Shibuya
– Giu, desliga esse despertador. – Ouvi alguém resmungar e em seguida me acertar um travesseiro. – Giulietta! – Gritou e senti mais um travesseiro me acertar, dessa vez mais forte.
Fiz um esforço para abrir os olhos. Procurei pelo celular em cima do criado-mudo e desliguei o despertador, olhei as horas; 6h00min. Resmunguei.
– Ah, muito obrigada. – Charlotte disse virando-se em sua cama – A propósito, poderia me devolver meu travesseiro? – Pediu num sussurro sonolento. Eu joguei de volta.
– Você não vai pra aula? – Perguntei juntando todas as minhas forças para levantar.
– Minha professora está de licença maternidade, não vou ter aula de inglês até me arranjarem um professor substituto. – Ela resmungou novamente. Passaram alguns curtos minutos e ela começou a roncar. Roncar mesmo.
Tomei coragem e me arrastei até o banheiro, maquinando alguma desculpa inteligente para faltar a todas as aulas da manhã. Eu definitivamente não estava afim de sair do quarto, poderia muito bem dormir até o mês que vem. Então, me dei conta que tinha aula de Estatísticas no primeiro horário. Merda.
Por algum motivo eu ainda não estava pronta para vê-lo, mas se eu faltasse ele poderia achar que eu estava ressentida, magoada ou alguma coisa do tipo – mas eu não estava, certo?
Entrei no chuveiro e tomei um banho bem gelado para acordar de vez. Geralmente meu sono é leve, eu acordo ao menor dos barulhos, mas hoje não ouvi meu despertador e foi preciso um escândalo da Charlotte para me acordar. Talvez esse fosse um sinal de que eu não deveria ter acordado, um sinal de que algo bem ruim está para acontecer hoje.
Sai do banheiro e me deparei com Charlotte perambulando pelo quarto.
– Achei que você ia continuar dormindo.
– Eu também, – Ela suspirou – mas recebi um telefonema da diretoria. Parece que encontraram um professor substituto.
Eu me joguei em cima da cama, ainda de toalha e molhada. Passei um bom tempo encarando o teto. Um turbilhão de pensamentos enchia minha cabeça.
– Ta tudo bem? – Charlotte me tirou da minha reflexão.
– Sim... – Fiz uma pausa, me contendo para não desabafar toda a minha confusão com ela – Só não estou muito afim de assistir aula hoje. – Falei por fim.
– Ah, você pode alegar que as nuvens estão muito densas no sentido oeste. – Ela disse apontando para a janela – Com certeza eles vão entender porque você não saiu do quarto. – Eu ri.
– Não é uma ideia tão ruim, é melhor que tudo que eu pensei. – Me levantei e fui até o armário e tirei a primeira roupa que eu encontrei, sem nem me dar o trabalho de avaliar.
Charlotte deteve-se em frente a porta do banheiro.
– Sabe, se você precisar conversar com alguém, sei lá, sobre qualquer coisa que estiver acontecendo com você... – Ela me encarou e depois sorriu sem jeito – Eu estou disponível.
Eu não estava esperando por aquele comentário, então eu com certeza fiquei com uma cara de pateta na frente dela. Nesse momento era adeus à pose de “eu sou durona e não preciso de ninguém”.
Ela continuava me encarando, não demonstrava se tinha percebido o quanto a declaração havia me atingido, só continuava ali me encarando com um sorriso tímido. Recompus-me.
– Ta legal. – Dei de ombros fingindo desinteresse – Agora você pode me dar licença? Quero me trocar. – Ela assentiu e entrou no banheiro.
***
Fui a primeira a chegar à sala de aula, então tratei de procurar o lugar mais afastado possível da mesa do Sr. Peacock. Quanto menos contato, mais fácil as coisas ficariam. Enquanto esperava eu tratei de ensaiar minha reação caso ele chegasse a falar comigo. Não sei se deveria ser rude, ou simplesmente fingir que nada aconteceu, ou se deveria fingir que nem me dei conta da existência dele.... Então, eu preparei meu melhor sorriso e minha melhor atuação de “tanto faz, não acrescenta nada na minha vida”.
– Ei, olá Louise! – Uma figura quase conhecida apareceu e sentou-se ao meu lado. O tal amigo da Charlotte que me ajudou na festa e que invadiu meu quarto. Qual era mesmo o nome dele? Edgar?
– Olá, garoto do olho roxo que não gosta da Nirvana.
– Prefiro Edward, por favor – Eu ri – Acho que agora que eu sei seu nome verdadeiro eu deveria começar a chamá-la por ele. Giulietta... – Ele fez uma pausa e me encarou, então eu me dei conta, mais uma vez, do quanto ele era bonito. – É um nome interessante. É francês?
– Não, é italiano. – Revirei os olhos, estava cansada de repetir isso para todo mundo.
– Ah, entendo. Mas com um nome tão bonito por que se apresentar com outro? – Ele perguntou e a pergunta realmente me pegou de surpresa – tudo hoje estava me pegando de surpresa, será possível.
– É uma longa história. – Eu disse encarando as poucas pessoas que tinham aparecido na sala, as quais eu não tinha nem notado até o momento.
– Eu tenho bastante tempo. – Dizendo isso uma horda de alunos entrou na sala, seguidos do professor Peacock. Suspirei.
– Parece que não tem mais.
– Gostaria que vocês fizessem a leitura da página 234 do livro antes que comecemos a aula – James falou me encarando, ou talvez fosse apenas uma impressão tola minha.
Edward me cutucou.
– Você quer almoçar comigo hoje? – Perguntou e eu arqueie as sobrancelhas.
– Você está agindo como um garoto do ensino médio. – Eu disse e ele riu.
– Eu ainda quero uma reposta. – falou dando de ombros.
– Sem conversas paralelas pessoal, – James repreendeu – concentrem-se no texto. – Eu ainda tinha a impressão que ele me encarava.
O resto da aula correu de um jeito assustadoramente normal. Na maior parte do tempo eu fiquei concentrada no meu livro didático, mesmo não sabendo nada do que o tal texto falava ou o que James explicava para turma. Eu estava apenas concentrada no meu mundo particular, que era, sem dúvidas, um pouco menos agonizante que o real, porém muito mais confuso.
Em todo momento eu sentia os olhos de James sobre mim, mas preferi achar que era coisa da minha cabeça.
Quando o sinal tocou eu tive que me esforçar para esconder minha cara de aliviada. Enrolei o máximo possível para que o James fosse embora e eu não precisasse falar com ele, mas parecia que ele estava enrolando pra que eu passasse por ele. Droga.
Levantei da cadeira, respirei fundo e me despedi de Edward – que ainda estava sentado fazendo umas anotações.
– Ei, Giu. – James me chamou enquanto eu passava por ele a mil por hora. Eu me forcei a parar. – Está tudo bem com você?
– Lógico, por que não estaria? – Sorri fingindo descontração.
– Você parecia muito abalada ontem. Me desculpe se eu te causei algum constran...
– Não, não precisa se desculpar. – Eu interrompi – Eu estava tendo um dia ruim e apenas isso. Tanto faz, não muda nada na minha vida. – Sorri mais uma vez, e minha reação deixou ele claramente confuso.
– Mesmo assim ainda me sinto em dívida. Você não quer almoçar comigo hoje? Assim a gente pode conversar sobre o que aconteceu.
– Foi mal, James. Eu combinei de almoçar com um amigo. – Falei olhando para Edward que estava deixando a sala no momento. Ele acenou, eu acenei de volta. – Ah, e não precisa se sentir culpado, nem nada disso. Já disse que não foi nada. – Disse por fim dando um sorriso e um tapinha no ombro dele. – Até a próxima aula, Sr. Peacock. – Sai sem dá oportunidade de resposta a ele.
***
As aulas correram normalmente, ou eu acho que sim, não prestei muita atenção. Na minha última aula da manhã, o professor de química passou mal e teve que ser levado ao hospital, – foi alguma coisa relacionada à Labirintite que ele tem – por conta disso fui dispensada mais cedo. Como faltavam algumas horas para o almoço eu voltei para me quarto. Estava vazio, dei graças aos céus.
Passei a maior parte do tempo escutando algumas músicas e até me arrisquei a ouvir um dos CD’s da Charlotte, Maroon5, ela falava tanto da banda que eu decidi ouvir. Já tinha escutado uma ou duas músicas antes, mas não faz muito meu estilo.
Uma batida na porta me fez despertar da minha reflexão de como o vocalista da banda, Adam Levine, é maravilhoso – e gostoso, não podemos deixar isso de fora.
– Entra! – Gritei, sem a menor vontade de andar até a porta.
– Oi, Loui... Quer dizer, Giulietta. – Edward cumprimentou-me – Achei que você não gostasse desse estilo de músicas. – Ele disse referindo-se a “She Will be Loved” que tocava no momento.
– Não gosto, o CD é da Charlotte. Ela fala tanto da banda que eu decidi escutar.
– É, sei bem como é. Conheço ela há muito tempo e desde que me lembro ela é fã do Maroon5. – Ele disse revirando os olhos. Eu sorri.
– Bom, se o que te trouxe aqui foi ela... – Disse olhando no relógio – Vai demorar um pouco pra ela voltar.
– Não, não. Eu vim aqui porque a gente combinou de almoçar, lembra?
– Falta um pouco pro refeitório abrir ainda, se eu não me engano. – Disse olhando o relógio novamente.
– Ah, eu pensei que a gente podia almoçar no Cherrys. – Ele disse e eu fiz uma careta. Não quero voltar lá tão cedo. – Mas eu conheço uma lanchonete muito boa também. – Ed acrescentou logo em seguida, talvez percebendo minha insatisfação pela Cherrys. – E dá pra ir andando, é bem perto.
– Ta legal. – Disse indo em direção a minha escrivaninha e apanhando meu boné azul marinho dos Yankees. – Vamos lá.
– Sabe, eu gosto do seu estilo. Você passa um ar de garota despreocupada que não se importa com a aparência, mas não deixa de ser bonita. – Edward disse enquanto deixávamos o campus.
– Valeu, eu acho. – Agradeci e depois puxei meu boné mais para o rosto. Não entendi o porquê de ter ficado sem graça com o comentário.
– Você torce pros Yankees? – Perguntou apontando para o meu boné. Eu o encarei como se a resposta não fosse óbvia.
– É. – Respondi mesmo assim. – Eu sempre ia aos jogos quando era mais nova, com meu... – Fiz uma pausa – Pai. – Fiz um esforço para controlar todas as lembranças estúpidas que voltaram a minha cabeça. Eu nem mesmo entendi o motivo de mencionar o ser insignificante que ajudou minha mãe na minha procriação. Eu realmente não estava tendo um dia bom, parecia até que a garota ingênua do ensino médio, aquela que eu fiz questão de me livrar a muito tempo, estava tentando reassumir o controle novamente. Controle-se Giulietta, controle-se.
– Ah! Chegamos. – Ele apontou para um simples estabelecimento muito bem cuidado. Do lado de fora se via as garçonetes levando bandejas de um lado para o outro, e o que estava nelas parecia muito bom. – O bolo de carne deles é o melhor que eu já comi. Pelo menos é melhor que o da minha mãe, na verdade, qualquer um cozinha melhor que minha mãe. – Eu ri com o comentário.
Conversamos sobre coisas aleatórias enquanto comíamos, o tipo de coisa que pessoas desconhecidas conversam enquanto estão na fila de um banco.
– E esse seu sotaque? Você é britânico né? – Perguntei, já tinha até me acostumado, mas ainda me incomodava um pouco.
– É, eu nasci em Brighton. Mas me mudei pra cá faz uns nove anos.
– E não perdeu o sotaque?
– Ah, o sotaque é a minha marca, não fiz questão de perdê-lo.
– Entendi. – Disse olhando o relógio – Acho melhor voltarmos, minha próxima aula começa em vinte minutos.
– Claro. – Ele levantou o braço para chamar a garçonete. Eu peguei minha carteira. – Ei! Nada disso, eu pago. – Ele protestou me fazendo guardá-la.
Quando chegamos ao campus Edward insistiu em me acompanhar até o meu quarto. Isso está mesmo parecendo uma coisa de ensino médio.
– Até depois, Giu. – Ele disse quando chegamos à porta do meu quarto.
– Até. – Respondi.
Entrei e bati a porta atrás de mim. Charlotte em sua cama, folheando seu caderno e com uma caneta na mão. Fui direto ao meu lado do quarto, com o propósito de pegar o livro de Neurologia.
– Tenho quase certeza de que ouvi um sotaque britânico do outro lado da porta. – Charlotte falou de repente e me fitou com os olhos semicerrados. Ri de sua expressão.
– Fui almoçar com o Edward. – Respondi.
Ela pronunciou um “hum” prolongado, com um ritmo engraçado.
– Nada demais. – Completei. Peguei meu celular e verifiquei o horário. Ainda faltavam quase 10 minutos para a aula. – Então, vai me explicar por que aquele cara estava na minha porta ontem à noite?
– O Brian? Ele é meu amigo.
– Não pareciam amigos. – comentei, tentando arrancar mais informações. – Vocês se pegam? Tipo, amigos coloridos...
– O que? – ela gargalhou – Não, não... Quer dizer, mais ou menos...
Ela foi interrompida pelo toque do meu celular.
– Espera. – peguei meu celular e franzi a testa quando vi o número na tela. Eu não o conhecia. –Alô?
– Giu! Aqui é o Bill, lembra de mim, não é?
Bill? Por que ele me ligaria?
– Ahn... Claro, claro. Oi Bill. – quase pude ouvir a voz da minha mãe no meu ouvido dizendo “seja legal com ele” – O que aconteceu?
– Eu liguei por que, sabe, estava pensando se você poderia almoçar comigo e com sua mãe amanhã em um dos meus restaurantes.
– Em plena terça-feira? Sabe que tenho aula, não é?
– Sei sim, mas eu estarei ocupado no resto da semana. Sua mãe queria fazer o convite, mas achei melhor eu mesmo fazer isso. – ele fez uma pausa e depois continuou – E então, o que acha?
Pra falar a verdade, aquilo não me animava em nada. Muito pelo contrário, odiava a ideia. Mas minha mãe me daria um sermão por “rejeitar um pedido tão gentil, já que ele estava tentando ser legal”.
– Pode ser.
– Ah, ótimo. Obrigada Giu. Amanhã iremos buscá-la às 12:30, certo?
– Ta. – esperei que ele se despedisse e desliguei o telefone com a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, me arrependeria daquilo.
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